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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">RIEJA</journal-id>
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				<journal-title>Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. Int. Educ. Jovens Adultos</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2595-6329</issn>
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				<publisher-name>Universidade do Estado da Bahia</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.22491/RIEJA.V9I17.28093</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>DOSSIÊ</subject>
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				<article-title>CINEMA NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS (EJA): OUTROS MODOS DE FAZER E EXPERIMENTAR NA FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA</article-title>
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					<trans-title>CINEMA IN THE EDUCATION OF YOUTH AND ADULTS (EJA): OTHER WAYS OF DOING AND EXPERIENCING IN INITIAL AND CONTINUING EDUCATION</trans-title>
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					<trans-title>CINE EN LA EDUCACIÓN DE JÓVENES Y ADULTOS (EJA): OTROS MODOS DE HACER Y EXPERIMENTAR EN LA FORMACIÓN INICIAL Y CONTINUA</trans-title>
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				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-7841-9993</contrib-id>
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						<surname>SILVA</surname>
						<given-names>ADRIANA BARBOSA DA</given-names>
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					<bio>
						<p>Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. Integrante do Colegiado do Fórum Estadual de EJA/RJ e da Coordenação da Rede KINO: Rede Latino-Americana de Educação, Cinema e Audiovisual.</p>
					</bio>
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					<label>1</label>
					<institution content-type="original">Universidade Federal Fluminense</institution>
					<institution content-type="orgname">Universidade Federal Fluminense</institution>
					<country country="BR">Brazil</country>
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					<label>E-mail:</label>
					<email>adrianabs@ id.uff.br</email>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>28</day>
				<month>08</month>
				<year>2026</year>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2026</year>
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			<volume>9</volume>
			<issue>17</issue>
			<fpage>202</fpage>
			<lpage>218</lpage>
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				<date date-type="pub">
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					<year>2026</year>
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				<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Este artigo compartilha a experiência de um projeto de Iniciação à Docência voltado para a democratização do cinema em escolas públicas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Com o objetivo de refletir sobre práticas e políticas de cinema na EJA, em diálogo com a Lei Federal nº 13.006, de 26 de junho de 2014, que estabelece a exibição de filmes brasileiros na educação básica, o projeto abordou a linguagem cinematográfica como forma individual e coletiva de produzir conhecimentos e mobilizar sentidos sobre os sujeitos da EJA. Estudantes das Licenciaturas em Pedagogia e Cinema desenvolveram atividades com professores e alunos da EJA a partir da exibição de filmes nacionais e da realização de exercícios fílmicos, explorando aspectos sensíveis, criativos e técnicos do audiovisual. As atividades incluíram fruição estética, rodas de conversa e experimentações com imagens e sons, estimulando reflexões sobre experiências de vida e trajetórias educativas. A aproximação entre universidade e escola pública favoreceu espaços de diálogo e produção coletiva de saberes, valorizando narrativas e memórias dos estudantes. O cinema foi compreendido não apenas como recurso pedagógico, mas como linguagem artística capaz de ampliar repertórios culturais e estimular a sensibilidade e o pensamento crítico. Nesse contexto, o cinema na EJA contribui para mobilizar sentidos e outros modos de produzir conhecimento, reafirmando o direito à educação de qualidade socialmente referenciada e à construção de práticas pedagógicas mais democráticas e sensíveis.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT </title>
				<p>This article shares the experience of a Teaching Initiation project aimed at the democratization of cinema in public schools within Youth and Adult Education (EJA). With the objective of reflecting on cinema practices and policies in EJA, in dialogue with Federal Law No. 13,006 of June 26, 2014, which establishes the exhibition of Brazilian films in basic education, the project approached cinematic language as both an individual and collective way of producing knowledge and mobilizing meanings about EJA subjects. Undergraduate students from the Pedagogy and Film Education programs developed activities with EJA teachers and students through the screening of Brazilian films and the creation of film exercises, exploring sensitive, creative, and technical aspects of audiovisual production. The activities included aesthetic appreciation, group discussions, and experiments with images and sounds, encouraging reflections on life experiences and educational trajectories. The collaboration between the university and the public school fostered spaces for dialogue and the collective production of knowledge, valuing students’ narratives and memories. Cinema was understood not only as a pedagogical resource, but also as an artistic language capable of expanding cultural repertoires and stimulating sensitivity and critical thinking. In this context, cinema in EJA contributes to mobilizing meanings and other ways of producing knowledge, reaffirming the right to socially referenced quality education and to the construction of more democratic and sensitive pedagogical practices.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>Este artículo comparte la experiencia de un proyecto de Iniciación a la Docencia orientado a la democratización del cine en escuelas públicas de Educación de Jóvenes y Adultos (EJA). Con el objetivo de reflexionar sobre prácticas y políticas de cine en la EJA, en diálogo con la Ley Federal n.º 13.006, del 26 de junio de 2014, que establece la exhibición de películas brasileñas en la educación básica, el proyecto abordó el lenguaje cinematográfico como una forma individual y colectiva de producir conocimientos y movilizar sentidos sobre los sujetos de la EJA. Los estudiantes del Profesorado en Pedagogía y Cine desarrollaron actividades con docentes y estudiantes de la EJA a partir de la exhibición de películas nacionales y de la realización de ejercicios fílmicos, explorando aspectos sensibles, creativos y técnicos del audiovisual. Las actividades incluyeron apreciación estética, espacios de diálogo y experimentaciones con imágenes y sonidos, estimulando reflexiones sobre experiencias de vida y trayectorias educativas. La aproximación entre la universidad y la escuela pública favoreció la construcción de espacios de diálogo y producción colectiva de saberes, valorando las narrativas y memorias de los estudiantes. El cine fue comprendido no solo como un recurso pedagógico, sino también como un lenguaje artístico capaz de ampliar repertorios culturales y estimular la sensibilidad y el pensamiento crítico. En este contexto, el cine en la EJA contribuye a movilizar sentidos y otras formas de producir conocimiento, reafirmando el derecho a una educación de calidad socialmente referenciada y a la construcción de prácticas pedagógicas más democráticas y sensibles.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>cinema</kwd>
				<kwd>Educação de Jovens e Adultos</kwd>
				<kwd>formação inicial e continuada</kwd>
			</kwd-group>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>cinema</kwd>
				<kwd>Youth and Adult Education</kwd>
				<kwd>otherness</kwd>
				<kwd>initial and continuing education</kwd>
			</kwd-group>
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				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>cine</kwd>
				<kwd>Educación de Jóvenes y Adultos</kwd>
				<kwd>formación inicial y continua</kwd>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>INTRODUÇÃO</title>
			<p>Nos últimos anos, observamos um aprofundamento das políticas neoliberais e a implementação de diversas contrarreformas educacionais que impactam significativamente a educação pública presencial. Esse processo tem contribuído para o esvaziamento e o desmonte da escola, transformando-a, muitas vezes, em um espaço voltado apenas à certificação formal, sem garantir aos alunos o acesso a uma formação crítica, democrática e integral. A Educação de Jovens e Adultos (EJA) é particularmente afetada por essas mudanças, pois atende a sujeitos que, em sua maioria, pertencem a camadas subalternizadas da classe trabalhadora e, historicamente, tiveram negados direitos básicos, entre eles o direito à educação em idade socialmente considerada adequada. Nesse contexto, a escola não se limita a um espaço de aquisição de conteúdos formais, mas deve se constituir como um ambiente capaz de proporcionar desenvolvimento integral, englobando dimensões cognitivas, sociais, culturais e afetivas, além de formar sujeitos conscientes de sua condição social e aptos a exercerem sua cidadania de maneira crítica e participativa.</p>
			<p>A desigualdade na distribuição de bens materiais e imateriais acumulados pela sociedade evidencia que a formação educacional não é neutra, reproduzindo, muitas vezes, a subalternização dos sujeitos mais vulneráveis. Para que a educação possa contribuir efetivamente para a democratização de oportunidades, é necessário pensar práticas pedagógicas que ampliem a experiência estética, cultural e política dos estudantes, estimulando a criatividade, a reflexão crítica e a produção de conhecimentos socialmente relevantes. Nesse sentido, o presente artigo aborda como a arte e, em particular, o cinema, assumem papel central, pois possibilitam a construção de experiências sensíveis, a ampliação do repertório cultural e a promoção de encontros com a alteridade. </p>
			<p>Na tese de doutorado <xref ref-type="bibr" rid="B8"><italic>“Histórias e trajetórias de jovens de classes populares contadas por meio de um Cinema Nosso”</italic>, defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro em 2021</xref>, parto da minha experiência concreta com um projeto popular de cinema voltado para jovens e adultos em escolas públicas. A partir dessa vivência, busco compreender como a prática cinematográfica e a produção audiovisual podem ser articuladas com a educação, ampliando o diálogo entre cinema, narrativas de vida e trajetórias sociais. O cinema é tratado não apenas como objeto cultural, mas como linguagem e método de investigação e expressão, capaz de dar voz às trajetórias de jovens de classes populares, articulando experiências estéticas, narrativas e educativas em pesquisa. A tese mostra que o cinema pode funcionar como forma de linguagem e expressão que permite a jovens de classes populares contarem suas próprias histórias, rompendo com a lógica em que as narrativas cinematográficas sobre eles são produzidas por olhares externos, muitas vezes provenientes de grupos sociais privilegiados economicamente. Isso revela a importância de democratizar o acesso à produção audiovisual para ampliar as vozes representadas nas telas. </p>
			<p>O cinema permite que os sujeitos compreendam diferentes perspectivas e realidades, refletindo sobre questões sociais, históricas e políticas, ao mesmo tempo em que favorece a experimentação estética e a produção criativa. Dessa forma, a prática cinematográfica pode ser compreendida como um instrumento pedagógico capaz de integrar dimensão cultural, política e educativa, fortalecendo a formação integral dos sujeitos da EJA.</p>
			<p>A legislação brasileira também reconhece a importância do cinema na educação. A Lei nº 13.006, de 26 de junho de 2014 (<xref ref-type="bibr" rid="B2">BRASIl, 2014</xref>), estabelece a obrigatoriedade da exibição de filmes brasileiros nas escolas como componente curricular complementar, determinando, no mínimo, duas horas semanais de exibição. Essa medida busca democratizar o acesso à produção cinematográfica nacional e criar hábitos de fruição cinematográfica. Além disso, a lei determina que cineastas beneficiados por recursos públicos disponibilizem suas obras para uso escolar ou autorizem seu download, reforçando o caráter de democratização cultural. Para pesquisadores como <xref ref-type="bibr" rid="B3">Fresquet (2015</xref>), a escola torna-se, assim, um espaço privilegiado de encontro entre cinema, estudantes, professores e comunidade. O cinema, nesse contexto, não é apenas um recurso pedagógico; ele funciona como linguagem artística capaz de estimular o pensamento crítico, a sensibilidade estética e a criatividade. </p>
			<p>Nesse cenário, o projeto de Iniciação à Docência “Cinema e Educação de Jovens, Adultos e Idosos: política e alteridade”<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>, desenvolvido no âmbito do Programa de Licenciaturas na Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF|), buscou contribuir para a democratização do acesso à arte e à cultura cinematográfica na EJA. Entre 2023 e 2024, o projeto foi desenvolvido em duas escolas públicas que oferecem a modalidade EJA: o Centro de Referência de Educação Municipal de Idosos de Itaboraí-RJ, exclusivo para idosos, e a Escola Municipal Dr. Francisco Alberto Torres, em Niterói-RJ. As ações envolveram a exibição de filmes nacionais, oficinas cinematográficas, encontros de formação continuada com docentes e gestores, além de atividades de pesquisa que buscaram articular cinema, educação e cidadania. O objetivo central foi promover experiências pedagógicas que ampliassem os campos estéticos, políticos e culturais dos sujeitos, estimulando a reflexão crítica sobre questões sociais, históricas e políticas, e fortalecendo a formação integral dos estudantes.</p>
			<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B5">Migliorin (2015</xref>), todo estudante é potencialmente capaz de fazer cinema, ou seja, de atuar de maneira criativa e crítica com a câmera, de interpretar, de inventar mundos e de narrar histórias a partir de sua experiência. Assim, a prática cinematográfica permite aos jovens, adultos e idosos não apenas o acesso à fruição cultural, mas também a produção ativa de conhecimentos e narrativas. Criar espaços de experimentação cinematográfica constitui, portanto, um ato político, ao possibilitar que os estudantes se expressem, contem suas histórias e dialoguem com diferentes realidades e perspectivas.</p>
			<p>Os estudantes atendidos pelo projeto são, em sua maioria, oriundos de contextos socialmente vulneráveis e tiveram seu acesso a direitos fundamentais historicamente limitado. Por meio de encontros, debates e experimentações cinematográficas, foi possível conhecer suas trajetórias de vida, narrativas autobiográficas e experiências individuais, contribuindo para compreender os desafios e potenciais da EJA. Essa aproximação evidenciou a importância de considerar as singularidades dos sujeitos, sem perder de vista que suas subjetividades são construídas socialmente, influenciadas por contextos econômicos, políticos e culturais.</p>
			<p>A relevância do projeto reside, portanto, na possibilidade de articular cinema, educação e formação cidadã, promovendo práticas pedagógicas sensíveis, inclusivas e transformadoras. Ao integrar dimensões estéticas, culturais e políticas à prática educativa, o cinema oferece mecanismos para a construção de conhecimento crítico e a valorização da diversidade, fortalecendo o papel da escola como espaço de exercício de direitos, produção de sentidos e transformação social. Dessa forma, este artigo se propõe a analisar a experiência do projeto, refletindo sobre o potencial do cinema como instrumento de democratização cultural, formação integral e prática pedagógica inovadora na Educação de Jovens e Adultos.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>CINEMA COMO ATO POLÍTICO E PEDAGÓGICO NA EJA</title>
			<p>A formação de profissionais da educação no Brasil, especialmente voltada à Educação de Jovens e Adultos (EJA), tem se constituído como um campo marcado por tensões, disputas de sentidos e desafios históricos. Embora a legislação educacional brasileira tenha avançado na promoção da EJA, incentivando sua incorporação nos cursos de licenciatura, ainda persiste uma lacuna significativa na formação inicial dos professores. Muitas vezes, os currículos não reconhecem a EJA como um campo específico de conhecimento, reduzindo a preparação docente a estratégias aplicáveis a crianças e adolescentes e ignorando as particularidades do público jovem, adulto e idoso. Essa lacuna formativa fragiliza o trabalho pedagógico e político nas escolas que ofertam a modalidade, favorecendo práticas fragmentadas, superficialidade na abordagem de conteúdos e uma concepção infantilizada de ensino que não dialoga com as experiências de vida, saberes prévios e contextos sociais dos estudantes.</p>
			<p>A ausência de uma formação inicial robusta compromete a capacidade do educador de promover a emancipação de seus alunos e de construir práticas pedagógicas significativas. Muitas vezes, a formação precária reforça o caráter utilitário da educação, voltada exclusivamente à inserção no mercado de trabalho, ignorando a dimensão ética, política e cultural do processo educativo. Assim, a identidade do profissional da EJA deve incluir não apenas conhecimento pedagógico, mas também uma compreensão crítica da trajetória histórica da modalidade e de suas especificidades político-pedagógicas. Como apontam <xref ref-type="bibr" rid="B9">Ventura e Bomfim (2015</xref>), é fundamental que a formação docente seja comprometida com a emancipação humana, rompendo com as hierarquias históricas que relegaram às frações mais subalternizadas da classe trabalhadora um lugar secundário na sociedade e na educação formal.</p>
			<p>Dentro desse contexto, o cinema surge como uma ferramenta poderosa na formação inicial e continuada na EJA, permitindo o acesso a narrativas que se contrapõem às estéticas convencionais do cinema de entretenimento, dominado por produções hollywoodianas ou da Globo Filmes. No Brasil, o cinema comercial é concentrado em poucas empresas, especialmente a Globo Filmes, que domina cerca de 59% da distribuição, limitando a diversidade de representações culturais e sociais disponíveis nas grandes salas de cinema. Essa concentração contribui para a massificação e homogeneização das narrativas, afastando o cinema do perfil e das demandas do público da EJA, que inclui pessoas de diferentes idades, gêneros, raças, regiões e trajetórias de vida. Portanto, inserir o cinema na formação inicial e continuada da EJA requer olhar crítico para a produção audiovisual, considerando não apenas seu conteúdo narrativo, mas também os contextos de produção, distribuição e recepção das obras.</p>
			<p>O cinema, assim como outras formas de arte - literatura, pintura, música -, constitui um instrumento fundamental para a reflexão sobre a vida cotidiana, os processos educativos e as relações sociais. No entanto, é preciso diferenciar o cinema como arte da lógica industrial do cinema de entretenimento, marcado por narrativas lineares, previsíveis e orientadas ao consumo global. Como afirma <xref ref-type="bibr" rid="B6">Pereira (2000</xref>), a apropriação da linguagem audiovisual na formação inicial e continuada não deve ser vista apenas como técnica, mas como direito. O uso crítico e político do audiovisual possibilita o exercício de escolhas estéticas e culturais conscientes, garantindo a compreensão sobre o papel da arte e da mídia na formação da percepção social dos estudantes.</p>
			<p>A introdução de filmes nacionais, assim como propõe a Lei nº 13.006, pode proporcionar aos estudantes contato com outras perspectivas, estéticas e experiências humanas que não são propagadas pelos filmes que fazem parte do circuito comercial de cinema. Esses filmes, muitas vezes classificados como “não comerciais”, podem permitir que se questionem narrativas centradas no olhar masculino, branco, ocidental e heterossexual, promovendo reflexões sobre diversidade, gênero, raça, classe social e identidade cultural.</p>
			<p>Nesse sentido, o cinema na EJA possibilita que jovens, adultos e idosos experimentem o cinema como espaço de estranhamento, confronto e reflexão crítica, explorando dimensões estéticas, simbólicas e sociais que vão além do entretenimento superficial. O cinema se revela, nesse sentido, como uma poderosa ferramenta de construção de sentido, capaz de reinventar o mundo e abrir novos horizontes interpretativos aos estudantes, desafiando convenções narrativas e estéticas que potencializam a reflexão crítica e a ampliação do repertório cultural. </p>
			<p>No tese de doutorado <italic>“Histórias e trajetórias de jovens de classes populares contadas por meio de um Cinema Nosso</italic>, abordo como o mercado audiovisual brasileiro, em suas estruturas de produção e exibição, costuma ser inacessível a jovens de classes populares, não apenas pelo custo da produção, mas pela falta de espaços de protagonismo narrativo para esses grupos. Participar de um projeto como o <italic>Cinema Nosso</italic> permite que estudantes experimentem o cinema não apenas como consumo cultural, mas como processo ativo de criação, expressão e sentido na formação pessoal e social. Essa perspectiva fortalece a ideia de que cinema pode ser potência educativa e emancipadora, e não apenas entretenimento técnico ou mercadológico. </p>
			<p>Ao analisar como a participação no Cinema Nosso influenciou trajetórias de vida, escolhas pessoais e redes de relacionamento dos jovens, a tese evidencia que a formação cinematográfica pode se entrelaçar com processos de identidade, agência e pertencimento social. Essa abordagem reforça a necessidade de pensar a formação em cinema não apenas como aprendizado técnico, mas como parte de uma educação comprometida com a transformação social e cultural. </p>
			<p>A pesquisa evidencia que experiências cinematográficas, quando integradas à educação, expandem o campo de atuação docente e enriquecem a formação dos sujeitos, especialmente no contexto da EJA e da educação popular. O contato com produções audiovisuais e a prática de análise e produção fortalecem a mediação crítica, a sensibilidade estética e o engajamento com diferentes linguagens culturais. Ao articular cinema com narrativas de vidas reais de jovens de classes populares, a tese contribui para uma abordagem formativa que valoriza a diversidade de olhares, estéticas e linguagens. Isso reforça a ideia de que a formação em cinema deve incluir múltiplas perspectivas estéticas (além das convencionais), possibilitando que os sujeitos em formação sejam sensibilizados para formas narrativas diversas e para a crítica às hegemonias culturais tradicionais.</p>
			<p>As produções audiovisuais realizadas pelos estudantes envolvidos no projeto de Iniciação à Docência “Cinema e Educação de Jovens, Adultos e Idosos: política e alteridade” foram exibidas na <xref ref-type="fig" rid="f1">Mostra Estudantil de Cinema da EJA</xref>. A Mostra é uma realização do Laboratório de Audiovisual e Políticas em Educação de Jovens e Adultos (LAPEJA). Em 2025, a Mostra sofreu ampliação e se configurou como evento cultural e pedagógico dedicado à exibição de produções audiovisuais feitas por estudantes e professores vinculados à Educação de Jovens e Adultos (EJA) de diferentes regiões do Brasil. Seu principal objetivo foi valorizar as experiências dos sujeitos da EJA, permitindo que o compartilhamento de suas histórias, vivências e repertório cultural por meio de produções cinematográficas criadas por eles mesmos. As obras exibidas incluíram curtas-metragens, documentários, filmes de pesquisa e outras formas de expressão audiovisual, desenvolvidas no âmbito de projetos educativos, oficinas e atividades formativas.</p>
			<p>A II Mostra Estudantil de Cinema da EJA foi realizada em 11 de novembro de 2025, na Sala Nelson Pereira dos Santos, em Niterói (RJ), reunindo produções de estudantes de várias regiões, incluindo Niterói, Nova Iguaçu, Rio Grande do Norte, Manaus, Espirito Santo, Minas Gerais, Porto Alegre, Florianópolis, entre outros. O evento teve entrada gratuita e incluiu debates e momentos de socialização entre realizadores e público. A edição anterior, a I Mostra, ocorreu em 12 de novembro de 2024, também em Niterói, promovendo diálogos entre participantes após as exibições.</p>
			<p>A Mostra Estudantil de Cinema da EJA vai além de uma simples exibição de filmes, pois funciona como um espaço de encontro entre educadores e alunos, incentivando reflexões sobre educação, sociedade e experiências de vida por meio da linguagem audiovisual, além de fortalecer redes de educação e cultura no Brasil, conectando escolas de diferentes estados em torno da produção cinematográfica.</p>
			<p>Entre os filmes exibidos na II Mostra, destacam-se “Tô Voltando”, produzido por alunos da E. M. Professora Iramar da Costa Lima Miguel, em Nova Iguaçu (RJ), que retrata a experiência de estudantes retornando à escola pela EJA; “Tião, o poeta que não sabia ler”, da Divisão Distrital Zonal Norte de Manaus (AM), que aborda a alfabetização e o significado pessoal da leitura na vida adulta; e “Memórias do CEJA”, produzido por alunos do Centro de Educação de Jovens e Adultos Professora Creuza Bezerra, em Currais Novos (RN), que valoriza memórias e vivências dos estudantes. A mostra também contou com produções de Florianópolis (SC), como “O Palhaço da EJA”, “A Maldição do Livro”, “Educação - a última dose”, “O sonho de Sebastião” e “Meu Nome é Vera”, explorando narrativas ficcionais e reflexões sobre educação, identidade e pertencimento social.</p>
			<p>Esses filmes têm em comum a diversidade regional das produções e o caráter pedagógico de seus processos de criação, demonstrando como o cinema pode ser uma poderosa ferramenta de partilha, aprendizado e expressão cultural dos sujeitos da EJA.</p>
			<p>Para compreender a recepção das narrativas cinematográficas pelos estudantes da EJA, é necessário considerar suas práticas sociais, experiências de vida e trajetórias individuais. Cada interpretação revela cruzamentos entre memórias pessoais e coletivas, refletindo experiências plenas - conceito de Walter <xref ref-type="bibr" rid="B1">Benjamin (1994</xref>) - que transcendem a efemeridade do espetáculo e do consumo imediato. Essas experiências favorecem sensibilizações profundas e o desenvolvimento de uma consciência crítica sobre a realidade social, política e cultural.</p>
			<p>A sociedade brasileira historicamente silencia os saberes produzidos por sujeitos subalternizados, negando-lhes espaço nos debates políticos, sociais e artísticos. Essa exclusão se manifesta de forma ainda mais evidente na educação, onde desigualdades de acesso e condições materiais reproduzem hierarquias sociais. Apesar do reconhecimento formal da educação como direito constitucional, há um longo caminho para garantir escolas que contemplem efetivamente as necessidades e os interesses dos trabalhadores. A educação na EJA deve ir além do acesso: precisa promover formação integral, crítica e emancipadora, conforme destacado por <xref ref-type="bibr" rid="B7">Rummert (2014</xref>), que associa desigualdade social à negação de acesso à educação integral e ao conhecimento crítico.</p>
			<p>Não se trata apenas de transmissão de conhecimentos instrumentais regulados por interesses produtivos, mas do acesso a um saber pleno, que permita aos indivíduos apropriar-se das expressões históricas, científicas, tecnológicas e artísticas de seu tempo, compreendendo-as criticamente e utilizando esse conhecimento para transformá-las. O cinema, nesse contexto, permite que estudantes da EJA compartilhem suas histórias, ampliem horizontes políticos e estéticos e tenham contato com linguagens historicamente restritas à elite. Por meio do cinema, é possível fomentar a reflexão sobre estereótipos, valores simbólicos e narrativas sociais, promovendo não apenas educação cultural, mas também consciência crítica e potencial de transformação social.</p>
			<p>Portanto, a inclusão do cinema na EJA vai além do lazer ou do entretenimento; é um instrumento de democratização cultural, construção de identidade e promoção da emancipação humana. Ao integrar experiências cinematográficas reflexivas e diversificadas na prática pedagógica, cria-se uma educação que valoriza os saberes dos estudantes, questiona as estruturas de poder e contribui para a formação de cidadãos críticos, conscientes de suas potencialidades e direitos em um contexto social marcado por desigualdades históricas.</p>
			<p>Dessa forma, a inclusão do cinema na EJA não é apenas uma estratégia de entretenimento ou diversificação do currículo, mas uma prática educativa potente, capaz de articular conhecimento, cultura e crítica social, contribuindo para a formação integral de estudantes historicamente subalternizados e o fortalecimento do compromisso ético e político da escola com a emancipação humana.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>MODOS DE FAZER E EXPERIMENTAR</title>
			<p>A metodologia proposta no projeto de Iniciação Científica teve como objetivo central abordar a linguagem cinematográfica como uma poderosa ferramenta de produção de conhecimentos, capaz de revelar, interpretar e valorizar as experiências dos sujeitos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em suas realidades concretas. O cinema, ao combinar imagens, sons e narrativas, proporciona múltiplas formas de expressão e compreensão, permitindo que histórias pessoais e coletivas, muitas vezes invisibilizadas nos registros formais da educação, sejam reconhecidas e compartilhadas. Dessa forma, a prática cinematográfica assume papel pedagógico relevante, articulando dimensão estética, cognitiva e social, ao mesmo tempo em que estimula o protagonismo estudantil e a construção coletiva de sentido.</p>
			<p>Para operacionalizar essa proposta, as oficinas realizadas nas escolas tiveram como ponto de partida a exibição de filmes nacionais que não circulam pelo circuito comercial de cinema. A escolha dessas produções buscou apresentar temáticas ligadas a questões sociais, culturais, identitárias e históricas, possibilitando aos estudantes contato com narrativas que dialogassem com suas experiências de vida. Essa abordagem pretendeu sensibilizar os participantes, mobilizando diferentes sentidos - visual, auditivo e narrativo - e estimulando conexões entre as experiências apresentadas nas telas e suas próprias vivências. A experiência cinematográfica, portanto, não se limitou ao consumo passivo de imagens, mas envolveu a mediação crítica e reflexiva dos conteúdos apresentados.</p>
			<p>Durante as oficinas, os participantes foram convidados a realizar exercícios práticos utilizando dispositivos cinematográficos diversos, como câmeras filmadoras, celulares com câmeras dos professores e estudantes, além de computadores para edição. Esses exercícios incluíram a produção de narrativas audiovisuais, fotografias, registros sonoros e composições visuais, tendo como premissa a experimentação. A proposta central era que os alunos pudessem explorar a linguagem cinematográfica de maneira livre, descobrindo seus elementos constitutivos, como enquadramento, montagem, narrativa, ritmo e uso de som, sem a pressão de produzir um resultado “certo” ou “errado”. O foco estava na criação coletiva, na expressão individual e na possibilidade de refletir sobre o mundo ao redor a partir de múltiplas perspectivas.</p>
			<p>A avaliação do processo foi realizada de forma processual e contínua, considerando a interação entre estudantes de graduação, docentes e alunos das unidades escolares. Além da observação das práticas, o material produzido foi analisado e discutido com os participantes, permitindo identificar avanços, desafios, descobertas e aprendizados emergentes ao longo das oficinas. Este acompanhamento constante assegurou que o projeto não fosse apenas um conjunto de atividades pontuais, mas um espaço de construção gradual de conhecimento coletivo, em que professores, alunos e estudantes universitários atuaram como co-criadores do processo pedagógico.</p>
			<p>O início das atividades nas escolas apresentou desafios significativos. Surgiram questionamentos como: seria possível fazer cinema com alunos da EJA, muitos dos quais possuem trajetórias educacionais interrompidas ou desiguais? O corpo docente e os estudantes se envolveriam nas atividades propostas? Haveria interesse e engajamento suficiente para sustentar uma proposta que fugia dos métodos tradicionais de ensino? Frente a essas incertezas, a equipe optou por embarcar na experiência, reconhecendo que o próprio processo de encontro, experimentação e criação coletiva seria uma oportunidade de aprendizagem, tanto para os alunos quanto para os professores e universitários envolvidos.</p>
			<p>Em consonância com as diretrizes das escolas parceiras, os encontros ocorreram semanalmente durante a carga horária regular das turmas do Ensino Fundamental I, que abrange do primeiro ao quinto ano. Atuar dentro do horário escolar oficial foi estratégico, pois conferiu legitimidade institucional ao projeto e garantiu a participação efetiva dos alunos, além de facilitar a colaboração dos professores. O projeto se estendeu por todo o período letivo, permitindo que as oficinas se consolidassem, promovendo continuidade, aprofundamento e o desenvolvimento de vínculos entre os participantes.</p>
			<p>A metodologia utilizou dispositivos cinematográficos baseados nas orientações do livro <italic>Cadernos do Inventar: cinema, educação e direitos humanos</italic>. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B5">Migliorin (2015</xref>), dispositivos de cinema são exercícios pedagógicos que permitem aos alunos lidar com aspectos básicos do cinema enquanto inventam, experimentam e compartilham histórias. Esses exercícios incentivam a escuta das narrativas dos colegas, estimulam a prática da alteridade e promovem a coletividade. Assim, as atividades abordaram elementos da linguagem cinematográfica - enquadramento, narrativa, montagem, ritmo, trilha sonora e composição visual -, mas sempre com ênfase na liberdade criativa e no protagonismo dos participantes, permitindo que cada aluno experimentasse suas ideias sem medo de cometer erros.</p>
			<p>Os resultados das oficinas variaram conforme as características das turmas e das unidades escolares. Em uma das escolas, os estudantes optaram por produzir filmes que retratassem a história da instituição e as relações que mantinham com ela, refletindo sobre pertencimento, memória coletiva e identidade escolar. Na outra escola, os alunos decidiram narrar suas próprias trajetórias de vida, registrando experiências familiares, comunitárias e individuais. A diversidade de escolhas evidencia a capacidade do cinema de se adaptar a diferentes contextos, dando voz a narrativas que muitas vezes não são contempladas nas práticas educativas convencionais.</p>
			<p>A etapa de edição foi realizada em parceria com as turmas, em um processo colaborativo que envolveu revisão das imagens, trilha sonora, inclusão ou exclusão de cenas e ajustes narrativos. O primeiro corte de cada filme foi exibido aos estudantes, permitindo que pudessem realizar modificações e tomar decisões criativas de forma autônoma. Esse processo reforçou a noção de cinema como prática coletiva, valorizando a participação e a expressão individual de cada aluno.</p>
			<p>Como culminância do projeto, em 2024, realizamos a I Mostra de Cinema da EJA na Sala Nelson Pereira dos Santos, em Niterói. O evento contou com a presença dos estudantes das duas redes de ensino participantes, alunos de outras escolas públicas da EJA, além de docentes e estudantes universitários, especialmente dos cursos de Pedagogia e Licenciatura em Cinema. A mostra representou um espaço de socialização, reconhecimento e celebração das conquistas do projeto, reafirmando a importância da linguagem cinematográfica como ferramenta educativa, de inclusão social e de valorização do protagonismo estudantil.</p>
			<p>Além disso, os filmes produzidos em 2023 foram encaminhados para a Mostra Educação da 19ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, ampliando o alcance das produções e possibilitando que as narrativas da EJA dialogassem com um público mais amplo. Destaca-se o filme <xref ref-type="fig" rid="f3"><italic>Mulheres Empoderadas</italic></xref>, produzido por uma das turmas do CREMII, que foi selecionado para exibição no evento, demonstrando o potencial transformador da metodologia e a visibilidade conquistada pelas vozes dos estudantes. O filme trata do tema do empoderamento feminino a partir da perspectiva das estudantes da EJA - isto é, ele valoriza as histórias de mulheres que se reconhecem como agentes de mudança em suas famílias, comunidades e trajetórias de vida, destacando a importância da educação, da igualdade de gênero e da capacidade de decidir sobre seus caminhos.</p>
			<p>A experiência permitiu evidenciar que o cinema, quando articulado à educação, atua como instrumento de expressão, reflexão e aprendizagem. A metodologia proposta mostrou-se eficaz não apenas na construção de competências técnicas, mas também na promoção de protagonismo, autoestima e valorização das experiências de vida dos alunos. Ao integrar práticas artísticas, diálogo coletivo e produção audiovisual, o projeto reafirma a relevância da arte como instrumento educativo, capaz de transformar o ambiente escolar em espaço de escuta, criação e reconhecimento social.</p>
			<p>Dessa forma, o projeto consolidou-se como uma iniciativa inovadora, capaz de articular teoria e prática, aprendizagem e expressão, proporcionando aos sujeitos da EJA oportunidades de experimentar, refletir e se reconhecer enquanto produtores de conhecimento. Mais do que uma experiência cinematográfica, o trabalho desenvolvido mostrou-se uma potente estratégia de inclusão, cidadania e fortalecimento de vínculos comunitários, reafirmando que a educação é também um espaço de criação, diálogo e transformação social.</p>
			<p>
				<fig id="f1">
					<label>Figura 1</label>
					<caption>
						<title>Mostra Estudantil de Cinema da EJA</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2595-6329-RIEJA-9-17-202-gf1.jpg"/>
					<attrib>Fonte: Imagens de arquivo pessoal.</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>
				<fig id="f2">
					<label>Figura 2</label>
					<caption>
						<title>Oficinas de cinema</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2595-6329-RIEJA-9-17-202-gf2.jpg"/>
					<attrib>Fonte: Imagens de arquivo pessoal.</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>
				<fig id="f3">
					<label>Figura 3</label>
					<caption>
						<title>19º Mostra de Cinema de Ouro Preto</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2595-6329-RIEJA-9-17-202-gf3.jpg"/>
					<attrib>Fonte: Exibição do filme Mulheres Empoderadas. Imagem arquivo pessoal.</attrib>
				</fig>
			</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
			<p>Os encontros entre cinema e educação possibilitaram que os estudantes da EJA pudessem ter acesso a filmes nacionais e estéticas não dominantes, conforme preconiza a Lei nº 13.006, de 26 de junho de 2014, que garante a exibição de filmes nacionais nas escolas de educação básica. Os exercícios realizados com as turmas foram construídos e partilhados com cada um dos participantes, permitindo um encontro com as narrativas de si, além de proporcionar que os envolvidos no processo pudessem refletir sobre suas experiências para tecer novos diálogos e considerações sobre suas histórias de vida. Para além da atenção dada às narrativas de si e histórias de vida, também foi possível que os estudantes explorassem a própria criatividade a partir dos exercícios propostos, experimentando outras formas de linguagem, sendo também instigados a ler o mundo a partir de uma perspectiva distinta. </p>
			<p>Além dessas possibilidades, o projeto proporcionou que tivéssemos Iniciação à Docência em turmas de jovens, adultos e idosos, gerando grande aprendizado sobre as especificidades do trabalho com este público, diferente daquele realizado com crianças. </p>
			<p>Destacamos também que foi muito enriquecedor a troca de experiências entre alunos de Pedagogia e Cinema. A experiência com estas turmas, enquanto professores em formação, estabeleceu-se como uma troca, uma via de mão dupla: ensinar sobre cinema e aprender sobre ser professor. O chão da sala de aula, os corpos presentes dos alunos, o encontro com suas histórias e subjetividades foram todos essenciais para o processo formativo. O intercâmbio entre prática e pesquisa nos permite construir um olhar crítico-sensível sobre essas experiências e refletir sobre nosso papel na sala de aula e na sociedade. Aprender a criar abertura para o encontro com o outro, se disponibilizar a ouvir e aprender tanto quanto se pensa que pode ensinar. Aprendizados esses que só foram possíveis na materialidade da prática, indo de encontro à escola e aos alunos, disponibilizando-se a conhecê-los e enxergar neles as potências e saberes que carregam. </p>
			<p>Essas reflexões e experiências formativas culminaram ainda na escrita da monografia do voluntário Ádys Figueiredo, que as narra e discorre sobre os impactos dos encontros com alunos do CREMII ao longo dos anos de 2023 e 2024 em seu processo de formação enquanto educador audiovisual, intitulada &quot;Narrativas de si, narrativas do outro: a potência (trans)formadora de contar histórias&quot;. </p>
			<p>As experiências vividas na EJA, no âmbito da E.M. Dr. Francisco Alberto Torres, desdobraram-se também em parte da monografia da voluntária Giuliana Zamprogno, numa investigação cartográfica sobre seu próprio processo de formação e autocriação enquanto educadora no campo das artes e, enfim, do sensível. O trabalho intitulado “Saberes nas pontas dos dedos: uma cartografia de práticas em cinema e educação” consistiu em entender as possibilidades do cinema enquanto a disposição de se <italic>estar-em-relação</italic>, da disponibilidade para o encontro com o desconhecido, longe dos tecnicismos da indústria cinematográfica. Tratou-se também de um exercício de compreensão das práticas do cinema em sala de aula como um saber-fazer mobilizado por gestos, volumes, sons e sentidos cujos entrelaçamentos políticos apresentam enorme força de combate ao colonialismo estrutural, incluindo a hierarquização das diferentes formas de conhecimento.</p>
			<p>A troca de experiências entre alunos de escolas da EJA de municípios distintos e entre os estudantes da própria escola também foram consideradas pontos positivos. Tratou-se de um processo formativo, tocado pelas tessituras dos encontros individuais e coletivos. Demonstrou como a escola é um espaço para além do processo de ensino-aprendizagem, mas de socialização, e de construção de relações de afeto e solidariedade. Esses aspectos foram materializados nos filmes produzidos pelos estudantes da EJA, os quais retratam a amizade entre os membros da turma como componente fundamental para prosseguirem nos seus estudos. As vivências coletivas de cada turma e cada escola foi expressada e compartilhada por meio das imagens, permitindo que conhecessem outras realidades escolares e até mesmo mais sobre si, ao expor suas memórias e histórias de vida. </p>
			<p>A experiência de exibição num espaço como a Sala Nelson Pereira dos Santos, um importante espaço cultural da cidade de Niterói-RJ, foi vista por todos os participantes como um importante movimento de valorização dos trabalhos produzidos pelos estudantes, potencializando a altivez dos mesmos, algo intrínseco para a formação da classe trabalhadora, como princípio da dignidade humana e de uma escola emancipadora. </p>
			<p>A mostra estudantil da Educação de Jovens e Adultos (EJA) desempenha um papel importante para estudantes que retornam à escola após períodos de interrupção em sua trajetória educativa. Diferentemente das práticas tradicionais voltadas para crianças e adolescentes, a EJA acolhe sujeitos com experiências de vida diversificadas, trazendo saberes, histórias e memórias que enriquecem o ambiente escolar. A realização de uma mostra estudantil possibilita que esses estudantes expressem suas ideias, vivências e perspectivas por meio de produções audiovisuais. </p>
			<p>Além disso, a mostra é uma oportunidade de socialização e de fortalecimento de vínculos entre os alunos, permitindo que compartilhem suas histórias de vida, colaborem em atividades coletivas e reconheçam a importância do trabalho em grupo. Por fim, a mostra estudantil da EJA tem um efeito simbólico e político significativo. Ela representa a possibilidade de inclusão, o reconhecimento de direitos educacionais e a valorização de experiências de vida que muitas vezes são invisibilizadas. Dessa forma, a mostra estudantil se configura como um espaço de resistência, de afirmação da dignidade humana e de incentivo à construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e plural.</p>
			<p>Um dos preceitos para a manutenção da hegemonia do capital é restringir o acesso ao conhecimento, favorecendo a divisão social do trabalho. Por isso, a universalização da escolarização básica ou a oferta de uma educação de qualidade socialmente referenciada para todos, não é prioridade para o sistema capitalista vigente no Brasil. As políticas públicas desenvolvem ações pontuais, que não modificam as estruturas de poder, oportunizando uma educação fragmentada e destinada à correção de fluxo e à redução de indicadores de baixa escolaridade. Possibilitar que a classe trabalhadora acesse os seus direitos plenos é favorecer a democracia.</p>
			<p>A política educacional no Brasil é organizada de maneira dual, sendo distribuída conforme a origem social dos sujeitos. Com isso, não podemos desconsiderar que a formação docente faz parte de um projeto de disputas ideológicas. Ou seja, mesmo sendo reconhecida por lei a importância das discussões pertinentes à área de EJA nos cursos de graduação, interessa, para aqueles que pretendem manter a hegemonia política e econômica, limitar e excluir as possibilidades de se pensar outros sentidos para uma escola pública coadunada com os interesses das frações mais subalternizadas da classe trabalhadora. </p>
			<p>As universidades e os cursos de licenciatura possuem importante papel na luta pelo direito à educação e na compreensão da realidade concreta da sociedade brasileira. A falta de uma identidade docente para a EJA contribui para o desmonte da modalidade. Por isso, compreende-se que a formação inicial e continuada em EJA deve ser um direito garantido pelas universidades públicas do país, tendo como horizonte a luta por uma escola unitária e comprometida para um projeto a serviço da emancipação humana dos sujeitos jovens e adultos trabalhadores destituídos do direito à educação. Neste sentido, podemos concluir que o cinema na EJA pode provocar movimentos políticos e pedagógicos alteritários, apresentando outras formas de compreensão do perfil dos sujeitos da EJA (classe social, raça/etnia, gênero, faixa etária), e as suas experiências de vida, contribuindo para uma percepção mais ampla da totalidade.</p>
		</sec>
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		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. Magia e técnica, arte e política. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. </mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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							<surname>BENJAMIN</surname>
							<given-names>Walter</given-names>
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					<source>Obras escolhidas. Magia e técnica, arte e política</source>
					<edition>7</edition>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Brasiliense</publisher-name>
					<year>1994</year>
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			<ref id="B2">
				<mixed-citation>BRASIL. Lei nº 13.006, de 26 de junho de 2014. Acrescenta § 8º ao art. 26 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para obrigar a exibição de filmes de produção nacional nas escolas de educação básica. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 1, 27 jun. 2014. </mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
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						<collab>BRASIL</collab>
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					<source>Lei nº 13.006, de 26 de junho de 2014</source>
					<article-title>Acrescenta § 8º ao art. 26 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para obrigar a exibição de filmes de produção nacional nas escolas de educação básica</article-title>
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			<ref id="B3">
				<mixed-citation>FRESQUET, Adriana. (org.). Cinema e educação: a Lei 13.006. Reflexões, perspectivas e propostas. Belo Horizonte: Universo Produção, 2015. </mixed-citation>
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				<mixed-citation>MIGLIORIN, Cezar. Inevitavelmente cinema: educação, política e mafuá. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2015. </mixed-citation>
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					<source>Sétima Arte, um culto moderno: o idealismo estético e o cinema</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
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				<label>1</label>
				<p>As(os) estudantes da EJA que participam do projeto e da Mostra Estudantil da EJA assinam um termo de autorização de imagem e som. </p>
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