DESCRENÇA E EXÍLIO EMOCIONAL: INJUSTIÇA EPISTÊMICA COMO RUPTURA DA DISPONIBILIDADE RELACIONAL
Palavras-chave:
injustiça epistêmica, duplo vínculo, apego inseguro, abuso intrafamiliarResumo
Este artigo introduz o conceito de "injustiça posicional" para descrever situações em que a capacidade de conhecer e sentir de um sujeito é simultaneamente negada. Analisa-se como o dano epistêmico e o afetivo se entrelaçam nas dinâmicas relacionais primárias, particularmente em contextos de abuso intrafamiliar silenciado. O objetivo é compreender como certos gestos, omissões e mandatos afetivos geram uma ruptura na disponibilidade relacional, colocando a vítima em uma posição de exílio afetivo e epistêmico. Metodologicamente, o trabalho combina epistemologia crítica, narrativismo e filosofia da experiência, utilizando uma microficção estruturada em três cenas — infância, adolescência e idade adulta — como recurso heurístico. Essa abordagem permite a dramatização da progressão do dano e a análise de práticas interacionais que reforçam o silenciamento. A microficção permite representar a complexidade emocional da injustiça posicional sem apresentar testemunhos reais e possibilita uma reflexão situada sobre a quebra da confiança básica. Entre as principais conclusões, destaca-se que a injustiça posicional não apenas nega a credibilidade da vítima ou o direito à dor, como também reestrutura o vínculo relacional, produzindo distanciamento estrutural e danos à matriz da confiança epistêmico-afetiva. Destaca-se a necessidade de pensar a reparação não apenas como reconhecimento da verdade, mas também como reconstrução da disponibilidade emocional do vínculo. A originalidade do artigo reside na formulação de um conceito integrativo para a compreensão do silenciamento complexo, bem como no uso inovador da microficção como metodologia para iluminar processos micropolíticos de dano e abrir uma reflexão crítica sobre as estruturas afetivas da injustiça.
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