Escrever histórias para convencer os outros: memórias, diários e cartas de imigrantes

Jorge Luiz da Cunha

Resumo


Escrever histórias, narrar e narrar-se são estratégias humanas de significação da relação com a realidade vivida e imaginada. Em memórias, diários e cartas de imigrantes, com vasto conteúdo biográfico e autobiográfico, encontram-se inúmeras referências à construção humana de si mesmo como um outro (RICOUER, 1991), para convencer familiares, amigos e até desconhecidos, da terra natal, a fazerem o mesmo, ainda que a realidade imigrante, no país de destino, seja insatisfatória ou, não raro, desastrosa. Os exemplos de narrativas de imigrantes – memórias, diários e cartas –, que se estabeleceram no Brasil, nos séculos XIX e XX, foram interpretadas a partir de princípios hermenêuticos. Os efeitos desta postura metodológica opõem-se de forma evidente ao influxo cartesiano, na pesquisa, no ensino e na cultura, e ultrapassam a eventual deficiência interpretativa das narrativas, não raro, associadas somente a técnicas ou métodos, como a semiótica, a análise de conteúdo, a análise do discurso. Como resultado, percebe-se uma importante e complexa relação das narrativas biográficas e autobiográficas aos contextos da realidade do país de origem e do país escolhido, neste caso, o Brasil, identificando a inscrição da existência pessoal significada em uma narrativa do mundo que dá sua forma e seu sentido à história de cada testemunho migrante.


Palavras-chave


Biografias; Autobiografias; Memórias, diários e cartas; Imigrantes

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DOI: http://dx.doi.org/10.31892/rbpab2525-426X.2018.v3.n7.p235-256

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