Maria Tereza Fernandino Evangelista e Cármen Lúcia Brancáglion Passos
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Salvador, v.5, n.2 p.119-141, mai/ago. 2020
NARRATIVAS SOBRE A
MATEMÁTICA ESCOLAR: memórias e
experiências discentes
MARIA TEREZA FERNANDINO EVANGELISTA
Universidade Federal de Viçosa (UFV). Doutora em Educação pela Universidade Federal
de São Carlos – UFSCar. Mestre em Educação pela UFV. Graduada em Licenciatura em
Matemática pela UFV. Docente efetiva do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de
Viçosa. ORCID: 0000-0001-5689-6385. E-mail: maria.fernandino@ufv.br
CÁRMEN LÚCIA BRANCÁGLION PASSOS
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências da
Universidade de Lisboa (CAPES, 2008) e na FE-USP (2016-2017). Doutora em Educação:
Educação Matemática pela Unicamp. Mestre em Educação, pela Unicamp. Licenciada
em Matemática, Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Pesquisadora do grupo
GEPFPM na Unicamp. Bolsista CNPq Produtividade. ORCID: 0000-0002-5501-3584.
E-mail: carmenpassos.ufscar@gmail.com
Narrativas sobre a matemática escolar: memórias e experiências discentes
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NARRATIVAS SOBRE A MATEMÁTICA ESCOLAR: MEMÓRIAS E
EXPERIÊNCIAS DISCENTES
Este é um recorte de uma pesquisa de doutorado realizada junto a estudantes de uma escola pública
onde atuo como professora de Matemática. Trata-se de um estudo orientado pela perspectiva da Pesquisa
Narrativa (CLANDININ & CONNELLY, 2011) e, por assim o ser, é uma investigação que elegeu a
experiência para estudo, em particular, as experiências de três jovens com a Matemática no decurso da
formação escolar de cada um, bem como as minhas, enquanto professora e pesquisadora que experiencia
o próprio ato de pesquisar. O foco é conhecer e compreender, narrativamente, as trajetórias dessas
experiências e, assim, aprofundar os modos de, a elas, atribuir sentido. Para a construção dos textos,
optamos por solicitar a escrita de narrativas autobiográcas e realizar entrevistas narrativas individuais.
Portanto, compartilhamos belas e instigantes histórias que conrmam o grande potencial formativo
das narrativas no contexto educacional. No presente artigo, focaremos em um dos participantes, cujas
narrativas revelaram marcas sobre o processo de ensino e aprendizagem da Matemática, sinalizaram
para o redirecionamento de práticas pedagógicas, problematizaram estratégias de ensino da Matemática,
provocaram reexões e questionamentos sobre os sentidos e signicados da Matemática ensinada nas
escolas básicas e extrapolaram os limites da sala de aula e da escola, sinalizando que para além da
dimeno cognitiva o processo educativo não se efetiva alheio às necessidades afetivas e formativas dos
jovens. Em postura de compreensão narrativa das narrativas, junto aos jovens, este texto foi composto
permeado pelas experiências narradas e pelas que tive ao longo do processo de pesquisar, aprofundar e
redigir, ora como professora de Matemática, ora como pesquisadora, sempre em posição de inacabamento,
em busca de melhores tons.
Palavras-chave: Pesquisa Narrativa; Experiência; Educação Matemática.
NARRATIVES ABOUT SCHOOL MATHEMATICS: MEMORIES AND
STUDENT EXPERIENCES
This is an excerpt from a doctoral research carried out with students from a public school where I work
as a Mathematics teacher. It is a study guided by the perspective of Narrative Research (CLANDININ &
CONNELLY, 2011) and, as such, it is an investigation that chose the experience for study, and, in particular,
the experiences of three young people with Mathematics in the course of school training of each one, as
well as my own experiences, as a teacher and researcher who experiences the very act of researching. The
aim is to know and understand, narratively, the trajectories of these experiences and, thus, to deepen the
ways of attributing meaning to them. In order to construct the texts, we chose to request the writing of
autobiographical narratives and conduct individual narrative interviews. Therefore, we share beautiful
and thought-provoking stories that conrm the great formative potential of narratives in the educational
context. In this article, we will focus on one of the participants, whose narratives revealed marks about
the teaching and learning process of Mathematics, signaled the redirection of pedagogical practices,
problematized mathematics teaching strategies, provoked reections and questions about and meanings
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of Mathematics as it is taught in basic schools and went beyond the limits of the classroom and the school.
Those marks signal that the educational process goes beyond the cognitive dimension and is not effective
apart from the affective and formative needs of young people. In a posture of narrative understanding of
the narratives, with the young people, this text was composed permeated by the experiences of the students
and my own experiences throughout the process of researching, deepening and writing, sometimes as a
Mathematics teacher, sometimes as a researcher, always in an unnished position in search of better tones.
Keywords: Narrative Research; Experience; Mathematical Education.
NARRATIVAS SOBRE LAS MATEMÁTICAS ESCOLARES: RECUERDOS
Y EXPERIENCIAS DE LOS ALUMNOS
Este es un extracto de una investigación doctoral realizada con estudiantes de una escuela pública donde
trabajo como profesor de matemáticas. Es un estudio guiado por la perspectiva de la Investigación
Narrativa (CLANDININ & CONNELLY) y, como tal, es una investigación que eligió la experiencia
para estudiar, en particular, las experiencias de tres jóvenes con Matemáticas en el curso de capacitación
escolar. de cada uno, así como del mío, como maestro e investigador que experimenta el mismo acto de
investigar. El objetivo es conocer y comprender, narrativamente, las trayectorias de estas experiencias y,
por lo tanto, profundizar las formas de atribuirles signicado. Para la construccn de los textos, elegimos
solicitar la redacción de narraciones autobiogcas y realizar entrevistas narrativas individuales. Por lo
tanto, compartimos historias hermosas y estimulantes que conrman el gran potencial formativo de las
narrativas en el contexto educativo. En este artículo, nos centraremos en uno de los participantes, cuyas
narraciones revelaron marcas sobre el proceso de enseñanza y aprendizaje de las Matemáticas, señalaron
la redirección de las prácticas pedagógicas, las estrategias de enseñanza de las matemáticas problemáticas,
provocaron reexiones y preguntas sobre los signicados y signicados de las Matemáticas. enseñó en
las escuelas básicas y fue más allá de los límites del aula y la escuela, lo que indica que más allá de la
dimensión cognitiva el proceso educativo no es efectivo aparte de las necesidades afectivas y formativas
de los jóvenes. En una postura de comprensión narrativa de las narrativas, con los jóvenes, este texto
estaba compuesto por las experiencias narradas y las que tuve a lo largo del proceso de investigación,
profundización y escritura, a veces como profesor de matemáticas, a veces como investigador, siempre en
una posición inacabada. en busca de mejores tonos.
Palabras clave: Investigación Narrativa, Experiencia, Educación Matemática.
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NARRATIVAS SOBRE A MATEMÁTICA ESCOLAR: memórias e
experiências discentes
Primeiras linhas de uma construção narrativa
Em alguns anos de convívio diário com tantas e tantos jovens estudantes do ensino funda-
mental e, sobretudo, ensino médio, tanto nas salas de aulas como pelos corredores das escolas,
pude vivenciar inúmeras situações de conito e angústia dos alunos consigo mesmos, com os
colegas, com os professores e professoras, devido às diculdades relativas à aprendizagem da
Matemática. Há nove anos sou professora de Matemática no PRISMA
1
, escola pública de Ensino
Médio do estado de Minas Gerais e é nesse lugar de atuação docente que nasceram as minhas
aspirações para este estudo narrativo, cujo recorte socializo com os leitores.
O colégio PRISMA é amplamente reconhecido pela sua tradição e excelência no ensino,
pelos excelentes resultados dos estudantes em avaliações para acesso a concorridos cursos superio-
res, assumindo com frequência as primeiras posições em exames para ingresso em Instituições de
Ensino Superior (IES). Conta com uma equipe de servidores técnicos-administrativos nas funções
de Coordenação Pedagógica, Psicologia Escolar, Registro Escolar, Orientação Educacional, Ex-
pediente e servidores terceirizados. O ingresso dos estudantes se dá através de exame de seleção
que oferta cento e cinquenta vagas por ano. Em sua maioria os estudantes, cuja faixa etária gira
em torno dos quinze anos, têm origem em cidades vizinhas à cidade sede da escola ou região,
moram em repúblicas com outros estudantes do PRISMA ou moram sozinhos e, em muitíssimos
casos, longe das famílias.
A expectativa de ingresso no PRISMA é tão expressiva que há casos, não eventuais, de
estudantes que após concluírem a primeira série e até mesmo a segunda série do ensino médio em
outras escolas, prestam o exame de seleção e retornam à primeira série, já com dezesseis ou de-
zessete anos. Em conversas informais com muitos deles ao longo desses anos em que tenho atuado
como professora da escola, percebia um anseio dos estudantes de que no PRISMA alcançassem
uma base de estudos consistente que os auxiliasse na aprovação em vestibulares mais concorridos,
como é o caso da medicina em universidades públicas.
1 Nome ctício.
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Trabalhando sempre com jovens da primeira série, ou seja, ingressantes, percebia que alguns
se adaptavam ao novo ritmo de atividades com certa uidez e autonomia, seguindo pelas demais
séries nesse mesmo tom. Também era nítido que uma outra parcela desses estudantes sofria uma
espécie de choque, ao menos em algum momento, especialmente (mas, não somente) com o ensino
da Matemática ofertado. Assim, o sonho do ingresso e permanência no colégio poderia se tornar
um pesadelo por causa dessa disciplina? Enquanto alguns estudantes caminhavam sem maiores
diculdades, outros pareciam não conseguir dar passos na aprendizagem de Matemática, o que
por vezes era agravado pela saudade de casa, da família, dos pais, irmãos, pelas diculdades de
relacionamentos na nova moradia em república, entre tantas outras. Anal de contas, “os educandos
se revelam nas escolas como sujeitos totais” (ARROYO, 2011, p. 224) e é nessa totalidade que a
escola os recebe e que eles a vivenciam.
Tudo isso exposto ao meu humano olhar docente me motivou a uma busca por ampliar
as vozes desses estudantes - os que obtiveram ‘sucesso’ na escola e os que nem tanto, os que se
adaptaram facilmente e os que demoraram, os que concluíram o ensino médio na escola, os que
desistiram ou perderam a vaga - no que se refere aos caminhos que trilharam até chegarem ao
PRISMA e, a partir dali, compreender como se deram as trajetórias singularmente construídas,
sobretudo sob a lente da Educação Matemática que vivenciaram.
Assim, em meio a tantas interrogações que me ocorreram (e ocorrem) como pessoa, educa-
dora, professora de Matemática e pesquisadora, tais como ‘quais são as crenças que os estudantes
possuem acerca da Matemática e de si mesmos com relação a essa disciplina?’, ‘Que concepções
possuem sobre o processo avaliativo que vivenciaram?’, ‘De que maneira se relacionam com a
Matemática?’ inclinei-me durante o doutorado
2
em Educação pela Universidade Federal de São
Carlos (UFSCar) a buscar compreender e acolher esta: que marcas os estudantes trazem da Educação
Matemática recebida ao longo das suas trajetórias escolares? Marcas do ensino, da aprendizagem,
da avaliação, das relações sociais que foram estabelecidas entre eles e os professores, a equipe
escolar, os colegas, a família, dos sentimentos que lhe foram despertados, dos desaos que foram
superados, da paixão ou da aversão pela Matemática que foram alimentadas, e tantas outras marcas
que o processo educativo de uma disciplina pode deixar.
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Suscintamente, apresentei aos leitores o PRISMA, cenário prioritário das experiências edu-
cacionais que compuseram a minha pesquisa do doutorado, nuances das relações dos estudantes
com a Matemática nesse cenário, pinceladas de reexões e inquietações de uma então professora
de Matemática da renomada escola e a proposta de um estudo que se dedicou a ouvir as vozes de
estudantes no contexto da disciplina de Matemática.
Na oportunidade, portanto, socializarei um recorte de um universo de histórias e experiên-
cias humano-educacionais que foram construídas em minha pesquisa narrativa (CLANDININ &
CONNELLY, 2011) do doutorado em Educação. São recortes de narrativas entrelaçadas, construídas
a várias vozes e tons, que além de conrmarem o grande potencial formativo das narrativas no
contexto educacional, reetem os impactos tanto de experiências educacionais com a Matemática
quanto de um exigente processo de conceber uma pesquisa com narrativas, narrativamente. É uma
investigação que elegeu a experiência para estudo, em particular, as experiências de três jovens
com a Matemática no decurso da formação escolar de cada um, bem como as minhas, enquanto
professora e pesquisadora que experienciou o próprio ato de pesquisar.
Pesquisa narrativa & experiência
O que compartilho nessas linhas são processos e frutos de uma pesquisa de doutorado vol-
tada para as experiências de ex-alunos/alunas, de um colégio de ensino médio, o PRISMA, com a
Matemática, conduzida por mim e pela minha orientadora, Profª Drª Cármen Lúcia Brancáglion
Passos. Contamos com o potencial narrativo de jovens que, com suas histórias e maneiras de
narrar, muito têm a contribuir com as pesquisas em Educação Matemática dedicadas ao ensino, à
aprendizagem, à avaliação e à formação de professores dessa disciplina/área.
A experiência é o catalisador desse estudo. As dos jovens, as minhas e também as dos lei-
tores que, ao participarem dessa leitura, escutando ou lendo as histórias compartilhadas, podem,
de acordo com BENJAMIN (1994), partilhar da companhia dos narradores. Assim, importa-me,
sobremaneira, circunscrever o conceito de ‘experiência’ em torno do que acredito serem aproxima-
ções de seu signicado mais profundo e relevante para essa investigação, inspirada pela abordagem
de uma Pesquisa Narrativa (CLANDININ & CONNELY, 2011).