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Salvador, v.5, n.2 p.192-213, mai/ago. 2020
A matemática diante da possibilidade do ensino remoto: uma discussão curricular
A MATEMÁTICA DIANTE DA
POSSIBILIDADE DO ENSINO
REMOTO: uma discussão curricular
SILVIA ELIANE DE OLIVEIRA BASSO
Instituto Federal do Paraná (IFPR). Mestre em Educação (UEM). Doutoranda em Educação,
(UEM). Especialista em História do Mundo Contemporâneo (UNIPAR). Graduada em
Pedagogia (UEM). Graduada em História (UNIPAR, 1993). Professora de História e
História da Educação no IFPR - Campus Umuarama/PR. ORCID: 0000-0002-2015-2437.
E-mail: silviabasso_2005@hotmail.com
NETÚLIO ALARCON FIORATTI
Instituto Federal do Paraná (IFPR). Engenheiro Civil (UNESP). Mestre (UNESP). Professor
no Instituto Federal do Paraná (IFPR) - Campus de Umuarama-PR - e Coordenador do
Curso Técnico em Edicações Integrado ao Ensino Médio. ORCID: 0000-0001-8713-165X.
E-mail: netulio.oratti@ifpr.edu.br
MARIA LUISA FURLAN COSTA
Universidade Estadual de Maringá (UEM). Doutora em Educação (Unesp/Araraquara). Mestre
em Educação (UEM). Graduada em História (UEM). Professora Adjunta do Departamento
de Fundamentos e Práticas da Educação (DFE/UEM) e do Programa de Pós-Graduação em
Educação (PPE/UEM). Líder do Grupo de Pesquisa Educação a Distância e as Tecnologias
Educacionais/CNPQ. ORCID: 0000-0002-7838-0459. E-mail: luisafurlancosta@gmail.com
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Silvia Eliane de Oliveira Basso, Netúlio Alarcon Fioratti e Maria Luisa Furlan Costa
A MATEMÁTICA DIANTE DA POSSIBILIDADE DO ENSINO REMOTO:
uma discussão curricular
Este trabalho tem por objetivo colaborar nas discussões curriculares para o ensino de matemática
evocando as teorias críticas e pós-modernas como forma de questionamento das tradições de conteúdo
e metodologias. Considera-se nesta análise a atualidade da pandemia mundial da COVID-19, doença
infecciosa provocada por vírus, e os poucos ou inexistentes debates para a construção da Base Nacional
Comum Curricular e a Reforma do Ensino Médio, que no momento colocam em xeque o êxito das
propostas diante da fragilidade dos sistemas educacionais públicos, no que concerne às ferramentas e
conhecimentos para aulas e ensino remoto. Para tanto, parte-se das problematizações de currículo que
sempre existiram e neste momento tornam-se cada vez mais necessárias e importantes, chegam-se às
discussões sobre o ensino de matemática como conteúdo cultural e como possível ferramenta para o
desenvolvimento da capacidade de crítica social de quem a estuda e a ensina, ambos por meio de estudos
publicados. Assim, aludindo a discussões que hibridizam teorias críticas e pós-modernas, a matemática
sai da esfera de conteúdo hegemônico, permitindo-se reconstrução para abordagem dos mais diferentes
temas, sem que perca espaço para suas prescrições especas da ciência de orientação. É a matemática
posta no campo das incertezas, para permitir-lhe ampliar a compreensão das imeras situações em que
tratamento de dados e modelagens possam estar à serviço de justiça ou injustiça social. Apresenta-se, na
sequência, relato de experiência com um exemplo de metodologia de ensino de conteúdo de matemática
por meios digitais, como forma de ilustrar possibilidades, avaliação de potencialidades e fornecimento de
subsídios para a discussão. Por m, são consideradas na experiência registrada, as potencialidades e as
adversidades ligadas ao ensino de matemática de forma remota e corrobora-se a necessidade do debate
em torno do currículo que inclua não só pesquisadores, mas principalmente professores e estudantes, num
ensino de matemática que envolva sua natureza, fundamentos, signicados e consequências no cotidiano.
Palavras-chave: Ensino de Matemática. Currículo. Pandemia. Ensino Remoto.
THE MATHEMATICS IN FRONT TO THE POSSIBILITY OF REMOTE TEACHING:
a curricular discussion
This work aims to collaborate in the curricular discussions to the mathematics teaching evoking the
critical and postmodern theories as a way to question the contents and methodologies. Its is considered
the topicality of the world pandemic of COVID-19, infectious disease provoked by a vírus, and the few
or nonexistents debates to the construction of the Common Curricular Nacional Base and the Reform of
the Hight School, which in this momnt put in check the success of the proposals in face of the fragility of
the public educational system regarding to the tools and knowledge for the classes and remote teaching.
Therefore, we start from the curriculum problems that have always existed and at this moment become
increasingly necessary and important, we come to discussions about mathematics teaching as cultural
content and as a possible tool for the development of the social criticism capacity of those who study
and teach it, both through studies already published. Thus, alluding to discussions that hybridize critical
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A matemática diante da possibilidade do ensino remoto: uma discussão curricular
and postmodern theories, mathematics leaves the eld of hegemonic content, allowing reconstruction
to approach the most diverse subjects, without losing room for its specic prescriptions of the guidance
science. It is the mathematics put in the eld of uncertainties, to allow broaden understanding of the
countless situations in which data processing and modeling may be at the service of justice or social
injustice. Hereafter, it is shown an experience report with an example of a methodology for teaching
mathematical content by digital media, as a way of portray possibilities, evaluating potentialities and
providing subsidies for the discussion. Finally, the potentialities and adversities associated with teaching
mathematics remotely are considered in the recorded experience and suports the need for debate around
the curriculum that includes not only researchers, but mainly teachers and students, in a mathematics
teaching that involves its nature, fundamentals, meanings and consequences in daily life.
Keywords: Math Teaching. Curriculum. Pandemic. Remote Teaching.
LA MATEMÁTICA DELANTE DE LA POSIBILIDAD DE LA ENSEÑANZA REMOTA:
una discusión curricular
Este trabajo tiene el objetivo de colaborar en las discusiones curriculares para la enseñanza de matemática
evocando las teorías críticas y posmodernas en forma de cuestionamento de las tradiciones y metedologías.
Se toma en cuenta la actualidad de la pandemía mundial de la COVID-19, enfermidad infecciosa
causada por vírus y a los pocos o inexistentes debates para la construcción de la Base Nacional Comun
Curricular y la Reforma de la Escuela Secundaria, que en el actual momento pone en jaque el éxito de las
propuestas delante de la fragilidad de los sistemas públicos educacionales con respeto a las herramientas
y conocimientos para clases y enseñanza remota. Para estos nes, se parte de las problematizaciones del
currículo que siempre existieron y en esto momento se han convertido como más necesarias e importantes,
se llega a las discusiones sobre la enseñanza de matemática como contenido cultural y como herramienta
posible para el desarrollo de la capacidad de crítica social de quién la estudia y la enseña, ambos por medios
de estudios ya publicados. Así, aludiendo a las discusiones que hibridizan teorias críticas y posmodernas,
la matemática sale de la esfera de contenido hegemónico, se permitiendo reconstrucción para enfoques
de los más diversos temas, sin la rdida de espacios para sus prescripciones especícas de la ciencia
de orientación. Es la matemática puesta en el campo de las inseguridades, para le permitir ampliar la
comprensión de las numerosas situaciones en que el tratamineto de datos y modelados puedan estar a
servicio de la justicia o injusticia social. Tras eso, se presenta un relato de experiencia con un ejemplo
de metodología de enseñanza de contenido de matemática por los medios digitales, de manera a ilustrar
posibilidades y suministros de subsidios para la discusión. Por último son consideradas, en el registro de
la experiencia, el potencial y las adversidades relativas a la enseñanza de matemática de forma remota
y se corrobora la necesidad del debate acerca del currículo que incorpore no sólo investigadores, sino
principalmente profesores y estudiantes, en una enseñanza de matemática que implique su naturaleza,
fundamentos, signicados y consecuencias en el cotidiano.
Palabras clave: Enseñanza de Matemática. Currículo. Pandemia. Enseñanza Remota.
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Silvia Eliane de Oliveira Basso, Netúlio Alarcon Fioratti e Maria Luisa Furlan Costa
A MATEMÁTICA DIANTE DA POSSIBILIDADE DO ENSINO
REMOTO: uma discussão curricular
Introdução
Tradicionalmente visto como um rol de disciplinas ou matérias escolares, dispostas em tem-
pos e espaços previstos em um planejamento, currículo tem sido naturalizado na escola como se
sempre estivesse estado lá daquela forma, sendo possível pensar em sua organização ou propor-lhe
modicações apenas quando políticas governamentais instituem essa necessidade.
Assim, o que se ensina em cada uma das disciplinas, e mesmo suas especicidades, pa-
recem não ser questionáveis mesmo para aqueles que cursaram uma licenciatura e teoricamente
deveriam ter sido formados para reetir, construir e organizar um currículo conjuntamente com
outros prossionais. Ao chegar a uma escola o novo professor (que pode ser também o professor
novo), recebe um planejamento, um guia didático, instruções sobre o funcionamento da instituição,
papeladas e prazos e, quando consciente, sensibilizada e com liberdade (de tempo e espaço) para
esse trabalho, a equipe pedagógica lhe ofertará uma formação, que será formação permanente na
sequência do trabalho.
Tais condições são as ideias que nem sempre se encontram nas escolas públicas de grande
parte do país, quiçá nas particulares, que o fazem com um compromisso de mais cumprir também
as imposições de um currículo cujo ciclo fecha-se no resultado de desempenho de exames nacio-
nais ou de ingresso à universidade, que as escolas rankeam, garantindo a satisfação dos clientes
e a chegada de novos.
Essa mesma pressão chega à escola pública que vai sendo (des)classicada em exames
ociais e rankeada nos índices de aprovação daquilo que deniu-se por especialistas como conteúdo
a ser ensinado, assim como, para que ensinar.
Neste artigo, objetiva-se problematizar o currículo em tempos de aulas remotas e distancia-
mento social que colocou escolas sob a pressão de estar “presente” na distância exigida por uma
pandemia mundial provocada pela doença infecciosa COVID-19, neste ano de 2020. Sempre em
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A matemática diante da possibilidade do ensino remoto: uma discussão curricular
destaque como medida de sucesso educacional, a disciplina de matemática é alvo de preocupações,
pois o que e como ensina, pode ser feito de forma remota?
Tentando responder a essas várias questões, parte-se das problematizações de currículo que
sempre existiram, cam emergentes neste momento, chega-se às discussões sobre o ensino de mate-
mática como conteúdo cultural, ambos por meio de estudos publicados, e apresenta-se, por meio
de relato de experiência, um exemplo de metodologia de ensino de conteúdo de matemática por
meios digitais como possibilidade de desenvolvimento de autonomia de aprendizagem ao estudante.
O Currículo em questão
Desnaturalizando o currículo, o que signica historicizá-lo, pode-se dizer que desde que a
escola em qualquer nível se organizou para ensinar, isto é planejou conteúdos, métodos, objetivos,
temos currículo. Pautados em valores desejáveis para a comunidade ou agrupamento que repre-
sentavam, especialistas estabeleceram o que ensinar, para que e como. No Brasil esses primeiros
especialistas foram os jesuítas e alguns conteúdos eram vistos como úteis para ampliar a memória
ou facilitar o raciocínio lógico. Isso não é um problema, é história, o problema é naturalizar isso
e continuar fazendo da mesma forma ad aeternum.
Em Saviani (2003) se encontra uma denição de currículo que não resume seu signicado,
mas oferece um ponto de partida para a reexão por trazer elementos que são plausíveis para
qualquer grupo:
O currículo diz respeito a seleção, seqüência e dosagem de conteúdos da cultura
a serem desenvolvidos em situações de ensino-aprendizagem. Compreende
conhecimentos, idéias, hábitos, valores, convicções, técnicas, recursos,
artefatos, procedimentos, símbolos etc... dispostos em conjuntos de matérias/
disciplinas escolares e respectivos programas, com indicações de atividades/
experiências para sua consolidação e avaliação. (SAVIANI, 2003, p.01).
Pautando-se no pesquisador espanhol Gimeno Sacristan, Saviani utilizará a compreensão de
currículo como processo envolvendo ações de entes dentro e fora da organização escolar. Assim
âmbitos de ações burocráticas (órgãos educacionais), mercadológicas (editoras de livros) e
pedagógicas (professores), com relativa autonomia em relações de dependência mas também de
incoerência, sendo, portanto, o currículo, objeto de políticas e táticas para mudá-lo.
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Silvia Eliane de Oliveira Basso, Netúlio Alarcon Fioratti e Maria Luisa Furlan Costa
Em Teorias de Currículo Lopes e Macedo (2011), realizam trabalho sinóptico de abordagens
para a discussão sobre Currículo. Com sinóptico, no entanto, não se quer dizer reduzido, pois o
livro se apresenta como um compêndio de autores e teorias no tratamento do assunto. O currículo
é então, um campo em disputa, em que uma xação mínima de sentidos permite reetir para além
das tradições postas.
De acordo com as mesmas autoras a primeira referência ao termo currículo registra-se em
1633 na Universidade de Glasgow signicando curso inteiro seguido pelos estudantes, assim
“currículo dizia respeito a organizar a experiência escolar de sujeitos agrupados” (LOPES e MA-
CEDO, 2011, p.20).
Tendo sido abordado de inúmeras maneiras desde quando a escola tornou-se uma necessidade
na sociedade industrial, o currículo tornou-se nas últimas décadas alvo constante de discussão por
à ele vincularem-se conhecimento, cultura e organização social.
Em países cujas políticas de bem-estar social tão relevantes após a 2ª guerra mundial pas-
sam a ser questionadas e as vertentes econômicas do neoliberalismo vão pautar um discurso do
ecientismo, mérito individual e empreendedorismo, o currículo na escola passa por ressigni-
cações que serão questionadas por educadores como Michael Apple que é personagem, narrador
e também crítico da escola básica norte-americana a partir das décadas de 1970 e 1980. É neste
contexto histórico que faz o questionamento de a quem ou o que o currículo atende. Nesta forma
de estudar o currículo como campo em disputa, a pergunta mais signicativa para o autor não
é “qual conhecimento tem mais valor” e sim “de quem é o conhecimento que tem mais valor”.
(APPLE, 2006, p.21).
Pergunta instigante e que pode causar estranheza a quem não está familiarizado com este
tipo de discussão, mas que é absolutamente pertinente se considerarmos que não há neutralidade
em educação, como armava o pensador Paulo Freire (1921 – 1997) em inúmeros de seus textos,
em que educar é uma ato político (FREIRE, 2007). Armar a neutralidade pode ser na verdade
corroborar com o que está posto, mas foi posto ali por algum motivo. Recriar currículos em que
grande parcela da população e cultura estava fora da escola como se isso fosse bom é nas palavras
de Apple, uma “revolução que anda para trás”: