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Liliane Afonso de Oliveira, Maria do Perpétuo Socorro Cardoso da Silva, Wanubya do Nascimento Moraes Campelo e Cíntia Maria Cardoso
PROFESSOR SEM FRONTEIRAS:
trabalhando o lúdico na Educação Infantil
a partir de múltiplas linguagens de sentido
LILIANE AFONSO DE OLIVEIRA
Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). Doutoranda em Comunicação, Linguagens e
Cultura (UFRA). Mestre em Comunicação, Linguagens e Cultura (UFRA). Graduada em Letras
(Português) pela Universidade da Amazônia. Professor Auxiliar I da Universidade Federal Rural da
Amazônia. ORCID: 000-0003-4581-9952. E-mail: liliane_afonso@yahoo.com.br.
MARIA DO PERPÉTUO SOCORRO CARDOSO DA SILVA
Universidade Estadual do Para (UEPA). Doutora em Semiótica e Linguística Geral
(USP/2002). Mestre em Letras/Linguística (UFPA/1997). Especialista em Língua Portuguesa
(UECE/1992). Graduada em Letras (UFPA/1983). Professor Titular e pesquisadora da UEPA.
ORCID: 0000-0002-2574-4183. E-mail: cardoso_socorro@yahoo.com.br.
WANUBYA DO NASCIMENTO MORAES CAMPELO
Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). Doutoranda em Letras pela
Universidade Federal do Pará. Mestre em Letras/Teoria Literária pela Universidade
Federal do Pará. Graduada em Letras (Português) pela Universidade do Estado
do Pará. Professora Assistente II da Universidade Federal Rural da Amazônia.
ORCID: 0000-0002-6557-0827. E-mail: wanubyacampelo@gmail.com.
CÍNTIA MARIA CARDOSO
Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). Doutoranda em Educação pela Universidade
de São Paulo. Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade de Taubaté (2008). Licenciada
em Letras (Habilitação em Língua Portuguesa) pela Universidade Federal do Pará e Pedagogia
pela Universidade Cidade de São Paulo. Professora Assistente da Universidade Federal Rural da
Amazônia (UFRA). ORCID: 0000-0002-6373-6803. E-mail: cintia.ufra@gmail.com.
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Professor sem fronteiras: trabalhando o lúdico na Educação Infantil a partir de múltiplas linguagens de sentido
PROFESSOR SEM FRONTEIRAS: trabalhando o lúdico na Educação Infantil a
partir de múltiplas linguagens de sentido
As múltiplas linguagens trabalhadas através do lúdico na educação infantil fortalecem o processo de
desenvolvimento da aprendizagem da criança, no qual, cria e passa a usar seu imagirio para organizar
os espaços sociais nos quais está inserida. Com o objetivo de ampliar reexões sobre múltiplas linguagens
podem ser trabalhadas no contexto da educação infantil, este estudo ancora-se à discussão de que o professor
da educação infantil precisa repensar suas práticas com o apoio do lúdico. Caracteriza-se como um estudo
exploratório, de aportes teóricos relacionados ao lúdico como subsídio essencial para o desenvolvimento
infantil. A partir de conclusões preliminares admite-se que é um tema de extrema imporncia, pois, as
múltiplas linguagens desenvolvidas no ambiente escolar reverberam ações pertinentes ao reconhecimento
e desenvolvimento cognitivo da criança.
Palavras-chave: Linguagens. Lúdico. Educação Infantil.
TEACHER WITHOUT FRONTIERS: working the lúdico in children education
from multiple languages of sense
The multiple languages worked through the ludic in early childhood education strengthens the process
of developing the childs learning, in which he creates and uses his imagery to organize the social spaces
to which he is inserted. With the aim of expanding reections on how multiple languages can be worked
out in the context of early childhood education, this study is anchored to the discussion that the preschool
teacher needs to rethink his practices with the support of the ludic. It is characterized as an exploratory
study of theoretical contributions related to play as an essential subsidy for child development. Based
on preliminary conclusions, it is admitted that this is an extremely important topic, since the multiple
languages developed in the school environment reverberate actions pertinent to the cognitive recognition
and development of the child.
Keywords: Languages. Ludic. Child Education.
PROFESOR SIN FRONTERAS: trabajando al jugador en la educación infantil
desde múltiples idiomas sentidos
Los múltiples idiomas trabajados a través del juego en el jardín de infantes fortalecen el proceso de
desarrollo del aprendizaje del niño, en el cual él crea y comienza a usar su imaginación para organizar los
espacios sociales en los que se inserta. Con el n de ampliar las reexiones sobre cómo se pueden trabajar
múltiples idiomas en el contexto de la educación de la primera infancia, este estudio se basa en la discusión
de que los maestros de la primera infancia deben repensar sus prácticas con el apoyo de lo lúdico. Se
caracteriza por ser un estudio exploratorio de las contribuciones teóricas relacionadas con el juego como
un subsidio esencial para el desarrollo infantil. Con base en conclusiones preliminares, se admite que este
es un tema extremadamente importante, ya que los múltiples idiomas desarrollados en el entorno escolar
repercuten en las acciones pertinentes para el reconocimiento y el desarrollo cognitivo del niño.
Palabras clave: Idiomas. Juguetón. Educación Infantil.
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Liliane Afonso de Oliveira, Maria do Perpétuo Socorro Cardoso da Silva, Wanubya do Nascimento Moraes Campelo e Cíntia Maria Cardoso
PROFESSOR SEM FRONTEIRAS: a trabalhando o lúdico na Educação
Infantil a partir de múltiplas linguagens de sentido
Introdução
A linguagem é a maior responsável pelas atividades psíquicas dos processos cognitivos do ser
humano. A identidade do indivíduo advém de uma construção cultural respeitando as peculiaridades
e especicidades dos sujeitos e está vinculada à linguagem, algo que não é xo e é construído a partir
da interação.
A língua possibilita ao ser humano relacionar-se com o mundo. Por meio da língua, é possível
transmitir pensamentos, ideias e interagir com seus pares (ALMEIDA; FONSECA, 2013). A vida do
ser humano está intensamente ligada à comunicação.
Logo, língua e linguagem estão conectadas e é impossível pensar a vida sem elas, pois são dis-
positivos essenciais na vida humana. Assim, é assumida como constitutiva do sujeito, pois possibilita
interações fundamentais para a construção do conhecimento (VIGOTSKI, 2001).
O papel socioeducativo da escola e do professor no processo de aprendizagem da criança deve
ser de estímulo ao uso e importância do brinquedo na relação aprender, uma vez que através do brin-
quedo a criança consegue recriar sua realidade, interpretar suas ações, e trazer importantes signicados
para sua vivência.
Piaget (1998) avalia o brincar como a linguagem característica da criança por ter maior expres-
sividade que a linguagem verbal. Esta razão leva-nos a reexões acerca da formação do professor que
atua na educação infantil, pois suas atividades inuenciam o processo de aprendizagem da criança que
trás para sala de aula o brincar como elemento da sua realidade.
Admite-se que é um tema de extrema valia, pois considera-se a importância de subsidiar discus-
sões que fortalecem o uso do lúdico nas múltiplas linguagens da educação infantil como fator positivo
no processo de ensino e aprendizagem, contribuindo para o interesse de outros pesquisadores em dar
continuidade a pesquisas sobre o tema.
O papel do professor da educação infantil é de constante estímulo do processo de construção do
conhecimento dos educandos. O aluno é despertado para a criticidade de forma que almeja-se, no futuro,
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lutar pelos seus interesses em meio à sociedade. O professor além de educador atua como mediador
para a construção do conhecimento. O aluno aprenderá a “pensar” e a questionar por si mesmo e, não
mais receber passivamente as informações como se fosse um depósito deste educador.
A realização deste estudo procura dialogar com as realidades vividas dentro das salas de aula e
como este prossional da educação infantil estão preparando os seus alunos a uma aprendizagem de
qualidade e dinâmica. Sabe-se que os docentes buscam em suas práticas diárias formações comple-
mentares para a atuação diferenciada no trabalho, mas também o acúmulo de funções que fora dado
a este prossional, estimulando-o a cooperação e a valorização individual e da escola que diminuem
os passos desse constante aperfeiçoamento.
Silva (1991, p. 03) ao abordar sobre métodos para ser um bom professor alerta para:
Atualize-se, atualize-se, atualize-se... – esta repetição é intencional e pretende
apagar da sua consciência algum possível resquício de desejo de acomodação. A
chamada “educação permanente” é fundamental para todos os indivíduos e mais
fundamental ainda para os educadores. Além de uma dedicação maior à literatura
de sua área especíca de atuação, procure acompanhar e inter-relacionar os dados
provindos de outros campos do conhecimento, principalmente história, política e
economia. É o conhecimento da totalidade do real que aumenta o seu poder de
julgamento e decisão. E os maiores beneciados serão você mesmo e os seus
alunos.
Nesse sentido, a capacitação do professor deve ser um processo contínuo, para ampliar o seu
conhecimento, a m de, garantir uma evolução no seu potencial, sua autonomia didática e o seu com-
prometimento com a educação.
Os prossionais da educação infantil precisam manter um comportamento ético com as crian-
ças educadas, não permitindo que estas sejam expostas a situações constrangedoras. Dessa forma, o
lúdico como metodologia pedagógica na educação infantil tem contribuído de forma positiva para o
desempenho deste papel.
A evolução do homem na sociedade e as alterações de sentido da infância
A preocupação com a infância não é um assunto novo e o termo historicamente já sofreu alte-
rações de sentido.
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O atendimento à criança de zero a seis anos iniciou com a chegada dos jesuítas
que investiram nos pequenos indiozinhos, lhos de gentios, que junto como os
órfãos portugueses vindos da metrópole, recebiam uma formação evidenciada
pela exaltação na fé, da religiosidade e das qualidades individuais (COSTA E
VAREJÃO, 1997, p. 11).
Destarte, os autores abordam que no Brasil, no período colonial, pouco se fez pela infância.
Ao regressarmos à história e à evolução do homem na sociedade, percebe-se que a criança nem
sempre foi ponderada como é hoje.
Outrora, a criança era considerada como miniatura do adulto. Quando nascidas ou criadas por
classes altas eram educadas para o futuro, quando provindas de classes baixas seu valor era relativo
à sua utilidade servil, agregada à geração da renda da sua família.
Observa-se que no Brasil a exploração na infância pelo trabalho remonta o período da co-
lonização. Inclusive, antes de estabelecidas as relações entre os grupos aqui existentes e o branco
colonizador, as caravelas portuguesas traziam no século XVI crianças trabalhadoras, fato que é
constatado ao longo da história.
De acordo com a história, a primeira medida legal efetiva no Brasil que protegia o trabalho de
crianças e adolescentes foi o Decreto 17.943-A, de 12 de outubro de 1927, que proibia o trabalho aos
que estivessem na faixa etária inferior a doze anos, posteriormente, a partir de 1932, ampliada para
quatorze anos. Assim, reconhece-se que as crianças no Brasil, desde a colonização foram privadas
do direito de estudar e brincar.
Fortuna (2011) corrobora que a criança ao brincar desenvolve sua imaginação e a criatividade
durante a infância, apontada como período de extrema importância na vida dos seres humanos.
A brincadeira, a partir do jogo, da adivinhação, entre outros, faz parte da cultura de um povo e
marca contextos históricos que o homem vive. Conforme Kishimoto (1993) a cultura do brincar no
Brasil sofreu forte inuência dos povos colonizadores, que trouxeram jogos como os de saquinhos,
a bolinha de gude, o jogo de botão, o pião, entre outros. Os negros igualmente emprestaram suas
brincadeiras como o quente e o frio e, o chicotinho queimado. Os índios transmitiram o gosto pela
imitação dos animais. Foram brincadeiras que permearam e ainda são vivas em algumas regiões do
Brasil.
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A criança expressa-se pelo ato lúdico e é através desse ato que a infância
carrega consigo as brincadeiras. Elas perpetuam e renovam a cultura
infantil, desenvolvendo formas de convivência social, modicando-se e
recebendo novos conteúdos, a m de renovar a cada nova geração (CRAIDY,
KAERCHER, 2001, p.103).
Nas práticas educacionais com a educação infantil devem-se criar atividades signicativas
que estimulem as múltiplas linguagens, despertando a criatividade, a linguagem oral, momentos
imaginários e a criatividade das crianças.
Recorrendo a Freire (1999, p. 97) quando aduz que:
Não posso entender os homens e as mulheres, a não ser mais do que
simplesmente vivendo, histórico, cultural e socialmente existindo como seres
fazedores do seu caminho que, ao fazê-lo se expõem ou se entregam aos
“caminhos” que estão fazendo e que assim os refazem também.
Destarte, no saber freireano (1999) o educador da educação infantil precisa estar em per-
manente processo de educação. Não podendo não se sensibilizar nas mudanças e permanecer em
ações docentes reprodutivas. Talvez, o fato de não se sentirem preparados para autocrítica do seu
conhecimento, não possibilita estabelecer um referencial verdadeiro de suas falhas e incoerência
decorrentes de sua formação.
A legislação brasileira reconhece a necessidade de traçar diretrizes ao sistema educacional
a partir da Constituição de 1934 que posteriormente em 1961 acarretou a promulgação da Lei de
Diretrizes e Bases – LDB; Lei nº 4.024 que institui ao Estado essa função.
Em 1996, resultado de longos debates que duraram cerca de oito anos (1988-1996) a LDB é
reformulada sob a Lei nº º 9.394 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, tendo
uma seção especíca sobre a educação infantil ainda apontando para formação de docentes para
atuar na educação básica o nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em uni-
versidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício
do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida
em nível médio, na modalidade Normal.
A constituição da LDB é um passo importante para a educação. Em especial, no seu Artigo
29, discorre que a educação infantil é a primeira etapa da educação básica, e tem como nalida-
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de o desenvolvimento integral da criança até os seis anos de idade, em aspectos físicos, psicológico,
intelectual e social.
Aduz ainda que a educação infantil é um complemento da ação da família e da comunidade e em
seu o Art. 30 ressalta que a educação infantil será oferecida em “I- creches ou entidades equivalentes,
para crianças de até três anos de idade; II- pré-escolas para crianças de quatro anos de idade” (BRASIL,
1996).
A expressão “educação infantil” é um direito reconhecido por Lei, considerada como uma etapa
primordial na vida da criança que marca o início de seu desenvolvimento, representando um marco
histórico de grande importância para a educação infantil no país.
As Múltiplas Linguagens na Educação Infantil: promoção de experiências intera-
tivas no espaço escolar
O professor da educação infantil na sala de aula é incentivador de produções individuais ou em
grupo capazes de estimular o olhar crítico das crianças às produções por elas realizadas despertando no
ensino a curiosidade, através das brincadeiras que utilizadas de forma inovadora e lúdica poderão en-
volver outras instituições extra muros da escola, como a família, a comunidade, a ponto de mobilizá-los
a práticas de conscientização dos recursos hídricos, preservação da natureza, assuntos de suma impor-
tância para educação da criança, pois, percebe-se o quanto é difícil unicá-los de forma interdisciplinar.
O termo “linguagem” geralmente aparece associado apenas à linguagem verbal e escrita, que,
ganha notoriedade a ponto de dicultar a curiosidade da criança nas escolas por outras manifestações.
Conhecer e explorar as linguagens que as crianças utilizam para se expressar depende do “estar junto
com elas”, percebendo assim, características próprias dessa criança de acordo com sua faixa etária,
gênero ou classe social.
Reetir acerca das múltiplas linguagens na educação infantil permeia a promoção de experiên-
cias interativas no espaço escolar com meninos e meninas a partir das artes plásticas, fotograa, teatro,
poesia, momentos de literatura regional, música, cinema, entre outras que deem sentido ao processo
de aprendizagem da criança. É importante o papel da família, da escola e dos educadores da educação
infantil, no sentido de possibilitarem espaços de criação dessas linguagens.
Crianças, meninos e meninas, são sujeitos constituídos de história e de direitos que experimen-
tam a partir das suas brincadeiras, individuais ou coletivas, diferentes sentidos e culturas por meio das