A construção do conhecimento ortográco no contexto das interações adulto-criança
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A CONSTRUÇÃO DO
CONHECIMENTO ORTOGRÁFICO
NO CONTEXTO DAS INTERAÇÕES
ADULTO-CRIANÇA
ELAINE C. R. GOMES VIDAL
Universidade São Judas Tadeu (USJT). Mestre e Doutoranda em Psicologia, Linguagem
e Educação pela Faculdade de Educação da USP. Grupo de Pesquisa Novas Arquiteturas
Pedagógicas. Docente da Universidade São Judas Tadeu. Brasil. ORCID: 0000-0003-0320-217.
E-mail: elainecrgvidal@gmail.com
SILVIA M. GASPARIAN COLELLO
Universidade de São Paulo (USP). Doutora e Livre Docente pela Faculdade de Educação da
USP. Docente da Pós-graduação na FEUSP. Grupos de Pesquisa: NAP e CEMOrOc. Brasil.
ORCID: 000-002-8813-8092. E-mail: silviacolello@usp.br. www.silviacolello.com.br
Elaine C. R. Gomes Vidal e Silvia M. Gasparian Colello
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A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO ORTOGRÁFICO NO CONTEXTO DAS
INTERAÇÕES ADULTO-CRIANÇA
Partindo do problema do desempenho insuciente nas habilidades de escrita de estudantes brasileiros,
o artigo tem o objetivo de apresentar uma pesquisa sobre o papel da interação entre adulto e criança na
construção do conhecimento ortogco. Para tanto, recupera parte de um estudo de caso longitudinal
em curso, realizado com alunos de uma escola privada em Santos/SP, em cinco etapas entre o 2º e o
4º ano do Ensino Fundamental (período em que o escrever corretamente passa a ser um foco especial
de conquista cognitiva e, consequentemente, de ensino). Valendo-se do referencial teórico dos estudos
psicogenéticos e histórico-culturais (a concepção das crianças como sujeitos ativos e protagonistas da
aprendizagem; a língua como prática social e a interação como favorecimento da aprendizagem), o estudo
centrou-se na problematização, feita de modo interativo, sobre as formas de escrever. Realizada a partir
de dois eixos de atividade (ditado de palavras e reescrita de contos), a coleta de dados visou apreender
a compreensão das estratégias infantis ou das reexões empreendidas na busca de referências para a
correção da escrita, chegando, assim, a quatro categorias: a escrita validada pela pauta sonora, a validação
da escrita com base em alguém mais experiente (um “interlocutor autorizado”), o apoio na imagem visual
da palavra e, nalmente, a evocação da norma ortográca. Embora essas categorias estejam sempre
presentes nos diferentes estágios de escolaridade (e de conhecimento), a análise quanti-qualitativa dos
dados evidenciou o predomínio de umas sobre as outras que, em movimentos ascendentes e descendentes,
marcam um percurso de crescente autonomia e consciência metalinguística. A partir da compreensão
sobre os processos cognitivos do conhecimento ortogco – a variedade das estratégias de escrita ou de
validão da escrita e caminhos de progressão –, é possível vislumbrar algumas implicões pedagógicas
que subsidiam a revisão de práticas pedagógicas.
Palavras-chave: Língua escrita. Processos cognitivos. Ortograa. Práticas interativas.
THE CONSTRUCTION OF ORTHOGRAPHIC KNOWLEDGE IN THE CONTEXT OF ADULT-
CHILD INTERACTIONS
Considering the issue of the poor performance of Brazilian students when it comes to writing skills,
this article aims to present a research about the role of the interaction between adults and children in the
construction of orthographic knowledge. In order to do so, it recovers part of an ongoing longitudinal case
study which took place in Santos/SP with students at a private school in 5 stages between the 2nd and 4th
grade of Elementary School (period when writing correctly becomes the focus of cognitive achievement;
therefore, focus of the teaching). Using the theoretical framework of psychogenetic and historical-cultural
studies (the concept of children as active subjects and the student-centered learning; language as social
practice and interaction to benet the learning experience), the study focused on the problematization of
different writing ways. Data collected from two axes of activity (a dictation and from the rewriting of short
stories) aimed to apprehend the understanding of childrens strategies or reections undertaken in the
search for references for the correction of writing, coming, as a consequence, to four different categories:
the writing validated by the sound score, the validation of the writing based on someone more experienced
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(an “authorized interlocutor”), the support in the visual image of the word and, nally, the evocation of
the orthographic rules. Although these categories are always present in the different stages of education
(and knowledge), the quantitative and qualitative analysis of the data showed the predominance of one
over the other which, in upward and downward movements, mark a path of increasing autonomy and
metalinguistic awareness. From the understanding of the cognitive processes of orthographic knowledge -
the variety of writing strategies or writing validation and progression paths - it is possible to glimpse some
pedagogical implications that support the revision of pedagogical practices.
Keywords: Written language. Cognitive processes. Orthography. Interactive practices.
LA CONSTRUCCIÓN DEL CONOCIMIENTO ORTOGRÁFICO EN EL CONTEXTO DE LAS
INTERACCIONES ADULTO-NIÑO
Partiendo del problema del rendimiento insuciente en las habilidades de escritura de los estudiantes
brasileños, el artículo tiene como objetivo presentar una investigación sobre el papel de la interacción
entre adultos y niños en la construcción del conocimiento ortográco. Con este n, recupera parte de un
estudio de caso longitudinal en curso, llevado a cabo con estudiantes de una escuela privada en Santos/
SP, en cinco etapas entre el segundo y cuarto año de educación primaria (período en el que lo acto de
escribir correctamente se convierte en un enfoque especial del logro cognitivo y, en consecuencia, de
la enseñanza). Partiendo del marco teórico de los estudios psicogenéticos e histórico-culturales (la
concepción de los niños como sujetos activos y protagonistas del aprendizaje; el lenguaje como práctica
social y la interacción como un conducto para el aprendizaje), el estudio se centró en la problematización,
hecha de manera interactiva, sobre las formas de escribir. Basado en dos ejes de actividad (dictado de
palabras y reescritura de cuentos), la recopilación de datos tuvo como objetivo comprender la estrategia
de los niños o reexiones emprendidas en la squeda de referencias para la corrección de la escritura,
alcanzando así cuatro categorías: la escritura validada por la sonoridad; la validación de la escritura basada
en alguien más experimentado (un “interlocutor autorizado”), el soporte en la imagen visual de la palabra
y, nalmente, la evocación de la norma ortográca. Aunque estas categorías siempre esn presentes en
las diferentes etapas de la educación (y el conocimiento), el análisis cuantitativo y cualitativo de los datos
mostró el predominio de uno sobre el otro, que en los movimientos ascendentes y descendentes, marcan
un camino de mayor autonomía y conciencia metalingüística. A partir de la comprensión de los procesos
cognitivos del conocimiento ortogco (la variedad de estrategias de escritura o validación de escritura
y caminos de progresión), es posible vislumbrar algunas implicaciones pedagógicas que respaldan la
revisión de las prácticas pedagógicas.
Palabras clave: lenguaje escrito. Procesos cognitivos. Ortografía. Pcticas interactivas.
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A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO ORTOGRÁFICO NO
CONTEXTO DAS INTERAÇÕES ADULTO-CRIANÇA
Introdução
A escola, como instituição social responsável pela transmissão cultural intergeracional,
tem, entre suas principais funções, o ensino da língua escrita. Considerada uma das aprendizagens
primordiais a todo estudante, a escrita constitui-se, a um só tempo, objeto de ensino e instrumento
de aprendizagem (COLELLO, 2012). Anal, além de os alunos precisarem aprender a ler e escrever
para a sua constituição pessoal, social e política, o conhecimento da escrita é uma importante via
de acesso para outros conhecimentos.
Apesar da valorização do ensino da escrita ser uma constante em diferentes períodos da
história da educação, a prática pedagógica foi consubstanciada de diversas formas e com diferentes
ênfases. No fulcro dessa diversicação está o modo como, em diferentes momentos e por diferentes
autores, foi concebida essa aprendizagem, ora mais centrada em aspectos notacionais (o como se
escreve), ora na dimensão discursiva (o como se organiza a linguagem escrita), ambos inerentes
à atividade de escrever. Barcellos (2013), ao analisar a história do ensino de língua no Brasil,
identica três encaminhamentos pedagógicos distintos. O modelo Prescritivo prioriza a norma
culta, levando o aluno a substituir seus padrões linguísticos por produções pautadas em regras de
suposta correção linguística, como no Brasil Colônia (com o propósito de impor aos indígenas um
modo correto de falar), ou no Império (que se valia do modelo europeu de educação). O modelo
Descritivo, vinculado ao surgimento da linguística como ciência no período da República, sem a
pretensão de interferir no comportamento linguístico do sujeito, chama a atenção para os modos de
funcionamento da língua. Finalmente, em meados do século XX, na esteira dos estudos psicogené-
ticos e histórico-culturais, o modelo Produtivo postula o ensino de novas habilidades linguísticas,
ampliando a apropriação da língua, as suas possibilidades de uso, de reexão metalinguística e de
trânsito na cultura escrita. Nessa perspectiva, a exploração dos aspectos notacionais e discursivos
aparecem de modo articulados e equilibrados.
Em que pese a orientação ocial por um ensino produtivo, os indicadores insatisfatórios
obtidos pelos alunos brasileiros em diferentes avaliações (Prova Brasil e PISA, entre outros) de-
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monstram que a aprendizagem da língua está aquém das metas desejáveis, o que se explica por
fatores históricos, políticos, sociais, econômicos e geográcos, com destaque para a dimensão
pedagógica (COLELLO, 2012).
A esse respeito, vale apontar para os descompassos, bastante frequentes, entre o ensino e
a aprendizagem e entre as diretrizes curriculares e a prática pedagógica. No primeiro caso, como
se sabe, o aprendido nem sempre corresponde ao ensinado e este, por sua vez, pode não levar
em conta os saberes já conquistados pelos sujeitos ou as dinâmicas de construção cognitiva. Nas
palavras de Weisz e Sanchez (2001, p. 65):
O processo de aprendizagem não responde necessariamente ao processo
de ensino, como tantos imaginam. Ou seja, não existe um processo único
de “ensino-aprendizagem”, como muitas vezes se diz, mas dois processos
distintos: o de aprendizagem, desenvolvido pelo aluno, e o de ensino, pelo
professor. São dois processos que se comunicam, mas não se confundem:
o sujeito do processo de ensino é o professor, enquanto o do processo de
aprendizagem é o aluno.
O segundo caso - distanciamento entre as diretrizes pautadas pelo modelo Produtivo e as
práticas pedagógicas - parece ser uma constante, tendo em vista que a singularidade das instituições
e a condição histórica e idiossincrática dos professores marcam um estado nebuloso das próprias
concepções de ensino. Em função disso, a análise da escola contemporânea demonstra como os
três modelos Prescritivo, Descritivo e Produtivo - convivem simultaneamente, com diferentes
ênfases e graus de inuência sobre o desenvolvimento do currículo. Em muitos casos, o foco ex-
cessivo na metalinguagem descontextualizada compromete os efetivos propósitos comunicativos,
prejudicando o sentido da aprendizagem, como destaca Geraldi (2006, p. 45):
[...] o mais caótico da situação atual do ensino de língua portuguesa em
escolas de primeiro grau consiste precisamente no ensino, para alunos que
nem sequer dominam a variedade culta, de uma metalinguagem de análise
dessa variedade – com exercícios contínuos de descrição gramatical, estudo de
regras e hipóteses de análise de problemas que mesmo especialistas não estão
seguros de como resolver.
Esse cenário justica o interesse em compreender, ainda mais e melhor, o modo como as
crianças aprendem a leitura e a escrita e, por essa via, repensar os procedimentos de ensino. No
caso da presente pesquisa, entendendo a dimensão notacional como parte integrante do complexo