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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.3 20210610//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.3/JATS-journalpublishing1-3.dtd">
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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">faeeba</journal-id>
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				<journal-title>Rev. FAEEBA - Ed. e Contemp.</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. FAEEBA - Ed. e Contemp.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2358-0194</issn>
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				<publisher-name>Universidade do Estado da Bahia</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.21879/faeeba2358-0194.2025.v34.n78.p292-306</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigo</subject>
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				<article-title>AS TECNOLOGIAS NAS FRONTEIRAS DA EDUCAÇÃO-RIZOMA<sup><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup></article-title>
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					<trans-title>TECHNOLOGIES ON THE FRONTIERS OF EDUCATION-RHIZOME<sup><xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref></sup></trans-title>
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					<trans-title>TECNOLOGÍAS EN LAS FRONTERAS DE LA EDUCACIÓN RIZOMA<sup><xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref></sup></trans-title>
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				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0009-0004-9869-5185</contrib-id>
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						<surname>Rabelo</surname>
						<given-names>Cláudio Renato Zapalá</given-names>
					</name>
					<bio>
						<p><sup>*</sup> Doutor em Educação (Universidade Federal do Espírito Santo). Professor Adjunto IV no curso de Publicidade e Propaganda na Universidade Federal do Espírito Santo. Líder do Laboratório de Pesquisa em Tecnologias Criativas. Vitória, Espírito Santo, Brasil. Email: <email>claudiorabelo1@gmail.com</email>
						</p>
					</bio>
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				<institution content-type="orgname">Universidade Federal do Espírito Santo</institution>
				<institution content-type="original">Universidade Federal do Espírito Santo</institution>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic"><day>12</day><month>01</month><year>2026</year></pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2026</year>
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			<volume>34</volume>
			<issue>78</issue>
			<fpage>292</fpage>
			<lpage>306</lpage>
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					<day>08</day>
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					<year>2025</year>
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					<day>23</day>
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					<year>2025</year>
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				<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
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			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Este artigo problematiza o conceito de educação-rizoma, ao explorar as possibilidades de produzir a educação em redes, sem com isso dicotomizar os espaços como físicos ou digitais. O problema investigado consiste em compreender como a educação universitária pode atuar diante dos desafios tecnológicos que se apresentam em meio às constantes mudanças que ocorrem nas dinâmicas sociais contemporâneas. O corpus de análise parte das microaulas produzidas como suportes didáticos para o curso de comunicação social da Ufes, também compartilhadas para milhões de espectadores em diferentes mídias digitais. Sob a perspectiva cotidianista, pela abordagem de Michel de Certeau, o trabalho evidencia entre os resultados, a potência da ocupação dos espaços midiáticos pela educação.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This article problematizes the concept of rhizome education by exploring the possibilities of producing education through networks, without dichotomizing spaces as physical or digital. The research problem consists in understanding how university education can respond to technological challenges amid the constant changes occurring in contemporary social dynamics. The corpus of analysis is based on micro-lectures produced as didactic support for the Social Communication course at Ufes, also shared with millions of viewers across various digital media platforms. From the perspective of everyday life practices, through Michel de Certeau’s approach, the study highlights, among the results, the power of the occupation of media spaces through education.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>Este artículo problematiza el concepto de educación rizomática, al explorar las posibilidades de producir educación en red, sin dicotomizar los espacios como físicos o digitales. El problema investigado consiste en comprender cómo la educación universitaria puede responder a los desafíos tecnológicos que surgen en medio de los constantes cambios que ocurren en la dinámica social contemporánea. El corpus de análisis se basa en microclases producidas como material didáctico para el curso de Comunicación Social de la Ufes, compartidas también con millones de espectadores en diferentes medios digitales. Desde una perspectiva cotidiana, a partir del enfoque de Michel de Certeau, el trabajo destaca, entre sus resultados, el potencial de la ocupación de los espacios mediáticos por parte de la educación.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>novas tecnologias</kwd>
				<kwd>educação superior</kwd>
				<kwd>mídias digitais</kwd>
				<kwd>cotidianos escolares</kwd>
				<kwd>comunicação em redes.</kwd>
			</kwd-group>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>new technologies</kwd>
				<kwd>higher education</kwd>
				<kwd>digital media</kwd>
				<kwd>school everyday life practices</kwd>
				<kwd>networked communication.</kwd>
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				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>nuevas tecnologías</kwd>
				<kwd>educación superior</kwd>
				<kwd>medios digitales</kwd>
				<kwd>cotidianidad escolar</kwd>
				<kwd>comunicación en red.</kwd>
			</kwd-group>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>1. Introdução</title>
			<p>Após mais de 37 mil votos, discussões públicas globais e a análise da linguagem de dados, <italic>brain rot</italic> foi eleita a palavra do ano de 2024 pela Universidade de Oxford<sup><xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref></sup>. A escolha foi resultado de uma pesquisa anual de verbetes para a inclusão em seu dicionário. A expressão que se traduz literalmente como “podridão mental” se refere aos discursos circulantes que atribuem uma espécie de retrocesso intelectual coletivo, relacionado ao consumo exacerbado daquilo que seria considerado uma espécie de lixo cultural. Como pode a educação ser tradada midiaticamente como a antítese dos afetos da alegria? Como “concorrer” pela atenção de jovens estudantes com o imediatismo das novas interfaces midiáticas? Este artigo tem a proposta de problematizar o conceito de educação-rizoma, além de atualizar os desdobramentos de um projeto realizado durante o estágio pós-doutoral em educação na Ufes, sobre os desafios didáticos diante da crise da atenção em uma sociedade hiperestimulada. O método cotidianista, na perspectiva de <xref ref-type="bibr" rid="B9">Certeau (1998)</xref> é aqui utilizado como um dos principais escopos metodológicos. Isso significa dizer que os dados são produzidos à medida em que são colhidos. Neste método considera-se fundamental exercitar um olhar atento aos signos dos cotidianos, produzidos taticamente e inventivamente pelos sujeitos envoltos nas redes da pesquisa, aqui considerados principalmente os estudantes das disciplinas de novas mídias e teorias contemporâneas, no curso de Comunicação Social na Ufes, além dos usuários que interagem com os conteúdos postados nas redes pessoais do pesquisador. Como parte deste processo, foram produzidas mais de 200 microaulas, com duração de até três minutos postadas no Tiktok, Instagram e Youtube. Os temas variados que enredam assuntos universitários, com passeios pela literatura, filosofia, antropologia, psicologia, cultura contemporânea, história, mitologia, comunicação e educação, foram voltados para um público heterogêneo, com linguagem acessível e espaço para diálogos. Os materiais se tornaram recursos didáticos nas aulas presenciais, ampliando as questões que surgiam nas redes, para os espaços sensíveis de mediação. A intenção consiste em desmitificar a ideia de que os públicos consumidores de mídias sociais são presumivelmente rasos, como a ordem dos discursos parece querer tratá-los. Eles não anseiam, necessariamente, por conteúdos “podres” ou vazios, mas também por educação e cultura.</p>
			<p>O resultado do projeto, que foi realizado durante o estágio pós-doutoral em educação na Ufes, realizado entre 2023 e 2024, contemplou nossos objetivos, ao considerar os movimentos cotidianos diversos, táticos, que poderiam passar despercebidos tanto no aspecto netnográfico, quanto nas dinâmicas da sala de aula. Um vídeo de até três minutos não se encerra nele mesmo. Pode gerar ou ampliar interesses de leitura, aproximar os públicos da escola e desmitificar a elitização ou o distanciamento social da academia, além de promover debates públicos e convidar os docentes para a ocupação das redes. O projeto que conquistou o primeiro lugar no prêmio Educador Transformador na categoria estadual e terceiro lugar na etapa regional, resultou não somente na extensão do papel universitário para milhões de espectadores nas redes sociais, mas também na mudança da dinâmica da própria sala de aula presencial.</p>
			<p>Na sequência, apresento uma breve história da comunicação e das mudanças sociais condicionadas em meio às tecnologias de cada tempo, a fim de compreender melhor os desafios pedagógicos na contemporaneidade. Com isso, a proposta discursiva aqui se apresenta como um convite para que o campo da educação ocupe, em redes, os múltiplos espaços midiáticos a as tecnologias comunicacionais emergentes.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Sobre os des - envolvimentos tecnológicos</title>
			<p>Há que se considerar a temporalidade da história em uma inextricável relação com as suas tecnologias. O domínio do fogo acompanhou o surgimento de uma considerável revolução cognitiva quando comparamos aos milhões de anos que o antecederam. O aquecimento da proteína reduziu o tempo de mastigação e digestão, ressignificando o uso do tempo dedicado às atividades cotidianas, além de promover a cultura dos encontros, como uma pré-história da educação em redes. Não seria estranho considerar a fogueira como uma forma ancestral da sala de aula. Isso representou um salto na dinâmica social. Muito mais do que o deslocamento em direção a um paradigma nos termos da caça e da coleta, tal tecnologia também ajudou no estabelecimento de uma nova relação com o tempo, uma vez que, juntamente com esta forma de poder/fazer/saber se engendraram modelos de vida social também noturnos. Costella ilustra bem a questão da temporalidade e das novas dinâmicas sociais a partir de cada tecnologia de comunicação:</p>
			<disp-quote>
				<p>Observemos como se transformou a vida humana. Em 99% desses 500 mil anos, alterou-se relativamente pouco. O homem aprendeu a fazer algumas ferramentas e armas com paus e pedras, a pintar na parede das cavernas e a plantar e colher. A partir de um grito primordial, conseguiu ainda desenvolver a fala, graças à qual pode conversar, exprimir sentimentos e melhor compartilhar experiências com os membros do grupo. De qualquer modo, foi ainda bem pouco para quase cinco centenas de milhares de anos. (1997, p. 22)</p>
			</disp-quote>
			<p>Posteriormente, há aproximadamente cinco mil anos, a humanidade experienciou a ascensão da escrita, como uma tecnologia articulada com tantas outras, a exemplo da cultura da gravação dos caracteres nas pedras de argila, em peles de animais, assim como a produção rudimentar do papel. As tecnologias, então, não se caracterizam pelos objetos, mas pelas culturas tecidas em redes. As forças dos cotidianos são sustentadas pelas diferenças sutis, resultantes das táticas experienciadas pelos sujeitos nessas redes. Alves amplia a questão:</p>
			<disp-quote>
				<p>Nos modos de pensar que se expressam no cotidiano, as coisas se passam de modo diferente: nenhuma ordem, com pensamentos que se cruzam e que mudam de rumo o tempo todo, referindo-se a <italic>espaçostempos</italic> que não apresentam nenhuma lógica nas aproximações que fazem uns dos outros... A esses modos outros de pensar, fomos chamando de “redes” que, em nosso caso, dizemos serem “educativas”, já que nelas nos interessavam os processos justamente de reprodução, transmissão e criação de conhecimentos e significações, os processos de <italic>aprendizagemensino</italic>, os processos curriculares. (<xref ref-type="bibr" rid="B2">ALVES, 2013</xref>, p. 81).</p>
			</disp-quote>
			<p>Consideramos a diferença, assim como <xref ref-type="bibr" rid="B14">Deleuze (2006)</xref>, como uma questão conceitual, inspirada na impossibilidade do significante inalcançável, tal como proposto por <xref ref-type="bibr" rid="B16">Derrida (1995)</xref>. Assim, as mínimas inventividades, os sutis movimentos táticos do sujeito ordinário (<xref ref-type="bibr" rid="B9">CERTEAU, 1998</xref>) sobre as tecnologias do dia a dia, são pontos do rizoma (<xref ref-type="bibr" rid="B12">DELEUZE, 1995</xref>) que se potencializam mais por suas fronteiras do que pela ontologia do objeto. Sobre a escrita, por exemplo, sua potência não se materializa como tecnologia histórica isolada, mas em cenários condicionantes, em meio aos ambientes sociotécnicos em que se produz. Tal perspectiva foi tratada por <xref ref-type="bibr" rid="B31">Lévy (1999)</xref> ao abordar as questões tecnológicas diante da cibercultura. Muito além de suportes de leituras, os registros escritos foram consumidos por produtores de cultura. De maneira parecida, as redes sociais, a inteligência artificial, as tecnologias móveis nada representariam sem os sujeitos que nelas, com elas, por elas ou contra elas atuam em redes.</p>
			<p>Pensemos na faca como um artefato isolado. Quando imbuída de significado histórico passa a compor cenários de contemplação antropológica, sendo exposta nos museus. Por outra perspectiva, às margens da sociedade, o objeto se torna ferramenta bélica ou criminal. Nas mãos dos <italic>chefs</italic> de cozinha toma as formas de uma tecnologia culinária e nos teatros seu signo se eleva como elemento transcendental de uma composição narrativa. Facas ainda podem ser utilizadas por ourives, colecionadores, açougueiros, trabalhadores de oficinas mecânicas e até mesmo por mágicos ou malabaristas que tentam sobreviver da arte do equilíbrio em exibições nos semáforos dos centros urbanos. Assim, as coisas não passam de artefatos brutos, até que a criatividade humana seja capaz de atribuir-lhes função, sempre ressignificada, cultivada em redes de inventividades sutis, formando, assim, as tecnologias.</p>
			<p>Assim também ocorre nos domínios da comunicação e da educação, onde habitam os campos de pesquisa aqui tratados. As tecnologias não estão nas “coisas”, por onde se materializam os fenômenos que se apresentam à percepção sensorial, mas nos usos. Por exemplo, <xref ref-type="bibr" rid="B28">Kant (1999)</xref> problematiza a oposição entre fenômeno e “númeno”, que possibilitaria a existência dos conceitos para além do sensível, do perceptível ou cognoscível. Assim, também entendo que nossos artefatos transcendem a ontologia do objeto, ao enredar usos, aprendizagens, culturas e ressignificações em redes. Sobre o númeno, Hulshof complementa:</p>
			<disp-quote>
				<p>Na medida em que desvela uma atividade ou espontaneidade própria à razão na produção de conceitos, que se diferencia da atividade de síntese do entendimento, Kant não se refere mais ao conceito de númeno apenas como um “conceito-limite” para o conhecimento teórico. Passa a atribuir a este também uma função de abertura para o pensamento de objetos suprasensíveis. [...] Para conceber algo suprassensível, exigido por princípios que lhe são próprios, a razão prolonga a unidade sintética pensada nas categorias até o incondicionado. (2012, p. 20)</p>
			</disp-quote>
			<p>O registro escrito ajudou a delinear sociedades e modelos de pensamento peculiares às múltiplas épocas, locais e contextos. De Sócrates, ou dos pré-socráticos, por exemplo, predominava uma pedagogia baseada na oralidade, pouco acessível para a maior parte da população, há mais de 2400 anos. Independente das controvérsias que o colocam como um mito ou uma figura histórica que inspirou o futuro da filosofia ocidental, não há que refutar sua importância na cisão de um modelo de pensamento que a partir de então se produziu na temporalidade do texto escrito. Já Platão, com a formação da Academia e em seguida Aristóteles, com a criação do Liceu, foram capazes de disseminar modos epistemológicos, que estabeleceram as bases de grande parte do pensamento ocidental. Enquanto Platão considerava que as ideias criavam a realidade, capazes inclusive de dissimular o real, o segundo defendia que a realidade estava pronta para ser descoberta a partir da experiência sensível. Assim, não seria estranho creditar à Platão considerável parte das bases do pensamento crítico. E quanto a Aristóteles, podemos aceitar que seu fundamento filosófico ajudou a forjar os alicerces do rigor científico moderno.</p>
			<p>Pessoas, tecnologias, linguagens e contextos, vistos em uma perspectiva que considere a indissociabilidade e a não hierarquização, são pontos de atenção na análise das tendências. A visão teórico-epistemológica de uma educação-rizoma, deve questionar como o modo contemporâneo de pensar a sociologia, a antropologia, a matemática, a física, a psicologia, as artes, a economia, a política, a comunicação e os mais diversos modos de saber foram rizomaticamente produzidos, em redes, com o surgimento de cada tecnologia e como cada ponto deste rizoma foi capaz de modificar a dinâmica do fluxo de informações. Ferraço contribui com a visão aqui apresentada ao afirmar que</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] em nossas pesquisas com o cotidiano das escolas, nossa atenção está voltada para as práticas realizadas nas redes tecidas e compartilhadas pelos sujeitos, buscando, sempre que possível, superar uma abordagem centrada no indivíduo. (2011, p. 20)</p>
			</disp-quote>
			<p>Assim, pensar uma educação-rizoma não exclui a possibilidade da existência dos critérios, das especializações e do rigor, características herdadas de uma visão moderna de mundo, mas abre mão da inocência em torno da pureza ontológica de um objeto. Da mesma forma como o manejo do fogo possibilitou as condições para uma revolução cognitiva, a produção do papel e a escrita também fertilizaram cenários para a ampliação do fluxo espacial e temporal nos domínios do conhecimento. Com o registro das mitologias, a linguagem da propaganda passava a conquistar alcance exponencial, alimentando as narrativas que tentavam gerar modelos capazes de responder ao que era incompreensível à cada época ou local.</p>
			<p>No século XV, por exemplo, a prensa de tipos móveis, de Guttemberg, representou um marco, em um lento processo de popularização do livro e da difusão da própria imprensa ao redor do globo, em um fluxo que possibilitou a criação de uma nova espacialidade/temporalidade. As obras passaram a ser traduzidas nas mais diferentes línguas românicas, libertando-se do papiro, como suporte e do latim, como expressão.</p>
			<p>Os livros foram condicionantes fatores de propulsão para a revolução científica. Muitos daqueles considerados gênios, que cresceram como religiosos ortodoxos, como Baruch Espinosa, não tinham acesso facilitado às tecnologias do conhecimento. Ainda no século XVII, precisavam primeiramente aprender o latim, para em seguida ter acesso aos escritos de René Descartes, Thomas Hobbes e Maquiavel. Ademais, havia a perseguição religiosa tanto por parte da inquisição católica em grande parte da Europa, dos <italic>predikanten</italic> protestantes holandeses ou das comunidades que consideravam muitas das ideias sustentadas pela razão, como heréticas. Autores foram perseguidos, banidos, presos, torturados ou executados, antes que suas obras pudessem ser disseminadas publicamente. Suas palavras não se alinhavam “às coisas” da época. Embora massacrado politicamente e incompreendido socialmente, Espinosa teve suas ideias reconhecidas e sua voz foi ampliada por seus pares. Assim, muito além das palavras, os livros registram conceitos, que independem do suporte e atravessam as redes. Deleuze corrobora com a ideia da filosofia da práxis, ao concordar que:</p>
			<disp-quote>
				<p>Em Espinosa, a verdade é como a liberdade: elas não são dadas em princípio, mas surgem como sendo o resultado de uma longa atividade através da qual produzimos ideias adequadas, escapando ao encadeamento de uma necessidade externa. Nesse aspecto, a influência espinosista é profundamente empirista. (2017, p. 102)</p>
			</disp-quote>
			<p>No século XIX a comunicação passou a experimentar a velocidade da eletricidade. Cabos submarinos permitiram que a informação pudesse circular no ritmo dos telégrafos. As ondas de rádio, juntamente com a profusão das redes internacionais de notícias que alimentavam os jornais impressos, ajudaram a delinear modelos de opinião pública que tanto afetaram o início do século XX. A partir de então, o discurso da propaganda ganhou maior impulso, auxiliando modelos coloniais de exploração, regimes de terror, perseguições políticas e genocídios. Posteriormente, como heranças das guerras, se alguns regimes autoritários se formaram sobre o pretexto do estabelecimento de um ideal socialista, do outro a “América” começava a revelar as heranças de uma guerra civil mal resolvida. Como resultado, percebemos hoje como a estratégia do discurso da propaganda não se restringe apenas aos apelos comerciais, mas passou a ganhar espaço nas redes de pessoas “comuns”, com suas preocupações em torno de temas como a segurança pública e o crescimento econômico, em uma confusão algorítmica capaz de amalgamar questões sociais fundamentais, em torno de debates acalorados e distorcidos, envolvendo questões de gênero, sexualidade, diásporas coloniais, classes sociais e capacitismos.</p>
			<p>Ainda sobre o século XX, podemos dizer que representou um profuso momento de interesse para os pesquisadores da comunicação, que estudavam a mídia a partir de múltiplas esferas epistemológicas. A teoria hipodérmica, também conhecida como a “teoria da bala mágica”, foi uma tentativa primária de compreensão da mídia como corpus de análise. Em uma visão superficial, a TV parecia exercer uma influência direta sobre as mentes e a manipulação das massas. Como os sujeitos eram afetados pelas mensagens, separados por paredes, supostamente não tinham o poder de discutir e questionar a veracidade daquilo que consumiam enquanto informação.</p>
			<p>Como uma espécie de continuidade, <xref ref-type="bibr" rid="B29">Lasswell (1972)</xref> criou um modelo que tentava dar conta de simplificar a complexidade do processo de comunicação: quem (emissor) diz o que (mensagem) a alguém (receptor) com uma linguagem (código) a quem (receptor) com qual efeito (significado produzido). Os teóricos críticos passaram, então, a questionar o uso dissimulado do cinema, da publicidade e dos programas de rádio e tv como formas de manipulação e alienação das massas. <xref ref-type="bibr" rid="B1">Adorno e Horkheimer (2002)</xref> problematizaram a criação daquilo que seria uma “indústria cultural”, ou seja, a criação de conteúdo pré-moldado para vender produtos, serviços e ideias “enlatados”, prontos para o consumo fácil e com pouca margem para a criticidade. Diversas perspectivas atuais abordam as questões ritualísticas, mitológicas e religiosas dos meios de comunicação de massa, a exemplo de <xref ref-type="bibr" rid="B32">Lindstrom (2012)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B24">Harari (2015)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B33">Lipovetsky (2004)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B5">Baudrillard (1991)</xref>. Destaco a observação do pesquisador das teorias de comunicação, Dênis McQuail, sobre o tema:</p>
			<disp-quote>
				<p>O modelo ritual implica um mundo privado, onde as rotinas são seguidas, sobretudo para benefício dos participantes e dos seus clientes. Ambos captam alguns elementos da realidade (em si própria muito heterogênea). O modelo de publicidade ajuda a recordar que a comunicação de massas é, muitas vezes em primeiro lugar, um negócio e é assim tratada. As suas raízes estão tanto no teatro e no entretenimento como na política, na arte e na educação. A aparência, o artíficio e a surpresa (os fundamentos da lógica dos media) contam, muitas vezes, mais do que a substância, a realidade, a verdade ou a relevância. (2003, p. 303).</p>
			</disp-quote>
			<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B7">Benjamin (2015)</xref>, a obra de arte perderia a sua aura, seu caráter contemplativo e ritualístico em meio àquilo que considerava a era da reprodutibilidade técnica, onde a cultura encontrava tecnologias capazes de torná-la massiva. Neste sentido, a arte apropriada pela indústria da mídia, serviria como mecanismo de poder e controle. Já os teóricos funcionalistas tentavam buscar formas de justificar a comunicação social como um campo de estudos fértil e útil para a vida cotidiana. Posteriormente, os estudos culturológicos e da persuasão defendiam a ideia de que a mídia não produzia simplesmente uma cultura que seria socialmente reproduzida, mas se alimentava das crenças, hábitos e costumes para criar mensagens cada vez mais palatáveis. Já a teoria dos efeitos limitados evitava superestimar o poder da mídia, cujo poder de forjar sentidos de real era restrito em razão de outros fatores de influência, como a família, as religiões, as culturas locais e a escola.</p>
			<p>A partir da década de 1970 os estudos culturais ganharam fôlego ao considerar os interesses e embates discursivos que partiam de grupos muitas vezes marginalizados e estereotipados. A diáspora negra, o feminismo, as questões atinentes aos povos originários, as sexualidades policiadas, os grupos economicamente marginalizados e as pessoas com deficiência, eram representados como protagonistas em novos discursos circulantes. Porém, ainda assim eram segmentados, compartimentados e na maioria das vezes estudados como objetos de interesse externo, como um currículo turístico, exótico e gerador da curiosidade. A diversidade se tratava de uma perspectiva que muitas vezes representava uma anulação das diferenças. Neste sentido, a lógica da inclusão parece cruel, uma vez que pressupõe a dualidade entre excluídos e benfeitores. Como respostas a essas problematizações, surgiram as lógicas pós-colonialistas, nas vozes de teóricos como Frantz Fanon, Homi Bhabha e Stuart Hall. Já o pós-estruturalismo, com seu caráter transdisciplinar, foi disseminado academicamente, com perspectivas de Michel de Certeau, Gilles Deleuze, Felix Guattari, Jacques Derrida, Edgar Morin e Michel Foucault. Tais autores, em alguns momentos, passaram a incomodar a <italic>doxa</italic> ocupada por parte da cátedra, ao pensar criticamente os paradigmas da modernidade e das ciências modernas, assim como as heranças metodológicas inspiradas nos modelos das fábricas, dos hospitais, dos hospícios, dos presídios e das escolas.</p>
			<p>O método cotidianista, aqui tomado como principal modo de análise, se justifica neste contexto. Não desconsideramos que as ciências modernas trouxeram contribuições inestimáveis para a esfera social, porém o modelo de pensamento baseado nas hierarquias, serialidades, relações de causa e efeito e dicotomias ditam, muitas vezes, paradigmas avessos à complexidade que a contemporaneidade exige. O pensamento a priori ditado pela razão passa muitas vezes a ser apropriado politicamente e discursivamente para justificar a indução política, sendo distorcido na forma de uma profusão de clichês, frases de efeito e discursos de ódio baseados na repetição incansável. Se o registro fotográfico já foi prova científica de existência material, hoje não há como refutar como a hiper-realidade manipulada passou a ser usada para a promoção de notícias falsas. E assim, as ciências sociais precisam ajustar suas lentes, voltando seus olhares para uma crítica de seus próprios paradigmas, por meio de problematizações que consideram o rizoma, os múltiplos pontos de entrada, as fronteiras, o não dito e a potência dos discursos menores.</p>
			<p>As tecnologias, as culturas, os <italic>saberesfazeres</italic>, a sociotécnica, a configuração política e religiosa, a distribuição de poderes, recursos e ideias formam o espírito de uma época e são capazes de criar regimes de verdade. As palavras e as coisas produzem estéticas de existência e sentidos de real, principalmente quando suas tecnologias são condicionantes para a materialização de mitologias políticas. Isso ganha escala exponencial na era dos algoritmos.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>3. Sobre algoritmos, simulacros e regimes de verdade</title>
			<p>Pertinente se torna pensar na revolução tecnológica da literatura, em redes, ocorrida nas últimas décadas. Das edições impressas nos mais diferentes idiomas, passando pelas formas de impressão e acabamento, as versões em braile, audiolivros, formatos digitais, edições de bolso, clubes de assinatura, premiações e adaptações transmidiáticas para games, filmes, séries, episódios de podcast e aulas no Tiktok, os livros são muito além de suportes, mas mídias que se hibridizam, reconfiguram e ressignificam histórias milenares, como aquelas contadas nas pinturas das cavernas de Lascaux e nas tábuas que contém os registros de Gilgamesh. Muito além de disseminar a história, a mitologia e o teatro, os livros também representaram um papel essencial na profusão do conhecimento e da ciência nas mais distintas perspectivas epistemológicas, com a ampliação dos diálogos multidisciplinares a partir da popularização das bibliotecas.</p>
			<p>As tecnologias só produzem sentidos de real nas tessituras materiais e políticas de cada época. Quais eram as condições humanas, tecnológicas e laborais no século XVII, quando Karl Marx publicou seu manifesto comunista? Como, nos períodos pós-guerra, a televisão e a publicidade eram usadas, problematizadas e experienciadas como formas de reafirmação neocolonial? Como os algoritmos têm sido usados atualmente como máquinas de desinformação, ódio e polarização política? Isso corrobora com o convite de <xref ref-type="bibr" rid="B21">Foucault (2000)</xref> para uma arqueologia capaz de relacionar as palavras e as coisas. Da mesma forma que, ao arqueólogo, não interessa exatamente saber como foi a vida do sujeito, cujos restos foram encontrados em um sítio arqueológico, mas sim compreender como eram os hábitos, costumes, políticas e contextos históricos de sua comunidade, também nos interessa problematizar como as tecnologias da sociabilidade contemporânea distribuem discursos capazes de tornar a complexidade dos devires, das diferenças, dos modos de existir e das pluralidades cotidianas inventivas, em clichês profusamente repetidos em formas de polarizações políticas vazias.</p>
			<p>Opiniões do senso comum circulam por meio de <italic>bots</italic>, com mensagens automáticas patrocinadas e viralizadas, de forma a tornar o inverossímil verossímil. Discursos recortados ou editados se revestem com a linguagem jornalística, a fim de disseminar notícias capazes de creditar sentidos de real para mensagens que ressignificam a verdade das ciências, justificando absurdos como a forma plana da Terra ou a descredibilização das vacinas em enunciados disfóricos. Interesses políticos em torno das questões agrárias, armamentistas, religiosas, sociais e econômicas têm sido dissimuladas em forma de discursos desidiosamente efêmeros nas redes sociais. Foucault pareceu prever o imaginário distópico que experimentamos na contemporaneidade, ao dizer que:</p>
			<disp-quote>
				<p>Convenientia, aemulatio, analogia e simpatia nos dizem de que modo o mundo deve se dobrar sobre si mesmo, se duplicar, se refletir ou se encadear para que as coisas possam assemelharse. (1999, p. 35)</p>
			</disp-quote>
			<p>A educação dificilmente é tratada como prioridade política, independente do tempo e lugar na história da humanidade. Não seria de estranhar a contemporânea demonização do trabalho intelectual. Tal fenômeno inflama o ódio até mesmo por parte da população oprimida pelos discursos que as alimentam. Ironicamente a expressão “ideologia” foi apropriada discursivamente e difundida pela propaganda em mídias algorítmicas, como sinônimo de manipulação de uma suposta “esquerda” mítica. Os algoritmos difundiram a ideia de que a ideologia, seria então um elixir mágico a serviço de uma revolução opressora em massa, capaz de destruir modelos considerados tradicionais de moral. Enunciados que proliferam em variações de frases como: “chega de mimimi”, “pra que vitimismo?”; “universidades doutrinam”, circulam por meio de <italic>bots</italic> e são reproduzidas por pessoas comuns em interfaces digitais ou espaços concretos de mediação comunicacional. Como caracterizar os tempos atuais?</p>
			<p>Experienciamos a era da complexidade (<xref ref-type="bibr" rid="B36">MORIN, 2005</xref>), dos simulacros (<xref ref-type="bibr" rid="B5">BAUDRILLARD, 1991</xref>), da cibercultura (<xref ref-type="bibr" rid="B31">LÉVY, 1999</xref>), do espetáculo (<xref ref-type="bibr" rid="B11">DEBORD, 1997</xref>), das relações líquidas (<xref ref-type="bibr" rid="B6">BAUMAN, 2001</xref>). Uma sociedade disciplinar (<xref ref-type="bibr" rid="B22">FOUCAULT, 2014</xref>) que transita para um modelo de controle (<xref ref-type="bibr" rid="B13">DELEUZE, 2000</xref>), como uma espécie de supermodernidade (<xref ref-type="bibr" rid="B4">AUGÉ, 1994</xref>), ou uma hipermodernidade (<xref ref-type="bibr" rid="B33">LIPOVETSKY, 2004</xref>).</p>
			<p>Tal <italic>espaçotempo</italic> atual pode ser caracterizado por uma cultura da convergência (<xref ref-type="bibr" rid="B27">JENKINS, 2008</xref>) e consumo baseado no consumo da cauda longa (<xref ref-type="bibr" rid="B3">ANDERSON, 2006</xref>), onde as multidões (<xref ref-type="bibr" rid="B25">HARDT e NEGRI, 2005</xref>) substituem as lógicas das massas. Não são poucos os conceitos que tentam dar conta de uma compreensão problematizadora da contemporaneidade. Novos verbetes ampliam os dicionários, com expressões que envolvem os temas em torno do pós-humano, da inteligência artificial, do racismo algorítmico, das notícias falsas (<italic>fake news</italic>) e se tornam preocupações latentes dos pesquisadores nos mais diferentes campos de pesquisa e principalmente das professoras e professores que precisam mediar o conhecimento de um mundo aparentemente caótico, dentro de quatro paredes de suas instituições. Lévy questiona:</p>
			<disp-quote>
				<p>Quanto valeria um pensamento que nunca fosse transformado por seu objeto? Talvez escutando as coisas, os sonhos que as precedem, os delicados mecanismos que as animam, as utopias que elas trazem atrás de si, possamos aproximar-nos ao mesmo tempo dos seres que as produzem, usam e trocam, tecendo assim o coletivo misto, impuro, sujeito-objeto que forma o meio e a condição de possibilidade de toda a comunicação e todo o pensamento (1993, p. 11)</p>
			</disp-quote>
			<p>Se em um primeiro momento as mídias sociais pareciam dar voz às pessoas, libertando as massas de uma mitológica manipulação hipodérmica, as instituições trataram de retomar sub-repticiamente seus poderes. Assim como nos contos de fadas, usaram farelos de biscoitos para encontrar uma saída. Os <italic>cookies</italic> se tornaram, então, os meios de dominar não somente a informação, mas controlar cada etapa da jornada de consumidores nas redes e prever suas escolhas. Estes protocolos instalados em sites na internet, são capazes de registrar o movimento dos usuários em múltiplas plataformas, linguagens e formatos, personalizando as experiências comunicacionais. Mais do que meras estratégias de vendas, os <italic>cookies</italic> têm expressado papel preocupante na configuração dos sentidos de real, ao moldar opiniões e forjar massacres discursivos legitimados por espirais do silêncio. E, assim, frases de efeito, clichês fundamentados no senso comum e enunciados são reproduzidos como a <italic>doxa</italic>. A produção do sentido imediato não é singularidade de um novo mundo caracterizado pelas mediações digitais. <xref ref-type="bibr" rid="B8">Bourdieu (2001)</xref>, por exemplo, já tratava tal fenômeno como uma forma de sistema simbólico, inspirado no que Durkheim (2007) considerava como “conformismo lógico”. Para o autor:</p>
			<disp-quote>
				<p>Os sistemas simbólicos, como instrumentos de conhecimento e de comunicação, só podem exercer poder estruturante porque são estruturados. O poder simbólico é um poder de construção da realidade que tende a estabelecer uma ordem <italic>gnoseológica:</italic> o sentido imediato do mundo (e em particular do mundo social). (<xref ref-type="bibr" rid="B8">BOURDIEU, 2001</xref>, p. 09)</p>
			</disp-quote>
			<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B20">Foucault (1999)</xref>, a vontade de verdade produz sentidos do real à medida em que silencia, segrega e deslegitima outros discursos. Hoje é possível observar como tem sido patrocinada por grupos políticos em forma de centenas de milhares de perfis individuais falsos nas redes sociais. Embora a regulação iniciada com a lei de proteção de dados não tenha como principal objetivo cercear o direito individual de expressão, grupos interessados na exploração decorrente das questões agrárias, armamentistas, religiosas e econômicas têm produzido desinformação patrocinada em massa como forma de execrar e desqualificar a imprensa, as universidades, a ciência, os professores como formas válidas de informação e conhecimento. Com a estratégia da manipulação de discursos revestidos no formato de memes, virais, montagens, imagens e sons falsos gerados por inteligência artificial, grupos são constantemente ressignificados como parte marginalizada da pauta normativa. A intolerância, a segregação, a discriminação explícita e a perseguição, garantem, como apontou <xref ref-type="bibr" rid="B20">Foucault (1999)</xref>, que o discurso dissimule suas intenções, como apenas uma piada, ou uma inocente opinião contrária, buscando eleger e legitimar o que é a margem e o que é a norma.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Considerações sobre a mídia, a educação e os regimes de verdade</title>
			<p>Os romanos se inspiravam profundamente na cultura grega durante o período de transição para a era comum, isso tanto nas artes, quanto na filosofia, na arquitetura e nas religiões. Uma exceção eram os bustos, com a representação dos valores humanos pelas expressões faciais. Enquanto os gregos valorizavam os traços joviais, com a pele sem rugas ou cicatrizes e as faces que conotavam um ideal de beleza física, os romanos faziam questão de valorizar a maturidade, a experiência e a capacidade reflexiva. Neste caso, as peças ilustravam imperadores, pensadores, além de figuras mitológicas ou históricas com rostos que exibiam os traços da idade, as rugas, as bocas distorcidas, os olhares expressivos e as cabeças calvas. Essas esculturas eram chamadas “verismos”, por terem origem na palavra latina que significava “verdadeiro”. Para Mullins:</p>
			<disp-quote>
				<p>Ambos eram representações de um ideal, mas para os romanos, isso era a experiência acima da jovialidade, a sabedoria acima da inocência, a confiabilidade do estoicismo acima da beleza superficial. O verismo não só era preferência dos senadores e oficiais militares, como também de comerciantes e artesãos que tinham os traços característicos próprios esculpidos em seus túmulos. (2024, p. 33)</p>
			</disp-quote>
			<p>Aproximadamente dois mil anos após o período supracitado, a sociedade tem experimentado em uma escala global novas formas de mascarar os “verismos”. Quando o artificial passa a pautar o real, as formas de expressar o “eu” livre das “imperfeições humanas” são intensificadas. Para Sibilia, o software funciona como um bisturi para virtualizar a carne que seria considerada impura. A autora problematizava as estéticas de real criadas com o auxílio de softwares como o Photoshop e expostas em campanhas publicitárias, antes mesmo do surgimento de mídias sociais. Em seu texto, Sibilia complementa:</p>
			<disp-quote>
				<p>As novas versões da feminilidade tecnologizada superam esses antigos modelos, pois agora não é apenas a materialidade orgânica que se rejeita em proveito de um corpo mecânico considerado superior. As reluzentes damas de bits que povoam as fantasias contemporâneas também dispensam o hardware mecânico para assumirem seus corpos de puro software, ou melhor, de pura imagem imaterial. (2006, p. 284)</p>
			</disp-quote>
			<p>Além da simples distorção dos sentidos de real pelas imagens, temos experienciado a criação das bolhas por meio da ação dos algoritmos. Se os softwares de manipulação de imagens foram condicionantes para a lipofobia, por exemplo, hoje são disseminados com a profusão das redes digitais os novos fenômenos como o racismo e a transfobia algorítmicos, os atos antidemocráticos amplificados pela ação dos <italic>bots</italic> e a naturalização da necropolítica (<xref ref-type="bibr" rid="B34">MBEMBE, 2018</xref>) pela espetacularização do ódio. Conforme temos problematizado, algumas palavras têm sido ressignificadas a ponto de se tornarem expressões socialmente marginais. Destacamos três delas: a política, a mídia e a educação.</p>
			<p>A política, em vez de se tornar um convite para a participação social dos temas comuns, tem sido considerada como enunciado disfórico, tratada como sinônimo de práticas que pressupõem a corrupção e o interesse privado. Os discursos circulantes convidam para o não envolvimento público. A moral inscrita na ordem dos discursos, tende a afastar os sujeitos da política, tomada como sinônimo de coisa maculada, inapropriada para as pessoas honestas. O mesmo aconteceu com a mídia, retratada como sinônimo e espaço de manipulação e poder. Separaram discursivamente os sujeitos nas dicotomias: produtores/espectadores, ou auditório/audiência. Enquanto grupos geopolíticos controlam a informação praticamente como um monopólio, pessoas <italic>comuns</italic> passam a experimentar a sensação de algum poder enquanto discutem suas opiniões no <italic>feed</italic> das notícias jornalísticas no Instagram ou viralizam suas danças, shows de comédia e memes, monetizando bem menos do que os simulacros do sucesso inventado insistem em exibir nas redes. Os enunciados em torno da manipulação da mídia, inevitavelmente recaem sobre a descrença acerca da ética da reportagem jornalística e dos meios de informação. E, por fim, além da política e da mídia, destacamos aqui a terceira expressão, que verdadeiramente preocupa por sua distorção discursiva: a educação.</p>
			<p>Nas redes, os <italic>bots</italic> ajudam a proclamar os professores como focos de doutrinação, a ciência como perversa, as problematizações das pautas sociais como “mimimis”, e os intelectuais, a exemplo de Paulo Freire, como “energúmenos”.</p>
			<p>A seguir, trataremos com maior profundidade a questão metodológica que fundamenta este artigo, ampliando o debate sobre o cotidianismo e os dados produzidos no percurso que nos interessa problematizar.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Sobre os métodos e olhares nos cotidianos vividos</title>
			<p>O método cotidianista problematizado por <xref ref-type="bibr" rid="B9">Certeau (1998)</xref>, é aqui utilizado como uma forma de compreender as relações entre a educação e a mídia para além de um consumo passivo, considerando a responsabilidade e a inventividade dos sujeitos em redes. De acordo com Certeau,</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] a análise das imagens difundidas pela televisão (representações) e dos tempos passados diante do aparelho (comportamento) deve ser completada pelo estudo daquilo que o consumidor cultural “fabrica” durante essas horas e com essas imagens. O mesmo se diga no que diz respeito ao uso do espaço urbano, dos produtos comprados no supermercado ou dos relatos ou legendas que o jornal distribui. (1998, p. 39)</p>
			</disp-quote>
			<p>Assim, o método cotidianista não se restringe a um olhar netnográfico puro, como se pudesse ser possível distinguir uma vida on-line, à parte dos demais espaços sensíveis de mediação. Contempla, nesse sentido, as frases despretensiosamente proferidas, os comentários das mídias sociais, as conversas nas cantinas, salas de aula e corredores, os sinais sutis capturados em movimentos táticos produzidos por aqueles que <xref ref-type="bibr" rid="B9">Certeau (1998)</xref> considera como sujeitos ordinários, capazes de transformar realidades cotidianas a partir de seus movimentos táticos, quase imperceptíveis, mas repletos de inventividade. As microaulas produzidas para as mídias sociais e para as disciplinas que ministrei no curso de Comunicação Social entre 2023 e 2024, funcionaram como formas de pesquisar técnicas de ensino híbridas, que não se restringiram ao Tiktok ou Instagram, mas resultaram em convites para palestras em eventos interestaduais, desmembramentos em publicações científicas, entrevistas em canais de podcast, orientações de trabalhos de conclusão de curso, dinâmicas aplicadas em sala de aula, ou seja, tudo o que possibilita uma educação rizoma, com sua potência de transformação em redes humanas e descentralizadas.</p>
			<p>O espaço é um lugar praticado, nos lembra <xref ref-type="bibr" rid="B4">Augé (1994)</xref>. Esta premissa me acompanha nos estudos das novas mídias há alguns anos. Muito se fala sobre o vício das crianças nos aparelhos de telefone celular, nas mídias sociais e nas telas. Também circulam discursos das chamadas gerações anteriores (Baby Boomers, Geração X e Millenials) sobre o vocabulário escasso, a linguagem vulgar e a sexualização precoce das crianças e adolescentes na atualidade. Não é (e talvez nunca tenha sido) incomum tratar os jovens como alienados, viciados em jogos eletrônicos e conteúdos pouco educativos. A isso alia-se a desinformação das mídias, como as que circulam em grupos de Whatsapp, <italic>stories</italic> de Instagram ou no <italic>feed</italic> do Tiktok. Mas os mesmos adultos que julgam com tamanha facilidade aqueles que vieram depois de nós, muitas vezes são incapazes de compreender seus níveis de responsabilidade sobre este fenômeno. A educação é corpus complexo, que inesgotavelmente atravessa temas transversais, que superam a dicotomia ensino/aprendizagem.</p>
			<p>Mas para além dos problemas que envolvem a história, as políticas públicas, a desigualdade e as tecnologias, ainda assim há o desafio da atenção. Como pode a educação concorrer pela atenção de uma sociedade seduzida pelos conteúdos podres? Finalmente, inserimos para fins de problematização, o verbete da Universidade de Oxford eleito como a palavra do ano em 2024:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>(n.) Supposed deterioration of a person´s mental or intelectual state, specially viewed as a result of overconsumption of material (not particularly online content) considered to be trivial or unchallenging. Also: something characterized as likely to lead to such deterioration.</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B38">OXFORD UNIVERSITY PRESS, 2024</xref>)</p>
				<p>(n.) Suposta deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa, especialmente vista como resultado do consumo excessivo de material (não particularmente conteúdo online) considerado trivial ou incontestável. Além disso: algo caracterizado como passível de levar a tal deterioração. (Tradução nossa).</p>
			</disp-quote>
			<p>Mas será que não evoluímos em nada? Desde o domínio do fogo, ou do grito primordial, o que temos feito se restringe à sobrevivência brutal, enquanto escondemos a sujeira embaixo do tapete? Se realmente nos preocupa o fato de que a juventude dedica muito de seu tempo às mídias sociais, e isso tem gerado problemas em muitos níveis, temos alguns caminhos, alguns deles aparentemente utópicos, mas bastante possíveis. Em primeiro lugar, os responsáveis por esses jovens, poderiam orientar sobre o uso consciente da mídia em vez de terceirizar a educação para babás digitais. Porém, muitos pais ou responsáveis também não tiveram acesso à educação de qualidade, optando pelo uso das telas como muletas ou apoios para a escassez do tempo. Em segundo lugar, a pedagogia como um campo epistemológico complexo, pode questionar se não é hora de rever seus paradigmas, uma vez que os <italic>espaçostempos</italic> cotidianos não vividos em categorias assim tão fixas. A outra solução é aquela que decidi adotar e tento apresentar como proposta de política docente. Se os jovens têm suas atenções capturadas pelas mídias, por que não poderemos ocupar tais espaços com a educação? Por que não produzir conteúdo interessante e relevante, capaz de aproximar os temas da Universidade, como a literatura, as artes, a filosofia, a antropologia, a sociologia, a comunicação, a psicologia e a história, não somente dos jovens, mas também da população que tem uma visão cada vez mais estereotipada acerca do ambiente universitário? Além disso, seria possível inspirar e assim convidar outros professores para que ocupem as redes?</p>
			<p>Metodologicamente, o cotidianismo se diferencia pelo não aprisionamento técnico, mas pelas tessituras das redes, que produzem dados, sem restringi-los ao olhar do pesquisador. Ainda assim usamos as técnicas. Como corpus, delimitamos as disciplinas ministradas pelo autor deste artigo entre 2024 e 2025, assim como a experimentação cotidiana de métodos e recursos educativos. Destacamos produções de microaulas no Tiktok, Instagram, Youtube, Podcasts, Google Classroom, Curso Mooc, além da ressignificação do espaço físico, como a sala de aula invertida e as aulas em espaços atípicos. Por exemplo, uma aula sobre biopoder na perspectiva de Foucault, foi ministrada em caminhadas pelo campus universitário, com uma visita ao Museu da Vida e também ao Planetário. Neste contexto, uma microaula em vídeo foi produzida como forma de sintetizar as problematizações que envolviam a percepção da vida que não se encerra em um corpo humano. Debates, dúvidas, críticas, proposições e conversas que surgiram nessas redes, voltaram como novas questões para a salas de aula. Esse experimento contínuo e cotidiano, tem nos mostrado que a educação se torna mais potente, quando não se restringe aos muros institucionais. Para dimensionamento do alcance e engajamento, observe a tabela atualizada, até o período final de ajustes deste artigo:</p>
			<table-wrap id="t1">
				<label>Tabela 1</label>
				<caption>
					<title>Desempenho das microaulas educativas nas plataformas digitais. Período referente entre 16 de janeiro de 2025 e 15/04 de 2025 (Três meses)</title>
				</caption>
				<table>
					<thead>
						<tr>
							<th style="background-color:#c1d7ec;">MÉTRICA</th>
							<th style="background-color:#c1d7ec;">INSTAGRAM *</th>
							<th style="background-color:#c1d7ec; ">TIKTOK **</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left">Total de seguidores</td>
							<td align="center">28.419</td>
							<td align="center">50.492</td>
						</tr>
						<tr>
							<td style="background-color: #e6e7e8;">Total de visualizações</td>
							<td style="background-color: #e6e7e8;">1.600.834</td>
							<td style="background-color:#e6e7e8;">516.000</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Total de curtidas</td>
							<td align="center">139.382</td>
							<td align="center">51.000</td>
						</tr>
						<tr>
							<td style="background-color: #e6e7e8;">Total de comentários</td>
							<td style="background-color: #e6e7e8;">6.072</td>
							<td style="background-color:#e6e7e8;">5.633</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Total de compartilhamentos</td>
							<td align="center">98.185</td>
							<td align="center">8.091</td>
						</tr>
						<tr>
							<td style="background-color: #e6e7e8;">Total de salvamentos</td>
							<td style="background-color: #e6e7e8;">14.808</td>
							<td style="background-color:#e6e7e8;">7542</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Total de interações<sup>***</sup></td>
							<td align="center">285.700</td>
							<td align="center">72.266</td>
						</tr>
						<tr>
							<td colspan="3" style="background-color:#e6e7e8;;"><sup>*</sup> Análise do Insights do Instagram (perfil pessoal do autor)<break/><sup>**</sup> Análise do Tiktok Studio (perfil pessoal do autor)<break/><sup>***</sup> Total de interações refere-se à soma das curtidas, comentários, compartilhamentos e salvamentos.</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib><bold>Fonte:</bold> Do autor, a partir dos dados extraídos das mídias digitais pessoais.</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>A ideia de problematizar a educação em redes, que não se limita às interfaces digitais, já nos acompanha desde 2002. Nas últimas décadas, a questão sobre o futuro das mídias e os possíveis impactos na educação eram questões latentes e agora se apresentam como emergenciais. A popularização das mídias tem sido acompanhada da questão dos vícios, da desinformação, dos transtornos de ansiedade, depressão, <italic>burnout</italic>, distanciamento social, bullying, crise da atenção e hiperconsumo. Professores têm sido atacados e cobrados pelo protagonismo diante de um caos social que não se esgota nos processos de ensino e aprendizagem, mas que se produz em redes. O conceito de educação-rizoma dialoga não somente com a metonímia proposta por Deleuze e Guattari, mas também com a complexidade de Morin, a <italic>differànce</italic> de Derrida e o cotidiano de Certeau. O currículo praticado nas disciplinas ministradas no curso de Comunicação Social da Ufes, demonstrado como um projeto pedagógico, assim como os experimentos sociotécnicos que envolveram a produção das microaulas, resultaram em uma premiação (1º lugar Estadual e 3º lugar da Região Sudeste), no Prêmio Educador Transformador, organizado pela Bett Brasil, Instituto Significare e Sebrae. Além disso, foram milhões de espectadores impactados nas redes digitais, o que possibilitou a ampliação de convites para o compartilhamento das experiências em eventos presenciais. Porém, este artigo não se trata de um relato de experiência pessoal, mas de um convite para a atuação docente nas mais diferentes redes, em uma tentativa de educar os algoritmos.</p>
			<p>Problematizar a potência dos cotidianos em redes, considerando a educação como um rizoma, que não se enclausura na ontologia do objeto pedagógico, seu caráter locativo ou qualquer tentativa de engessamento, pode representar um ajuste de percurso para uma demanda cognitiva que se apresenta nesses tempos de hiperconectividade e crise da atenção, ou seja, aprender a aprender. Tal perspectiva, que leva em conta a complexidade dos sujeitos em redes, os currículos praticados em uma pesquisa que se produz, enquanto investiga, também é compartilhada por Ferraço:</p>
			<disp-quote>
				<p>As redes tecidas em meio à articulação dos contextos culturais, políticos, sociais, econômicos, religiosos, familiares, vividos pelos sujeitos cotidianos, produzem diferentes saberesfazeres dependendo de necessidades e/ou interesses pessoais e/ou locais, das histórias de vida, formações, valores e intenções. (2007, p. 90)</p>
			</disp-quote>
			<p>Levados para discussão em sala de aula como alternativa aos <italic>Powerpoints</italic>, e ampliados como extensões que dialogam com a sociedade, as aulas já atingiram milhões de visualizações nas três plataformas desde o início do projeto. As questões problematizadas por estudantes em ambientes presenciais eram mescladas com as conversas surgidas nas redes digitais, ampliando a potência extensionista e pedagógica. O engajamento, ou seja, a participação dos públicos foi bastante significativa em relação ao interesse nos debates acadêmicos, mesmo com o “desinteresse” dos algoritmos pelos temas que cercam a educação. Isso também tem provado que os públicos das redes sociais não são assim tão alienados e descompromissados. O que lhes falta é a oferta do conteúdo de qualidade.</p>
			<p>Para concluir o artigo, convido para uma reflexão acerca do que <xref ref-type="bibr" rid="B23">Freire (1987)</xref> pensava sobre a educação, tendo registrado na história da educação sua tão consagrada frase: “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si mediatizados pelo mundo” (p. 79). E isso nos tem inspirado para ocupar todos os espaços possíveis com educação gratuita, pública, de qualidade e sempre aberta às conversas e ao diálogo. Consideramos assim a educação que seja plural e ativa na sala de aula, mas que abrace a extensão, a pesquisa, a administração acadêmica e as políticas públicas em direção à inclusão e à transformação social.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Artigo revisado e normalizado por Rosane Vasconcelos Zanotti.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p> Resumo traduzido por Jackeline Facini Bandeira.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Resumo traduzido por Jorge Arturo Villena Medrano.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Fonte: OXFORD UNIVERSITY PRESS. Oxford world of the year. Dez. 2024. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="htpps://corp.oup.com/ word-of-the-year">htpps://corp.oup.com/ word-of-the-year</ext-link>. Acesso em 01 jan. 2024</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. A indústria cultural: o iluminismo como mistificação das massas. In: ADORNO, Theodor. <bold>Indústria cultural e sociedade</bold>. Trad. Julia Elizabeth Levy. São Paulo: Paz e Terra, 2002.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ADORNO</surname>
							<given-names>Theodor</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>HORKHEIMER</surname>
							<given-names>Max.</given-names>
						</name>
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					<chapter-title>A indústria cultural: o iluminismo como mistificação das massas</chapter-title>
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						<name>
							<surname>ADORNO</surname>
							<given-names>Theodor.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Indústria cultural e sociedade</source>
					<person-group person-group-type="translator">
						<name>
							<surname>Levy</surname>
							<given-names>Julia Elizabeth</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Paz e Terra</publisher-name>
					<year>2002</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>ALVES, Nilda. Sobre novos e velhos artefatos curriculares - suas relações com docentes, discentes e muitos outros. In: FERRAÇO, Carlos Eduardo (org). <bold>Currículo e Educação Básica</bold>. Rio de Janeiro: Rovelle, 2013.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ALVES</surname>
							<given-names>Nilda.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>Sobre novos velhos artefatos curriculares - suas relações com docentes, discentes e muitos outros</chapter-title>
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