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	<front>
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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">faeeba</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. FAEEBA - Ed. e
					Contemp.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2358-0194</issn>
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				<publisher-name>Universidade do Estado da Bahia</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.21879/faeeba2358-0194.2025.v34.n77.p99-116</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigo</subject>
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				<article-title>O ZIGUE-ZAGUE CURRICULAR: INSURGÊNCIAS ANTE POLÍTICAS DE FORMATAÇÃO
					DA DOCÊNCIA NO BRASIL</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>THE CURRICULAR ZIG-ZAG: INSURGENCES AGAINST TEACHING FORMATTING
						POLICIES IN BRAZIL</trans-title>
				</trans-title-group>
				<trans-title-group xml:lang="es">
					<trans-title>EL ZIG-ZAG CURRICULAR: INSURGENCIAS ANTE POLÍTICAS DE FORMATEO DE
						LA DOCÊNCIA EN BRASIL</trans-title>
				</trans-title-group>
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					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-8374-2365</contrib-id>
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						<surname>Faria</surname>
						<given-names>Izaque Moura de</given-names>
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						<surname>Gomes</surname>
						<given-names>Larissa Ferreira Rodrigues</given-names>
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				<label>*</label>
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal do Espírito Santo
					(UFES)</institution>
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					<city>Vitória</city>
					<state>Espírito Santo</state>
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				<country country="BR">Brasil</country>
				<email>izaque.faria@gmail.com</email>
				<institution content-type="original">Doutorando e Mestre em Educação pela
					Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Pedagogo com especialização em
					Psicopedagogia e professor da Educação Básica no município da Serra (ES). Atua
					como pesquisador nas áreas de tecnologias educacionais, currículos, avaliação,
					cotidianos escolares e formação de professores. Atualmente, exerce a função de
					Assessor do Polo-Serra da Universidade Aberta do Brasil (UAB), onde também
					administra as plataformas EducaSerra, voltada para a formação de professores à
					distância no município da Serra. Além disso, integra o grupo de pesquisa do CNPq
					intitulado “Currículos, Culturas Juvenis e Produção de Subjetividades”. Vitória,
					Espírito Santo, Brasil. E-mail: izaque.faria@gmail.com</institution>
			</aff>
			<aff id="aff2">
				<label>**</label>
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal do Espírito Santo
					(UFES)</institution>
				<addr-line>
					<city>Vitória</city>
					<state>Espírito Santo</state>
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				<country country="BR">Brasil</country>
				<email>larissa.rodrigues@ufes.br</email>
				<institution content-type="original">Doutora em Educação pela Universidade Federal
					do Espírito Santo (UFES), Mestre em Educação (UFES). Possui Licenciatura Plena
					em Educação Física (UFES) e Licenciatura em Pedagogia (ISEAT). Coordenadora do
					grupo de pesquisa do CNPQ “Currículos, culturas juvenis e produção de
					subjetividades”, membro do grupo de pesquisa do CNPQ “CICLOS”. Vitória, Espírito
					Santo, Brasil. E-mail: larissa.rodrigues@ufes.br</institution>
			</aff>
			<pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
				<day>23</day>
				<month>09</month>
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<pub-date publication-format="electronic" date-type="collection">
				<season>Jan-Mar</season>
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<volume>34</volume>
			<issue>77</issue>
			<fpage>99</fpage>
			<lpage>116</lpage>
			<history>
				<date date-type="received">
					<day>27</day>
					<month>09</month>
					<year>2024</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
					<day>12</day>
					<month>03</month>
					<year>2025</year>
				</date>
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				<license license-type="open-access"
					xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Este artigo debate currículo e formação docente, problematizando como a dinâmica
					entre prescrições e acontecimentos mobiliza, conecta e expande currículos
					ziguezagueantes e o devir-docente, ante perspectivas eficienticistas,
					burocráticas e disciplinadoras do currículo e de formatação da docência.
					Mobiliza pesquisa cartográfica realizada no/com o cotidiano de uma Escola
					Municipal de Ensino Fundamental de Serra/Espírito Santo, em 2019, tendo como
					instrumentos de produção de dados o registro em diário de campo e a constituição
					de redes de conversações. Dialoga com os conceitos de devir, desejo (Deleuze,
					Guattari, 1995), transcriação (Corazza, 2013) e redes de conversações (Carvalho,
					2009). Como resultados, considera currículo e formação docente como processos e
					possibilidades de re-existência à extinção da diferença promovida pela lógica
					neoliberal. Ressalta a produção de possíveis como meio de expandir currículos e
					docências para além do estabelecido.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This article debate curriculum and teacher education, exploring how the dynamic
					between prescriptions and events mobilizes, connects, and expands zigzagging
					curricula and the becoming-teacher against the efficientist, bureaucratic, and
					disciplining perspectives of the curriculum and the formatting of teaching. It
					mobilizes cartographic research conducted in/with the daily life of a Municipal
					Elementary School in Serra/Espírito Santo, in 2019, using field diary records
					and the formation of conversation networks as data production instruments. It
					dialogues with the concepts of becoming, desire (Deleuze, Guattari, 1995),
					transcreation (Corazza, 2013), and conversation networks (Carvalho, 2009). As
					results, considers curriculum and teacher education as processes and
					possibilities of re-existence to the extinction of difference promoted by
					neoliberal logic. It emphasizes the production of possibilities as a means of
					expanding curricula and teaching beyond the established.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>El artículo debate currículo y formación docente, problematizando como la
					dinâmica entre prescripciones y acontecimientos moviliza, conecta y expande
					currículos zigzagueantes y el devenir-docente frente perspectivas eficientistas,
					burocráticas y disciplinadoras dei currículo y de la formación docente. Moviliza
					investigación realizada en/con el cotidiano de una Escuela Municipal de
					Enseñanza Fundamental en Serra/Espírito Santo, en 2019, utilizando diários de
					campo y redes de conversaciones como herramientas de producción de datos.
					Dialoga con los conceptos de devenir, deseo (Deleuze, Guattari, 1995),
					transcripción (Corazza, 2013) y redes de conversaciones (Carvalho, 2009). Como
					resultados, considera el currículo y la formación docente como procesos y
					posibilidades de re-existencia frente a la extinción de la diferencia promovida
					por la lógica neoliberal. Destaca la producción de posibles como medio para
					expandir currículos y docências más allá de lo establecido.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Currículo</kwd>
				<kwd>Formação docente</kwd>
				<kwd>Ensino Fundamental</kwd>
				<kwd>Devir</kwd>
				<kwd>Docência</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Curriculum</kwd>
				<kwd>Teacher training</kwd>
				<kwd>Elementary School</kwd>
				<kwd>Becoming</kwd>
				<kwd>Teaching</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>Palabras-clave:</title>
				<kwd>Currículo</kwd>
				<kwd>Formación docente</kwd>
				<kwd>Educación Primaria</kwd>
				<kwd>Devenir</kwd>
				<kwd>Docência</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></title>
			<p>A implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e da Base Nacional Comum
				para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-FI) no Brasil
				representa um marco significativo nas políticas educacionais, ansiosas por
				homogeneizar a sociedade erradicando as diferenças. Sob a fachada de garantir uma
				educação de qualidade para todos, essas políticas escondem um caráter profundamente
				neoliberal e conservador, visando ao controle e à padronização do ensino. Uma
				racionalidade que faz das escolas verdadeiras máquinas de neutralização de toda a
				polivocalidade e multidimensionalidade presentes em seus cotidianos, reduzindo
				dúvidas a certezas e paradigmas, circunscrevendo e estabelecendo sentidos unívocos e
				estáveis (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Lazzarato, 2014</xref>).</p>
			<p>Ao estabelecer um conjunto de competências e habilidades rígidas e padronizadas,
				essas políticas limitam a autonomia docente e retiram a vida, enquanto profusão de
				diferenças, do currículo, transformando processos em produtos. Em se tratando
				especificamente da BNCC, temos um produto curricular em que “[...] foi reforçada a
				lógica de uma aprendizagem com base em competências, com concepção curricular
				restritiva e fortemente articulada a avaliação de tipo padronizada e estandardizada”
					(<xref ref-type="bibr" rid="B19">Dourado; Oliveira, 2018, p.40</xref>).</p>
			<p>Uma lógica racionalista para a qual nossa “pergunta central não é Ό que ou como
				ensinar’, mas por que alguns aspectos da cultura social são ensinados como se
				representassem o todo?” (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Lopes; Macedo, 2011,
					p.31</xref>). Isso por tratar-se de saberes escolhidos, elencados e seriados por
				quem sequer <italic>vivepratica<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref></italic> o
				cotidiano escolar<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>, aqui entendido enquanto
					<italic>es-paçotempo</italic> conectivo de diferentes existências e saberes em
				disputa entre si e com aqueles eleitos como universais. Insumo<xref ref-type="fn"
					rid="fn4">4</xref> ou alimentos para produção em massa de
				subjetividades/existências padronizadas e servis, a exemplo do treinamento
				empresarial, como dos atendentes de <italic>call center</italic> por exemplo
				onde</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] a conversa com um cliente deve ser rapidamente reconduzida a um ‘roteiro’,
					que o atenden-te irá, assim, ler palavra por palavra. Ele pode ser penalizado se
					‘abandonar’ o roteiro, mesmo que seja para oferecer uma resposta inteligente ou
					empática ao cliente. Assim, as prontas respostas a perguntas e as outras formas
					de civilidade são prescritas antes da conversa. (<xref ref-type="bibr" rid="B25"
						>Lazzarato, 2014, p.102</xref>).</p>
			</disp-quote>
			<p>Racionalidade em que cabe ao docente o papel técnico seguir “roteiros”. O papel de,
				diante das/os<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref> estudantes como que diante de
				máquinas aprendentes, fornecer os insumos (habilidades elencadas e ordenadas na
				BNCC) e registrar os bens produzidos por essas “máquinas”. Registros que devidamente
				inseridos num sistema gestor de educação irão gerar índices para subsidiar a escrita
				dos próximos “roteiros” assim como identificação de falhas a corrigir e responsáveis
				a penalizar e/ou treinar. Uma lógica que prima pelo desempenho, ânsia pela melhor
				relação insumo/bem, cujo objetivo é identificar erros e desvios a eliminar, no
				sentido de aumentar a eficácia e produzir competências para o pleno desenvolvimento
				da dinâmica institucional (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Lyotard,
				2009</xref>).</p>
			<p>Um sistema cruel que simultaneamente situa docentes e discentes como incompetentes.
				Produção em série de fracassos na qual a BNC-FI atua limitando “[...] as
				possibilidades de desenvolvimento profissional e pessoal, restringindo os novos
				docentes a executores da Base, um imenso reducionismo das dimensões formativas
				essenciais ao desenvolvimento de atividades educativas transformadoras” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B6">Ceschini; Franco; Mello, 2022, p.280</xref>). Ante esse
				sistema, neste artigo, problematizamos as relações entre currículo e formação
				docente, desconfiando da racionalidade moderna que anseia encapsular a vida em
				produtos. Ânsia por dirimir diferenças/disputas e impor uma pretensa igualdade,
				invisibilizando múltiplos saberes e existências outras, heterogeneidades que aqui
				enunciamos como potência.</p>
			<p>Para tal, mobilizam-se os dados de um mapa produzido através de pesquisa-intervenção
				cartográfica, orientada pelos conceitos de Deleuze e Guattari, Kastrup, Barros,
				Escócia e Benevides. Uma metodologia <italic>ad hoc</italic> produzida ao longo da
				pesquisa, a partir das pistas encontradas no cotidiano escolar, por um
				aprendiz-cartógrafo que, em constante exercício de despersonalização, produziu dados
				“com” e não “sobre” a imanência investigada. Performance metodológica que, assim
				como currículo e formação docente, constitui processo, movimento erosivo/expansivo
				de conceitos.</p>
			<p>Sendo currículo aqui enunciado como processo de ziguezaguear entre possíveis, entre
				diferentes saberes e existências, a fim de afirmar a ampla ecologia de saberes
					(<xref ref-type="bibr" rid="B32">Santos, 2007</xref>) que a racionalidade
				hegemônica por vezes tenta reduzir, disciplinar e listar. Ao passo que, a constante
				produção, expansão do devir-docente, que a cada acontecimento produz-se
				“docente-hora-do-dia” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Corazza, 2008</xref>),
				chamamos formação docente.</p>
			<p>Para colocar em análise os movimentos curriculares na educação básica brasileira,
				tomamos como pressupostos epistemológicos concepções da teoria pós-crítica. Segundo
					<xref ref-type="bibr" rid="B33">Silva (2000)</xref>, a concepção da teoria
				pós-crítica empurra a pedagogia crítica de currículo ao seu limite, pois questiona o
				essencialismo e o fundacionalismo presentes em sua episteme. Entendimento que, ao
				visar a mesma vontade de controle da epistemologia moderna, concebe um currículo
				linear, estático, objetivista, realista, dicotômico (alta cultura x baixa cultura;
				conhecimento científico x conhecimento cotidiano). Racionalidade que privilegia e se
				fecha com as grandes narrativas da ciência, do trabalho capitalista e do Estado
				Nação, trazendo o ideal de sujeito racional e autônomo da modernidade.</p>
			<p>Assim, pela via do acontecimento, que tem como modo ação a problematização, a
				abertura promovida pelas teorias pós-críticas de currículo produz um alargamento no
				campo dos possíveis e não visa a uma mera solução de problemas (<xref
					ref-type="bibr" rid="B24">Lazzarato, 2006</xref>). Esgarçamento que exige de nós
				a disponibilidade para <italic>viverpraticar</italic> as potencialidades,
				possibilidades, os possíveis que o encontro com a diferença, o outro seus saberes e
				existência criam.</p>
			<p>A diferença, portanto, é seu motor e deve ser desejada e não ignorada, ocultada ou
				extinta. Heterogeneidade que mobiliza o currículo em “[...] um efeito, um
				zigue-zague, algo que passa ou que se passa entre dois como sob uma diferença de
				potencial” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Deleuze; Parnet, 1998, p.6</xref>).
				Zigue-zague que faz as habilidades da BNCC colidirem com as mais diferentes
				existências presentes no cotidiano escolar e mobiliza a docência em um constante
				processo de formação/composição/produção coletiva – extremamente povoada – de um
				devir-docente que a cada “hora do dia” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Corazza,
					2008</xref>), a cada acontecimento, expande, produzindo docências possíveis e
				diferentes currículos ziguezagueantes.</p>
			<p>Expansão por diferenciação (expandindo o que há, tornando-o mais múltiplo,
				diferente), conexão e não acumulação; composição e mescla ao invés de depósito. Os
				movimentos de transcriação reverberam na tradução recreativa e infiel dos currículos
				escolares, produzindo saberes, fazeres outros, constitutivos de processos
				interculturais e intersociais, tratando-se de “[...] traduzir saberes em outros
				saberes, traduzir práticas e sujeitos de uns aos outros, é buscar inteligibilidade
				sem ‘canibalização’, sem homogeneização” (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Santos,
					2007, p.39</xref>). Ação transcriadora, que não se reduz a transpor, de um ponto
				a outro, saberes, conteúdos, formas ou matérias, mas que constitui processualidade
				que agencia, torce o instituído (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Corazza,
				2013</xref>), que problematiza, conecta, expande diferentes saberes e através da
				qual se afirmam existências outras para além daquela tida como ideal, universal e
				neutra. Composições heterológicas, ecológicas, rizomáticas<xref ref-type="fn"
					rid="fn6">6</xref> e expansivas de diferentes saberes e existências que no
				cotidiano escolar se encontram.</p>
			<p>Entretanto, cabe destacar que não desejamos aqui erradicar/sobrepor conceitos, mas
				fissurar certezas, produzindo possibilidades de expansão, de re-existência da
				diferença em meio a homogeneidade imposta como natural. Assim, deslocamos fragmentos
				de territórios tradicionais e realocamos, nesses territórios desbastados, sentidos
				outros (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Lopes; Macedo, 2011</xref>). Trata-se de
				fazer ver que a tradição moderna tem sistematicamente compactado currículo e
				formação docente a produtos, através de políticas como a BNCC e BNC-FI. O
				currículo-produto a ser inserido nas/nos estudantes de modo a neutralizar suas
				rebeldias, sonhos e diferenças e a formação docente, transmutada em formatação
				docente, a ser comprada por professoras/es para que se tornem bons técnicos e
				mantenedores da maquinaria escolar.</p>
			<p>No limiar textual, apresentamos a performance metodológica
					<italic>vividapraticada</italic> com a pesquisa cartográfica, destacando os
				dispositivos mobilizados na produção dos dados. Em um segundo momento, debate sobre
				o zigue-zague do currículo, pois expande os conceitos de currículo para além de um
				produto. Posteriormente problematizamos a docência enquanto devir, constante
				transformação e re -existência, tomando a formação docente como processo que também
				ocorre de modo clandestino e coletivamente nos <italic>espaçostempos</italic> do
				cotidiano escolar. Por fim, destacamos algumas considerações como exercício do
				pensamento investigativo.</p>
			<p>Assim, a aposta implicada nesses escritos visa ao zigue-zague incerto entre os
				diferentes saberes e existências imanentes ao cotidiano escolar, como possibilidade
				para fazer a docência re-existir ante as formatações que lhe são impostas. Movimento
				zigue-zague que friccionando, problematizando e conectando saberes os faz expandir,
				aquecendo e mobilizando o que estava estático e frio, um processo mobilizado pela
				diferença entre potenciais.</p>
			<p>Algo que se aproxima da definição de currículo como currere<xref ref-type="fn"
					rid="fn7">7</xref>, processo de correr – entendendo que o percurso se produz na
				corrida, durante o processo de percorrer. Currículo que, concordando com Pinar
				(1994), entendemos “[...] como um processo mais do que como uma coisa, como uma
				ação, com um sentido particular e uma esperança pública [...] uma conversa
				complicada de cada indivíduo com o mundo e consigo mesmo” (<italic>apud</italic>
				<xref ref-type="bibr" rid="B26">Lopes; Macedo, 2011, p. 35</xref>). Conversa,
				zigue-zague entre o que se produz como universal/esperança pública/comum e as
				múltiplas heterogeneidades, de saberes e existências, em relação através da docência
					<italic>vividapraticada</italic> nos <italic>espaçostempos</italic> que compõem
				o cotidiano escolar.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="methods">
			<title>A performance metodológica vividapraticada</title>
			<p>A metodologia, <italic>vividapraticada</italic> durante a pesquisa-intervenção que
				embasa este artigo foi a cartografia. Uma performance metodológica que “[...] como
				método de pesquisa-intervenção pressupõe uma orientação do trabalho do pesquisador
				que não se faz de modo prescritivo, por regras já prontas, nem com objetivos
				previamente estabelecidos” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Barros; Passos, 2015, p.
					17</xref>), mas num duplo movimento autopoiético<xref ref-type="fn" rid="fn8"
					>8</xref> de pesquisar-intervir. Investigar orientado por pistas, “[...]
				referências que concorrem para a manutenção de uma atitude de abertura ao que vai se
				produzindo e de calibragem do caminhar no próprio percurso da pesquisa” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B30">Passos; Kastrup; Escóssia, 2015, p.13</xref>).</p>
			<p>Trata-se um desafio à lógica tradicionalmoderna — de traçar um percurso com metas
				prefixadas a alcançar – ao propor que percurso e metas sejam traçados ao longo da
				pesquisa, no seu caminhar (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Barros; Passos,
					2015</xref>). Exercício metodológico que entendemos ter a mesma natureza
				disponível, imanente e processual que os conceitos de currículo e formação docente
				aqui defendidos. Motivo pelo qual escolhemos a cartografia como meio para mapear
				possibilidades de experimentar, de pesquisar-intervir, de
					<italic>viverpraticar</italic> a pesquisa em educação, afirmando a vida que
				permeia seus fluxos e faz pulsar o currículo em seus zigue-zagues e a docência em
				devir do/no cotidiano escolar.</p>
			<p>Performance que produz mapas em contraposição à decalques e aposta na produção e ação
				ao invés de representação e interpretação –, concordando que</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] se o mapa se opõe ao decalque é por estar inteiramente voltado para uma
					experimentação ancorada no real. O mapa não reproduz um inconsciente fechado
					sobre ele mesmo, ele o constrói. Ele contribui para a conexão dos campos [...]
					para sua abertura máxima sobre um plano de consistência (<xref ref-type="bibr"
						rid="B11">Deleuze; Guattari, 1995a, p. 21</xref>).</p>
			</disp-quote>
			<p>O mapa não é a representação de algo, e sim o viés de conexão entre diferentes
				territórios sobre um plano de consistência. Desse modo, não se busca aqui a
				representação de um plano em outro, a cartografia produz seus mapas – nunca fotos
				nem desenhos – na e pela consistência entre territórios, sempre entre, aliança,
				conexão (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze; Guattari, 1995a</xref>). Assim
				como entendemos, com base na filosofia da diferença, que o currículo escolar não
				deve constituir molde a ser decalcado sobre estudantes, tampouco a formação docente
				ser fôrma para padronização da docência.</p>
			<p>Pois, diferentemente da racionalidade neoliberal homogeneizante/neutralizante das
				diferenças, ansiosa pelo máximo de eficiência na recognição de seus padrões (<xref
					ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze; Guattari, 1995a</xref>), a cartografia deseja
				construir conceitos rizomática/horizontalmente. Deseja conectar diferenças e
				produzir, e pela via da problematização, inteligibilidade sem canibalização,
				hierarquização e/ou homogeneização (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Santos,
					2007</xref>), mas sim conexão, transbordo, transcriação: produção do novo a
				partir da conexão e, portanto, expansão do que há (<xref ref-type="bibr" rid="B8"
					>Corazza, 2013</xref>). O desejo é de constituir mapas enquanto composições
				heterológicas, ecológicas, rizomáticas e expansivas dos conceitos e saberes
				investigados. Desse modo, a cartografia opera desviando das certezas impostas pela
				modernidade e calcadas no decalque, identificação, comparação, representação,
				interpretação de dados e sobreposição de conceitos.</p>
			<p>Nesse processo, produzimos e enunciamos conceitos outros de currículo e formação
				docente, tendo como dispositivo para produção de dados e mapeamento de pistas o
				registro das enunciações tecidas em redes do/no cotidiano escolar investigado. A
				aposta nas redes se dá pela intensidade do fluxo de conhecimentos e significações
				produzidas, compartilhadas, experimentadas, remetendo-nos para os efeitos da
				linguagem na constituição dos currículos. Portanto, as contribuições da metodologia
				interventiva das redes de conversações que, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B4"
					>Carvalho (2009, p.188-189)</xref>, utilizam “[...] metodologicamente as
				conversações como uma tática da discursividade local, acompanhando os fluxos das
				conversações tecidas em redes de subjetividades compartilhadas”. Tática afirmativa
				de diferentes existências e problematização, conexão, expansão e transcriação de
				diferentes saberes.</p>
			<p>Sendo a conversação processo que requer ser criado e sustentado pela participação
				ativa e criativa daqueles enredados, combinando poética de participação e
				sociabilidade, articulando vozes e assuntos (<xref ref-type="bibr" rid="B4"
					>Carvalho, 2009</xref>). Redes que ampliaram e intensificaram a capacidade de
				comunicação coletiva e fizeram falar a diferença imanente naquele cotidiano escolar
				com seus encontros. Momentos e movimentos de compartilhamento, escuta sensível,
				partilha de angústias, problematizações, experimentações, conflito, conexão e
				expansão das diferenças.</p>
			<p>Encontros em que as tensões entre as diferenças se potencializaram à medida que as
				conversas eram tecidas, à medida que o currículo ziguezagueava e se
				constituía/costurava entre saberes e existências e a formação docente re-existia,
				produzindo-se em constante devir, como mapeado no registro a seguir:</p>
			<disp-quote>
				<p>gente, mas isso já havia sido dado como decidido na reunião passada
						(<italic>Praticantepensante</italic><xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref>
					n-1).</p>
				<p>Pois é, mas de lá pra cá algumas coisas mudaram
						(<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Ah não. Nós vamos discutir isso de novo? (<italic>Praticantepensante</italic>
					n-1).</p>
				<p>Complicado isso, fica parecendo que toda reunião a gente discute a mesma coisa e
					não sai do lugar (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Sai do lugar sim, só que as coisas mudam gente, normal! E por causa disso a gente
					precisa discutir quantas vezes for preciso até achar a melhor saída, como a
					gente sempre fez (<italic>Praticantepensante</italic> n-1). (Informação
					verbal).</p>
				<p>Redes de conversações e ações complexas (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Carvalho,
						2009</xref>) tecidas com as/os professoras/es
						<italic>praticantespensantes</italic> da escola Leonina<xref ref-type="fn"
						rid="fn10">10</xref>, uma escola de Anos Iniciais do Ensino Fundamental,
					componente do sistema de educação pública e municipal de Serra, Espírito Santo.
					Uma escola grande, que atende aproximadamente 800 estudantes, divididos em dois
					turnos (matutino e vespertino) e distribuídos em 32 turmas (16 em cada turno) –,
					muito bem estruturada e organizada, com diferentes
						<italic>espaçostempos</italic> para as práticas educativas.
						<italic>Espaçostempos</italic> habitados por aprendizes-cartógrafos durante
					a investigação, tencionando produzir um mapa “com” as/os
						<italic>praticantespensantes</italic> Leoninas/os e não “sobre” elas/es.</p>
				<p>Mapa/rizoma sempre que, conectando territórios, expande-se num processo erosivo
					constante de desterritorialização, reterritorialização e territorialização: de
					fuga/rompimento/desmanche, composição/segmentação e estruturação. O que só foi
					possível por se tratar de processos em contínua ramificação, processos atados
					uns aos outros (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze; Guattari,
					1995a</xref>), variando em suas intensidades pelo desejo que os mobiliza. Desejo
					de expansão por conexão dos múltiplos currículos produzidos pelo constante
					zigue-zague nos entremeios da ampla ecologia de saberes, afirmativos de
					diferentes existências, imanentes ao cotidiano escolar. Desejo capaz de
					mobilizar a docência a re-existir enquanto processo, afirmando sua autoria nas
					práticas de <italic>aprenderensinar</italic> ante às tentativas de formatação da
					docência.</p>
			</disp-quote>
		</sec>
		<sec>
			<title>O zigue-zague do currículo</title>
			<p>Para entender como a expansão ziguezaguean-te do currículo pode mobilizar a formação
				docente a re-existir, é preciso antes expandir o conceito de currículo para além da
				visão burocratizada que o reduz a produto. Matéria-prima instituída pelo sistema, na
				forma de legislações, normas, livros, programas e grades curriculares que elegem e
				catalogam saberes, imagens dogmáticas do pensamento capturadas fora dos
					<italic>espaçotempos</italic> escolares cotidianos, para recognição estudantil.
				Imagens do pensamento apresentadas como saberes essenciais e legítimos cujas
				veracidades são concebidas como universais abstratas. Haja vista que nunca é feita
				referência às forças que de fato produzem esse pensamento, nunca se relaciona o
				pensamento e suas imagens com as forças reais que os produzem e supõem. (<xref
					ref-type="bibr" rid="B9">Deleuze, 1976, p.49</xref>). Uma racionalidade ansiosa
				por homogeneizar e neutralizar as diferentes existências imanentes ao cotidiano
				escolar, através de um currículo produzido como catálogo de saberes, de insumos.</p>
			<p>Um currículo a ser aplicado visando à recognição e cuja eficiência de sua efetivação
				possa ser mensurada por meio de avaliação (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Lopes;
					Macedo, 2011</xref>), verificação dos produtos emitidos pelas/os estudantes
				sobre as/os quais os insumos curriculares foram aplicados. Avaliação elaborada pelo
				sistema que gerencia educação e currículo, e a ser aplicada pela/o docente.
				Currículo reduzido a produto, catálogo, receita, estratégia generalizável e
				mensurável que pode ser melhor “empacotada para viagem/venda”, criando a ilusão de
				ser aplicável onde quer que seja igualmente (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Alves,
					2019</xref>):</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] gente, olha que atividade mais preciosa. Já vou pedir pra imprimir minhas
					25 (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Ei, egoísta. Deixa eu ver esse ‘papel’. Imprimi 26 que uma vai ser a minha matriz
						(<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>27, colega (risos) (<italic>Praticantepensante</italic> n-1). (Informação
					verbal).</p>
			</disp-quote>
			<p>Ponto de vista que naturaliza o currículo como produto universal, que serve para ser
				aplicado sobre todas/os independentemente das diferenças entre turmas, saberes,
				experiências e existências. Perspectiva que cada vez mais tem enunciado o currículo
				como produto “[...] formalizado, abstrato e distante de conversações como um
				‘acontecimento’ na mesma proporção em que o processo de educação tem sido
				institucionalizado e burocratizado” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Carvalho, 2009,
					p. 183</xref>). Um currículo que, tendo sua gênese desconectada do cotidiano
				escolar onde é <italic>vividopraticado,</italic> não consegue se encaixar ou
				encaixar nele as/os <italic>praticantespensantes</italic> da escola. O que contribui
				para legitimar “[...] a ciência como um discurso sacrossanto à parte dos assuntos
				humanos do cotidiano, ao invés de ser considerada como uma forma específica de
				participação nesses assuntos” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Carvalho, 2009, p.
					181</xref>). Saberes tidos como produtos da ciência, em vez de processos em
				expansão pela problematização ziguezagueante entre diferentes saberes e
				existências.</p>
			<p>Basta ver a BNCC, esse produto curricular que, com suas listas de competências e
				habilidades devidamente ordenadas, aparta a produção curricular das práticas
				educativas, forçando a existência de “[...] dois momentos integrados, mas distintos:
				a produção e a implementação do currículo [e que] admitindo-se o caráter científico
				de sua elaboração, os insucessos são, com frequência, descritos como problemas de
				implementação e recaem sobre as escolas e os docentes” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B26">Lopes; Macedo, 2011, p. 26</xref>). Em um movimento que retira da
				docência seu fardo/sentido: a responsabilidade de pensar, produzir, conectar e
				expandir diferentes saberes e existências, produzindo cotidianamente currículos com
				quem <italic>vivepratica</italic> a docência enquanto relação de
					<italic>aprenderensinar.</italic></p>
			<p>Empreitada que formata professoras/es como burocratas e responsáveis pelo fracasso
				escolar, de um sistema educacional que anuncia como busca pela igualdade seu plano
				de erradicação das diferentes existências do cotidiano escolar. Pois, estando os
				saberes ideais elencados e dispostos de maneira correta, científica e “sacrossanta”
				para o ensino em seu máximo de eficiência, apenas a aplicação do currículo pode ser
				responsabilizada por eventuais insucessos, recaindo sobre a docência o rótulo do
				fracasso.</p>
			<p><xref ref-type="bibr" rid="B21">Goodson (2013)</xref>, ao discorrer sobre as
				políticas de currículo e de escolarização, destaca que os novos modelos de
				globalização e de controle estatal, a partir de 1989, passaram a focar na ação
				governamental e em órgãos empresariais, nas questões educacionais. Tal movimento
				gerou uma crise de autoria, na qual as/os agentes internas/os de mudança (docentes e
				discentes), as/os <italic>praticantespensantes</italic> do cotidiano escolar
				descobrem-se reagindo, aplicando e consumindo e não mais produzindo seus percursos
				de <italic>aprenderensinar,</italic> seus currículos.</p>
			<p>Nesse contexto, insucessos são habilmente detectados, quantificados e apresentados em
					<italic>rankings</italic> pelas avaliações externas de larga escala, as quais
				assumem o papel de forçar a efetivação de um currículo universalista elaborado,
				organizado, planejado e instituído apartado do cotidiano escolar a que se destina.
				Avaliações que abrangem a educação em todos os seus níveis e quase todas as etapas e
				modalidades da Educação Básica, podendo ser estaduais, nacionais e até
				internacionais.</p>
			<p>Instrumentos para verificação de produtos, produção de índices a partir desses e
				consequente controle, neutralização e aprisionamento do currículo
					<italic>vividopraticado</italic> nos cotidianos escolares, freando seus
				zigue-zagues e extinguindo as diferenças. E, desse modo</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] ligando o currículo da escola pública aos resultados de testes e, então,
					exigindo aos professores para produzirem melhorias nos resultados dos testes dos
					alunos: esta manobra política desempenha para a ‘direita’, autoritarismo
					cultural em nome da prestação de contas e, presumivelmente, pelas populações
					subservidas. Nesta esfera institucional de ação deslocada e diferida a ala
					‘direita’ força os professores a fazerem o ‘trabalho sujo’ político. E o faz
					invocando categorias do senso comum como ‘prestação de contas’. Assim, a coerção
					está camuflada como afirmação do óbvio. (Pinar, 2007, p.316,
						<italic>apud</italic>
					<xref ref-type="bibr" rid="B4">Carvalho, 2009, p. 182</xref>).</p>
			</disp-quote>
			<p>Essa força se intensifica através de seguidos ataques governamentais à diferença na
				educação pública, forçando aquelas/es que exercem a docência como ofício a aceitar o
				que é curricularmente imposto como algo a ser decalcado no cotidiano escolar.
				Decalques reprodutíveis ao infinito, como toda lógica arbórea de decalque e de
				reprodução (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze; Guattari, 1995a</xref>)
				conceituando os saberes conectados, porém de forma hierarquizada, vertical e linear,
				sobrepostos uns sobre os outros. O que no cotidiano escolar produz situações como a
				enunciada abaixo:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] aí meu Deus vou ter que conferir do meu diário com o plano de ensino e
					calcular pra saber quantos porcentos do currículo eu cumpri com os alunos até
					agora pra responder esse trem [questionário referente à avaliação externa
					estadual]? (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Faz assim não coleguinha, sapeca 100% aí e pronto. Eles que venham aqui te
					refutar (Aprendiz-cartógrafo).</p>
				<p>Pode fazer isso não menino (<italic>Praticantepensante</italic> n-1). (Informação
					verbal).</p>
			</disp-quote>
			<p>Registro de um currículo perspectivado como produto/insumo e que toma a avaliação
				como o método para averiguar e forçar sua efetividade. Avaliação que deverá medir a
				eficiência docente em aplicar o currículo sobre as/os discentes, através do
				atingimento das finalidades intencionadas, previstas no processo de organização e
				elaboração do construto curricular. Um currículo de caráter prescritivo, entendido
				como planejamento/organização/previsão daquilo que se deve efetivar na escola, que
				se dá com base em critérios objetivos e científicos (<xref ref-type="bibr" rid="B26"
					>Lopes; Macedo, 2011</xref>). E que tenciona precarizar a profissão docente,
				erradicando a autoria curricular do cotidiano escolar, reduzindo professoras/es a
				executores, aplicadores de práticas, de receitas curriculares e recenseadores de
				seus efeitos quantitativos, através do preenchimento de questionários.</p>
			<p>Ante e anti tais perspectivas, enunciamos aqui a possibilidade da docência
				re-existir, mobilizada pelo zigue-zague entre os diferentes saberes e existências
				imanentes ao cotidiano escolar. Inclusive aqueles currículos burocratizados.
				Currículo e formação docente enquanto processos agenciadores das multiplicidades de
				saberes e existências que, através da docência se encontram, se chocam, se conectam
				e se expandem, tramando possibilidades de re-existência.</p>
			<p>Enunciação que produzimos a partir de cartografia através da qual entendemos que a
				potência de <italic>aprenderensinar</italic> não se restringe à apropriação e
				recognição de saberes, mas estende-se através da problematização, compartilhamento,
				conexão e mobilização das diferentes existências e saberes
					<italic>vividaspraticas</italic> no cotidiano escolar. Expansão por conexão
				rizomática da vida em toda sua disponibilidade ecológica, múltipla e coletiva.
				Composição consistente de heterogeneidades sem pretensões homogeneizantes, mas
				desejo de re-existir, de afirmar diferentes existências, conectar, expandir e
				transcriar saberes.</p>
			<p>Um festival de disputas tensas e perenes de erosão, mescla e transbordo, em
				cotidianos escolares atravessados por múltiplos fluxos desejantes, com diferentes e
				também múltiplos sentidos e intensidades. Como na profusão de intensidades e
				sentidos de uma aula cartografada abaixo:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] o calendário a gente faz igual ao nosso quadro da rotina, vamos lá oh
						(<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Segunda, terça, quarta, quinta, sexta... sétim... quarenta... sábado
						(<italic>Praticantespensantes</italic> da turma em coro).</p>
				<p>Pause, pause. Pausei os dois (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Isola (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Brizola? (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Brizola (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Leonel Brizola (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Leonel de Moura Brizola (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Como faz o som do ZO? (<italic>Praticantepensante</italic> n-1). (Informação
					verbal).</p>
			</disp-quote>
			<p>Donde enunciamos que “a norma para o currículo, portanto, não é o consenso, a
				estabilidade e o acordo, mas o conflito, a instabilidade o desacordo, porque o
				processo é de construção seguida de desconstrução seguida pela construção”
				(Cherryholmes, 1988, p.149, <italic>apud</italic>
				<xref ref-type="bibr" rid="B26">Lopes; Macedo, 2011, p. 37</xref>). Processo
				erosivo, instável, ziguezagueante e imprevisível que se processa entre possíveis na
				conexão, expansão e transcriação de saberes que, para além de produtos, constituem
				processos com diferentes sentidos, territorialidades, intensidades e
				funcionamentos.</p>
			<p>Trata-se de uma “conversa complicada”, um zigue-zague entre saberes e existências –
				sempre em movimento, conexão/expansão/transcriação – comuns às/aos
					<italic>praticantespensantes</italic> da docência e àqueles perspectivados pelas
				políticas curriculares sobre e para efetivação no cotidiano escolar. Debate
				ziguezagueante que mobiliza a docência em devir por diferentes sentidos:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] na sala de vídeo cabem no máximo duas turmas e mesmo assim apertado,
					auditório está reservado para ensaios de apresentações e não acho viável ir de
					sala em sala montando datashow e tal (<italic>Praticantepensante</italic>
					n-1).</p>
				<p>Tá, mas ficar sem fazer é que não vamos né? (<italic>Praticantepensante</italic>
					n-1).</p>
				<p>Claro, por isso é que estamos aqui procurando uma solução
						(<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>A biblioteca é uma opção? (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Seria, mas por conta da obra nas salas do anexo ela será usada como sala de aula
					a partir de amanhã. Na verdade, a sala de vídeo também será
						(<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Caramba, tem que ter uma solução, as crianças estão ansiosas pra ver os filmes
					com a tradução simultânea até pra ir praticando [Libras]
						(<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Oh, se a diretora autorizar eu acho que tem um lugar
						(<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Onde? (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Embaixo da escada, dá pra projetar ali com o datashow apontando do chão pra cima
					e as crianças assistem sentadas no chão ali perto e até das mesas do refeitório
					dá pra ver (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Bom que dá pra ficar durante o recreio já passando alguma coisa pra dar um
					gostinho pra quem estiver passando por ali, lanchando e tal. O que acham?
						(<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Bacana, mas precisa ver com a coordenação antes
						(<italic>Praticantepensante</italic> n-1). (Informação verbal).</p>
			</disp-quote>
			<p>Um zigue-zague entre possíveis – produzidos nas práticas educativas de um devir
				docente que, em transformação, conecta agenciamentos, vozes que, mesmo tendo nomes
				(BNCC, Projeto Político Pedagógico, saber pessoal), característica de discurso
				direto, são constituídas de discurso indireto (<xref ref-type="bibr" rid="B12"
					>Deleuze; Guattari, 1995b</xref>). Diferentes vozes que – quer se enunciem
				generalizantes ou singularizadas – nos acontecimentos entram em relação através de
				múltiplas redes de conversações e ações complexas (<xref ref-type="bibr" rid="B4"
					>Carvalho, 2009</xref>) tecidas na/pela docência, apostando “[...] na dimensão
				da conversação para a recriação de saberes, fazeres e afetos da/na escola como uma
				comunidade” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Carvalho, 2009, p.188</xref>).</p>
			<p>Expansão, conexão e transcriação coletiva de saberes e afirmação de existências que
				situam o currículo como processo, “[...] um efeito, um zigue-zague, algo que passa
				ou que se passa entre dois como sob uma diferença de potencial” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B16">Deleuze; Parnet, 1998, p.6</xref>), que transborda,
				expande e ramifica-se de modo imprevisível a cada acontecimento da docência.
				Acontecimentos – contemporaneidades do tempo (<xref ref-type="bibr" rid="B24"
					>Lazzarato, 2006</xref>) – que se constituem nos <italic>espaçostempos</italic>
				da docência no cotidiano escolar, como instantes em que algo passa. Em que algo se
				agencia entre corpos e expressões pela problematização produzindo possíveis, outras
				potências expansivas de conceitos, perguntas e também respostas a problematizar.
				Tendo em conta os enunciados cartografados entre as/os
					<italic>praticantespensantes</italic> de uma aula:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] você fez esse como? (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Faz aqui pra mim? (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Olha a minha borracha. Quer emprestada? (Praticantepensante n-1).</p>
				<p>Agora é só colorir. Vai logo (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>11,12,13,14,15 e ... 16! O 16 é o 1 e o 6? (<italic>Praticantepensante</italic>
					n-1).</p>
				<p>Não sei (Aprendiz-cartógrafo).</p>
				<p>É né? (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Eu não sei (Aprendiz-cartógrafo).</p>
				<p>É sim! Eu quero acertar tudo pra minha mãe me dar um presente. Ela falou que vai
					olhar meu caderno todo dia (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).
					(Informação verbal).</p>
			</disp-quote>
			<p>Instantes de partilha, de burlas, de negociação e também de angústia ante as
				promessas de recompensas condicionadas à vigilância disciplinar de quem “vai olhar o
				caderno todo dia”. Encontros entre diferentes existências e saberes, através dos
				quais o zigue-zague curricular se intensifica, e nos quais aqueles que já trazem
				respostas todas prontas, que não estão disponíveis aos possíveis “[...] perdem o
				bonde do acontecimento” (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Lazzarato, 2006, p.
					23</xref>). Deixam de ser tocados pela experiência e nada lhes acontece, nada
				lhes passa (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Larrosa, 2002</xref>), deixam de
				encontrar, de roubar<xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref> do acontecimento o
				saber de que “o 16 é o 1 e o 6”, por exemplo. Pois os possíveis, as possibilidades
				de <italic>aprenderensinar</italic> exigem disponibilidade de quem
					<italic>vivepratica</italic> a docência para acontecer, para efetivar conexão,
				expansão e transcriação de saberes. É preciso portanto que, as/os
					<italic>praticantespensantes</italic> da docência estejam disponíveis, abertos
				aos possíveis.</p>
			<p>Abertura que cabe à docência produzir, através do planejamento enquanto preparação de
				si em vez da aula. Ensaio produtor de disponibilidade aos possíveis, planejamentos
				que se espraiam e conectam na composição do devir-docente. Tal abertura, “preparada
				por um trabalho subterrâneo de causas, de metas e de interesses”, só se torna real
				por meio de algo de outra ordem, pelo desejo “sem meta e sem causa” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B14">Deleuze, Guattari, 2010, p.501</xref>) o desejo
				docente de revolucionar, revolucionar-se, transformar e transformar-se, o desejo de
				constituir devir-docente!</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Devir-docente em transformação e re-existência</title>
			<p>A formação docente, assim como o currículo, é um processo, e problematizamos aqui
				como esses processos se relacionam. Como o zigue-zague curricular mobiliza e expande
				a formação docente em devir. Devir-docente em constante formação, transformação e
				expansão pela produção de docências outras, clandestina e coletivamente nos
					<italic>espaçostempos</italic> do cotidiano escolar em que as práticas de
					<italic>aprenderensinar</italic> acontecem. <italic>Espaçostempos</italic> de
				aula e também de planejamento, preparação, abertura e criação de disponibilidade
				para os acontecimentos, desviando do que é modelo, produzindo possíveis pois</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] não existe devir majoritário, maioria não é nunca um devir. Só existe devir
					minoritário. As mulheres, independentemente de seu número, são uma minoria,
					definível como estado ou subconjunto; mas só criam tornando possível um devir,
					do qual não são proprietárias, no qual elas mesmas têm que entrar, um
					devir-mulher que concerne a todos os homens, incluindo-se aí homens e mulheres
						(<xref ref-type="bibr" rid="B12">Deleuze; Guattari, 1995b, p.
					44</xref>).</p>
			</disp-quote>
			<p>Um devir-docente que concerne a todas/os que <italic>vivempraticam</italic> a
				docência como ofício: uma unidade germinal, cambiante e “extremamente povoada”,
				constituído de discursos indiretos em constante produção, voz polifônica, trabalho
				clandestino, insurgente, rebelde e de variação contínua. Processo que não para, que
				não sai de quem tem a docência como ofício, mesmo quando tais
					<italic>praticantespensantes</italic> estão fora do ambiente escolar: “eu vi um
				filme ontem que meu Deus, na verdade eu quase nem vi o filme direito porque eu fui
				vendo e pensando no tanto de coisa que dava pra fazer a partir dele com a turma”
					(<italic>Praticantepensante</italic> n-1) (Informação verbal).</p>
			<p>Devir-docente que, mobilizado por currículos em zigue-zague conecta, conjuga e acopla
				múltiplos saberes e afirma diferentes existências, produzindo a si mesmo como um
				devir específico, autônomo, imprevisto (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Deleuze;
					Guattari, 1995b</xref>). Compositor e co-autor de práticas educativas produtoras
				de possíveis, através dos acontecimentos que coengendram currículos, planejamento e
				formação docente, agenciamentos entre diferentes existências e saberes.</p>
			<p>Um devir em constante formação e luta para que esta “[...] não se limite às
				exigências da capacitação e do mercado, mas se expanda com abertura para a
				experiência presente, fazendo vibrar e enlaçar modos experienciais” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B18">Dias; Barros; Rodrigues, 2018, p.950</xref>), em
				constante deriva, germinação. Ou nas palavras de Guimarães <xref ref-type="bibr"
					rid="B31">Rosa, “um rasgar-se e remendar-se” (2009, p.83)</xref>, tal como a
				vida, encharcada de experiências, encontros e acontecimentos. Um processo para o
				qual a visão propedêutica de in-formar/en-formar, em vez de trans-formar as/os
					<italic>praticantespensantes</italic> da docência, é uma “questão de prefixo”,
				como a infelicidade (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Rosa, 2009</xref>). O que situa
				a nossa aposta aqui como sendo a de desmanchar da fixação pela potência de um
				devir-docente em constante composição nas/pelas práticas educativas e docências
				possíveis, mobilizadas por constante zigue-zague curricular conector e expansivo de
				saberes e existências.</p>
			<p>Pois a vida docente, assim como toda vida, é processo de demolição (<xref
					ref-type="bibr" rid="B16">Deleuze; Parnet, 1998</xref>), constante desfazer-se e
				refazer-se erosivo de si mesma, agenciamento sempre provisório e perturbável (<xref
					ref-type="bibr" rid="B31">Rosa, 2009</xref>) ainda que forte. Uma vez que,
				concordando com Deleuze, parece que</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] cabe ao verbo ser, como uma tara original, remeter a um Eu, ao menos
					possível, que o sobrecodifica e o coloca na primeira pessoa do indicativo. Os
					infinitivos-devires, porém, não têm sujeito: remetem apenas a um “Ele” do
					acontecimento (chove), e se atribuem a estados de coisas que são misturas ou
					coletivos, agenciamentos, mesmo no mais alto ponto de sua singularidade (<xref
						ref-type="bibr" rid="B16">Deleuze; Parnet, 1998, p. 52</xref>).</p>
			</disp-quote>
			<p>Subjetivações sempre conectadas a ordens estabelecidas de sujeição (<xref
					ref-type="bibr" rid="B12">Deleuze; Guattari, 1995b</xref>), por vezes fomentadas
				por processos formativos hierárquicos e preexistentes às/aos
					<italic>praticantespensantes</italic> que neles se inserem. Donde
				problematizamos a formação docente como um processo contínuo de produção, expansão,
				que a cada acontecimento produz-se “docente-hora-do-dia” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B7">Corazza, 2008</xref>), um movimento perene de transcriação de si.</p>
			<p>Formação que através dos planejamentos, que, de ensaio em ensaio e a cada aula,
				potencializa a expansão de um devir-docente infinitivo – impessoal, re-existente,
				não idealizado, sem identidade a ser construída, sedimentada, segmentada,
				dimensionada, produzida – sem a obsessão de remeter a um “Eu”, remetendo tão somente
				um “Ele” do acontecimento, da docência. Processo formativo que erode, desmancha,
				expande, transforma e produz docências possíveis, sempre provisórias, dada a
				constante variação do grau de transformação do devir. Expansão do devir-docente,
				compondo-o, povoando-o com múltiplas, ziguezagueantes e diferentes vozes, encontros
				e devires outros com múltiplas intensidades e sentidos: agenciamento de
				agenciamentos, de docências outras.</p>
			<p>Relações de <italic>aprenderensinar</italic> resultantes de atravessamentos
				efetivados em diferentes redes educativas <italic>vividaspraticadas</italic>
				pelas/os <italic>praticantespensantes,</italic> ao longo de suas trajetorias de
				vida, desde muito antes de exercerem a docência como ofício (<xref ref-type="bibr"
					rid="B2">Alves, 2019</xref>). Posto que
					essas/es<italic>praticantepensantes,</italic> ao passarem pela educação básica,
				obrigatoriamente tiveram pelo menos 11 anos de relações com a escola (<xref
					ref-type="bibr" rid="B2">Alves, 2019</xref>), <italic>vivendopraticando</italic>
				a docência com <italic>praticantespensantes</italic> outras/os a exercer a docência
				como ofício. Relações que agenciadores de enunciados como:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] eu ensino adição do mesmo jeitinho que eu aprendi quando eu era criança. Na
					faculdade não me ensinaram nada disso (<italic>Praticantepensante</italic>
					n-1).</p>
				<p>Se eu aprendi a ler com a cartilha por que meu aluno não vai aprender com ela?
						(<italic>Praticantepensante</italic> n-1). (Informação verbal).</p>
			</disp-quote>
			<p>Expressões que apontam a influência de diferentes currículos na formação docente
				anteriores à comumente chamada formação inicial – graduação ou magistério – e que
				podem inclusive restringir a docência ao instituído, àquilo que comprovadamente
				“funcionou” no passado. Uma visão metonímica (<xref ref-type="bibr" rid="B32"
					>Santos, 2007</xref>) que impõe a crença nos métodos a despeito da
				heterogeneidade de modos de <italic>aprenderensinar</italic> existentes,
				re-existentes e que hão de-vir, nas/os/das/os/com as/os
					<italic>praticantespensantes</italic> da docência. Afinal, se funcionou uma vez,
				por que haveria de falhar em uma outra? Não basta que seja feito “do mesmo jeitinho”
				que levou ao aprendizado na infância? A mesma cartilha que alfabetizou no passado
				não funciona mais? E se em vez de “aprender com ela” – a cartilha – for possível às
				crianças <italic>aprenderensinar “com”</italic> professoras/es, estudantes nos
				encontros, pelas relações de docência e também naquelas interrelações que tecem com
				o mundo intra e extraescolar?</p>
			<p>Felizmente, concordando com Nilda Alves, “[...] vamos percebendo, hoje, graças à
				compreensão de que vivemos todos e todas em redes educativas múltiplas, que os
				tantos ‘dentrofora’ das escolas se relacionam fortemente, sempre” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B2">2019, p.62</xref>, grifo da autora). Redes conectadas
				rizomaticamente, curricularmente para dentro e para fora dos cotidianos escolares,
				nas quais e pelas quais podemos <italic>aprenderensinar</italic> a todo instante.
				Uma vez que não há trajetória de formação, “[...] não há currículo que não indique
				entradas e saídas para novas vidas, percursos para outras formas de existência,
				incidências sobre inéditas possibilidades de viver: ‘trata-se sempre de liberar a
				vida lá onde ela é prisioneira’” (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Corazza, 2013, p.
					164</xref>). Produzir novas possibilidades de
					<italic>viverpraticarpensar</italic> a docência, preservando, ziguezaguean-do,
				revezando e potencializando diferentes saberes e existências: “possibilidades de
				existir de muitas e novas maneiras de pensar e viver o impensável são criações de
				outros modos de existir em meio à vida, em meio a uma criação pedagógica” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B28">Matos; Schuler; Corazza, 2015, p.231</xref>).</p>
			<p>Processo formativo composto por relações, encontros e ações de
					<italic>aprenderensinar</italic> abertas aos possíveis, experimentais,
				transcriadoras de conceitos num contínuo trans-formar de
					<italic>praticantespensantes,</italic> em vez de in-formar ou en-formá-los.
				Agenciamentos sempre coletivos – entre corpos – como exemplifica Gilles Deleuze, ao
				citar sua experiência com Félix Guattari, em que, problematizando sobre o conceito
				de agenciamento,</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] algo passava entre os dois, ou seja [os agenciamentos] são fenômenos
					físicos, é como uma diferença, para que um acontecimento aconteça, é preciso uma
					diferença de potencial, para que haja uma diferença de potencial precisa-se de
					dois níveis. Então algo se passa, um raio passa, ou não, um riachinho... É do
					campo do desejo. Mas um desejo é isso, é construir. Ora, cada um de nós passa
					seu tempo construindo, cada vez que alguém diz: desejo isso, quer dizer que ele
					está construindo um agenciamento, nada mais, o desejo não é nada mais (<xref
						ref-type="bibr" rid="B15">Deleuze; Parnet, 1994</xref>).</p>
			</disp-quote>
			<p>Diferença “sempre entre” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze; Guattari,
					1995a</xref>) que desloca e expande rizomaticamente os processos de formação
				das/os <italic>praticantespensantes</italic> da docência, as/os quais através dos
				acontecimentos produzem possíveis nas práticas educativas. Possíveis produzidos a
				partir das múltiplas intensidades e sentidos em problematização nos
					<italic>espaçostempos</italic> em que a docência acontece, conectando,
				expandindo e transcriando saberes afirmativos de diferentes existências.</p>
			<p>Processo que expande e faz correr o currículo num zigue-zague frenético entre os
				possíveis produzidos nas práticas educativas, através da intensa preparação do
				planejamento docente. Esse agenciamento coletivo de enunciação que expande/ramifica
				currículos e fomenta a produção de docências possíveis a compor e expandir um
				devir-docente em contínua formação, povoação. Um processo que, através da
				problematização de práticas e discursos hegemônicos – atenta ao presente – torna
				visíveis e faz falar políticas que são compostas, tramadas entre formação acadêmica
				e educação básica (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Dias; Barros; Rodrigues,
					2018</xref>).</p>
			<p>Sendo a política aqui entendida como maneira de agir – tipicamente humana – ligada ao
				poder e que coloca pessoas em relação, articulando-as entre si, a partir de normas e
				padrões, jurídicos/legais/institucionais ou não. Política praticada intensamente nas
				microrrelações (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Carvalho; Ferraço, 2012</xref>), em
				nosso caso as microrrelações que se dão no cotidiano escolar entre suas/seus
				diferentes <italic>praticantespensantes.</italic> Microrrelações de poder
				constituídas pelas múltiplas correlações de forças que atravessam todo o corpo
				social escolar em constante disputa (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Deleuze;
					Foucault, 1979</xref>). Situando as <italic>praticaspolíticas</italic> como
				ações, atitudes, condutas que as/os <italic>praticantespensantes</italic> do
				cotidiano escolar articulam, desenvolvem, efetivam entre si nas relações,
				tencionando dar vazão aos seus desejos, efetuando seus agenciamentos, expandindo a
				vida em potência e multiplicidade de sentidos e intensidades.</p>
			<p>Relações entre as/os <italic>praticantespensantes</italic> do cotidiano escolar, na
				produção e articulação de <italic>praticaspolíticas</italic> de formação docente,
				singulares e contextuais ao <italic>vividopraticado</italic> e entre eles e as
					<italic>praticaspolíticas</italic> externas ao cotidiano escolar. Já que</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] as políticas são práticas, ou seja, são ações de grupos políticos sobre
					questões específicas com a finalidade explicitada de mudar algo existente em
					algum campo de expressão humana. Ou seja, as políticas são, necessariamente,
					práticas pessoais e coletivas dentro de um campo qualquer no qual há, sempre,
					lutas de posições diferentes e mesmo contrárias (<xref ref-type="bibr" rid="B5"
						>Carvalho; Ferraço, 2012, p. 3</xref>, grifo nosso).</p>
			</disp-quote>
			<p>Lutas que se dão ao longo do processo de formação, variação, produção e expansão do
				devir-docente, travadas cotidianamente nas microrrelações tecidas entre as/os
					<italic>praticantespensantes,</italic> artistas da docência nos cotidianos
				escolares, impulsionadas pelo zigue-zague do currículo.
					<italic>Praticaspolíticas</italic> tecelãs, inventoras e produtoras de um
				devir-docente aprendiz, um modo educante polifônico, múltiplo e atento aos
				territórios movediços de/em formação, transformação. Ação que projeta a formação
				docente para além da capacitação profissional, alargando-a com as experiências do
				presente <italic>vividopraticado</italic> no cotidiano escolar, fazendo vibrar e
				enredar modos experienciais de <italic>praticarpensar</italic> a docência (<xref
					ref-type="bibr" rid="B18">Dias; Barros; Rodrigues, 2018</xref>). Como narrado a
				seguir:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] aqui vocês têm algum costume de alfabetizar conforme a ordem alfabética?
						(<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Não. A gente vai de acordo com as necessidades que as crianças vão apresentando.
					Partimos dos nomes e a partir dos diagnósticos escolhemos por onde começar. Eles
					aprendem a ordem alfabética e os sons das letras, mas o quando e quais relações
					letra som vamos trabalhar são definidas pela nossa convivência e pela resposta
					das crianças ao que vamos propondo em forma de música, texto, conversas e
					atividades diagnosticas (<italic>Praticantepensante</italic> n-1). (Informação
					verbal).</p>
			</disp-quote>
			<p>Movimento que forma, transforma, expande e deriva por diferenciação – tornando outro
				o que existe, fazendo-o re-existir, produzindo potência pela relação entre
				diferentes – um devir-docente que confere consistência às experiências de enunciar
				modos outros de <italic>praticarpensar</italic> a docência nos
					<italic>espaçostempos</italic> escolares. Devir-docente desejante por produzir
				movimentos curriculares e não produtos – trans-formações em vez de in/en-formações
				–, e que resiste com conceitos e com arte para fazer ver e falar, enunciar e
				constituir sentido (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Deleuze; Guattari,
				1997</xref>).</p>
			<p><italic>Praticaspolíticas</italic> de docentes que re-existem “[...] para inventar
				outros modos de fazer, coletivos, que desindividualizem e operem por vibração,
				enlace, abertura, contágio e aposta na diferença” (<xref ref-type="bibr" rid="B18"
					>Dias; Barros; Rodrigues, 2018, p. 951</xref>). Re-existência que, produzida nos
				acontecimentos escolares, tenciona romper com a burocratização de currículos e
				docência:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] olha só Pedagoga que fofo, prova que esse é seu
						(<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Ai meu Deus! Foi hoje [produção de bolinhos na sala de aula]? Nem consegui ir lá
					pra comer com vocês (<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Eu sei, é muita coisa né, Pedagoga? Não vai se perder no meio de tanto papel
						(<italic>Praticantepensante</italic> n-1).</p>
				<p>Menina é tanta burocracia...isso acaba afastando a gente do principal que é o
					pedagógico (<italic>Praticantepensante</italic> n-1). (Informação verbal).</p>
			</disp-quote>
			<p><italic>Praticaspolíticas</italic> efetivadas nas relações
					<italic>vividaspraticadas</italic> pelas/os
					<italic>praticantespensantes</italic> do cotidiano escolar. Disputas inventoras
				de mundos e de devires, agenciadoras de territórios e currículos em zigue-zague.
				Agenciamentos em que “[...] os fios e tecidos que ligam as experiências artesanais
				não permitem ser pensados como causalidade ou representação, mas como devires que os
				atravessam na arte de viver” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Dias, 2010, p.
					13</xref>). Sendo o devir-docente aquele que atravessa e conecta –
				revolucionária e coletivamente – as/os professoras/es
					<italic>praticantespensantes,</italic> produzindo docências possíveis.
				Artistagens que conferem formas, vozes à vida, sem buscar uma essência oculta nos
				corpos, que são contra a idealização e a representação das normatizações sociais a
				seu respeito, priorizando o potencial de criação de si, situando o existir na
				dimensão de uma obra de arte (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Dias,
				2010</xref>).</p>
			<p>Artistagens criadas, <italic>vividaspraticadas</italic> em um processo de formação,
				expansão, diferenciação, variação e produção contínuo de um devir-docente, “[...]
				avançando de metaesta-bilidade em metaestabilidade” (Simondon, 2003, p.107,
					<italic>apud</italic>
				<xref ref-type="bibr" rid="B7">Corazza, 2008, p. 94</xref>), de agenciamento em
				agenciamento, variando seus graus de transformação. Metaestabilidades que conforme
					<xref ref-type="bibr" rid="B20">Escóssia e Tedesco (2015)</xref> só se resolvem
				através da contínua transformação, que não constituem equilíbrio nem desequilíbrio,
				mas sim correlações, coengendramentos de extremos jamais conciliáveis, mas sim
				descontínuos; de diferentes que por sua aleatoriedade direcional tornam seus
				componentes uma “materialidade energética em movimento” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B13">Deleuze; Guattari, 1997</xref>, <italic>apud</italic>
				<xref ref-type="bibr" rid="B20">Escóssia; Tedesco, 2015</xref>).</p>
			<p>Contínuo processo de agenciar – desterritorializar, reterritorializar e
				territorializar – conectar, transcriar e expandir um devir-docente produtor de
				docências artistas, elevando o trabalho docente ao plano de ato livre e
				revolucionário: livre para se abrir aos possíveis do planejamento docente, aos
				acontecimentos <italic>vividospraticados</italic> no exercício da docência e
				revolucionário para subverter as lógicas racionalistas, fissurando-as, expandindo a
				vida em sua multiplicidade de saberes e existências. Afinal, como enunciado na
				escola Leonina, no cotidiano escolar quem <italic>praticapensa</italic> a docência,
				quem a tem como ofício, “tem que ser artista”.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>O que ao longo da pesquisa-intervenção foi enunciado por suas/seus
					<italic>praticantespensantes</italic> como “planejar sem pirar”. Planejar,
				preparar-se para a aula, mas sem a ânsia de fazer da aula uma reprodução idêntica ao
				que se prescreve fora dela. As/os <italic>praticantespensantes</italic>
				compositoras/es da docência e do cotidiano escolar esgarçaram o conceito de
				currículo e com ele o de formação docente.</p>
			<p>Currículo que, ziguezagueando entre diferentes saberes e existências, expande e
				ramifica-se rizomaticamente em currículos outros, possíveis, possibilidades outras
				de <italic>aprenderensinar</italic> e afirmar a heterogeneidade própria da vida em
				comunidade, em sociedade. Diferenças entre as/os
					<italic>praticantespensantes</italic> da docência que, mobilizando a composição
				do devir-docente com táticas outras de <italic>aprenderensinar</italic>mais autorais
				e emancipadas da lógica neoliberal conservadora. Como por exemplo a possibilidade
				confabular que em “Brizola” está foneticamente contido o “isola” da brincadeira e
				que depois da sexta-feira talvez devesse vir a sétima-feira.</p>
			<p>Possíveis que movimentam o pensar em zigue-zague entre diferentes saberes, promovendo
				conexão, transcriação e portanto a expansão desses em sua processualidade e
				afirmação de existências. Modos de vida outros, emancipados da lógica racionalista
				ansiosa por formatar saberes em produtos, docentes em técnicos de vendas e
				estudantes em consumidores. Uma racionalidade que produz políticas prescritoras do
				currículo enquanto lista de saberes a ensinar, plano de ensino a cumprir.</p>
			<p>Políticas que as/os <italic>praticantespensantes</italic> cotidianamente fissuram
				pela ação ziguezagueante de produzir/expandir currículos entre possíveis, entre
				prescrições e rascunhos, entre formas e forças. Processo mobilizado e intensificado
				pela transcriação de diferentes saberes que, expandindo por problematizações e
				conexões entre si, tramam currículos singularizados, ramificados, conectados
				rizomaticamente.</p>
			<p>Transcriação que esgarça as tentativas de formatação docente, desenrolando-se como
				processo constante de expansão do devir-docente pela produção de docências
				possíveis: discurso indireto em constante produção, polifonia, coletividade,
				trabalho clandestino, insurgente, rebelde e de variação contínua nas/pelas
				diferentes redes educativas <italic>vividaspraticadas</italic> pelas/os professoras
					<italic>praticantespensantes</italic> cotidianamente.</p>
			<p>Redes tecidas entre quem <italic>praticapensavive</italic> a docência,
					<italic>praticaspolíticas</italic> artistas de um devir-docente minoritário e
				aprendiz. Um modo educante que tenciona transbordar a formação docente da mera
				capacitação profissional para a composição expansiva com as experiências
					<italic>vividaspraticadas</italic> a cada acontecimento coengendrados por
				planejamento docente e currículos ziguezagueantes.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Texto revisado e normalizado por Magda Simone Tiradentes. Mestra em Letras pelo
					ProfLetras do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>A ciência moderna, marcada por dicotomias e binarismos, encontra um limite na
					busca pela expansão do conhecimento através da interconexão de múltiplas
					culturas. Para superar esse obstáculo, propomos uma escrita que fusione
					conceitos comumente apartados, como demonstrado pelos termos em itálico ao longo
					deste texto.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>O cotidiano escolar, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B4">Carvalho
						(2009)</xref>, é produto de microatitudes, de criações efêmeras e pontuais.
					A vida cotidiana, interpelada pelas interações, é percebida como processo e,
					assim, não aceita determinismos culturais. Sua compreensão só pode ser tecida a
					partir das subjetividades de seus sujeitos sociais. Não é lócus para confirmação
					de fatos e validação de teorias antevistas.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Insumos escolhidos como matéria-prima para obtenção de determinados bens. O uso
					desses termos aqui tem a intenção de realçar as características maquínicas
					presentes nos processos neoliberais de padronização curricular e docente.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Concordando com <xref ref-type="bibr" rid="B1">Abranches (2009, p.18)</xref>,
					sempre que preciso será utilizado ao longo do texto a barra para fazer “[...]
					referência explícita a ambos os sexos de forma igual e paralela, o que implica
					tornar visível na linguagem o sexo invisível – na grande maioria dos casos, as
					mulheres – através da marcação sistemática e simétrica do gênero
					gramatical”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>Rizomático pois sempre entre, conectando conceitos e existências sem
					hierarquização, negação, sobreposição ou sobrecodificação. Ramificação contínua
					atando conceitos em zigue-zague uns aos outros (<xref ref-type="bibr" rid="B11"
						>Deleuze; Guattari, 1995a</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>Currere significa correr, percorrer.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>Autopoiese ou autopoiesis (do grego: auto, “próprio”; poiesis “criação”)
					faculdade de produzir-se, conceito criado por Francisco Varela e Humberto
					Maturana na década de 70 (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Passos; Eirado,
						2015</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p>Para que seja possível vislumbrar a multiplicidade e a diferença de enunciados e
					enunciantes compondo este artigo, após cada enunciado disparado nos
						<italic>espaçostempos</italic> de pesquisa-ação, colocaremos a marca
						“<italic>Praticantepensante</italic> n-1”, subtraindo a singularidade da
					multiplicidade constituída (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze; Guattari,
						1995a</xref>). Afirmando a diferença sem criar identificações e mantendo a
					integridade dos diálogos em sua linguagem cotidiana e coloquial.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p>Para a estética poética, uma rima leonina é conhecida como rima no meio do verso.
					Podendo a primeira palavra do verso rimar com a última palavra do mesmo (<xref
						ref-type="bibr" rid="B22">Houaiss; Villar, 2001</xref>). Como hastes de um
					rizoma que se conectam em intensidade com outras hastes, a despeito de
					linearidades, importando somente a vontade de potência, de entrar em relação e
					transbordar, dando vazão à vida. Perspectivando a escola em que se dá a pesquisa
					como aquela em que as rimas, as assinaturas, os agenciamentos, os enunciados, as
					vozes ecoam a partir do meio, conectando-se ao sabor da vida que nela pulsa:
					escola Leonina, <italic>espaçotempo,</italic> território que anima.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>11</label>
				<p>“Roubar é o contrário de plagiar, de copiar, de imitar ou de fazer como” (<xref
						ref-type="bibr" rid="B16">Deleuze; Parnet, 1998, p. 6</xref>), tendo, nesse
					sentido, mais a ver com produzir a partir do que há, transcriar, traduzir.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>ABRANCHES, Graça. <bold>Guia para uma Linguagem Promotora da
						Igualdade entre Mulheres e Homens na Administração Pública.</bold> Lisboa:
					Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, 2009. Disponível em: <ext-link
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						xlink:href="https://www.cig.gov.pt/wp-181content/uploads/2015/ll/Guia_ling_mulhe_homens_Admin_Publica.pdf"
						>https://www.cig.gov.pt/wp-181content/uploads/2015/ll/Guia_ling_mulhe_homens_Admin_Publica.pdf</ext-link>.
					Acesso em: 24 set. 2024.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ABRANCHES</surname>
							<given-names>Graça</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Guia para uma Linguagem Promotora da Igualdade entre Mulheres e Homens
						na Administração Pública</source>
					<publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
					<publisher-name>Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género</publisher-name>
					<year>2009</year>
					<date-in-citation content-type="access-date">24 set. 2024</date-in-citation>
					<comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri"
							xlink:href="https://www.cig.gov.pt/wp-181content/uploads/2015/ll/Guia_ling_mulhe_homens_Admin_Publica.pdf"
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				</element-citation>
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				<mixed-citation>ALVES, Nilda. <bold>Práticas pedagógicas em imagens e
						narrativas:</bold> memórias de processos didáticos e curriculares para
					pensar as escolas hoje. São Paulo: Cortez, 2019.</mixed-citation>
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					<person-group person-group-type="author">
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							<surname>ALVES</surname>
							<given-names>Nilda</given-names>
						</name>
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					<source><bold>Práticas pedagógicas em imagens e narrativas:</bold> memórias de
						processos didáticos e curriculares para pensar as escolas hoje</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Cortez</publisher-name>
					<year>2019</year>
				</element-citation>
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					Produção: Direção: Pierre André Boutang. Entrevistadora: Claire Parnet. Exibido
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