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			<journal-title-group>
				<journal-title>Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. FAEEBA - Ed. e
					Contemp.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2358-0194</issn>
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				<publisher-name>Universidade do Estado da Bahia</publisher-name>
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				>10.21879/faeeba2358-0194.2024.v33.n76.p193-204</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigo</subject>
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			<title-group>
				<article-title>EXTENSÃO POPULAR UNIVERSITÁRIA: A EDUCAÇÃO POPULAR LATINOAMERICANA
					COMO REFERENCIAL</article-title>
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					<trans-title>UNIVERSITY POPULAR EXTENSION: LATIN AMERICAN POPULAR EDUCATION AS A
						REFERENCE</trans-title>
				</trans-title-group>
				<trans-title-group xml:lang="es">
					<trans-title>EXTENSIÓN POPULAR DE LA UNIVERSIDAD: LA EDUCACIÓN POPULAR
						LATINOAMERICANO COMO UNA REFERENCIA</trans-title>
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					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0009-0008-1258-6754</contrib-id>
					<name>
						<surname>Santos</surname>
						<given-names>André Luís Nunes dos</given-names>
					</name>
					<bio>
						<p><sup>*</sup> Doutorando em Educação (PPGE/UFPB). Professor da Educação
							Básica. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Popular,
							Serviço Social e Movimentos Sociais (GEPEDUPSS). João Pessoa, Paraíba.
							E-mail: <email>andreluisnunes2001@gmail.com</email>
						</p>
					</bio>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"/>
				</contrib>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-1144-6011</contrib-id>
					<name>
						<surname>Machado</surname>
						<given-names>Aline Maria Batista</given-names>
					</name>
					<bio>
						<p><sup>**</sup> Doutora em Educação (PPGE/UFPB). Professora da Universidade
							Federal da Paraíba. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação
							Popular, Serviço Social e Movimentos Sociais (GEPEDUPSS). João Pessoa,
							Paraíba. E-mail: <email>prof.alinemachado23@yahoo.com.br</email>
						</p>
					</bio>
					<xref ref-type="aff" rid="aff2"/>
				</contrib>
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				<institution content-type="orgname">Universidade Federal da Paraíba</institution>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>20</day>
				<month>11</month>
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2024</year>
			</pub-date>
			<volume>33</volume>
			<issue>76</issue>
			<fpage>193</fpage>
			<lpage>204</lpage>
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					<year>2024</year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>A extensão popular universitária tem ganhado visibilidade nas ações internas e
					externas das universidades latino-americanas, haja vista seu caráter dialógico,
					crítico e participativo, passando a considerar os saberes populares e
					entrelaçando-os com os conhecimentos científicos e acadêmicos. Desta forma,
					objetiva-se neste artigo discutir o papel da extensão popular universitáriano
					âmbito da América Latina, bem como evidenciar novas possibilidades práticas,
					embasadas na perspectiva da Educação Popular. Além disso, fez-se, ainda, a
					historicização da colonização desta região, salientando os aportes dos
					movimentos sociais para determinados períodos históricos. Concernente aos
					aspectos teórico-metodológicos, esta pesquisa é de cunho bibliográfico, a qual
					possui abordagem qualitativa, tendo como principais autores(as) <xref
						ref-type="bibr" rid="B14">Gohn (1997)</xref>, <xref ref-type="bibr"
						rid="B11">Galeano (2010)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B10">Gadotti
						(2017)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B15">Jara (2020)</xref>.
					Constatou-se, portanto, que estas atividades têm oportunizado diálogos
					significativos com a comunidade em geral.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>University popular extension has gained visibility in the internal and external
					actions of Latin American universities, given its dialogical, critical and
					participatory character, starting to consider popular knowledge and intertwining
					it with scientific and academic knowledge. Therefore, the aim of this articleis
					to discuss the role of university popular extension within Latin America, as
					well as to highlight new practical possibilities, based on the perspective of
					Popular Education. Furthermore, the colonization of this region was
					historicized, highlighting the contributions of social movements to certain
					historical periods. Concerning the theoretical-methodological aspects, this
					research is of a bibliographic nature, which has a qualitative approach, with
					the main authors being <xref ref-type="bibr" rid="B14">Gohn (1997)</xref>, <xref
						ref-type="bibr" rid="B11">Galeano (2010)</xref>, <xref ref-type="bibr"
						rid="B10">Gadotti (2017)</xref> and <xref ref-type="bibr" rid="B15">Jara
						(2020)</xref>. It was therefore found that these activities have provided
					opportunities for significant dialogue with the community in general.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>La extensión universitaria popular ha ganado visibilidad en el accionar interno y
					externo de las universidades latinoamericano, dado su carácter dialógico,
					crítico y participativo, pasando a considerar el conocimiento popular y
					entrelazándolo con el conocimiento científico y académico. Por lo tanto, el
					objetivo de este artículo es discutir el papel de la extensión universitaria
					popular en América Latina, así como resaltar nuevas posibilidades prácticas,
					desde la perspectiva de la Educación Popular. Además, se historizó la
					colonización de esta región, destacando las contribuciones de los movimientos
					sociales a ciertos periodos historicos. En cuanto a los aspectos
					teórico-metodológicos, esta investigación es de carácter bibliográfico, que
					tiene un enfoque cualitativo, siendo los autores principales <xref
						ref-type="bibr" rid="B14">Gohn (1997)</xref>, <xref ref-type="bibr"
						rid="B11">Galeano (2010)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B10">Gadotti
						(2017)</xref> y <xref ref-type="bibr" rid="B15">Jara (2020)</xref>. Por lo
					tanto, se encontró que estas actividades han brindado oportunidades para un
					diálogo significativo con la comunidad en general.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Extensão Universitária</kwd>
				<kwd>Educação Popular</kwd>
				<kwd>Comunidade Educacional.</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>University Extension</kwd>
				<kwd>Popular Education</kwd>
				<kwd>Educational Community.</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>Palabras claves:</title>
				<kwd>Extensión Universitaria</kwd>
				<kwd>Educación Popular</kwd>
				<kwd>Comunidad Educativa.</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução<sup><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup></title>
			<p>Nos últimos anos e cada vez mais, a extensão popular universitária tem conquistado
				espaço dentro e fora das universidades latino-americanas, especialmente as
				brasileiras. Uma nova perspectiva extensionista tem embasado grande parte das ações
				movidas e promovidas pelos(as) universitários(as) em diálogo com a comunidade, quer
				seja escolar ou no geral. Estas atividades vêm tomando proporção, na medida em que
				se têm valorizado os saberes populares, entrelaçando-os com os conhecimentos
				científicos e acadêmicos. A partir de então, foram emergindo outras possibilidades
				de desenvolvimento da tríade universitária, isto é, o ensino, a pesquisa e a
				extensão, oportunizando, sobretudo, as classes marginalizadas terem acesso aos bens
				e serviços fornecidos pelas instituições de ensino superior brasileiras,
				principalmente, as públicas, pautando-se em práticas da Educação Popular, enquanto
				paradigma educativo crítico.</p>
			<p>Desta forma, objetiva-se neste artigo discutir o papel da extensão popular
				universitária para as universidades latino-americanas, evidenciando, ainda, os
				aportes teórico-metodológicos que a Educação Popular pode fornecer a estas práticas,
				haja vista seu referencial crítico e reflexivo acerca dos processos educativos
				voltados para os sujeitos subalternizados e oprimidos da sociedade. Além disso,
				tem-se por intuito, ainda, historicizar a violenta e cruel colonização da América
				Latina, abordando os resquícios das atrocidades que, até hoje, ecoam nos ouvidos de
				seus povos, bem como ressaltar a importância dos movimentos sociais e das práticas
				de Educação Popular para esse contexto, trazendo breves notas sobre as múltiplas
				formas de organização, resistência e luta coletiva dentro desses acontecimentos
				históricos.</p>
			<p>No que tange aos aspectos teórico-metodológicos deste estudo, salienta-se que esta
				pesquisa se configura como de cunho bibliográfico e possui abordagem qualitativa,
				considerando que as investigações qualitativas propagam que um determinado
				fenômeno/objeto/sujeito pode ou deveria ser entendido a partir do “contexto em que
				ocorre e do qual é parte, devendo ser analisado numa perspectiva integrada” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B13">Godoy, 1995</xref>, p. 21). Concernente às categorias
				teóricas discutidas, o artigo direcionou-se para os debates sobre a extensão popular
				universitária, as universidades latino-americanas, os movimentos sociais e a
				Educação Popular, tendo como autores(as) basilares <xref ref-type="bibr" rid="B14"
					>Gohn (1997)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B9">Freire (2006)</xref>, <xref
					ref-type="bibr" rid="B11">Galeano (2010)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B4"
					>Carrillo (2013)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B19">Melo Neto
				(2014)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B3">Cananéa (2015)</xref>, <xref
					ref-type="bibr" rid="B10">Gadotti (2017)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B15"
					>Jara (2020)</xref>, entre outros(as). Tais teóricos(as) e ensaísta se mostraram
				essenciais na apreensão do fenômeno analisado, subsidiando compreensões categóricas
				e fornecendo um amplo panorama a partir de suas obras.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Ecos da colonização latinoamericana: notas sobre os movimentos sociais e as
				práticas de educação popular</title>
			<p>Ao refletir sobre os acontecimentos históricos suscitados por <xref ref-type="bibr"
					rid="B11">Galeano (2010)</xref>, pode-se constatar, a princípio, o quão rígido e
				destrutivo foi o processo de colonização europeia e, mais tarde, norte-americana
				para com os países da América Latina e seus povos, os quais, até os dias atuais,
				sofrem com os resquícios de tais atrocidades. “As veias abertas da América Latina”
				foi uma obra escrita, originalmente, em 1971 por Eduardo Galeano, jornalista e
				escritor uruguaio, onde, até a década passada, o autor lamentava a árdua atualidade
				de seu livro, visto que ainda há fortes relutâncias em aprender os ensinamentos
				deixados pelo tempo e pela história dos nossos antepassados. Para <xref
					ref-type="bibr" rid="B11">Galeano (2010</xref>, p. 3), “a história não quer se
				repetir - o amanhã não quer ser outro nome do hoje -, mas a obrigamos a se converter
				em destino fatal quando nos negamos a aprender as lições que ela, senhora de muita
				paciência, nos ensina dia após dia”.</p>
			<p>Palco de numerosos massacres, a América Latina se tornou o principal meio de
				exploração econômica para os estrangeiros, que, cruelmente, derramaram sangue
				indígena nos territórios habitados pelos nativos e os escravizaram por centenas de
				anos. No entanto, séculos se passaram desde o início da colonização e o que deveria
				ser uma região restituída, independente de amarras e submissões internacionais,
				parece funcionar da mesma maneira de antes, apenas com novas roupagens e políticas
				de domínio regulamentadas. Bem como notou <xref ref-type="bibr" rid="B11">Galeano
					(2010</xref>, p. 7), a América Latina se especializou em perder, servindo aos
				países europeus e norte-americanos desde os tempos remotos, em que eles se
				“aventuraram pelos mares e lhe cravaram os dentes na garganta”. Analogamente,
				assemelhando-se aos emblemáticos vampiros da ficção, que tomam sangue humano
				diretamente das veias, até que sejam esvaídas todas as nossas capacidades vitais, só
				que, dessa vez, vem acontecendo em cenários da vida real.</p>
			<p>Sendo assim, em conformidade com os gritos de quem manda, neste caso, a Europa e os
				Estados Unidos da América (EUA), os países sul-americanos devem acreditar na
				“liberdade de comércio”, mesmo não existindo; em “honrar a dívida”, mesmo sendo
				adquirida de forma desonrosa; em “atrair investimentos”, mesmo sendo indignos; e
				“entrar no mundo”, mesmo que seja pelas portas do fundo como prestadores(as) de
				serviço (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Galeano, 2010</xref>). Logo, entrar no
				mundo significa entrar no mercado, isto é, o mercado mundial, em que países são
				comprados e vendidos por economias maiores, surgindo o mito de que, sem elas, as
				economias menores não sobreviveriam. De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B11"
					>Galeano (2010)</xref>, continuamos, então, nos negando a escutarmos as vozes
				que advertem, “os sonhos do mercado mundial são os pesadelos dos países que se
				submetem aos seus caprichos” e, ainda, seguimos aplaudindo o sequestro dos bens
				naturais, trabalhando para nossa própria perdição e contribuindo para exterminar a
				escassa natureza que nos sobrou. Com isso, vamos constatando que, de fato, a América
				Latina nasceu para obedecê-los, cumprindo, firmemente, o dever da obediência, haja
				vista que:</p>
			<disp-quote>
				<p>Ela já não é o reino das maravilhas em que a realidade superava a fábula e a
					imaginação era humilhada pelos troféus da conquista, as jazidas de ouro e as
					montanhas de prata. Mas a região continua trabalhando como serviçal, continua
					existindo para satisfazer as necessidades alheias, como fonte e reserva de
					petróleo e ferro, de cobre e carne, frutas e café, matérias-primas e alimentos,
					destinados aos países ricos que, consumindo-os, ganham muito mais do que ganha a
					América Latina ao produzi-los. Os impostos que cobram os compradores são muito
					mais altos do que os valores que recebem os vendedores (<xref ref-type="bibr"
						rid="B11">Galeano, 2010</xref>, p. 7).</p>
			</disp-quote>
			<p>Resquícios tristes de um passado tenebroso, mas que se não forem problematizados,
				tocando em suas mais abertas feridas, talvez não possamos chegar ao projeto de
				região que tanto almejamos, a qual seja, sobretudo, independente política, alimentar
				e economicamente. Uma América Latina que seja capaz de produzir seus alimentos e
				comercializar para seus próprios povos, podendo abastecer as necessidades do mercado
				interno, sem ficar a serviço da demanda exterior ao adentrar na monocultura e acatar
				o consumo externo de países estrangeiros, visto que a “monocultura é uma prisão”
				para o crescimento e a reestruturação latino-americana, pois “tão só a diversidade
				produtiva pode nos defender dos mortíferos golpes da cotação internacional, que
				oferece pão para hoje e fome para amanhã. A autodeterminação começa pela boca”
					(<xref ref-type="bibr" rid="B11">Galeano, 2010</xref>, p. 4).</p>
			<p>Além disso, <xref ref-type="bibr" rid="B11">Galeano (2010)</xref> ainda ressalta que
				o coordenador da Aliança para o Progresso, Covey T. Oliver, em julho de 1968,
				declarou que “falar hoje em dia de preços justos é um conceito medieval. Estamos em
				plena vigência do livre-comércio”, ou seja, já encontrávamos ali um discurso
				neoliberal, o qual visava a ampla expansão do mercado, sob as custas da larga
				produção exploradora dos países latino-americanos para exportação e comercialização
				internacional, haja vista que adentrávamos em um mundo globalizado, cujo sistema
				econômico era o capitalista. Em exemplificação, o neoliberalismo caracteriza-se por
				ser um modelo socioeconômico emergido na Europa após as décadas de 60 e 70, tendo
				como base o liberalismo clássico e servindo de apoio orientador para as políticas de
				cunho capitalista. Os neoliberalistas têm como ideia central a não interferência do
				Estado na economia, tendo em vista que só assim alcançarão um significativo
				progresso econômico, propagando, portanto, a ideia de um Estado Mínimo.</p>
			<p>Com receio a esta teoria econômica, <xref ref-type="bibr" rid="B11">Galeano
					(2010</xref>, p. 7) nos alerta que “quanto mais liberdade se concede aos
				negócios, mais cárceres precisam ser construídos para aqueles que padecem com os
				negócios”. A partir de então, o pensador uruguaio denuncia o desgaste e uso indevido
				dos recursos naturais pertencentes aos países latino-americanos, tece críticas à
				exploração da força de trabalho e a monocultura, mostra, também, que mesmo sendo
				explorados os povos que aqui residem foram resistentes para com tais imposições e
				comunga, pois, com um projeto de independência plena da região, mesmo tendo a
				consciência de que, para o mundo, na contemporaneidade, a América se reduz aos
				Estados Unidos, enquanto nós, latino/ sul-americanos, habitamos uma sub-américa, a
				América da segunda classe, possuidora de uma nebulosa identidade, uma América
				que:</p>
			<disp-quote>
				<p>Do descobrimento aos nossos dias, tudo sempre se transformou em capital europeu
					ou, mais tarde, norte-americano, e como tal se acumulou e se acumula nos
					distantes centros do poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas ricas
					em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos
					naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de classes de
					cada lugar foram sucessivamente determinados, do exterior, por sua incorporação
					à engrenagem universal do capitalismo. Para cada um se atribuiu uma função,
					sempre em benefício do desenvolvimento da metrópole estrangeira do momento, e se
					tornou infinita a cadeia de sucessivas dependências, que têm muito mais do que
					dois elos e que, por certo, também compreende, dentro da América Latina, a
					opressão de países pequenos pelos maiores seus vizinhos, e fronteiras adentro de
					cada país, a exploração de suas fontes internas de víveres e mão de obra pelas
					grandes cidades e portos (há quatro séculos já haviam nascido dezesseis das 20
					cidades latino-americanas atualmente mais populosas). (<xref ref-type="bibr"
						rid="B11">Galeano, 2010</xref>, p. 7-8).</p>
			</disp-quote>
			<p>Portanto, “é a América Latina, a região das veias abertas”, mas também é, sobretudo,
				a região da resistência, da organização coletiva, das lutas, dos movimentos sociais
				e da Educação Popular. <xref ref-type="bibr" rid="B14">Gohn (1997)</xref>,
				professora aposentada e socióloga, é quem nos mostra, sob a óptica dos Movimentos
				Sociais, um pouco mais sobre a América Latina, suas formas de organização das
				classes populares e as contribuições nesse contexto histórico, evidenciando que
				discutir sobre um paradigma teórico latino-americano acerca dos movimentos sociais é
				mais uma ponderação estratégica do que, propriamente, real. Conforme <xref
					ref-type="bibr" rid="B8">Foweraker (1995)</xref>, tem ocorrido mobilizações
				massivas na América Latina, mas tem sido feita pouca teorização sobre os movimentos
				sociais. Por esta razão, assim como salienta <xref ref-type="bibr" rid="B16">Jara e
					Falkembach (2013)</xref>, surge a visível necessidade de sistematização e
				teorização das experiências caracterizadas como práticas de Educação Popular, feita
				dentro e ao longo dos movimentos sociais.</p>
			<p>Na América Latina, o que existe, de fato, “é um paradigma bem diferenciado de lutas e
				movimentos sociais, na realidade concreta, quando comparado com os movimentos
				europeus, norte-americanos, canadenses etc., e não um paradigma teórico propriamente
				dito” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Gohn, 1997</xref>, p. 211). Os poucos estudos
				desenvolvidos eram advindos, quase exclusivamente, de alguns institutos de
				pesquisas, das Organizações Não Governamentais (ONG’s) e das universidades em seus
				programas de pós-graduação. Entretanto, sabe-se que estes programas são recentes ou,
				até mesmo, inexistentes na grande maioria dos países latino-americanos, sendo o
				Brasil, México, Argentina e Chile alguns dos poucos países que possuem uma tradição
				firmada nesta área investigativa. Convém ressaltar, porém, a importância desses
				estudos para o entendimento de nossas diversas realidades, enquanto povos da América
				Latina:</p>
			<disp-quote>
				<p>A contribuição daqueles estudos para a compreensão da realidade latino-americana
					estava na ênfase que se atribuía à participação social dos indivíduos (vistos
					isoladamente), como parte do processo de integração social. Deve-se destacar o
					trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="B12">Germani (1966)</xref> sobre a
					participação das populações recém-migrantes nas zonas urbanas e o de Solari
					(1966) com respeito à zona rural, assim como a participação dos estudantes na
					época. <xref ref-type="bibr" rid="B17">Lipset (1967)</xref> também deve ser
					citado enquanto um dos autores que influenciaram vários trabalhos em toda a
					América Latina. Mas a ótica principal destes trabalhos partia de um estudo sobre
					as elites e os processos de desenvolvimento (<xref ref-type="bibr" rid="B14"
						>Gohn, 1997</xref>, p. 213).</p>
			</disp-quote>
			<p>Além do mais, salienta-se a participação dos movimentos sociais no período de
				redemocratização dos países latino-americanos, os quais durante as décadas de 60, 70
				e 80 enfrentavam regimes militares autoritários e perversos. Por meio das
				mobilizações de seus povos e da forte pressão da sociedade civil e política, os
				países da supracitada região redirecionaram suas organizações internas, substituindo
				os regimes militares por civis, em negociações parlamentares e/ou eleitorais. Nesse
				contexto, “os movimentos sociais cresceram em número, ganhando diferentes tipos e
				matizes e lograram visibilidade em sua luta pela redemocratização ou por causas
				específicas” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Gohn, 1997</xref>, p. 226),
				transformando a cultura política da América Latina no referido período histórico e
				adquirindo novos aspectos pautados na perspectiva dos direitos sociais coletivos e
				da cidadania coletiva de grupos sociais marginalizados, discriminados e
				oprimidos.</p>
			<p>Estas conquistas só se tornaram possíveis, devido a uma longa experiência de
				resistência e de contradição aos modos de dominação, com rupturas nítidas, entre
				alguns setores da sociedade, na velha política de aceitação das práticas dominantes,
				da troca de favores e do aguardo de imobilidade dos agentes sociais perante o
				Estado, o qual, este último, sempre foi tido como o “todo poderoso” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B14">Gohn, 1997</xref>). Ademais, nos países mais
				industrializados da América Latina, os movimentos sociais nasceram, inicialmente,
				nos grandes centros, ligados às redes movimentalistas, tendo destaque a Igreja, os
				sindicatos e os partidos políticos opositores ao regime da época.</p>
			<p>A partir dos grandes centros, os movimentos sociais se expandiam para outras
				localidades, todavia nos locais, cujas estruturas econômicas eram de bases agrárias,
				as pequenas vilas aglomeravam as ações vistas como rebeliões mais populares. O que
				não se pode negligenciar é a sólida relevância que os movimentos latino-americanos
				tiveram nesse processo de resistência dos costumes coloniais e neoliberais,
				estruturados, fortemente, no corpo social da América Latina, tal como suas
				contribuições na construção de uma sociedade pautada em práticas decoloniais,
				independentes e acolhedoras dos mais variados tipos de diversidades.</p>
			<p>Faz-se necessário destacar, ainda, os significativos aportes da Educação Popular no
				contexto social e histórico da América Latina. Pode-se perceber, segundo <xref
					ref-type="bibr" rid="B15">Jara (2020)</xref>, que os percursos dos processos de
				Educação Popular, em sua vertente bidimensional, caracterizamse por ser um fenômeno
				sociocultural, intimamente ligado à história da América Latina e seus povos, também
				sendo uma concepção de educação que está em constante aperfeiçoamento. As propostas
				de Educação Popular sempre estarão relacionadas ao estímulo consciente e crítico de
				processos emancipatórios de mudança social, desenvolvidas nos mais diversos
				contextos. Sobre a gênese dos processos de Educação Popular, <xref ref-type="bibr"
					rid="B15">Jara (2020</xref>, p. 206) diz que:</p>
			<disp-quote>
				<p>Os processos de Educação Popular surgiram, portanto, sempre diversos e
					multifacetados, como parte da necessidade de responder ativamente e de forma
					propositiva aos desafios da[sic] cada contexto e momento histórico, e
					influenciados pelos marcos de referência dos diversos contextos teóricos e os
					projetos de sociedades com os quais se vincularam. Essa permanente dinâmica de
					“reinvenção” de si mesmos é uma característica própria dos processos de Educação
					Popular, devido precisamente à integralidade com que se relacionam seus
					componentes e sentidos éticos, políticos e pedagógicos na busca por contribuir
					com a transformação social e cultual de cada época.</p>
			</disp-quote>
			<p>Deste modo, a Educação Popular latino-americana demonstra ter consistência o
				suficiente para servir de referencial na construção de sistemas educativos
				alternativos, bem como poderá ser fonte de inspiração para a idealização de outras
				maneiras de fazer educação, haja vista que, em consonância com <xref ref-type="bibr"
					rid="B15">Jara (2020</xref>, p. 215), “os processos de Educação Popular
				estiveram desde sempre vinculados à aspiração democrática de satisfazer o direito a
				uma educação de qualidade acessível a todas as pessoas, em distintos períodos
				históricos [...]”. Ela deve ser compreendida, antes de tudo, a partir de sua
				vinculação com a história dos povos latino-americanos e caribenhos, nos seus mais
				distintos e diversos processos de organização coletiva, de lutas, de mobilização, de
				participação, de defesa de sua própria identidade e dos seus direitos individuais e
				coletivos, pois é isso que a Educação Popular tem representado para os povos dessa
				região.</p>
			<p>A Educação Popular na América Latina tem uma sólida fundamentação teórica e prática,
				de base vasta, consistente e original, a qual constitui os processos de Educação
				Popular, dando-lhe caráter de uma corrente pedagógica crítica, com uma capacidade
				propositiva para as ações educativas no geral, estreitando o elo entre educação e a
				mudança social. Para a contemporaneidade dos latino-americanos, estima-se, portanto,
				práticas educativas alicerçadas nos preceitos da Educação Popular, visto que “a
				concepção e a prática de uma Educação Popular pode contribuir e inspirar para essa
				redefinição e prática de outras relações de poder, e de outras lógicas de
				participação econômica, social, política e cultural” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B15">Jara, 2020</xref>, p. 208), cujos frutos são visíveis e já mostraram
				grande valia nos atos de resistência e organização coletiva das classes populares
				nos mais variados âmbitos da América Latina.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A extensão popular em universidades da América Latina: aportes
				teóricometodológicos da educação popular</title>
			<p>No âmbito universitário, ao longo do itinerário formativo, diversos são os conceitos
				e categorias apresentadas aqueles(as) que adentram aos espaços físicos e virtuais
				das universidades. A tríade acadêmica - ensino, pesquisa e extensão - tornou-se um
				dos debates mais recorrentes na rotina dos sujeitos que ali estão inseridos. Para
					<xref ref-type="bibr" rid="B18">Marin (2019</xref>, p. 3), “no ínterim
				universitário, a tríade ensino-pesquisa-extensão acontece em diversas frentes e
				envolve professores, estudantes e sociedade, em um mecanismo educativo que busca o
				desenvolvimento das capacidades humanas acima de tudo e em distintas direções”.
				Estes três elementos se caracterizam por serem exercícios basilares para a
				constituição e o progresso de todas as universidades, onde devem se interligar e
				coexistirem, dialogicamente, entre si de modo indissociável.</p>
			<p>Concernente a extensão, principal temática deste estudo, sabe-se que suas ações visam
				uma maior aproximação da universidade com a comunidade externa, pautando-se,
				principalmente, no oferecimento de serviços técnicos e científicos, bem como na
				troca de saberes, conhecimentos e informações que podem ser úteis para ambas as
				partes das atividades extensionistas. O Plano Nacional de Educação (PNE) - Lei nº
					13.005/<xref ref-type="bibr" rid="B2">2014</xref> estabelece como estratégia, em
				sua Meta 12, o asseguramento de, no mínimo, 10% (dez por cento) do total de créditos
				curriculares exigidos para a graduação em programas e projetos de extensão
				universitária, orientando sua ação, prioritariamente, para áreas de grande
				pertinência social.</p>
			<p>A curricularização/integralização da extensão ou creditação curricular, assim como
				queira chamar, também tem tomado grande parte dos debates realizados dentro e fora
				dos centros acadêmicos e universitários. Logo, caracterizase por efetuar a inclusão
				das atividades extensionistas nos currículos dos cursos, de forma com que todos(as)
				os(as) estudantes, os(as) quais passem por uma graduação, tenham a possibilidade de
				participar dessas ações em estreita relação com a sociedade. Conforme <xref
					ref-type="bibr" rid="B10">Gadotti (2017</xref>, p. 4), “a curricularização da
				extensão faz parte, de um lado, da indissociabilidade do ensino, da pesquisa e da
				extensão na universidade, e, de outro, da necessária conexão da universidade com a
				sociedade, realçando o papel social da universidade, bem como a relevância social do
				ensino e da pesquisa”.</p>
			<p>No entanto, insiste-se, ainda, em uma dificultosa acepção teórica acerca do conceito
				de extensão universitária, uma vez que se encontra em reformulação, tanto no Brasil,
				como em outros países (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Faria, 2001</xref>). Tal
				impasse tem causado, de certa forma, uma confusão semântica sobre o legítimo
				significado da extensão universitária e suscitado indagações no que tange a
				verdadeira finalidade prática de suas atividades, conforme nos explica <xref
					ref-type="bibr" rid="B10">Gadotti (2017</xref>, p. 4):</p>
			<disp-quote>
				<p>As críticas dirigem-se tanto a práticas assistencialistas quanto a sua submissão
					ao mercado: questiona-se sobretudo a Extensão Universitária como prática
					separada do ensino e da pesquisa e a própria existência de pró-reitorias
					distintas.</p>
				<p>O que é promissor nesse debate é que a questão da Extensão Universitária está
					posta hoje e os caminhos estão abertos para que ela seja revalorizada como
					essencial para um projeto de universidade e de sociedade.</p>
			</disp-quote>
			<p>Sendo assim, ainda em consonância com <xref ref-type="bibr" rid="B10">Gadotti
					(2017)</xref>, na prática, duas vertentes da extensão universitária têm se
				defrontado: uma de cunho mais assistencialista e a outra não assistencialista. A
				primeira, por sua vez, compreende essa ferramenta que compõe a tríade das
				universidades como uma transmissão vertical e bancária dos conhecimentos históricos
				e socialmente construídos, ao desenvolver um serviço assistencial em que, na maioria
				dos casos, negligencia os contextos, as culturas e os saberes populares do
				público-alvo. Esta perspectiva propaga uma concepção unilateral, isto é, uma via de
				mão única, evidenciando a essência do pensamento acadêmico moderno, o qual considera
				os conhecimentos científicos superiores aos saberes populares acumulados ao esvair
				dos tempos. Os conhecimentos exógenos, para a extensão assistencialista, não tem
				validade ou serventia teórico-prática.</p>
			<p>A segunda perspectiva extensionista, respectivamente, apreende a extensão
				universitária como elemento fundamental na comunicação dos saberes, distanciando-se
				da vertente assistencialista e desenvolvendo ações mais horizontais, as quais visam
				respeitar e incorporar aos debates os saberes construídos pelas classes populares a
				partir de suas vivências, experiências e conhecimentos de mundo. Uma relação,
				portanto, de comunhão entre a academia e a comunidade, devendo ser pautada sob o
				viés do diálogo, da reciprocidade, da resistência, da viabilização de direitos e,
				sobretudo, das práticas de Educação Popular, quer seja enquanto exercício político,
				social e/ ou educativo, embasando-se, pois, na concepção crítica de mundo.</p>
			<p>Há de se ressaltar, também, o papel pedagógico da extensão universitária, visto que
				tem emergido, cada vez mais, o entendimento de que as ações extensionistas são
				fundamentais para a promoção de uma educação democratizada e de qualidade. <xref
					ref-type="bibr" rid="B5">Coelho (2014</xref>, p. 16), salienta que “a
				participação em atividades extensionistas permite aos estudantes, por um lado,
				aumentar seu engajamento social e desenvolver cidadania e, por outro, qualificar-se
				profissionalmente [...]”, pode-se, pois, na íntima conexão com a sociedade,
				encontrar novas formas e fontes de conhecimento, ganhando, portanto, segurança para
				o pleno exercício profissional e adquirindo, continuamente, novas aprendizagens e
				habilidades, entrelaçando aportes teóricos e práticos.</p>
			<disp-quote>
				<p>Percebe-se, nesse contexto, um crescimento do fomento à extensão universitária,
					não só para atender às demandas externas, como também para contribuir com a
					produção de novos conhecimentos e a qualificação do corpo docente e discente.
					Além disso, a extensão passou a ter uma dimensão pedagógica, em tese,
					contribuindo também para o aprendizado e a formação dos estudantes
					universitários. Desse modo, como atividade pedagógica, passa a ser um objeto de
					estudo no campo educacional ou nas ciências sociais, entre outros (<xref
						ref-type="bibr" rid="B5">Coelho, 2014</xref>, p. 20-21).</p>
			</disp-quote>
			<p>Dessa forma, a extensão popular universitária, em específico, começa a ganhar mais
				visibilidade, sendo, pois, temática central deste estudo. Logo, para <xref
					ref-type="bibr" rid="B1">Benincá e Campos (2017</xref>, p. 146), “a extensão
				popular surge como uma proposta integrativa e democrática, que busca valorizar o
				conhecimento popular e inseri-lo no campo frutuoso da reflexão”. Entretanto, convém
				frisar que a categoria “popular” da extensão não rebaixa sua qualidade, tampouco
				ameniza sua perspectiva crítica, científica e acadêmica, uma vez que perpassa por
				todas essas dimensões e, ainda, comunga com os saberes populares das classes
				marginalizadas da sociedade, mostrando-se comprometida com as pautas dos grupos
				minorizados e propiciando processos de autonomia para estes sujeitos.</p>
			<p>As realidades mais adversas e os ambientes negligenciados, seja pelo Estado ou pelos
				vários setores da sociedade civil, tornaram-se as principais esferas de atuação da
				extensão popular, a qual, na maioria das vezes, tem buscado amenizar, por meio de
				seus itinerários, as localidades atravessadas pela pobreza, pela falta da educação
				escolar, pela escassez de alimentação, pelas violências, pela poluição do meio
				ambiente, pela luta por direito à moradia, entre outros mecanismos de desigualdade
				social. Na atualidade, seu maior desafio é adentrar, inicialmente, a estes espaços,
				tendo em vista a enorme resistência de muitas comunidades em aceitar as
				representações das universidades, pois, ao navegar por esse histórico, notase a
				cruel descartabilidade sofrida por estas pessoas, causada, entre outros fatores,
				pela lógica elitista, mercenária e aproveitadora das instituições
				universitárias.</p>
			<p>Cabe esclarecer que as extensões populares desenvolvidas pelas universidades não
				objetivam assumir papeis os quais não lhe competem ou que sejam responsabilidade do
				governo, quer seja federal, estadual, distrital ou municipal, uma vez que sua
				intencionalidade é fornecer conhecimentos científicos e técnicos para a comunidade,
				assim como extraí-los para o bem comum, considerando sua perspectiva dialógica e
				reconhecendo a relevância sócio-histórica dos saberes advindos das camadas
				populares, onde, muitas vezes, são repassados de geração em geração pelos anciãos ou
				pelos líderes comunitários mais longevos. <xref ref-type="bibr" rid="B1">Benincá e
					Campos (2017</xref>, p. 151) nos alertam sobre a questão supramencionada:</p>
			<disp-quote>
				<p>Apesar de ser uma proposta transformadora, a extensão popular não pode pretender
					substituir a ação do poder público. Requer, isto sim, que esteja articulada com
					a comunidade e que se constitua como um espaço de fortalecimento da consciência
					crítica e de exercício da democracia. Significa dizer que a extensão
					universitária, assim concebida, estimula ao enfrentamento/ superação de
					situações-problemas e à luta pela cidadania ativa.</p>
			</disp-quote>
			<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B19">Melo Neto (2014</xref>, p. 47-48), quando as
				ações extensionistas assumem a dimensão do popular, “a extensão transpõe os muros
				institucionais, superando o seu exercício resumido apenas a ações de participantes
				de determinadas organizações sociais, sobretudo estatais”, adquirindo, pois,
				enquanto trabalho social, a dimensão da exterioridade e englobando práticas
				educativas em movimentos sociais, setores da sociedade civil ou, até mesmo, a partir
				do Estado. A extensão popular se desenvolve em meio às tensões de seus sujeitos em
				ação, perante uma realidade objetiva, cuja intencionalidade poderá ser de
				transformação voltada às esferas sociais marginais e oprimidas. Dentro desta
				concepção, a extensão popular possui uma metodologia própria de trabalho social, a
				qual possibilita uma ampla visualização das contradições inerentes ao modo de
				produção dominante.</p>
			<p>Têm se tornando necessárias na efetivação da extensão popular universitária, além
				disso, práticas educativas alicerçadas na garantia do respeito às individualidades
				de si e de outrem, prezando, sobretudo, por ações autogestionárias. A
				autovalorização, assim como a auto-organização, apresentam-se como ferramentas
				basilares nas atividades políticas, sociais e educacionais das extensões. Ademais,
				estas ações educativas em extensão popular devem ter a capacidade de apresentar a
				escolha pela utilidade significativa do trabalho social, onde a intenção poderá
				estar direcionada aos mecanismos de ajeitamento coletivo dos vários setores da
				sociedade. É essencial a tomada de consciência crítica e a percepção das inúmeras
				questões sociais que nos atravessam, haja vista serem forças mobilizadoras que
				ancoram a construção da mudança individual e coletiva. Logo, <xref ref-type="bibr"
					rid="B19">Melo Neto (2014</xref>, p. 49-50) corrobora este debate proferindo
				que:</p>
			<disp-quote>
				<p>Além dos princípios externados, pode-se desenvolver um conjunto de outros
					valores, norteadores de práticas extensionistas, que vislumbre os seguintes
					aspectos: a compartilhação dos conhecimentos e das atividades culturais; a
					promoção da busca incessante de outra racionalidade econômica internacional; a
					comunicação entre indivíduos, a responsabilidade social, direitos iguais a
					todos, respeito às diferenças e às escolhas individuais ou grupais, novos
					elementos que potenciem a dimensão comunitária e a solidariedade entre as
					pessoas. Experiências que retecem o tecido social com novos valores e objetivos,
					definindo, também, estratégias de transformação global da sociedade.</p>
			</disp-quote>
			<p>Sendo, pois, a extensão popular, um corpo ético, o qual aporta a constituição de
				outra cultura política, por meio das ações extensionistas, tipicamente, popular,
				desdobrando-se como expressão de atitudes superadoras de todos os mecanismos
				impeditivos da irredutível e radicalizada procura por novas consubstanciações das
				utopias mobilizantes e sonhos de um mundo justo, liberto e feliz (<xref
					ref-type="bibr" rid="B19">Melo Neto, 2014</xref>). Para o referido autor
					(<italic>Ibidem</italic>), a extensão sob o crivo popular pode trazer a
				essencial superação do “senso comum”, ao propor a explicação e exposição dos
				elementos presentes na realidade que, a princípio, estão acorrentados a abstrações,
				porém que são intrínsecos ao mundo concreto e a tal realidade, dispondo-o como
				ferramenta anterior nos seus construtos analíticos.</p>
			<p>Em consonância com <xref ref-type="bibr" rid="B6">Cruz <italic>et al</italic>.
					(2021</xref>, p. 70), “consideramos que, hoje, a Extensão Popular situa-se como
				uma das substânciais[<italic>sic</italic>] alternativas de constituição de
				subjetividades inconformistas no contexto das instituições universitárias públicas
				brasileiras”. Quando aliadas ou alicerçadas na perspectiva crítica da Educação
				Popular, a extensão se potencializa, aumenta seu alcance e reverbera nas camadas
				mais oprimidas e marginalizadas da sociedade, transformando-se em esperançar, visto
				que, conforme <xref ref-type="bibr" rid="B9">Freire (2006)</xref>, esperançar é se
				levantar, ir atrás, construir e, principalmente, não desistir, levando adiante sua
				força motriz, juntando-se com seus semelhantes, mas também com seus indiferentes
				para fazer o mundo de uma nova forma, de uma outra maneira. Logo, a extensão popular
				universitária deve ser desenvolvida de modo ético, coerente e pautada nas diversas
				categorias da Educação Popular.</p>
			<disp-quote>
				<p>Por Extensão Popular, compreende-se uma concepção de pensar, de fazer e de pautar
					a Extensão Universitária de forma coerente com os princípios
					teórico-metodológicos da Educação Popular, especialmente, conforme as
					perspectivas desenvolvidas por Paulo Freire e por uma rica diversidade de outros
					autores. Tais perspectivas provêm, sobretudo, de uma série de potentes
					experiências educacionais, de ações culturais e de práticas sociais empreendidas
					de modo compartilhado com os protagonistas, os grupos e os movimentos sociais
					populares do Brasil e da América Latina desde meados dos anos de 1950 (<xref
						ref-type="bibr" rid="B6">Cruz <italic>et al</italic>., 2021</xref>, p.
					71).</p>
			</disp-quote>
			<p>No que tange às categorias da Educação Popular, as quais podem servir como
				referencial para as ações universitárias extensionistas, pode-se destacar,
				inicialmente, os processos de emancipação, onde, segundo <xref ref-type="bibr"
					rid="B4">Carrillo (2013)</xref>, no âmbito da Educação Popular, quando se fala
				em paradigmas emancipadores se faz menção, simultaneamente, a uma dimensão
				gnosiológica - interpretação crítica da realidade -, uma dimensão política -
				alternatividade de posicionamento e opção diante dessa realidade - e uma dimensão
				prática - orientadora das ações individuais e coletivas direcionadas à transformação
				da realidade. Não se deve, portanto, ir à procura da dimensão emancipadora fora do
				campo político-pedagógico em que a Educação Popular vem atuando nos últimos tempos
					(<xref ref-type="bibr" rid="B4">Carrillo, 2013</xref>).</p>
			<p>Ressalta-se, também, a categoria diálogo, tendo em vista que, de acordo com <xref
					ref-type="bibr" rid="B3">Cananéa (2015</xref>, p. 81), “a educação popular tem
				significativo papel nessa construção indispensável dos diálogos entre os diferentes
				sujeitos sociais e suas ações intervencionistas”. Através dos processos dialógicos
				do cotidiano, pode-se criar mecanismos de cooperação, organização coletiva e
				participação efetiva do corpo social nas tomadas de decisões comunitárias, tornando
				estes espaços, por vezes, democráticos. A Educação Popular, em sua completude,
				propicia diversas outras categorias como participação, autonomia e problematização,
				as quais possibilitam o desenvolvimento do olhar crítico sobre a realidade social,
				suas questões e especificidades, enquanto esfera de injustiças e desigualdades.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Pensar sobre os múltiplos processos de colonização da América Latina nos ajuda a
				refletir sobre a rigidez de tais atrocidades e na perversidade das ações sofridas
				pelos povos que aqui habitam. O exercício reflexivo também propicia um amplo
				discernimento acerca das contribuições dos movimentos sociais e das práticas de
				Educação Popular, as quais demonstraram significativos impactos em diversos
				episódios desses períodos históricos. Ademais, podemos perceber as inúmeras
				influências dessas perspectivas educativas dentro das universidades
				latino-americanas, reverberando, principalmente, nas atividades extensionistas de
				cunho popular. No Brasil, especialmente, esta concepção de extensão tem ganhado
				visibilidade, considerando o contexto de luta e resistência das classes
				marginalizadas socialmente e as novas possibilidades do fazer científico e
				pedagógico das universidades brasileiras.</p>
			<p>Desenvolver extensão popular universitária, portanto, é agir de modo crítico,
				reflexivo e ativo na possível amenização das desigualdades socioeducacionais e nos
				processos de emancipação humana, celebrando, inclusive, a diversidade étnica,
				religiosa e cultural das comunidades. É respeitar, sobretudo, as diferenças e
				costumes desses sujeitos, trazendo suas especificidades como elemento positivo na
				constituição do indivíduo e da identidade comunitária. Além disso, a extensão
				popular, por vezes, desdobra-se na criação de oportunidades significativas e na
				possibilidade de um íntimo contato com os espaços acadêmicos, podendo fazer com que
				estas pessoas se sintam pertencentes aos ambientes universitários e neles tenham a
				esperança de ascender socioeconomicamente, por meio das formações de cursos
				superiores, tecnológicos ou, até mesmo, técnicos.</p>
			<p>A Educação Popular, enquanto paradigma educativo latino-americano, auxilia-nos a
				perceber, a agir e a refletir sobre os processos de desumanização dos(as) marginais,
				excluídos(as) e oprimidos(as), possibilitando-nos a tomada de consciência crítica
				acerca das desigualdades e injustiças presentes em nosso cotidiano, haja vista sua
				capacidade vital, motriz e reflexiva. As práticas sociais, políticas e/ou educativas
				que tomam a Educação Popular como preceito tendem a valorizar os conhecimentos de
				mundo dos sujeitos e com eles(as), por eles(as) e para eles(as) lutam por um corpo
				social digno da vivência e experiência humana. A Educação Popular, para além de um
				referencial, é um exercício de resistência e combate contra todas e quaisquer formas
				de opressão, de exclusão, de marginalização e de criminalização da pobreza.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p> Artigo revisado e normalizado por Josefina Lopes Simões.</p>
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