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	<front>
		<journal-meta>
			<journal-id journal-id-type="publisher-id">faeeba</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. FAEEBA - Ed. e
					Contemp.</abbrev-journal-title>
			</journal-title-group>
			<issn pub-type="epub">2358-0194</issn>
			<publisher>
				<publisher-name>Universidade do Estado da Bahia</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi"
				>10.21879/faeeba2358-0194.2024.v33.n76.p348-364</article-id>
			<article-categories>
				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigo</subject>
				</subj-group>
			</article-categories>
			<title-group>
				<article-title>MAIS UMA VEZ CONVOCADOS <italic>ECOS</italic> DE FLORESTAN FERNANDES
					NA <italic>SIMBIOSE</italic> ENTRE UNIVERSIDADE, MOVIMENTOS SOCIAIS E
					TRANSFORMAÇÃO SOCIAL DA REALIDADE</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>ONCE AGAIN SUMMONED <italic>ECHOS</italic> OF FLORESTAN FERNANDES
						IN THE <italic>SYMBIOSIS</italic> bETWEEN UNIVERSITY, SOCIAL MOVEMENTS AND
						SOCIAL TRANSFORMATION OF REALITY</trans-title>
				</trans-title-group>
				<trans-title-group xml:lang="es">
					<trans-title>UNA VEZ MÁS CONVOCADOS <italic>ECOS</italic> DE FLORESTAN FERNANDES
						EN LA <italic>SIMBIOSIS</italic> ENTRE UNIVERSIDAD, MOVIMIENTOS SOCIALES Y
						TRANSFORMACIÓN SOCIAL DE LA RELAIDAD</trans-title>
				</trans-title-group>
			</title-group>
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0003-3304-757X</contrib-id>
					<name>
						<surname>Santos</surname>
						<given-names>Claudecir dos</given-names>
					</name>
					<bio>
						<p><sup>*</sup> Doutorado em Filosofia. Professor da Universidade Federal da
							Fronteira Sul - UFFS. Líder do Grupo de Pesquisa Educação, Filosofia e
							Sociedade (GPEFS). Chapecó, SC. E-mail:
								<email>claudecir.santos@uffs.edu.br</email>
						</p>
					</bio>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"/>
				</contrib>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-8378-9945</contrib-id>
					<name>
						<surname>Grosseli</surname>
						<given-names>Camila</given-names>
					</name>
					<bio>
						<p><sup>**</sup> Graduação em Ciências Sociais e Mestranda em Educação pela
							Universidade Federal da Fronteira Sul - UFFS, na linha de pesquisa
							Políticas Educacionais. Bolsista CAPES. Membro do Grupo de Pesquisa:
							Educação, Filosofia e Sociedade (GPEFS). Chapecó, SC. E-mail:
								<email>c.grosseli97@gmail.com</email>
						</p>
					</bio>
					<xref ref-type="aff" rid="aff2"/>
				</contrib>
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			<aff id="aff1">
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal da Fronteira
					Sul</institution>
				<institution content-type="original">Universidade Federal da Fronteira
					Sul</institution>
			</aff>
			<aff id="aff2">
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal da Fronteira
					Sul</institution>
				<institution content-type="original">Universidade Federal da Fronteira
					Sul</institution>
			</aff>
			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>20</day>
				<month>11</month>
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2024</year>
			</pub-date>
			<volume>33</volume>
			<issue>76</issue>
			<fpage>348</fpage>
			<lpage>364</lpage>
			<history>
				<date date-type="received">
					<day>23</day>
					<month>05</month>
					<year>2024</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
					<day>10</day>
					<month>08</month>
					<year>2024</year>
				</date>
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				<license license-type="open-access"
					xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Este artigo tem por objetivo resgatar ideias e ações do sociólogo, docente e
					político brasileiro, Florestan Fernandes, com o intuito de perceber, a partir
					das proposições do autor, os desafios para a efetivação de um projeto de
					universidade popular. É nesse contexto que o artigo apresenta o caso da
					Universidade Federal da Fronteira Sul - UFFS, instituição oriunda da luta de
					movimentos sociais, estruturada como uma universidade popular interiorana. No
					que se refere ao aspecto metodológico, o artigo segue a abordagem da pesquisa da
					qual é fruto, ou seja, tem natureza bibliográfica e documental. Como resultados,
					o artigo apresenta e problematiza possibilidades para a criação e sobrevivência
					de um movimento simbiótico entre universidade, movimentos sociais populares e
					transformação social da realidade, e destaca as aproximações entre os ideais de
					Florestan Fernandes para uma educação democrática e as condições de efetividade
					desse ideal, a partir de um exemplo concreto.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This article aims to rescue ideas and actions of the the brazilian sociologist,
					profesor and politician, Florestan Fernandes, in order to perceive, from the
					author’s propositions, the challenges for the realization of a popular
					university project. It is in this context that the article presents the case
					ofthe Federal University of the Southern Frontier - UFFS, an institution arising
					from the struggle of social movements, structured as a popular university in the
					countryside. Regarding the methodological aspect, the article follows the
					approach of the research of which it is the fruit, that is, it has a
					bibliographic and documentary nature. As a result, the article presentes and
					problematizes possibilities for the creation ad survival of a symbiotic movement
					between university, popular social movements and social transformation of
					reality, and highlights the approximations between Florestan Fernandes’ ideals
					fora democratic education and the conditions for the effectiveness of this
					ideal, based on a concrete example.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>El objetivo de este artículo es retomar las ideas y acciones del sociólogo,
					profesor y político brasileño Florestan Fernandes, para comprender, a partir de
					las propuestas del autor, los desafíos que enfrenta la realización de un
					proyecto de universidad popular. En este contexto, el artículo presenta el caso
					de la Universidad Federal de la Frontera Sur (UFFS), institución surgida de la
					lucha de los movimientos sociales y estructurada como universidad popular del
					interior. En cuanto al aspecto metodológico, el artículo sigue el enfoque de la
					investigación de la que se deriva, es decir, es de naturaleza bibliográfica y
					documental. Como resultado, el artículo presenta y problematiza las
					posibilidades de creación y supervivencia de un movimiento simbiótico entre la
					universidad, los movimientos sociales populares y la transformación social de la
					realidad, y destaca las aproximaciones entre los ideales de Florestan Fernandes
					para una educación democrática y las condiciones de efectividad de este ideal, a
					partir de un ejemplo concreto</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Florestan Fernandes</kwd>
				<kwd>Democratização da educação</kwd>
				<kwd>Universidade popular.</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Florestan Fernandes</kwd>
				<kwd>Democratization of education</kwd>
				<kwd>Popular university.</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>Florestan Fernandes</kwd>
				<kwd>Democratización de la educación</kwd>
				<kwd>Universidad popular.</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução<sup><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup></title>
			<p>Este artigo é fruto de uma pesquisa em nível <italic>Stricto sensu</italic> em fase
				de finalização. A pesquisa em questão, realizada no Programa de Pós-graduação em
				Educação da Universidade Federal da Fronteira Sul, abordou a atuação política de
				Florestan Fernandes em prol de uma educação democrática. Em relação à metodologia, a
				pesquisa foi de natureza bibliográfica e documental. Portanto, no que se refere ao
				aspecto metodológico, o presente artigo segue a mesma abordagem da pesquisa da qual
				é fruto.</p>
			<p>O título desse artigo não deve causar estranheza para quem tem familiaridade com a
				obra do professor, sociólogo e político brasileiro Florestan Fernandes, sobretudo
				para quem atua no campo das ciências sociais e da educação. Contudo, como não
				escrevemos um artigo para um grupo ou público previamente selecionado, mas, ao
				contrário, para um amplo número de pessoas, com e sem conhecimento do tema abordado,
				consideramos importante apresentar uma breve explicação da escolha do título, em
				particular das palavras: <italic>eco</italic> e <italic>simbiose</italic>.</p>
			<p>O manifesto <italic>Mais uma vez convocados</italic> foi um movimento ocorrido em
				1959 e 1960 em defesa da escola pública, mas sobre isso falaremos nos parágrafos
				seguintes e em uma seção temática específica sobre o assunto. Assim sendo, passamos
				a explicação do uso das palavras <italic>eco</italic> e <italic>simbiose</italic>
				nesse artigo.</p>
			<p>De acordo com a mitologia grega, Eco era uma bela ninfa, amante dos bosques e dos
				montes, onde se dedicava a distrações campestres. Tinha um defeito, porém: falava
				demais e, em qualquer conversa ou discussão, queria sempre dizer a última palavra
					(<xref ref-type="bibr" rid="B13">Bulfinch, 2001</xref>). Por assim ser, Eco
				conseguiu entreter a deusa Juno até que outras ninfas fugissem, em uma ocasião em
				que Juno procurava pelo marido que se divertia com as ninfas. Ao perceber a
				enrolação, Juno condenou Eco com as seguintes palavras: “só conservarás o uso dessa
				língua com que me iludiste para uma coisa de que gosta tanto: responder. Continuarás
				a dizer a última palavra, mas não poderás falar em primeiro lugar” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B13">Bulfinch, 2001</xref>, p. 123-127).</p>
			<p>O castigo dado a Eco fez com que seus ossos se transformassem em rochedos e nada mais
				dela restou além da voz. Por isso, ainda disposta a responder a quem quer que a
				chame, Eco conserva o velho hábito de dizer a última palavra, daí o
					<italic>Eco</italic> de nossas vozes quando “falamos/gritamos” em ambientes com
				possibilidades de intervalos de som.</p>
			<p>A compreensão dessa passagem mitológica, na sua totalidade, está associada a
				continuidade do relato mítico que inclui Narciso, outra figura da mitologia grega. A
				soberba, o orgulho e o desprezo de Narciso por Eco o levam à morte. Poderíamos até
				dar mais detalhes dessas figuras mitológicas para auxiliar o raciocínio seguinte,
				mas não faz parte dos objetivos de estudo do presente artigo discutir mitologia. O
				resgate do mito de Eco, portanto, teve uma intenção em particular: problematizar o
				significado de uma palavra que utilizamos para explicar a <italic>reflexão de som
					que chega ao ouvido pouco tempo depois do som direto</italic>.</p>
			<p>É essa a sensação que estamos tendo nesse momento ao resgatarmos as falas de
				Florestan Fernandes proferidas ao longo da segunda metade do século passado. As
				palavras do professor, sociólogo e político brasileiro Florestan Fernandes continuam
					<italic>ecoando</italic> em nossa sociedade. Interpretá-las e significá-las a
				partir de exemplos concretos é uma forma de fazer justiça à memória de uma pessoa
				que atuou em defesa da democracia e de uma educação democrática. Nesse artigo,
				voltamo-nos às contribuições de Florestan Fernandes para a educação e trazemos
				presente o caso de uma instituição que a conhecemos por fazer parte dela, como
				estudante de graduação e pós-graduação e como docente. Essa instituição nasceu com
				caráter popular e com o envolvimento de movimentos sociais, e é nesse contexto que
				pretendemos problematizar os <italic>ecos</italic> de Florestan Fernandes.</p>
			<p>Nesse mesmo direcionamento explicativo, aproveitamos para falar da palavra
					<italic>simbiose.</italic> Essa palavra, também de origem grega, em que
					<italic>Sym</italic> significa junto, e <italic>bios,</italic> vida, refere-se
				às relações entre organismos que vivem ou cooperam com outros. É claro que essa
				palavra quando interpretada a partir de compreensões da Biologia ou da Psicanálise,
				por exemplo, adquire explicações mais aprofundadas, mas, para os propósitos desse
				artigo, seguimos a conceituação geral. E por que a trazemos presente nesse artigo? A
				resposta para essa pergunta está na leitura de uma dissertação realizada na
				Faculdade de Letras da Universidade de Porto. Inicialmente, fomos captados pelo
				título dessa dissertação: <italic>DO PARASITISMO À SIMBIOSE: responsabilidade
					ecológica em Michel Serres</italic>, mas, ao tomar conhecimento do seu conteúdo,
				entendemos, assim como o autor, a imperiosa necessidade de estabelecermos uma
				relação de simbiose <italic>entre/com</italic> o que pode proporcionar vida: à nos
				humanos, às demais espécies do nosso planeta e ao próprio planeta terra.</p>
			<p>O objeto de estudo da dissertação citada não é o mesmo desse artigo, contudo, a
				análise do autor (António M. B. <xref ref-type="bibr" rid="B14">Correia,
				2012</xref>) sobre como a tradição científica e filosófica privilegiou o saber em
				detrimento do mundo natural, bem como os problemas que essa relação parasitária
				provoca, nos fez pensar que a urgência em encontrarmos equilíbrios simbióticos entre
				seres humanos e o planeta começa por uma educação pública e de qualidade. Uma
				educação que desde a primeira infância proporcione aos estudantes noções de
				cidadania, democracia, respeito ao outro e a natureza. É este o contexto em que
				emergiu a ideia de falarmos da simbiose entre universidade, movimentos sociais e
				transformação social da realidade.</p>
			<p>A pergunta que este artigo procura responder, portanto, indaga sobre as condições de
				sustentabilidade a uma universidade popular em um contexto de avanço neoliberal.
					<italic>Nesse</italic> e <italic>frente</italic> a esse contexto, como dar vida
				a um movimento simbiótico entre universidade, movimentos sociais populares e
				transformação social da realidade? Problematizaremos essa questão ao longo do artigo
				fazendo referência a um caso concreto, o exemplo da Universidade Federal da
				Fronteira Sul (UFFS).</p>
			<p>O artigo está dividido em quatro seções temáticas: <italic>Florestan Fernandes:
					professor, sociólogo e político; a Campanha em Defesa da Escola Pública
					(1959-1960); sobre a educação democrática;</italic> e, <italic>a Universidade
					Federal da Fronteira Sul e a aplicação de uma educação democrática</italic>. Na
				primeira, segunda e terceira seção temática, o artigo procura destacar aspectos da
				vida e da obra de Florestan Fernandes que justificam a defesa de que suas ideias,
				proposições e ações continuam ecoando em nossos dias. Na quarta seção temática, o
				artigo apresenta e problematiza o caso da Universidade Federal da Fronteira Sul
				(UFFS), como representante de um ideal de universidade popular.</p>
			<p>Nas considerações finais, o artigo faz algumas relações entre ambas idealizações, ou
				seja, os ideais de Florestan Fernandes para uma educação democrática e as condições
				de efetividade desse ideal a partir de um exemplo concreto, o caso da UFFS. Seguindo
				essa organização descritiva, o artigo destaca ainda em sua conclusão que educação
				ofertada de forma gratuita, com qualidade e laica, assim como defendia Fernandes, é
				o princípio de uma sociedade que se designa democrática, daí a importância em
				resgatar e deixar ecoar as vozes de um autor que sonhou e lutou pela criação de
				espaços educacionais onde a democracia não seria apenas uma palavra, mas uma
				prática.</p>
			<p>Por último, uma observação necessária: escrever esse artigo é uma tentativa de
				ampliar e qualificar o debate acerca da defesa de uma educação e de uma sociedade
				democrática. Essa sempre urgente tarefa que fez parte da trajetória de Florestan
				Fernandes é um convite para a problematização dos desafios educacionais e
				democráticos contemporâneos à luz do pensamento desse autor. Portanto, esse artigo
				não se ocupa de uma análise crítica da obra do autor, mas de um resgate de suas
				contribuições para a vivência de uma educação pública e de qualidade para todos. Em
				síntese, diferente de outras produções onde pontuamos certas “incompletudes” da obra
				de Florestan Fernandes, aqui destacamos as contribuições do autor que caminham ao
				encontro do tema proposto no dossiê temático. Ou seja, não se trata de permanecer na
				“seara dos elogios”, mas de seguir o propósito de apresentar elementos que
				corroboram com a ideia de que é possível vivenciar uma <italic>simbiose entre
					universidade, movimentos sociais e transformação social da realidade.</italic>
				Florestan Fernandes, o patrono da Sociologia brasileira<sup><xref ref-type="fn"
						rid="fn2">2</xref></sup>, nos ajuda “alimentar esse propósito”, e por isso
				nos desafiamos a problematizá-lo.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Florestan Fernandes: professor, sociólogo e político</title>
			<p>Florestan Fernandes nasceu em São Paulo no dia 22 de julho de 1920. Filho de Maria
				Fernandes, imigrante portuguesa analfabeta que ganhava a vida como lavadeira na casa
				da família Bresser de Lima, família essa que fazia parte da elite paulistana. Foi
				nesse lugar que iniciou o contato com os livros e adquiriu o gosto pelos estudos.
				Contudo, logo teve que abandonar, pois, ao sair desta casa, precisou auxiliar sua
				mãe financeiramente.</p>
			<p>A partir de uma cronologia proposta por <xref ref-type="bibr" rid="B23">Sereza
					(2005)</xref>, observamos que Florestan retomou os estudos de nível básico em
				1938 no curso de madureza ofertado pelo Ginásio Riachuelo; em 1941 ingressou na
				Faculdade de Ciências Sociais da USP; em 1945 iniciou o mestrado em Antropologia
				pela Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, com a pesquisa: A
				organização social dos Tupinambás; e, em 1951 se tornou doutor em Sociologia, pela
				FFCL-USP, com a tese: A função social da guerra na sociedade Tupinambá.</p>
			<p>No ano de 1952, iniciou sua trajetória de docente na FFCL-USP, primeiro como
				assistente e dois anos depois se tornou regente de cátedra. Em 1964, foi preso pelo
				regime militar por criticar as perseguições policiais dentro da USP, e, em 1968, foi
				aposentado compulsoriamente pelo regime, exilando-se. Florestan retornou ao Brasil
				em 1973. Entre 1986 e 1994, atuou como deputado federal carregando consigo a
				bandeira da defesa da escola pública. Ao longo de sua trajetória, Florestan escreveu
				mais de 50 livros, nunca abandonando sua luta, tanto que seus escritos perpassam da
				educação infantil até a educação universitária. Florestan Fernandes faleceu em 10 de
				agosto de 1995 devido a um transplante de fígado malsucedido.</p>
			<p>A partir desta breve passagem pela trajetória de vida de nosso personagem, podemos
				dizer que Florestan Fernandes foi um agente da educação que atuou em diferentes
				posições no campo educacional. <xref ref-type="bibr" rid="B21">Saviani (1996)</xref>
				relata que Florestan cumpria os três pilares do papel da educação na sociedade:
				ensino, pesquisa e extensão, pois é possível observar em sua trajetória quatro
				aspectos que podem ser destacados: o Florestan docente e o significado que tinha a
				sua atuação: fez da Cátedra de Sociologia I um verdadeiro espaço de formação de
				sociólogos, o que foi importante para a sua consolidação como professor; o Florestan
				pesquisador e o lugar que a educação ocupava em suas pesquisas: mostrou a
				importância da educação através do seu empenho enquanto sociólogo e a sua
				preocupação acadêmica sobre essa função; o Florestan militante e sua luta em defesa
				da escola pública: essa luta pode ser percebida desde a Campanha de 1959-1960, aos
				mandatos como deputado federal. Além desse conjunto de ações, Florestan Fernandes
				também atuou na elaboração da Constituição Federal de 1988 e no processo de
				discussão, elaboração e aprovação da nova LDB iniciada em 1988; e, por fim, o
				Florestan publicista que escrevia aos Jornais Folha de São Paulo e Brasil, a fim de
				divulgar um saber crítico acerca da sociedade brasileira.</p>
			<p>As ações destacadas sinalizam a persistência de Florestan Fernandes em universalizar
				a educação escolar, pois, segundo ele (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr"
					rid="B19">Oliveira, 2010</xref>, p. 36), “não há dúvida de que a educação modela
				o homem. Mas é este que determina, socialmente, a extensão das funções construtivas
				da educação em sua vida”, assim, compreendia a educação como direito de todos os
				cidadãos. Em suas palavras (<xref ref-type="bibr" rid="B17">1993</xref>, p. 05), a
				educação seria o “grande (ou maior) valor social. O elemento central da formação da
				cidadania, da nação e do progresso. A chave do desenvolvimento econômico e social ou
				da autonomia cultural. [...] e a conquista do futuro como esperança coletiva”.</p>
			<p>Tanto a Campanha em Defesa da Escola Pública (1959-1960) quanto a ANC (1987-1988)
				tiveram um forte impacto na vida de Fernandes. A Campanha em Defesa da Escola
				Pública, conforme <xref ref-type="bibr" rid="B18">Netto e Machado (2020</xref>, p.
				1) “conferiu unidade à sua atuação dentro e fora da academia e coerência entre a sua
				visão de mundo e ação intelectual” e a candidatura que o tornou deputado federal e o
				vinculou à ANC, permitiu com que Fernandes retomasse a luta em defesa da escola
				pública.</p>
			<p>Vale ressaltar que a entrada na política não se deu por vontade própria, contudo,
				conforme destaca <xref ref-type="bibr" rid="B19">Oliveira (2010</xref>, p. 80), “ao
				decidir se filiar e se candidatar, Florestan via, como já destacado anteriormente, a
				possibilidade de defender no Congresso as posições que sempre pregou ao longo da
				vida”. <xref ref-type="bibr" rid="B23">Sereza (2005</xref>, p. 97) descreve que
				Fernandes “fugia das regras de ‘boa conduta’ da elite universitária, sabia deixar as
				claras suas posições e as defendia com o rigor típico de quem as tinha conquistado,
				e não herdado”, descrição essa observável nas diversas obras de comentadores de
				Florestan aplicadas não somente à sua trajetória intelectual-acadêmica, mas também
				política.</p>
			<p>O objetivo principal de Fernandes em ambas as ações era, conforme destaca <xref
					ref-type="bibr" rid="B19">Oliveira (2010</xref>, p. 45-46) “conscientizar a
				população brasileira sobre os problemas educacionais”, dando ênfase à “relevância da
				democratização do ensino como mecanismo de abolição das barreiras que restringem o
				uso da educação para a manutenção dos privilégios sociais”, para tanto circulou por
				todo o Brasil com a Campanha em Defesa da Escola Pública e enquanto deputado federal
				manteve-se, conforme destacam <xref ref-type="bibr" rid="B18">Netto e Machado
					(2020</xref>, p. 03), “comprometido com a classe trabalhadora e com um projeto
				democrático de sociedade”.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A campanha em defesa da escola pública (1959-1960)</title>
			<p>A Campanha em defesa da escola pública encabeçada por Fernandes pode ser vista como a
				resposta de um conjunto de 164 intelectuais, professores e jornalistas que
				trouxeram, à luz da realidade em que se inseriam, o Manifesto Mais Uma Vez
				Convocados. Em alusão ao Manifesto Pioneiros da Educação Nova de 1932, este também
				se destinava “ao povo e ao governo” e denotava críticas às deficiências na
				organização do ensino; à redução da educação primária e das escolas técnicas; ao
				baixo nível do ensino secundário; aos problemas nas edificações e instalações
				escolares; ao professorado mal preparado cultural e pedagogicamente, leigos em sua
				maioria e mal pagos frente a alta responsabilidade de seu papel social; à
				proliferação desordenada das escolas superiores e Faculdades de Filosofia, esse
				último destacado no documento (Azevedo, 1959, p. 05) como tendo ocorrido “sem
				critério algum (a não ser o eleitoral)”.</p>
			<p>Ambos os Manifestos, conforme destacado por Haddad (<italic>apud</italic><xref
					ref-type="bibr" rid="B2">Azevedo, 2010</xref>, p. 102), “assinalam etapas
				importantes de luta e sinalizam caminhos de impressionante atualidade”, o de 1959
				dispõe de notória ênfase à educação pública. Destacamos aqui os 12 subtítulos que
				compõem o Manifesto Mais Uma Vez Convocados, bem como o cerne de suas análises. O
				texto “apresenta e submete ao julgamento público os pontos-de-vista de quem o
				assinou, sobre problemas de gravidade e complexidade com que se apresentam os da
				educação”, ainda ressalta que: “decorridos mais de 25 anos da primeira, esta
				mensagem marca nova etapa no movimento de reconstrução educacional que se procurou
				então desencadear”, salientando que o que em 1932 poderia ser visto como um plano de
				ação, agora torna-se inadiável frente aos avanços e recuos sofridos pela educação
				brasileira. Para tanto, estrutura-se o Manifesto:</p>
			<table-wrap id="t1">
				<label>Quadro 1</label>
				<caption>
					<title>Estrutura do Manifesto Mais Uma Vez Convocados.</title>
				</caption>
				<table>
					<thead>
						<tr>
							<th align="left" style="background-color:#c2d7ed;" valign="top"
								>SubtítulO</th>
							<th align="center" style="background-color:#c2d7ed;" valign="top">A que
								Se refere</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">
								<break/>Um, pouco de luz sobre a crise da educação<break/>no país e
								suas causas <italic>(sic!)</italic></td>
							<td align="center" valign="top">Denota críticas acerca da organização do
								ensino, adjetivando-a como má, arcaica e antiquada; salienta o baixo
								nível do ensino secundário e os problemas existentes nas edificações
								escolares; destaca a má preparação dos professores e os baixos
								salários a eles ofertados.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">Deveres
								para com as novas gerações</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">Afirma
								que o futuro do Brasil está na figura da sua juventude e que a
								educação é um direito de todos.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">O Manifesto de 32 e o projeto de
								Diretrizes e Bases</td>
							<td align="center" valign="top">Ressalta a ideia que se busca
								concretizar no projeto de lei de Diretrizes e Bases da educação
								nacional, em discussão na Câmara de Deputados.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">A escola
								pública sob acusação</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">Versa
								sobre o projeto substitutivo apresentado por Carlos Lacerda, que era
								uma ofensiva para obter maiores recursos do Estado, sangrando o
								ensino público para sustentar a iniciativa privada.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Violentas reações a essa política
								educacional em outros países</td>
							<td align="center" valign="top">Descreve as ações da Itália e da França
								frente a projetos semelhantes; relatando que não há nenhuma ideia
								nova, referindo-se ao projeto substitutivo citado acima.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">As duas
								experiências brasileiras de “liberdade de ensino”</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top"
								>Referindo-se à 1879, quando ocorreu a reforma do ensino do ministro
								Leôncio de Carvalho, conhecida como a primeira a abrir as portas da
								educação à iniciativa privada, e à 1911, quando tivemos a reforma
								Rivadávia de Hermes da Fonseca.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Em face da Constituição, já não há direito
								de escolha</td>
							<td align="center" valign="top">Comenta sobre a educação de caráter
								supletivo, onde os Estados mantêm e desenvolvem seus sistemas como
								principais, com a União cooperando para o desenvolvimento
								destes.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">A
								educação, monopólio do Estado?</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top"
								>Destaca a importância de o Estado dar atenção ao<break/>ensino
								público.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">
								<break/>
								<break/>Pela educação liberal e democrática</td>
							<td align="center" valign="top">Ressalta que a escola pública, gratuita,
								apresentada a todos sem distinção, é a única em condições de não
								atender a imposições de pensamentos religiosos,
								políticos/partidários, mas sim, atende a ideais democráticos, e que
								a democratização do ensino exige o aperfeiçoamento e a transformação
								do sistema de ensino público.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">Educação
								para o trabalho e para o<break/>desenvolvimento econômico</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">Trata
								da importância da reestruturação do ensino a fim de que possa
								contribuir ao progresso científico, técnico, para o trabalho
								produtivo e o desenvolvimento econômico.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Para a transformação do homem e de
								seu<break/>universo</td>
							<td align="center" valign="top">Comenta sobre o avanço que já se
								observava da era tecnológica e da importância do ensino para a
								evolução do homem.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">
								<break/>A história não avança por ordem</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">Versa
								sobre o significado da “revolução do ensino”, esta que, nesse
								Manifesto, significa ser a maior de todos os tempos, por ser a
								primeira expressão popular da capacidade da maioria administrar,
								organizar e governar, como só a elite fez até então.</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib><bold>Fonte:</bold> Elaborado pelos autores, a partir do Manifesto dos
						Educadores: Mais uma Vez Convocados, (2024).</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
			<p>O avanço da Campanha se deu frente às discussões na elaboração da LDB (Lei n.º
				4.024/61), nesse momento, o professor Florestan atuava fortemente contra as
				propostas de teor privatistas para a educação brasileira, com destaque ao projeto
				proposto por Carlos Lacerda, deputado que desenvolveu o projeto que visava
				destinação de verba pública para escolas particulares, daí surge o lema “verba
				pública para escola pública”. Fernandes (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr"
					rid="B20">Okumura <italic>et al.</italic>, 2020</xref>, p. 18) ressalta que a
				luta reverberada na Campanha não era “por uma escola revolucionária, mas por pautas
				conexas às necessidades de um projeto educacional coerente às necessidades do
				contexto social, cultural, econômico e político no qual passava o país”.</p>
			<p>Nesse sentido, as reivindicações do grupo encabeçado por Fernandes buscavam:</p>
			<disp-quote>
				<p>a) a qualidade e a eficácia do ensino por meio de melhores condições para a
					escola pública visto que vivemos num país subdesenvolvido e dotado de recursos
					escassos para a educação que pode, se obter a exclusividade da destinação da
					verba pública ao ensino público, produzir um ensino de mais qualidade, sem
					restrições econômicas, raciais e religiosas, aos indivíduos de toda a camada
					popular e b) a pretensão de impedir que o Estado Democrático continuasse
					aprisionado pelos interesses particularistas de classe na esfera educacional,
					tendo mais autonomia na elaboração que competem as ações administrativas e
					políticas diante da improdutividade e destinação dos recursos oficiais
					direcionados a educação nacional. (Fernandes, 1966 <italic>apud</italic><xref
						ref-type="bibr" rid="B20">Okumura <italic>et al.</italic>, 2020</xref>, p.
					39).</p>
			</disp-quote>
			<p>Para tanto, a Campanha em Defesa da Escola Pública trazia consigo quatro
				princípios-chave:</p>
			<list list-type="simple">
				<list-item>
					<p>1. a educação é direito de todo cidadão, sendo dever do Estado oferecer
						ensino público, gratuito e laico para todos, em todos os níveis;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>2. o governo federal destinará nunca menos de 13% e os Governos dos Estados,
						do Distrito Federal e dos Municípios aplicarão, no mínimo, 25% de sua
						receita tributária na manutenção e desenvolvimento do ensino público e
						gratuito;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>3. as verbas públicas destinam-se exclusivamente às escolas públicas, criadas
						e mantidas pelo Governo Federal, pelos Estados, Distrito Federal e
						Municípios;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>4. a democratização da escola em todos os níveis deve ser assegurada quanto
						ao acesso, permanência e gestão. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Fernandes,
							1989</xref>, p. 136).</p>
				</list-item>
			</list>
			<p>Florestan Fernandes embarca em uma viagem pelo Brasil, conversando com a população e
				salientando a importância de todos atuarem juntos em defesa da escola pública. Era
				um momento decisivo, afinal, discutia-se a LDB em meio à intensa industrialização do
				país.O que estava em jogo, como destacado por Fernandes (<italic>apud</italic><xref
					ref-type="bibr" rid="B20">Okumura <italic>et al.</italic>, 2020</xref>, p. 80),
				eram “as possibilidades de negar o subdesenvolvimento e a dependência, superar ou
				não a dependência cultural relativa”, essa última que só seria superada “por meio da
				educação escolarizada, da ciência e da tecnologia avançada”, afinal, questiona o
				autor, “sem maciços recursos públicos para a educação pública, como fomentar a
				ciência e a tecnologia? Como possuir ciência e tecnologia moderna sem formar antes
				cientistas e técnicos? Que projeto de industrialização se associava a tal descaso
				com a educação pública?”, e destacava que o projeto apresentado era retrógrado e
				ineficiente. Se assim prosseguisse, faria com que a educação brasileira engatasse a
				marcha ré em uma média de 75 anos, isso porque mantinha o <italic>status
					quo</italic> educacional.</p>
			<p>A Lei n.º 4.024/<xref ref-type="bibr" rid="B3">1961</xref> [revogada pela Lei n.º
				9.394, de <xref ref-type="bibr" rid="B5">1996</xref>, exceto os artigos 6º a 9º]
				torna evidente o teor privatista do projeto aprovado, e a também evidente manutenção
				de um ensino de elite para elite. Ainda assim, Fernandes (<italic>apud</italic><xref
					ref-type="bibr" rid="B20">Okumura <italic>et al.</italic>, 2020</xref>, p. 91)
				destaca que a atuação da Campanha frente ao projeto da LDB foi positiva e
				construtiva, isso porque ao contrário do que se esperava, no lugar de ser uma luta
				cega e desordenada, “ela se propunha a tarefa de apontar porque as medidas
				combatidas eram ruins ou inaceitáveis e como elas poderiam ser substituídas por
				outras medidas mais recomendáveis ou necessárias”.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B16">Fernandes (1989</xref>, p. 107-8) relata que, no
				período da Campanha, as relações, principalmente para com o povo trabalhador, foram
				de estreitamento de laços. Palestras eram realizadas em sindicatos e os professores
				participavam de movimentos dentro e fora das universidades. Esse movimento defendia
				que o desenvolvimento de uma educação do povo para o povo seria “o caminho para que
				‘os de baixo’ tivessem consciência social de seus direitos e deveres, das
				espoliações que sofriam, [<italic>e das possibilidades para</italic>] conseguirem
				meios para atingir fins que eles não alcançariam sem uma transformação em seus
				horizontes culturais”.</p>
			<p>Com a aprovação da LDB de 1961, tendendo ao projeto nitidamente privatista, Florestan
					(<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B20">Okumura <italic>et
						al.</italic>, 2020</xref>, p. 18) comenta não conseguir “compreender a
				racionalidade e os motivos pelos quais o grupo opositor não queria desenvolver uma
				escola pública, laica, universal e de qualidade”, compreendidos por ele como
				“quesitos mínimos fundamentais para a construção de uma nação republicana e
				democrática”. Fernandes analisava essa dispersão de recursos públicos, destinados à
				educação, como prejudiciais, de forma direta, ao desenvolvimento de uma educação
				democrática e comenta que, ao aprovar a LDB de 1961, o Brasil perdeu uma
				oportunidade histórica de formar sua base educacional. Sobre isso, ele cita cinco
				erros e confusões cometidos no que diz respeito à política educacional
				brasileira:</p>
			<disp-quote>
				<p>Primeiro, ignoramos as exigências da educação popular e sua importância para
					sairmos do caos político, do atraso cultural e da dependência econômica.
					Segundo, convertendo em objetivo central dos programas governamentais a
					propagação de tipos de escolas que mal nos serviram no passado, quando se
					tratava apenas de instruir os rebentos das famílias senhoriais, mas que não
					atendem às complexas necessidades educacionais de nossa época. Terceiro,
					subestimando e negligenciando o ensino elementar comum, abandonando-o um
					criminoso estado de degradação e perversão. Quarto, forjandoo fantasma do
					combate ao analfabetismo por qualquer meio, quando se sabe (ou se deveria
					saber), que a nossa principal dificuldade está na má qualidade e na pior
					distribuição do ensino elementar comum. Quinto, alimentando concepções
					anacrônicas, que interferem a consolidação de uma política educacional
					frutífera, suscetível de orientar-nos na expansão concomitante dos vários ramos
					e níveis do ensino. (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Okumura <italic>et
							al.</italic>, 2020</xref>, p. 94-5).</p>
			</disp-quote>
			<p>As análises educacionais de Florestan, expressas em suas obras, se perpetuam ao longo
				do tempo confirmando o que comenta <xref ref-type="bibr" rid="B24">Soares
					(2006</xref>, p. 06), de que o sistema de ensino, no lugar de “acelerar a
				difusão e o fortalecimento dos ideais de vida, consagrados legalmente, interfere no
				processo como fator de demora cultural”, fatos que podem ser observados nas escolas
				que, a partir de seus documentos-base, seguem ignorando os ideais básicos de uma
				educação popular e, conforme destaca Fernandes (<italic>apud</italic><xref
					ref-type="bibr" rid="B20">Okumura <italic>et al.</italic>, 2020</xref>, p. 100),
				seguem instituindo “atitudes conformistas ou de indiferença pela realidade ambiente,
				destreza no manejo de técnicas letradas e veneração por um intelectualismo oco, que
				convinham ao equilíbrio e à estabilidade da sociedade tradicionalista brasileira ao
				passado”.</p>
			<p>Nesse sentido, Fernandes insistia que a educação não era um privilégio, mas sim um
				direito de todos e se fazia necessário incorporar os excluídos no meio educacional,
				para isso devia-se, inicialmente, transformar a sociedade a fim de que todos os
				cidadãos percebessem a importância de se defender uma educação pública, gratuita e
				de alta qualidade, requisito fundamental para haver democracia. <xref
					ref-type="bibr" rid="B16">Fernandes (1989</xref>, p. 149) ressalta que “a escola
				não é apenas uma fonte de instrução, mas também de socialização e do despertar da
				consciência, do ‘eu’ da pessoa, da dimensão política” e nesse aspecto, a escola
				deveria auxiliar na abertura de horizontes “colocando conteúdos que tornem a
				educação um instrumento não só para a vida, mas para a transformação da vida e da
				sociedade”.</p>
			<p>Olhando para a nossa realidade, passados mais de sessenta anos da <italic>Campanha em
					defesa de uma escola pública</italic> e quase trinta anos após a morte de
				Florestan Fernandes, podemos dizer que muitos avanços importantes foram e estão
				sendo executados em prol da educação e da escola pública. Os desafios ainda são
				diversos porque os <italic>déficits</italic> educacionais são históricos, mas não
				podemos ignorar as conquistas que emergiram com a LDB de 1996, com os Planos
				Nacionais de Educação (PNE), com as CONAES, com o FUNDEB, entre outras políticas
				educacionais voltadas à educação pública. E nada do que é conquista para o povo
				acontece sem a ação de pessoas que se comprometem com as causas que consideram
				necessárias para tais conquistas. Florestan Fernandes assumiu uma causa nada fácil e
				simples de ser levada adiante, por isso o seu chamamento: <italic>Mais uma vez
					convocados</italic> é sempre atual.</p>
			<p>Nos diferentes espaços onde atuou, Florestan Fernandes levantou bandeiras e
				esclareceu o que elas representavam, portanto, nos ecos de Florestan encontramos
				dicas sobre a importância em se ter clareza sobre quais causas lutamos. Sem esse
				esclarecimento, podemos seguir convocações contrárias à defesa da democracia, daí a
				necessidade de uma educação de qualidade, laica e para todos. Uma educação que vise
				a emancipação humana e política das pessoas e lhes garanta a cidadania e as
				condições para defendê-la.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Sobre a educação democrática</title>
			<p>O conceito de educação democrática dentro das obras de Fernandes não aparece de forma
				literal, mas sim nas entrelinhas. <xref ref-type="bibr" rid="B16">Fernandes
					(1989</xref>, p. 21) defende que o Estado “deve colocar o ensino ao alcance do
				estudante pobre e, se necessário, ajudar esse estudante a manter-se na escola
				pública e gratuita. Portanto, escola pública, gratuita, de alta qualidade, é um
				requisito fundamental para a existência da democracia”. A Constituição Federal de
				1988 (CF/1988) deu um salto em relação às anteriores, em especial no que diz
				respeito ao seu olhar à cidadania. A CF/1988 abriu espaço para que uma nova Lei de
				Diretrizes e Bases fosse promulgada. Embora com alguns anos de demora, em 1996 foi
				promulgada a Lei n.º 9.394 (LDB/1996). O que se promulgou com a LDB em 1996, de
				acordo com Fernandes (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B20">Okumura
						<italic>et al.</italic>, 2020</xref>, p. 127), foi uma espécie de adesão à
				ideia de que o Governo não deveria intervir totalmente aos assuntos educacionais,
				esquecendo assim “que a educação popular depende, no Brasil, da democratização do
				ensino através da escola pública”, sendo essa afirmação o ponto principal da luta de
				Fernandes, como já foi possível observar anteriormente.</p>
			<p>Defender o ensino de qualidade da escola pública não é ignorar as outras formas de
				educação, mas sim, buscar a garantia do que se estabelece no Art. 2º do Título II,
				da CF/1988, intitulado “Dos Princípios e Fins da Educação Nacional”, em que se
				prevê: “a educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de
				liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno
				desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
				qualificação para o trabalho”. Com igual anseio, o artigo 5º da CF/1988 destaca que:
				“todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se
				aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à
				vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Seguindo o que
				determinam esses dois Artigos da Constituição, podemos acrescentar que a educação,
				além de ser um direito do cidadão e um dever do Estado, é um dispositivo necessário
				para a consolidação de um Estado Democrático de Direito.</p>
			<p>Segundo Fernandes (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B19">Oliveira,
					2010</xref>, p. 51), a concepção democrática de ensino “não coloca em cheque a
				‘qualidade do nosso homem’, [independente da origem regional, étnica, de classe,
				gênero, etc.]. O que importa é a qualidade das influências que devem ser
				mobilizadas, organizadas e aplicadas (mas não somente) por meio das escolas”. O que
				Fernandes (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B19">Oliveira,
					2010</xref>, p. 54) ressalta com isso é que mudanças sociais no sistema
				educacional são necessárias, pois são através dessas mudanças que as classes menos
				favorecidas conseguem desenvolver consciência de sua relação com o espaço social.
				Essa consciência “se adquire por meio da Educação”.</p>
			<p>Na concepção de Florestan Fernandes, é <italic>na</italic> e a <italic>partir
					da</italic> tomada de consciência que emerge a busca por uma educação
				democrática, e, na esteira desse movimento, reforça-se o papel da educação como
				fator de mudança social e a importância dela para a população menos favorecida.</p>
			<p>Florestan Fernandes tinha consciência das contradições existentes no Brasil. No campo
				da educação, porém, algumas dessas contradições eram alarmantes, por isso, conforme
				destacam <xref ref-type="bibr" rid="B18">Netto e Machado (2020</xref>, p. 06),
				Florestan buscava evidenciar essas contradições, que se localizavam especialmente
				nos discursos democráticos e apelava “à população brasileira para que defendessem a
				educação pública e a ordem social democrática”.</p>
			<p>Quando lemos a expressão: <italic>educação pública,</italic> logo associamos essa
				expressão com escola pública, universidade pública... e o público aqui significa uma
				educação sob a responsabilidade do Estado. Esse raciocínio não está errado, mas se
				invertermos as palavras e pensarmos no significado da <italic>dimensão pública da
					educação,</italic> aí começamos a entender melhor as ligações que Florestan
				Fernandes fazia entre educação pública e democracia. Ou seja, existe uma dimensão
				pública da educação que precisa ser vivenciada nos diferentes espaços educativos da
				educação formal. É essa dimensão que vai possibilitando aos estudantes o sentido da
				democracia. Estar em uma sala de aula com mais 20, 25, 30 pessoas e passar quatro
				horas no convívio de outros já é um exercício de democracia; vivenciar a experiência
				de uma eleição do grêmio estudantil da escola é um exercício de democracia; dividir
				o time para a prática de uma modalidade esportiva na aula de educação física, ou no
				intervalo/recreio, é um exercício de democracia... Poderíamos citar muitos outros
				exemplos envolvendo a dimensão pública da educação e as possibilidades para um
				aprendizado democrático, mas ficaremos nesses porque parece já estar claro o
				raciocínio de que: uma sociedade democrática requer escola para todos, e a dimensão
				pública da educação vivenciada na escola, além de garantir uma educação democrática,
				qualifica os processos de relacionamento entre pessoas e entre pessoas e a natureza.
				Na medida em que se fortalecem essas relações, fortalece-se o Estado Democrático de
				Direito.</p>
			<p>Como se vê, as convicções de Florestan Fernandes para uma educação democrática vão
				além da defesa de uma escola pública, laica e de qualidade para todos. Essa bandeira
				levantada e defendida por Florestan é uma marca da sua trajetória, mas se
				observarmos os argumentos utilizados por ele para defender a sua concepção de
				democracia, veremos que ela não se esgota com os escritos voltados à escola. Afinal,
				para que uma sociedade que se diz ou almeja ser democrática consiga, de fato, assim
				ser, é preciso que a democracia se torne perceptível em todos os níveis de relações
				e de desenvolvimento social, econômico e cultural. É nesse contexto que defendemos a
				ideia de que, para além da escola, uma Universidade pública e democrática também se
				faz necessário para que um projeto de educação democrática possa tornar-se
				realidade, daí a razão em trazermos presente o exemplo da UFFS.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e a aplicação de uma educação
				democrática</title>
			<p>Instituída pela Lei n.º 12.029 de 15 de setembro de <xref ref-type="bibr" rid="B7"
					>2009</xref> e iniciando sua atuação no ano seguinte, a Universidade Federal da
				Fronteira Sul (UFFS) é fruto das lutas dos movimentos sociais que integraram um
				movimento intitulado Pró-Universidade, este que, segundo <xref ref-type="bibr"
					rid="B25">Tavares (2017</xref>, p. 94), tinha como bandeira a luta por “uma
				universidade pública, popular e gratuita, comprometida com o desenvolvimento
				sustentável e solidário da região e aberta às comunidades carenciadas e
				excluídas”.</p>
			<p>A instituição possui uma estrutura <italic>multicampi</italic> localizada no Sul do
				Brasil, sendo o <italic>campus</italic> sede no município de Chapecó/SC, e os demais
					<italic>campi</italic> nos municípios de Laranjeiras do Sul/PR, Realeza/PR,
				Cerro Largo/RS, Erechim/ RS e Passo Fundo/RS, regiões essas que, segundo <xref
					ref-type="bibr" rid="B25">Tavares (2017</xref>, p. 94), são “constituídas por
				cerca de 396 municípios e cerca de 3,8 milhões de habitantes”. Essa estruturação
				apresenta-se como o oposto do que se observa nas Universidades Clássicas, que se
				alocam nos centros urbanos, levando, conforme <xref ref-type="bibr" rid="B25"
					>Tavares (2017</xref>, p. 88), a “um passo de gigante na democratização do
				ensino superior”. As novas instituições, como a UFFS, conforme destacam Romão e Loss
					(<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B25">Tavares, 2017</xref>, p.
				88) “surgem no cumprimento das metas do Plano Nacional de Educação (PNE, 2001-2010),
				sobretudo no que diz respeito à interiorização e expansão da educação superior
				pública”, propondo um diálogo com as camadas historicamente excluídas do contexto
				educacional.</p>
			<p>Esse diálogo permanente atua, conforme <xref ref-type="bibr" rid="B25">Tavares
					(2017</xref>, p. 92), como um “dispositivo de combate às desigualdades sociais e
				regionais, incluindo condições de acesso e permanência no ensino superior,
				especialmente das populações mais excluídas do campo e da cidade”. Ainda sobre esse
				assunto, Trevisol, Cordeiro e Hass (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr"
					rid="B25">Tavares, 2017</xref>, p. 92-93) destacam que os princípios fundantes
				desta instituição “[…] expressam o seu lugar de origem, assim como apontam o seu
				lugar de destino” e “[…] o compromisso com o enraizamento da cultura democrática no
					<italic>modus operandi</italic> da universidade, tanto em seus processos de
				deliberação internos quanto em suas relações com a sociedade.”, o que nos permite
				observar o reconhecimento por parte da instituição das lutas sociais que levaram a
				sua existência.</p>
			<p>Quando observamos na estruturação da UFFS o objetivo de inclusão dos estudantes, nas
				palavras de <xref ref-type="bibr" rid="B16">Fernandes (1989</xref>, p. 09), “os
				incultos ou semicultos”, vemos o que o autor defendia ao longo de sua trajetória
				docente e, posteriormente, política. Fernandes compreendia que a educação era um
				ponto crucial para a existência - e consolidação - da democracia e se fazia
				necessária a modificação do <italic>status quo</italic>, ou seja, a educação deveria
				passar a ser acessível a todos, fosse a educação ao nível básico ou superior.
				Conforme <xref ref-type="bibr" rid="B25">Tavares (2017</xref>, p. 85, 86), “o acesso
				à universidade não pode continuar a ser uma questão de mérito e privilégio, mas um
				direito de toda a população, garantido pelo Estado. O direito à educação, em
				condições de igualdade, implica a ampliação do espaço público de educação e a
				democratização das instituições educativas” e ainda destaca que, quando atrelado ao
				princípio da igualdade de acesso e sucesso “esse direito é uma conquista
				democrática, ou seja, quando cada vez mais sujeitos, independentemente dos grupos
				sociais a que pertencem, possam ter acesso a processos formativos e a condições que
				lhes permitam produzir o conhecimento”.</p>
			<p>Já destacamos anteriormente que, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B16"
					>Fernandes (1989)</xref>, quando vivemos em uma sociedade que se diz
				democrática, a educação precisa estar ao alcance da maioria. Assim, a partir da
				estruturação da UFFS enquanto Universidade para o povo, observamos o que diz
				Fernandes sobre a educação como transformação. Nas palavras do autor (1989, p. 149),
				a educação não é “apenas uma fonte de instrução, é uma fonte de socialização e do
				despertar da consciência, do ‘eu’ da pessoa, da dimensão da política”. Para tanto,
				“é necessário que os conteúdos da educação sejam operados pelo professor de tal
				forma que ‘a personalidade dos estudantes, filhos da classe trabalhadora, não fique
				deformada e nem adestrada como correias de transmissão de uma máquina operada a
				distância”.</p>
			<p>Ainda que Florestan Fernandes não vincule seu conceito de educação democrática
				diretamente às universidades, mas sim às escolas públicas, é possível, conforme
				destacado anteriormente, realizarmos algumas aproximações entre a concepção de
				democracia defendida por Florestan e a necessidade de uma Universidade pública que
				responda aos <italic>déficits</italic> educacionais do ensino superior no Brasil. E
				aqui podemos destacar como um dos enfrentamentos a esse desafio a oferta de vagas na
				UFFS a estudantes de escolas públicas, conforme descreve o Projeto Pedagógico
				Institucional - PPI (2012), chamado de “fator escola pública”.</p>
			<p>Entendendo-se como uma universidade pública, gratuita, popular, democrática,
				interestadual e interiorana de característica <italic>multicampi</italic>,
				destacam-se entre os objetivos gerais da instituição, conforme o PPI (2012, p. 12),
				a qualificação profissional e cidadã com vistas à inclusão social e melhoria na
				qualidade de vida e a produção e o compartilhamento de conhecimento e tecnologia
				para a permanência dos egressos na região de abrangência da instituição, estes, por
				sua vez, orientaram a definição das áreas de atuação da instituição priorizando a
				formação da população local e buscando, conforme destacado no PPI (2012, p. 13), uma
				“integração orgânica das atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão [como] condição
				indispensável para que haja uma convergência entre as atividades de formação e as de
				produção de conhecimento, na concretização desses objetivos”.</p>
			<p>Segundo o PPI (2012, p. 15-16), a região de abrangência da UFFS, entendida como
				Mesorregião Grande Fronteira do Mercosul, possui como base de produção a
				agropecuária e a agroindústria, bem como a agricultura familiar e camponesa, que
				mesmo ocorrendo o processo de êxodo rural, uma parcela permaneceu adaptando-se aos
				novos modelos de produção. A parcela que se deslocou aos centros urbanos passou a
				ser mão de obra às agroindústrias da região. O desenvolvimento econômico da região,
				porém, não tornou a região enriquecida em tudo o que se considera necessário para um
				aumento da qualidade de vida, a exemplo do acesso ao ensino superior. Sobre isso, o
				PPI da UFFS (2012, p. 18), destaca que: “por estar distante dos centros de decisões
				políticas, [a região] apresenta uma trajetória marcada por baixos investimentos
				estatais e pela ausência de equipamentos públicos essenciais ao seu processo de
				desenvolvimento”, isso está refletido no âmbito educacional, tendo em vista que, até
				o ano da implantação da UFFS o ensino superior ficou vinculado às instituições
				comunitárias e privadas da região, o que condicionava o acesso ao ensino superior ao
				pagamento de mensalidade o que, por sua vez, excluía a população de baixa renda.</p>
			<p>Nesse sentido, conforme destaca o PPI (2012, p. 20), “a oferta de ensino superior
				público e gratuito, especialmente à população mais carente, [...] é condição
				essencial ao desenvolvimento regional”, e segue destacando que é a partir deste
				contexto “que se inseriu a criação de uma universidade federal como estratégica para
				a promoção do desenvolvimento regional e da melhoria da qualidade de vida de sua
				população”.</p>
			<p>Buscando garantir também a democratização no acesso aos cursos ofertados, a política
				de ingresso à UFFS era composta, até o ano de 2012, pela nota do Exame Nacional do
				Ensino Médio - ENEM acrescida do que a instituição chama de “fator escola pública”,
				este que, conforme PPI (2012, p. 40) “consiste na bonificação na nota do candidato,
				conforme o tempo de estudos em escola pública no ensino médio”, sendo:</p>
			<table-wrap id="t2">
				<label>Tabela 1</label>
				<caption>
					<title>Bonificação do fator escola pública na UFFS</title>
				</caption>
				<table>
					<thead>
						<tr>
							<th align="left" style="background-color:#c2d7ed;" valign="top">% fAtOr
								eScOlA públIcA</th>
							<th align="center" style="background-color:#c2d7ed;" valign="top">AnO DO
								enSInO méDIO curSADO</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">30%</td>
							<td align="center" valign="top">3 ou + anos em escola pública</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">20%</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">2 anos
								em escola pública</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">10%</td>
							<td align="center" valign="top">1 ano em escola pública</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib><bold>Fonte:</bold> Elaborado pelos autores, a partir do PPI da UFFS,
						(2024).</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
			<p>Essa modalidade de ingresso via processo seletivo garantiu à UFFS, até o ano de 2012,
				conforme apresenta o PPI (2012, p. 41), a porcentagem de 94.83% do total de
				estudantes que cursaram todo o ensino médio em escolas públicas “contribuindo, dessa
				forma, com a inclusão social e o desenvolvimento econômico, social e cultural da
				região de abrangência da instituição”. O PPI (2012, p. 41) aponta que, a partir do
				ano de 2013, em observância à Lei n.º 12.711/2012 que versa sobre o ingresso nas
				universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio,
				ao Decreto n.º 7.824/<xref ref-type="bibr" rid="B9">2012</xref> que regulamenta a
				referida lei e a Portaria Normativa MEC n.º 18/2012 que dispõe sobre a implementação
				das reservas de vagas em instituições federais de ensino de que tratam a lei e o
				decreto anteriores, e a seus princípios institucionais a UFFS reformulou seu modelo
				de ingresso, reconfigurando a partir de seus Estados, assim sendo:</p>
			<table-wrap id="t3">
				<label>Tabela 2</label>
				<caption>
					<title>Conjunto de reservas de vagas da UFFS</title>
				</caption>
				<table>
					<thead>
						<tr>
							<th align="left" style="background-color:#c2d7ed;" valign="top"
								>eStADO</th>
							<th align="center" style="background-color:#c2d7ed;" valign="top"
								>IntegrAlmente eScOlA públIcA</th>
							<th align="center" style="background-color:#c2d7ed;" valign="top"
								>pArcIAlmente eScOlA públIcA</th>
							<th align="center" style="background-color:#c2d7ed;" valign="top">AmplA
								cOncOrrêncIA</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Paraná</td>
							<td align="center" valign="top">83%</td>
							<td align="center" valign="top">5%</td>
							<td align="center" valign="top">12%</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">Santa
								Catarina</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top"
								>82%</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top"
								>5%</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top"
								>13%</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Rio Grande do Sul</td>
							<td align="center" valign="top">85%</td>
							<td align="center" valign="top">5%</td>
							<td align="center" valign="top">10%</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib><bold>Fonte:</bold><xref ref-type="bibr" rid="B8">BRASIL (2012</xref>,
						p. 42).</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
			<p>Conforme o PPI (2012, p. 42, 44) há ainda, dentro desse conjunto, as subdivisões
				entre renda bruta per capita igual ou inferior a um salário mínimo e meio, e,
				reserva de vagas para candidatos autodeclarados pretos, pardos e indígenas, assim,
				“a UFFS garante a presença em seus cursos de graduação dos segmentos sociais de
				acordo com a trajetória escolar, as condições econômicas das famílias e o perfil
				étnico da população”.</p>
			<p>A experiência da UFFS tem aproximações com uma das defesas de Florestan <xref
					ref-type="bibr" rid="B16">Fernandes (1989</xref>, p. 09), quando disse: “a
				questão consiste em colocar os trabalhadores, os excluídos e os oprimidos - os
				incultos ou semi cultos - nas malhas da rede escolar”, ainda que aqui estejamos nos
				referindo a uma instituição de ensino superior. O que faz a UFFS nada mais é do que
				colocar o ensino superior ao alcance do estudante de baixa renda, e, novamente,
				podemos trazer presente outra convicção de Florestan (1989, p. 21) sobre a relação
				entre educação e democracia. Para ele, o ensino público, “gratuito, de alta
				qualidade, é um requisito fundamental para a existência da democracia”. Mas para que
				os resultados apareçam é preciso ir além da condição de acesso, é preciso garantir a
				qualidade e possibilitar a manutenção. Esses desafios são uma luta contínua, por
				isso podemos dizer que <italic>“continuamos sendo convocados”</italic>.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>A educação teve papel fundamental na vida e na trajetória docente e política de
				Florestan Fernandes. Suas análises, expressas nas obras, tendem a reafirmar a visão
				de que aqueles e aquelas que têm acesso à educação formal, bem como outras formas de
				interação cultural, tendem a encontrar mais facilmente as condições necessárias para
				uma melhor qualidade de vida. Ao contrário desses, aqueles e aquelas a quem o acesso
				à educação e à cultura foram negligenciados tendem ao abandono da educação formal em
				detrimento do trabalho, e/ou a submissão a trabalhos precarizados.</p>
			<p>A partir das leituras de Fernandes conseguimos obter um apanhado geral e, em alguns
				casos - com seus comentadores - realizar um aprofundamento de suas ações em defesa
				de uma educação pública, gratuita, de qualidade, laica e obrigatória à toda a
				sociedade brasileira, sem distinções de cor, etnia, gênero, credo ou classe social.
				Essas ações o identificam como um cidadão brasileiro que disse e fez algo em prol de
				um projeto educacional com vistas ao desenvolvimento de uma sociedade mais justa e
				democrática. Descrevemos isso não para identificar Florestan Fernandes como um
				brasileiro - sociólogo, docente e político - acima de tantas outras pessoas que
				também lutaram, e continuam lutando, em defesa desses mesmos ideais, mas para
				valorizar a trajetória de uma pessoa que enfrentou diversos desafios, tendo que
				fazer escolhas e defendê-las. Isso não é pouco em nenhum lugar do mundo, mas no
				Brasil, em função das profundas desigualdades sociais, deixar claro e defender um
				projeto de sociedade que deseja a ampliação da democracia, a diminuição de
				desigualdades e o fim de privilégios históricos de parcelas da população, é uma
				tarefa que exige convicção, conhecimento e coragem.</p>
			<p>Durante sua atuação na Campanha em Defesa da Escola Pública, Fernandes era docente da
				USP, abraçou o movimento, tornando-se um de seus principais nomes. Junto de nomes da
				educação e do jornalismo brasileiro, assinou o Manifesto e fez com que a sociedade
				também abraçasse a causa da escola pública brasileira, entremeio aos debates sobre o
				desenvolvimento da primeira LDB. Importante lembrar que, nesse período, a democracia
				não era consolidada no Brasil, a maioria da população não era - e nunca foi -
				representada em maioria, como deveria ser em uma sociedade democrática, por isso
				suas falas seguem ecoando em nossa sociedade. Interpretá-las e significá-las a
				partir de exemplos concretos é uma forma de fazer justiça à memória de uma pessoa
				que atuou em defesa da democracia e de uma educação democrática.</p>
			<p>Fernandes defendia a educação das massas, com isso visava o desenvolvimento de uma
				educação democrática para uma sociedade democrática. Uma educação, segundo ele
					(<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B19">Oliveira, 2010</xref>, p.
				99) “adequada aos valores fundamentais de uma civilização que dignifique o trabalho,
				aspire à distribuição equitativa dos direitos e das obrigações sociais e consagre
				teórica e praticamente o saber racional fornecido pela ciência e pela tecnologia”, a
				fim de que os indivíduos se tornem agentes de suas realidades.</p>
			<p>Em relação ao exemplo da UFFS, a aproximação que destacamos para com a obra de
				Florestan Fernandes é a sua condição de ampliar a democratização da educação. O
				exemplo da UFFS, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B25">Tavares (2017</xref>, p.
				88), é “um passo de gigante na democratização do ensino superior”. Mas não é apenas
				o exemplo em si que precisa ser observado, note-se que outras instituições, como a
				UFFS, emergiram de políticas públicas voltadas à educação. Essas instituições,
				conforme o relato de Romão e Loss (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr"
					rid="B25">Tavares, 2017</xref>, p. 88) “surgem no cumprimento das metas do Plano
				Nacional de Educação (PNE, 2001-2010), sobretudo no que diz respeito à
				interiorização e expansão da educação superior pública”, propondo um diálogo com as
				camadas historicamente excluídas do contexto educacional. Ou seja, as políticas do
				século XXI que deram vida a esse processo de interiorização do ensino superior não
				nasceram do nada, elas têm uma história e estão imbricadas em outras que foram
				gestadas, problematizas e defendidas ainda no século passado, e Florestan Fernandes
				tem parte nesse movimento.</p>
			<p>Fernandes pôs sua formação enquanto Sociólogo a serviço da sociedade, principalmente
				daqueles grupos historicamente excluídos do sistema educacional e deixou à sociedade
				brasileira uma herança de luta em defesa da escola pública, de transformação da
				sociedade por meio da educação e da visão de um pleno desenvolvimento a partir de
				uma educação democrática. Reinterpretá-lo e ressignificá-lo, como fazemos aqui,
				entrelaçando escola pública e universidade pública, é uma forma de fazer justiça à
				memória de uma pessoa que atuou em defesa da democracia e de uma educação
				democrática.</p>
			<p>A partir das leituras de Fernandes e seus comentadores, e da observação da
				estruturação da UFFS como uma universidade na contramão de outas instituições, em
				particular pela oportunidade de acesso das classes menos favorecidas, entendemos ser
				necessário resgatar e deixar ecoar as vozes de um autor que sonhou e lutou pela
				criação de espaços educacionais onde a democracia não seria apenas uma palavra, mas
				uma prática. A educação ofertada de forma gratuita, com qualidade e laica, assim
				como defendia Fernandes, é o princípio de uma sociedade que se designa democrática.
				Sentimo-nos convocados para fazer <italic>ecoar</italic> as proposições de Florestan
				Fernandes em defesa de uma educação e de uma sociedade cada vez mais democrática.
				Nesse sentido, escrever esse artigo é uma tentativa de ampliar e qualificar o debate
				sobre a necessidade da defesa da democracia. Como dissemos, essa sempre urgente
				necessidade nos faz perceber que os ideais de Florestan Fernandes continuam ecoando
				em nossa sociedade. Por essa razão, entendemos que seguir o propósito de apresentar
				elementos que corroboram com a ideia de que é possível vivenciar uma
					<italic>simbiose entre universidade, movimentos sociais e transformação social
					da realidade,</italic> é uma tarefa da qual não podemos abrir mão, foi essa a
				nossa intenção ao escrever esse artigo.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p> Artigo revisado por Janaina Pigosso Eberle</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p> Florestan Fernandes foi declarado patrono da Sociologia brasileira pela Lei n.º
						11.325/<xref ref-type="bibr" rid="B6">06</xref>.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>AZEVEDO, Fernando <italic>et al.</italic> Mais uma vez convocados
					(Manifesto ao povo e ao governo). <bold>Revista Brasileira de Estudos
						Pedagógicos</bold>, v. 31, n. 72, p. 03 24, abr./jun. 1959.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>AZEVEDO</surname>
							<given-names>Fernando</given-names>
						</name>
						<etal/>
					</person-group>
					<article-title>Mais uma vez convocados (Manifesto ao povo e ao
						governo)</article-title>
					<source>Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos</source>
					<volume>31</volume>
					<issue>72</issue>
					<fpage>03</fpage>
					<day>24</day>
					<season>abr./jun</season>
					<year>1959</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>AZEVEDO, Fernando <italic>et al.</italic>
					<bold>Manifesto dos pioneiros da Educação Nova (1932) e dos Educadores
						(1959)</bold>. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana,
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				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>AZEVEDO</surname>
							<given-names>Fernando</given-names>
						</name>
						<etal/>
					</person-group>
					<source>Manifesto dos pioneiros da Educação Nova (1932) e dos Educadores
						(1959)</source>
					<publisher-loc>Recife</publisher-loc>
					<publisher-name>Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana</publisher-name>
					<year>2010</year>
				</element-citation>
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			<ref id="B3">
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				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<collab>BRASIL</collab>
					</person-group>
					<chapter-title>Casa Civil. Lei nº 4.024, de 20 de dezembro de
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					<source>Fixa as Diretrizes e Bases da Educação Nacional</source>
					<publisher-loc>Brasília, DF</publisher-loc>
					<publisher-name>Presidência da República</publisher-name>
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					<publisher-loc>Brasília, DF</publisher-loc>
					<publisher-name>Presidência da República</publisher-name>
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