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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">faeeba</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. FAEEBA - Ed. e
					Contemp.</abbrev-journal-title>
			</journal-title-group>
			<issn pub-type="epub">2358-0194</issn>
			<publisher>
				<publisher-name>Universidade do Estado da Bahia</publisher-name>
			</publisher>
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		<article-meta>
			<article-id pub-id-type="doi"
				>10.21879/faeeba2358-0194.2024.v33.n76.p328-347</article-id>
			<article-categories>
				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigo</subject>
				</subj-group>
			</article-categories>
			<title-group>
				<article-title>INTELECTUAIS NEGRAS INSURGENTES, INTERSECCIONALIDADES E EDUCAÇÃO PARA
					EMANCIPAÇÃO HUMANA</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>INSURGENT bLACK WOMEN INTELLECTUALS, INTERSECTIONALITIES, AND
						EDUCATION FOR HUMAN EMANCIPATION</trans-title>
				</trans-title-group>
				<trans-title-group xml:lang="es">
					<trans-title>INTELECTUALES NEGROS INSURGENTES, INTERSECCIONALIDADES Y EDUCACIÓN
						PARA LA EMANCIPACIÓN HUMANA</trans-title>
				</trans-title-group>
			</title-group>
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0003-3270-2376</contrib-id>
					<name>
						<surname>Cordeiro</surname>
						<given-names>Ana Luisa Alves</given-names>
					</name>
					<bio>
						<p><sup>*</sup> Pós-doutora em Educação pela Universidade Federal de Juiz de
							Fora (UFJF). Professora do Departamento de Teoria e Fundamentos da
							Educação (DTFE) e do Programa de Pós-graduação em Educação (PPGE), do
							Instituto de Educação (IE), da Universidade Federal de Mato Grosso
							(UFMT). Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações
							Raciais e Educação (NEPRE/UFMT). Cuiabá/ Mato Grosso/ Brasil. E-mail:
								<email>ana.cordeiro@ufmt.br</email>
						</p>
					</bio>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"/>
				</contrib>
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			<aff id="aff1">
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal de Mato
					Grosso</institution>
				<institution content-type="original">Universidade Federal de Mato
					Grosso</institution>
			</aff>
			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>20</day>
				<month>11</month>
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2024</year>
			</pub-date>
			<volume>33</volume>
			<issue>76</issue>
			<fpage>328</fpage>
			<lpage>347</lpage>
			<history>
				<date date-type="received">
					<day>20</day>
					<month>05</month>
					<year>2024</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
					<day>12</day>
					<month>08</month>
					<year>2024</year>
				</date>
			</history>
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				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Experiências que colocam em diálogo a indissociabilidade do ensino, pesquisa e
					extensão, na perspectiva de uma educação popular voltada para emancipação
					humana, têm sido giros importantes para a construção de outras sociabilidades. O
					objetivo é analisar o Projeto de Extensão “Oyá Ciclo Formativo em Feminismos
					Negros”, realizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Relações Raciais e
					Educação, de junho a dezembro de 2023, no âmbito do Programa de Extensão “Ação
					Afirmativa no Ensino Superior: articulações de vivências e saberes na UFMT -
					Edição 2023”. Caracteriza-se enquanto uma análise qualitativa, do tipo
					bibliográfica e documental, a partir da categoria teórico-metodológica das
					interseccionalidades. A extensão promoveu processos formativos a partir dos
					Feminismos Negros Insurgentes na interface com a educação e a arte, da
					compreensão de como raça, gênero e classe, e outras intersecções operamno
					concreto da vida das mulheres negras, bem como de outras mulheres da Amazônia
					Legal.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>Experiences that put into dialogue the inseparability of teaching, research and
					extension, from the perspective of a popular education aimed at human
					emancipation, have been important turns for the construction of other
					sociability. The objective is to analyze the Extension Project “Oyá Ciclo
					Formativo em Feminismos Negros”, carried out by the Center for Studies and
					Research on Race Relations and Education, from June to December 2023, within the
					scope of the Extension Program “Affirmative Action in Higher Education:
					articulations of experiences and knowledge at UFMT - 2023 Edition”. It is
					characterized as a qualitative analysis, of a bibliographic and documentary
					type, based on the theoretical-methodological category of intersectionalities.
					The extension promoted formative processes based on Insurgent Black Feminisms at
					the interface with education and art, understanding how race, gender and class,
					and other intersections operate in the concrete lives of black women, as well as
					other women from the Legal Amazon.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>Las experiencias que ponen en diálogo la inseparabilidad de la docencia, la
					investigación y la extensión, desde la perspectiva de una educación popular
					orientada a la emancipación humana, han sido giros importantes para la
					construcción de otras sociabilidades. El objetivo es analizar el Proyecto de
					Extensión “Oyá Ciclo Formativo em Feminismos Negros”, realizado por el Centro de
					Estudios e Investigaciones sobre Relaciones Raciales y Educación, de junio a
					diciembre de 2023, en el ámbito del Programa de Extensión “Acción Afirmativa en
					la Educación Superior”. Educación: articulaciones de experiencias y
					conocimientos en la UFMT - Edición 2023”. Se caracteriza por ser un análisis
					cualitativo, de tipo bibliográfico y documental, basado en la categoría
					teóricometodológica de las interseccionalidades. La extensión promovió procesos
					formativos basados en Feminismos Negros Insurgentes en la interfaz con la
					educación y el arte, entendiendo cómo la raza, el género y la clase, y otras
					intersecciones operan en la vida concreta de las mujeres negras, así como de
					otras mujeres de la Amazonía Legal.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Educação Superior</kwd>
				<kwd>Extensão Universitária</kwd>
				<kwd>Formação Antirracista.</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Higher Education</kwd>
				<kwd>University Extension</kwd>
				<kwd>Anti-Racist Training.</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>Educación Superior</kwd>
				<kwd>Extensión Universitaria</kwd>
				<kwd>Formación Antirracista.</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução<sup><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup></title>
			<disp-quote>
				<p>“Hoje cada um de nós toma a voz, isso é um avanço fabuloso [...] isso de que o
					outro possa falar [...] é criar condições para que cada um afirme sua fala”
					(Neusa Santos Souza).<sup><xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref></sup></p>
			</disp-quote>
			<p>Este artigo se insere no contexto de discussão sobre os processos de democratização
				do acesso na educação superior, induzido ao longo das últimas décadas pelas
				políticas de ações afirmativas para a população negra, bem como das relações
				étnico-raciais em suas interseccionalidades, da luta histórica dos movimentos
				negros, de mulheres negras e organizações antirracistas brasileiras pelo direito à
				educação, bem como do pensamento feminista negro insurgente, que nos tem
				possibilitado instrumentalidade teórico-metodológica e política para compreender as
				complexidades que afetam em específico as trajetórias de mulheres negras.</p>
			<p>No entanto, uma educação transformadora envolve um profundo processo que implica numa
				democratização da educação superior de modo mais amplo, não apenas do acesso a ela,
				mesmo que compreendamos o acesso de modo ampliado (ingresso, permanência, formação,
				conclusão). Com isso, democratização da educação superior implica em transformações
				sociais estruturais de sistemas de poder que geram processos de dominação e
				subordinação de alguns grupos sociais sobre outros, o que se nomeia aqui enquanto
				capitalismo de supremacia branca masculina cisheteropatriarcal.</p>
			<p>A indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão é um princípio garantido na
				Constituição Federal de <xref ref-type="bibr" rid="B4">1988</xref>, Art. 207º, a
				qual dispõe que “as universidades gozam de autonomia didático-científica,
				administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de
				indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. Conforme Nadia Gaiofatto
					<xref ref-type="bibr" rid="B17">Gonçalves (2015)</xref>:<sup><xref ref-type="fn"
						rid="fn3">3</xref></sup></p>
			<disp-quote>
				<p>[...] o princípio da indissociabilidade entre Ensino, Pesquisa e Extensão pode
					ser compreendido como uma resposta a demandas sociais por uma Universidade
					socialmente responsável, que dialogue mais ativamente com diversos setores da
					sociedade e que propugne uma formaçãoe produção de conhecimento em diálogo com
					necessidades sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Gonçalves, 2015</xref>, p.
					1235).</p>
			</disp-quote>
			<p>Experiências que colocam em diálogo a indissociabilidade do ensino, pesquisa e
				extensão, na perspectiva de uma educação popular voltada para emancipação humana,
				têm sido giros importantes para a construção de outras sociabilidades, para a
				produção de um conhecimento crítico a partir da coletividade, do diálogo entre a
				universidade e os movimentos sociais populares, da descolonização de um currículo
				que desconsidera as intelectualidades negras e latino-americanas.</p>
			<p>Para bell hooks<sup><xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref></sup> (1995, p. 478),
				“[...] quando o trabalho intelectual surge de uma preocupação com a mudança social e
				política radical, quando esse trabalho é dirigido para as necessidades das pessoas,
				nos põe numa solidariedade e comunidade maiores. Enaltece fundamentalmente a vida”,
				o que torna emergente que sejam criadas condições mínimas de afirmação positiva da
				população negra, parafraseando Neuza Santos Souza, autora da obra “Tornar-se negro”
				(2021), citada na epígrafe, em entrevista concedida a Lázaro Ramos, no Programa
				Espelho.</p>
			<p>O objetivo deste artigo é analisar o Projeto de Extensão “Oyá Ciclo Formativo em
				Feminismos Negros<sup><xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref></sup>”, realizado pelo
				Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Relações Raciais e Educação, de junho a dezembro
				de 2023, no âmbito do Programa de Extensão “Ação Afirmativa no Ensino Superior:
				articulações de vivências e saberes na UFMT - Edição 2023”. O aporte
				teórico-metodológico aqui utilizado abarca referenciais que fazem a interface entre
				a Educação das Relações Étnico-raciais e o Feminismo Negro numa perspectiva
				insurgente, ou seja, aquela que visa a transformação social no sentido do
				enfrentamento e superação do capitalismo de supremacia branca masculina
				cisheteropatriarcal. A análise é de abordagem qualitativa, do tipo bibliográfica e
				documental, a partir da categoria teórico-metodológica das interseccionalidades. A
				abordagem qualitativa é aqui entendida, a partir de Maria Cecília <xref
					ref-type="bibr" rid="B26">Minayo (2011)</xref>, como aquela que:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das
					crenças, dos valores e das atitudes. Esse conjunto de fenômenos humanos é
					entendido aqui como parte da realidade social, pois o ser humano se distingue
					não só por agir, mas por pensar sobre o que faz e por interpretar suas ações
					dentro e a partir da realidade vivida e partilhada com seus semelhantes (<xref
						ref-type="bibr" rid="B26">Minayo, 2011</xref>, p. 21).</p>
			</disp-quote>
			<p>A pesquisa bibliográfica se desenvolve “[...] com base em material já elaborado,
				constituído principalmente de livros e artigos científicos” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B14">Gil, 2002</xref>, p. 44) e a documental, realizadaa partir de
				documentos, é “[...] uma técnica valiosa de abordagem de dados qualitativos, seja
				complementando as informações obtidas por outras técnicas, seja desvelando aspectos
				novos de um tema ou problema” (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Ludke; André,
					1986</xref>, p. 38).</p>
			<p>A extensão promoveu processos formativos a partir dos Feminismos Negros Insurgentes
				na interface com a educação e a arte, da compreensão de como raça, gênero e classe,
				e outras intersecções operam no concreto da vida das mulheres negras, bem como de
				outras mulheres da Amazônia Legal, e suas formas de mobilização para práxis
				emancipatórias.</p>
			<p>Com coordenação da docente vice-coordenadora do NEPRE na época, organização feita por
				docentes da Pedagogia e do Serviço Social, discentes da graduação e pós-graduação,
				teve parceria com o Centro Cultural Casa das Pretas de Mato Grosso e a Cantora Gê
				Lacerda.</p>
			<p>Oyá é um termo de origem iorubá e faz referência a iabá Iansã, orixá africana, no
				sentido de inspiração em sua energia transformadora que, por meio da luta,
				desconstrói e reconstrói a realidade. A extensão teve duração de sete meses, com
				carga horária total de 640 horas e distribuição de carga horária diferenciada entre
				equipe e cursistas. Ofertou um quantitativo de 40 vagas, na modalidade presencial,
				com encontros que ocorriam alternadamente e de forma quinzenal no Instituto de
				Educação da UFMT, campus Cuiabá/MT e no Centro Cultural Casa das Pretas, de Mato
				Grosso, às quartasfeiras no período noturno.</p>
			<p>Além do estudo de textos de intelectuais negras, as cursistas realizavam a mediação
				das reflexões com as artes, em especial a música, e algumas, que almejavam a
				pós-graduação, também realizaram a elaboração de projetos de pesquisas. A ideia foi
				constituir a partir da extensão um espaço coletivo de mulheres negras lendo mulheres
				negras, sendo que o quantitativo de cursistas foi formado majoritariamente por
				grupos com este perfil, porém, mulheres não negras também participaram. De início,
				foi visível como uma sala repleta de mulheres negras destoava das salas que
				estávamos acostumadas a frequentar ao longo de nossas trajetórias escolares, em que
				quase sempre fomos/somos minorias, portanto, a extensão pode se fazer um espaço de
				recriar potencialidades:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua
					identidade, confundida em suas perspectivas, submetida a exigências, compelida a
					expectativas alienadas. Mas é também, e sobretudo, a experiência de
					comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades.
					Aqui esta experiência é a matéria prima. É ela quem transforma o que poderia ser
					um mero exercício acadêmico, exigido como mais um requisito da ascensão social,
					num anseio apaixonado de produção de conhecimento. É ela que, articulada com
					experiências vividas por outros negros e negras, transmutar-se-á num saber que -
					racional e emocionalmente - reivindico como indispensável para negros e brancos,
					num processo real de libertação (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Souza,
						2021</xref>, p. 46).</p>
			</disp-quote>
			<p>Com isso, a experiência de vida que traziam se entrelaçava aos textos das
				intelectuais negras, ali se vislumbravam teóricas também, mulheres negras se
				deslocando do lugar de objeto de estudo, para sujeitas que produzem
				conhecimento.</p>
			<p>Esse deslocamento, essa descolonização das mentes e corpos, é destacada por Grada
					<xref ref-type="bibr" rid="B21">Kilomba (2019</xref>, p. 28), “[...] Eu sou quem
				descreve minha própria história, e não quem é descrita. Escrever, portanto, emerge
				como um ato político. [...] o ato da escrita como um ato de tornar-se [...] Nesse
				sentido, eu me torno a oposição absoluta do que o projeto colonial predeterminou.”
				Para <xref ref-type="bibr" rid="B20">hooks (1995)</xref>, a presença das
				intelectuais negras engajadas nas universidades será encarada como suspeita, visto
				que ameaçam o <italic>status quo</italic> racista e sexista, portanto, “[...]
				intelectual não é apenas alguém que lida com ideias [...] é alguém que lida com
				ideias transgredindo fronteiras discursivas porque ele ou ela vê a necessidade de
				fazê-lo [...] lida com ideias em sua vital relação com uma cultura política mais
				ampla” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">hooks, 1995</xref>, p. 468).</p>
			<p>Por fim, o texto está organizado em três seções, além da introdução e considerações
				provisórias, numa compressão da potencialidade que a extensão possui na construção
				de espaços estratégicos para o diálogo entre a universidade e a sociedade, para
				tecituras coletivas de compreensões dos problemas sociais de nossos tempos.</p>
			<p>Na primeira seção, “Mulheres Negras e o Trabalho Intelectual Insurgente”, abordamos a
				fundamentação teórica a partir do Feminismo Negro Insurgente e da Educação das
				Relações Étnico-raciais, do trabalho intelectual crítico como lugar social das
				mulheres negras. Na segunda seção, “A Instrumentalidade Teórico-metodológica da
				Interseccionalidade”, refletimos sobre o aporte teórico-metodológico da categoria da
				interseccionalidade de raça, gênero e classe. E na terceira seção, “Projeto de
				Extensão ‘Oyá Ciclo Formativo em Feminismos Negros’”, descrevemos o processo de
				construção e execução da extensão e analisamos suas implicações numa educação para
				emancipação humana e enfrentamento ao capitalismo de supremacia branca masculina
				cisheteropatriarcal.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Mulheres Negras e o Trabalho Intelectual Insurgente</title>
			<disp-quote>
				<p>“[...] Só quando se reconfiguram as estruturas de poder é que
						<italic>muitas</italic> identidades marginalizadas podem também, finalmente,
					reconfigurar a noção de conhecimento: Quem sabe? Quem pode saber? Saber o quê? E
					o saber de quem?” (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Kilomba, 2019</xref>, p. 13,
					grifos da autora).</p>
			</disp-quote>
			<p>Ao refletirmos sobre a dimensão da extensão e de sua indissociabilidade com o ensino
				e a pesquisa, já apontamos a importância de refletirmos sobre a concepção de
				educação que está imbricada com a concepção de sociedade que carregamos e que
				atravessam nossas práticas pedagógicas. As mulheres negras ocupam historicamente na
				sociedade brasileira um não lugar social, ou seja, somos empurradas para lugares de
				subalternidade, de alijamento de direitos, de luta pelo reconhecimento da nossa
				humanidade e de uma vida digna, contextos que dificultam o desenvolvimento de nossas
				potencialidades, nos expõem a violências e violação de direitos.</p>
			<p>As poucas de nós que adentram a educação superior, seja como docente ou discente, se
				veem diante de uma jornada muitas vezes exaustiva, que exigem de nós cotidianamente
				processos de autodefinição e autoavaliação (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Collins,
					2016</xref>). Visto que, como aponta <xref ref-type="bibr" rid="B21">Kilomba
					(2019)</xref>, o sistema racista sistematicamente desqualifica nossas vozes,
				invalida nossos conhecimentos, e faz da branquitude especialista da nossa cultura,
				com isso “[...] somos capturadas/os em uma ordem violenta colonial. Nesse sentido, a
				academia não é um espaço neutro nem tampouco simplesmente um espaço de conhecimento
				e sabedoria, de ciência e erudição, é também um espaço de v-i-o-l-ê-n-c-i-a.” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B21">Kilomba, 2019</xref>, p. 51).</p>
			<p>Porém, o trabalho intelectual insurgente, ou seja, crítico, nos aponta para a
				importância que ele tem para a coletividade negra e toda a sociedade, numa
				perspectiva de emancipação humana, de descolonização e libertação de corpos e
				mentes. Nesse sentido, <xref ref-type="bibr" rid="B20">hooks (1995)</xref> expressa
				que:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] Sem jamais pensar no trabalho intelectual como de algum modo divorciado da
					política do cotidiano, optei conscientemente por tornar-me uma intelectual pois
					era esse trabalho que me permitia entender minha realidade e o mundo em volta,
					encarar e compreender o concreto. Essa experiência forneceu a base de minha
					compreensão de que a vida intelectual não precisa levar-nos a separar-nos da
					comunidade mas antes pode capacitar-nos a participar mais plenamente da vida da
					família e da comunidade. Confirmou desde o início o que líderes negros do século
					XIX bem sabiam - o trabalho intelectual é uma parte necessária da luta pela
					libertação fundamental para os esforços de todas as pessoas oprimidas e/ou
					exploradas que passariam de objeto a sujeito que descolonizariam e libertariam
					suas mentes (<xref ref-type="bibr" rid="B20">hooks, 1995</xref>, p. 466).</p>
			</disp-quote>
			<p>O Brasil possui a segunda maior população negra no mundo, atrás apenas da Nigéria
				(Continente Africano). O Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de
				Geografia e Estatística (IBGE)<sup><xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref></sup>,
				apontou que dos 203.080.756 habitantes, 55,5% se autodeclararam de cor preta e parda
				(população negra), para 45,3% branca, sendo que 51,5% da população brasileira é
				feminina, para 48,5% masculina. Da população feminina, as mulheres negras são a
				maioria populacional entre as mulheres, representam 54% destas, porém minoria em
				direitos diante da população geral brasileira.</p>
			<p>As mulheres negras estão na base da pirâmide social, recebem os piores salários e
				ocupam os trabalhos mais precarizados, o que significa ausência de carteira
				assinada. Dos 5,8 milhões de pessoas ocupando o trabalho doméstico em 2022, 92% são
				mulheres, destas, 61,5% são mulheres negras<sup><xref ref-type="fn" rid="fn7"
						>7</xref></sup>, ocupando o trabalho de modo informal, além de serem as
				principais responsáveis pelo cuidado na sociedade patriarcal, o que leva a duplas e
				triplas jornadas de trabalho.</p>
			<p>No 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da
				Covid-19 no Brasil, em 2022, fica evidente, mais uma vez, que a fome tem cor no
				Brasil. Enquanto a segurança alimentar está presente em 53,2% dos domicílios onde a
				pessoa de referência se autodeclara branca, nos lares com responsáveis de raça/cor
				preta ou parda ela cai para 35%. Isso quer dizer que em 65% dos lares cujas pessoas
				responsáveis são pretas ou pardas, estas convivem com restrições de alimentos em
				qualquer nível.</p>
			<p>Comparando com o 1º Inquérito Nacional da Rede PENSSAN, de 2020, em 2021/2022, a fome
				saltou de 10,4% para 18,1% entre os lares comandados por pessoas pretas e pardas
				(população negra), especialmente os que têm como referência a mulher negra. As
				diferenças são expressivas na comparação entre os lares chefiados por homens e os
				chefiados por mulheres no período dos dois Inquéritos da Rede PENSSAN. Nas
				habitações em que as mulheres são responsáveis, a fome passou de 11,2% para 19,3%.
				Nos lares cujos responsáveis são os homens, a fome passou de 7,0% para 11,9% (<xref
					ref-type="bibr" rid="B28">PENSSAN, 2022</xref>). Isso ocorre, entre outros
				fatores, pela desigualdade salarial entre os gêneros. A divisão sexual do trabalho
				marcada racialmente implica em desigualdades salariais e educacionais.</p>
			<p>Relata <xref ref-type="bibr" rid="B20">hooks (1995</xref>, p. 474) que “Na discussão
				com outras negras descobri que nosso tempo para pensar normalmente só ocorria quando
				se haviam terminado os afazeres domésticos. Era sempre tempo roubado” e isso
				expressa, o quanto “O sexismo e o racismo atuando juntos perpetuam uma iconografia
				de representação da negra que imprime na consciência cultural coletiva a ideia de
				que ela está neste planeta principalmente para servir aos outros” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B20">hooks, 1995</xref>, p. 468). Com isso, a superação do
				capitalismo de supremacia branca masculina cisheteropatriarcal envolve desonerar as
				mulheres negras única e exclusivamente do trabalho doméstico, o que torna, para
					<xref ref-type="bibr" rid="B20">hooks (1995</xref>, p. 478), o “domínio
				intelectual um lugar interdito”. A perpetuação dessa iconografia, pode-se dizer, é,
				como pontua <xref ref-type="bibr" rid="B21">Kilomba (2019</xref>, p. 28), a
				“reencenação de um passado colonial”.</p>
			<p>Sueli <xref ref-type="bibr" rid="B10">Carneiro (2011</xref>, p.116) aponta o “[...]
				círculo vicioso em que a falta da escolaridade exigida torna-se motor da exclusão do
				emprego e a ausência do emprego é mais uma fonte de impedimento do acesso, da
				permanência e da conquista dos níveis superiores de escolaridade”, o que exige
				atuação do Estado para enfrentar e romper com fatores que perpetuam a subalternidade
				da população negra.</p>
			<p>E aqui, as políticas de ações afirmativas são primordiais enquanto estratégias de
				enfrentamento ao racismo em suas interseccionalidades, especialmente no âmbito da
				educação. E a compreensão disso para a comunidade acadêmica é fundamental para os
				avanços sociais que nosso país, logo, nossa universidade, precisam engendrar rumo
				aos ventos de outras sociabilidades, nas quais a população negra tenha sua
				existência e humanidade respeitadas.</p>
			<p>O processo de democratização do acesso à educação superior brasileira, em especial,
				às políticas de ações afirmativas para pessoas negras no ingresso na educação
				superior, seja na graduação (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Lei n.
					12.711/2012</xref>), como na pósgraduação (Portaria Normativa n. 13/<xref
					ref-type="bibr" rid="B6">2016</xref>), têm ampliado a presença de pessoas negras
				nas universidades brasileiras. Logo, propiciando possibilidades da ampliação de uma
				intelectualidade negra.</p>
			<p>Recentemente, a Lei n. 14.723/<xref ref-type="bibr" rid="B9">2023</xref> alterou a
				Lei n. 12.711/2012, dispondo sobre o programa especial para o acesso às instituições
				federais de educação superior e de ensino técnico de nível médio de pessoas pretas,
				pardas, indígenas, quilombolas e com deficiência, bem como daquelas que tenham
				cursado integralmente o ensino médio ou fundamental em escola pública.</p>
			<p>Tivemos mudanças, dentre as quais podemos citar inserção da população quilombola, a
				obrigatoriedade de ações afirmativas não apenas na graduação, mas também na
				pósgraduação, pois, anteriormente, havia apenas a indução, entre outras. Porém, as
				universidades estaduais e municipais mais uma vez ficaram fora da legislação
				federal. Joaquim Barbosa <xref ref-type="bibr" rid="B15">Gomes (2005)</xref> define
				as ações afirmativas enquanto:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] um conjunto de políticas públicas e privadas de caráter compulsório,
					facultativo ou voluntário, concebidas com vistas ao combate à discriminação
					racial, de gênero, por deficiência física e de origem nacional, bem como para
					corrigir ou mitigar os efeitos presentes da discriminação praticada no passado,
					tendo por objetivo a concretização do ideal de efetiva igualdade de acesso a
					bens fundamentais como a educação e o emprego (<xref ref-type="bibr" rid="B15"
						>Gomes, 2005</xref>, p. 55).</p>
			</disp-quote>
			<p>A ampliação da presença negra nas universidades públicas pode ser observada por meio
				de estatísticas disponibilizadas tanto pelo Laboratório de Análises Econômicas,
				Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (<xref ref-type="bibr"
					rid="B22">Laeser, 2010</xref>), Censo da Educação Superior 2022, do Instituto
				Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - INEP (Brasil, 2020),
				como pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), na
				Coleta de Dados na Plataforma Sucupira (2022).</p>
			<p>Conforme o Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil 2009-2010 (<xref
					ref-type="bibr" rid="B22">Laeser, 2010</xref>), dados sobre a taxa bruta
				(população adequada ao nível de ensino) e taxa líquida (população matriculada no
				nível de ensino), nos anos 1988, 1998 e 2008, evidenciam que entre 1988 e 2008, a
				taxa bruta de escolaridade superior da população total brasileira foi de 8,6% para
				25,5%, aumento proporcional de 197,8%. Embora as mulheres apresentem uma taxa bruta
				de escolaridade superior mais elevada no período, o percentual das mulheres brancas
				é quase o dobro das mulheres negras. Em 1988, quase 100% da juventude negra não
				frequentava a educação superior, sendo que em 2008 a taxa caiu apenas para 92,3%, ou
				seja, a juventude negra em idade adequada à educação superior vivenciava um processo
				de alijamento da universidade naquela época.</p>
			<p>O Censo da Educação Superior 2022, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
				Educacionais Anísio Teixeira (INEP), aponta que das 9.218.952 matrículas do ano em
				questão, 77,75% estavam no setor privado e 22,25% no setor público, e que há:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] predominância feminina, por categoria administrativa: categoria privada com
					fins lucrativos (61,1%); categoria municipal (59,7%), categoria privada sem fins
					lucrativos (59,5%); categoria estadual (54,4%); e categoria federal (51,2%).
					Para as declarações de cor/raça relativas ao aluno de graduação matriculado,
					também se destaca o elevado percentual da opção Não declarado (1.805.571 ou
					19,9%) [...] a opção Não declarado consiste no somatório das categorias Não
					dispõe da informação e Aluno não quis declarar a cor/raça. Além disso, para
					5.119 alunos matriculados, não há informação de cor/ raça. Quanto à participação
					das cores/raças, propriamente ditas, têm-se: branca (3.752.736 ou 41,4%), parda
					(2.693.336 ou 29,7%), preta (642.686 ou 7,1%), amarela (135.339 ou 1,5%) e
					indígena (41.900 ou 0,5%) (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Brasil, 2024</xref>,
					p. 47-48).</p>
			</disp-quote>
			<p>Quando pensamos a dimensão da extensão, cabe lembrar que, conforme o Decreto n.
					9.235/<xref ref-type="bibr" rid="B7">2017</xref>, “as instituições de educação
				superior, de acordo com sua organização e respectivas prerrogativas acadêmicas, são
				credenciadas como: I - faculdades; II - centros universitários; e III -
				universidades”, ou seja, como destaca <xref ref-type="bibr" rid="B17">Gonçalves
					(2015</xref>, p. 1236) “[...] o princípio da Indissociabilidade entre Ensino,
				Pesquisa e Extensão constitui uma proposição filosófica, política, pedagógica e
				metodológica para a formação e o conhecimento desenvolvidos na e pela Universidade”.
				Se a expansão do setor privado, especialmente aquele com fins lucrativos, se
				constitui majoritariamente nos formatos de faculdades e centros universitários, onde
				ficaria o lugar da extensão com o processo de precarização das universidades
				públicas?</p>
			<p>O Projeto de Extensão “Oyá Ciclo Formativo em Feminismos Negros” aqui analisado
				alinhase ao ensino, uma vez que a coordenadora da extensão ministra a disciplina
				Educação das Relações Étnico-raciais e a dimensão da pesquisa, uma vez que coordena
				projeto de pesquisa e orienta pesquisas na graduação (trabalhos de conclusão de
				curso e PIBIC) e na pós-graduação, a partir do aporte teórico-metodológico do
				Feminismo Negro Insurgente e sua categoria da interseccionalidade, no âmbito da
				educação brasileira.</p>
			<p>Além disso, como já mencionado, estabelecemos parceria com o Centro Cultural Casa das
				Pretas, de Mato Grosso, com intuito de afirmar positivamente e prioritariamente
				mulheres negras, sem excluir outras mulheres da Amazônia Legal, de modo que sintam
				uma rede de apoio social e acadêmica para se compreender a realidade da mulher negra
				na sociedade brasileira, galgando uma linguagem política que fortaleça e possibilite
				para práxis políticas emancipatórias.</p>
			<p>A universidade, cada vez mais, precisa compreender como o racismo opera em
				interseccionalidade com gênero e classe, para que ações mais sistemáticas sejam
				empreendidas para que o ambiente acadêmico seja salutar para as mulheres negras, bem
				como outras mulheres. Deste modo, a proposição desta ação de extensão se inseriu
				numa ampla rede de ações e pesquisas, bem como de ativismo de mulheres negras, que
				fazem a interlocução do modo como raça, gênero e classe operam interseccionalmente
				na interface com a educação, em especial na educação superior brasileira.</p>
			<p>Ao olharmos para a pós-graduação, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
				Nível Superior (CAPES), na Coleta de Dados na Plataforma Sucupira, em
					2022<sup>8</sup>, explicita que de 424.080 atuações discentes (mestrado e
				doutorado), 231.290 (54,54%) autodeclararam-se do sexo feminino e 192.790 (45,46%)
				autodeclararam-se do sexo masculino. No quesito raça/ cor, 183.851 não informaram,
				155.155 autodeclararam-se pessoas brancas, 59.702 pardas, 21.418 pretas, 2.612
				amarelas, 1.343 indígenas, o que aponta ainda a necessidade de ampliação de ações
				afirmativas, pois quanto maior o nível de ensino, mais tende a se ampliar as
				desigualdades étnico-raciais em suas interseccionalidades. Vale ressaltar que, neste
				dado, de 424.080 discentes temos as situações de 325.311 matriculados/as, 82.367
				titulados/ as, 11.621 desligados/as, 4.484 abandonos e 298 mudanças de nível sem
				defesa.</p>
			<p>Ao observarmos os quadros docentes, o cenário de desigualdades se acentua, nesse
				espaço de poder a presença de pessoas negras é ainda menor, mesmo que exista reserva
				de vagas em concursos públicos (Lei n. 12.990/2010), o que nos recorda a epígrafe
				desta seção, “[...] Só quando se reconfiguram as estruturas de poder é que
					<italic>muitas</italic> identidades marginalizadas podem também, finalmente,
				reconfigurar a noção de conhecimento: Quem sabe? Quem pode saber? Saber o quê? E o
				saber de quem?” (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Kilomba, 2019</xref>, p. 13, grifos
				da autora).</p>
			<p>Assim, embora ao longo das últimas décadas tenha havido um aumento dos percentuais da
				presença negra nas universidades, em grande parte devido às ações afirmativas, as
				desigualdades étnico-raciais em suas interseccionalidades são um desafio a ser
				enfrentado, inclusive no que tange às condições de permanência, formação e conclusão
				da população negra. E mais, envolve uma luta ampla pela defesa da universidade
				pública, laica, gratuita, democrática, inclusiva, de qualidade e socialmente
				referenciada.</p>
			<p>Embora ainda tenhamos muito a avançar quando falamos do enfrentamento ao racismo em
				suas interseccionalidades na educação e na sociedade brasileira, esses visíveis
				avanços da presença negra na educação superior são oriundos de uma dinâmica social
				fruto da luta histórica do movimento negro, de mulheres negras e organizações
				antirracistas cuja pauta do direito à educação fez e faz parte de uma agenda
				política, bem como enquanto um campo estratégico para as transformações sociais, ou
				seja, o enfrentamento e superação do capitalismo de supremacia branca masculina
				cisheteropatriarcal.</p>
			<p>O movimento negro, conforme Nilma Lino <xref ref-type="bibr" rid="B16">Gomes
					(2017</xref>, p. 23), é entendido enquanto “[...] as mais diversas formas de
				organização e articulação das negras e dos negros politicamente posicionados na luta
				contra o racismo e que visam à superação desse perverso fenômeno na sociedade”.
				Assim, em seu sentido educador, é importante:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] compreender a potência desse movimento social e destacar as dimensões mais
					reveladoras do seu caráter emancipatório, reivindicativo e afirmativo, que o
					caracterizam como um importante ator político e como um educador de pessoas,
					coletivos e instituições sociais ao longo da história e percorrendo as mais
					diversas gerações (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Gomes, 2017</xref>, p.
					23).</p>
			</disp-quote>
			<p>Portanto, conforme Patrícia Hill <xref ref-type="bibr" rid="B11">Collins
				(2016</xref>, p. 101), o pensamento feminista negro “consiste em ideias produzidas
				por mulheres negras que elucidam um ponto de vista de e para mulheres negras”.
				Rosalia <xref ref-type="bibr" rid="B23">Lemos (2016</xref>, p. 17), destaca que o
				“feminismo negro foi definido como um movimento de lógica política para combater as
				múltiplas e simultâneas opressões a todas as mulheres negras”, com registros de
				escritoras negras brasileiras já na década de 1940, surge entre ativistas negras,
				sendo por natureza interseccional. Na próxima seção abordaremos a
				interseccionalidade, categoria teórico-metodológica do Feminismo Negro.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A Instrumentalidade Teórico-metodológica da Interseccionalidade</title>
			<disp-quote>
				<p>“Então é melhor falar, tendo em mente que não esperavam que sobrevivêssemos”
					(Audre Lorde)</p>
			</disp-quote>
			<p>O pensamento feminista negro expressa uma perspectiva singular de experiências de
				mulheres negras que poderão ser compartilhadas pelo grupo de mulheres negras,
				entretanto, para não recair numa visão genérica dessas mulheres, é importante
				considerar as diversidades de classe, região, geração e orientação sexual que
				constituem suas vidas individuais. Com isso, “temas universais que são incluídos nos
				pontos de vista de mulheres negras podem ser experimentados e expressos de forma
				distinta por grupos diferentes de mulheres afro-americanas”, o que traz implicações
				para as mulheres negras intelectuais que é a “produção de fatos e de teorias sobre a
				experiência de mulheres negras que vão elucidar o ponto de vista de mulheres negras
				para mulheres negras [...] o pensamento feminista negro contém observações e
				interpretações sobre a condição feminina afro-americana” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B11">Collins, 2016</xref>, p. 101-102).</p>
			<p>Com isso, como já destacamos, é um pensamento que emerge junto às ativistas, ao
				movimento de mulheres negras, e só adentra a universidade se constituindo enquanto
				um campo teórico-metodológico porque nós, ativistas feministas negras, estamos
				adentrando as universidades enquanto docentes e discentes e fazendo nossas pesquisas
				a partir desse <italic>lócus</italic> analítico. Não sem estranhamentos, muitas de
				nós, bem como das intelectuais que utilizamos, somos desqualificadas enquanto
				sujeitas que produzem Ciência, algo que <xref ref-type="bibr" rid="B20">hooks
					(1995)</xref> já nos chamava a atenção, seremos estranhadas, uma vez que
				questionamos o <italic>status quo</italic> com nosso trabalho intelectual
				insurgente, aquele voltado para emancipação humana da população negra, para a
				denúncia e desconstrução das distorções construídas em relação às mulheres
				negras.</p>
			<p>Na semana em que Grada Kilomba esteve no Brasil, no Programa Roda Viva<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn9">9</xref></sup>, tivemos estudantes negras
				hostilizadas e desqualificadas por um docente ao apresentarem o livro “Memórias de
				Plantação: episódios de racismo cotidiano”, elas e a própria Grada Kilomba foram
				desqualificadas como intelectuais, algo muito simbólico num momento em que diversas
				falas da intelectual circulavam nas redes sociais. Embora sejam violências que
				impactem nosso trabalho livre e criativo, é como mencionamos na epígrafe com o poema
				“Ladainha pela Sobrevivência”, de Audre Lorde, “[...] é melhor falar, tendo em mente
				que não esperavam que sobrevivêssemos”, poema lido durante nossos encontros do
				Projeto de Extensão “Oyá Ciclo Formativo em Feminismos Negros”. As cursistas eram
				convidadas a trazerem e/ou comporem poemas e poesias.</p>
			<p>Carla <xref ref-type="bibr" rid="B1">Akotirene (2019</xref>, p. 18-19) aponta que o
				Feminismo Negro é por natureza interseccional, enquanto uma sensibilidade analítica,
				teoria e ferramenta política, além do conjunto de experiências e ideias que o grupo
				de mulheres negras pode compartilhar, como apontado anteriormente. Ela destaca que
				Kimberlé Crenshaw, após a Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação
				Racial, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, em Durban, na África do Sul,
				em 2001, sistematizará o conceito de interseccionalidade, o qual:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] visa dar instrumentalidade teórico-metodológica à inseparabilidade
					estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado produtores de avenidas
					identitárias em que mulheres negras são repetidas vezes atingidas pelo
					cruzamento e sobreposição de gênero, raça e classe, modernos aparatos coloniais
						(<xref ref-type="bibr" rid="B1">Akotirene, 2019</xref>, p. 18-19).</p>
			</disp-quote>
			<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B13">Crenshaw (2002)</xref>, a interseccionalidade
				refere-se à interação de dois ou mais fatores de subordinação, a forma como o
				racismo, patriarcado, opressão de classe e outros sistemas discriminatórios geram
				desigualdades que estruturam as posições sociais das mulheres, raças, classes, entre
				outros.</p>
			<p>Nesse sentido, ao pensar as avenidas e suas coalizões, na produção de conhecimento
				crítico e insurgente, no Feminismo Negro, podemos considerar a ideia das
				encruzilhadas, expressão presente nas religiões de matrizes africanas e
				afro-brasileiras enquanto um lugar de oferenda. O termo é usado por <xref
					ref-type="bibr" rid="B1">Akotirene (2019)</xref>, para se referir às coalisões
				múltiplas que afetam as mulheres, bem como ao letramento ali produzido:</p>
			<disp-quote>
				<p>O feminismo negro dialoga concomitantemente entre/com as encruzilhadas, digo,
					avenidas identitárias do racismo, cisheteropatriarcado e capitalismo [...] Tais
					mulheres depositam confiança na oferenda analítica da interseccionalidade,
					preparada por suas intelectuais além de, sucessivamente, oferecerem no espaço
					público o alimento político para os Outros, proporcionando o fluxo entre teoria,
					metodologia e prática aos acidentados durante a colisão, amparando-os
					intelectualmente na própria avenida do acidente (<xref ref-type="bibr" rid="B1"
						>Akotirene, 2019</xref>, p. 23).</p>
			</disp-quote>
			<p>Portanto, o Feminismo Negro numa perspectiva insurgente, a partir da sua categoria
				teórico-metodológica da interseccionalidade, anuncia três estruturas de poder -
				raça, gênero e classe - que produzem sistemas de poder, que geram processos
				históricos de dominação e subordinação - racismo, patriarcado e capitalismo.</p>
			<p>A persistência do racismo na sociedade brasileira, bem como do patriarcado e
				capitalismo, pode ser entendida devido a serem sistemas de poder que geram vantagens
				materiais e simbólicas para determinados grupos, e desvantagens materiais e
				simbólicas para outros grupos, por isso, construções tão arraigadas, porém não
				impossíveis de transformação.</p>
			<p>Deste modo, a raça aqui não é entendida numa perspectiva biológica, mas sim enquanto
				um constructo social:</p>
			<disp-quote>
				<p>A raça, como atributo social e historicamente elaborado, continua funcionando
					como um dos critérios mais importantes na distribuição de pessoas na hierarquia
					social. Em outras palavras, a raça se relaciona fundamentalmente com um dos
					aspectos da reprodução das classes sociais, isto é, a distribuição dos
					indivíduos nas posições da estrutura de classes e dimensões distributivas da
					estratificação social (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Hasenbalg, 1982</xref>,
					p. 89-90).</p>
			</disp-quote>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B21">Kilomba (2019</xref>, p. 75-80), ao conceituar o
				racismo, elenca três características. A primeira seria a construção da diferença,
				dos/as outros/ as que diferem racialmente, o que implica na ideia da branquitude,
				colocando-se enquanto norma e referência. A segunda é que tais diferenças estão
				ligadas a valores hierárquicos, a processos de inferiorização e preconceito. Por
				último, esses processos se relacionam ao poder histórico, político, social e
				econômico. A junção de preconceito e poder gera o racismo, a supremacia branca, que
				impactam na divisão e no acesso a recursos valorizados.</p>
			<p>O racismo se materializa nas dimensões estrutural, institucional e cotidiana. O
				racismo estrutural diz respeito às estruturas sociais e políticas, o racismo
				institucional refere-se ao tratamento desigual dentro das instituições, e o racismo
				cotidiano abarca os vocabulários, discursos, imagens, gestos, ações e olhares que
				empurram as pessoas negras e as pessoas de cor para a diferença, enquanto outro/a,
				bem como outridade, que personifica os aspectos reprimidos na sociedade branca. O
				termo “cotidiano” aborda o conjunto de experiências não pontuais, constante
				exposição ao perigo, a um padrão contínuo abusivo que se repete ao longo da
				biografia de uma pessoa, como por exemplo, no ônibus, no mercado, na família, entre
				outros (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Kilomba, 2019</xref>).</p>
			<p>Para Carlos <xref ref-type="bibr" rid="B27">Moore (2007)</xref>, o racismo tem uma
				profundidade histórica que extrapola 500 anos, possui bases greco-romanas e
				árabe-semíticas, não se fundamenta no conceito biológico de raça, nem a partir da
				escravização de africanos e africanas, mas de um dado universal, o fenótipo:</p>
			<disp-quote>
				<p>Tanto o sexismo quanto o racismo compartilham a singularidade de serem dinâmicas
					determinadas e construídas historicamente e não ideologicamente. Por isso, a
					gênese desses dois fenômenos não parte de elaborações intelectuais conscientes,
					mas de conflitos longínquos, cujas origens se perdem no fundo do tempo,
					persistindo na consciência contemporânea sob forma fantasmática, simbólica e
					atemporal. A dinâmica própria do racismo se desenvolve dentro do universo de
					atitudes, valores, temores e, inclusive, ódios - mesmo quando inconfessos -,
					infiltrando-se em cada poro do corpo social, político, econômico e cultural
					[...] O sexismo é um fenômeno exclusivamente antimulher e o racismo um fenômeno
					fundamentalmente antinegro (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Moore, 2007</xref>,
					p. 280-281).</p>
			</disp-quote>
			<p>O racismo adentra os espaços escolares e universitários. Larissa <xref
					ref-type="bibr" rid="B29">Pinheiro (2024)</xref>, em sua dissertação de mestrado
				intitulada “Políticas de Ações Afirmativas na Pós-Graduação <italic>Stricto
					Sensu:</italic> A Permanência de Estudantes Negras/ os cotistas da UFMT”,
				questionou por meio de entrevista semiestruturada se as/os estudantes já haviam
				sofrido racismo na pós-graduação por serem negras/os e/ou cotistas. Uma de suas
				entrevistadas, Neusa (2023), relata que: “falas racistas [...] falas direcionadas
				aos nossos aspectos de pesquisa, quando a gente pesquisa algum tipo de epistemologia
				preta [...] quando a gente destaca o enfoque necessário para as questões raciais
				[...] sempre vou me manter na defensiva” (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Pinheiro,
					2024</xref>, p. 115).</p>
			<p>Ainda, para Joan Scott (1995, p. 86), gênero constitui as relações sociais e
				baseia-se nas diferenças percebidas entre os sexos, bem como é uma “forma primária
				de dar significado às relações de poder”. Daniela <xref ref-type="bibr" rid="B2"
					>Auad (2003</xref>, p. 57) conceitua que “[...] Gênero também é o conjunto de
				expressões daquilo que se pensa sobre o masculino e o feminino. Ou seja, a sociedade
				constrói longamente, durante os séculos de sua história, significados, símbolos e
				características para interpretar cada um dos sexos”, sendo um conceito que está
				atrelado ao conceito de patriarcado. Esse vínculo também é apontado por Heleieth
					<xref ref-type="bibr" rid="B30">Saffioti (2015</xref>, p. 47, grifos da autora),
				a qual liga gênero ao “[...] conceito de <italic>patriarcado</italic>, que, como o
				próprio nome indica, é o regime da dominação-exploração das mulheres pelos
				homens”.</p>
			<p>Porém, <xref ref-type="bibr" rid="B21">Kilomba (2019)</xref> aponta a importância de
				se incluir as complexas estruturas de raça e gênero na definição de patriarcado.
				Isso é compreensível, uma vez que homens brancos produzem também regimes de
				dominação-exploração sobre homens negros e indígenas, sobre a natureza, por
				exemplo.</p>
			<p>Josiane dos <xref ref-type="bibr" rid="B31">Santos (2024)</xref>, em sua dissertação
				de mestrado intitulada “Políticas De Ação Afirmativa na Pós-Graduação: Fatores
				Interferentes e Estratégias para a Permanência de Mulheres Negras Cotistas e Mães na
				UFMT”, traz que uma de suas entrevistadas, Ametista (2023), relata os impactos em
				tentar conciliar o trabalho, a maternidade, as tarefas domésticas e o ativismo, bem
				como sua experiência na pós-graduação:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] é como se quando eu cheguei aqui [...] alguém desse uma martelada, uma
					marretada na minha cabeça e aí meu crânio se esfacelou no chão eu vi aquilo e
					comecei catar os pedacinhos do crânio pra juntar de novo que nesse tempo que eu
					estou juntando as pessoas vinham e pisavam no meu cérebro, entendeu? (<xref
						ref-type="bibr" rid="B31">Santos, 2024</xref>, p. 114).</p>
			</disp-quote>
			<p>Esse relato remete à noção de epistemicídio. Para <xref ref-type="bibr" rid="B10"
					>Carneiro (2011</xref>, p. 92-93), o aparelho educacional tem sido fonte de
				múltiplos processos racistas de aniquilamento da capacidade cognitiva e da confiança
				intelectual, de rebaixamento da autoestima, de negação à população negra da condição
				de sujeito de conhecimento, da desvalorização e invisibilização das contribuições do
				Continente Africano para a humanidade, bem como da imposição do embranquecimento
				cultural e exclusão escolar, processos que ela denomina de epistemicídio.</p>
			<p>Assim, podemos afirmar que não há hierarquias nas categorias de raça, gênero e
				classe, visto que uma intersecção informa a outra. Lélia Gonzales (1984, p. 225)
				destaca que as noções de “mulata<sup><xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref></sup>,
				doméstica e mãe preta” desafiam explicações simplistas sobre a complexidade da
				realidade social das mulheres negras. Reencenações de um mito da democracia racial,
				a noção de “mulata” remete a uma exaltação exotificada e folclorizada da mulher
				negra, bem como de abusos sexuais engendrados num passado escravocrata. A noção de
				“doméstica” é o lado aposto da exaltação, consiste na ideia de que a mulher negra
				deve carregar nas suas costas a sua família e a dos/ as outros/as. E a noção de “mãe
				preta”, implica o cuidado de tudo e todos/as. Eis o desafio de que a luta de classes
				incorpore as categorias de raça e sexo, visto que às mulheres negras é negado o
				estatuto de sujeito humano.</p>
			<p>A classe social, a partir de <xref ref-type="bibr" rid="B33">Souza (2021</xref>, p.
				47), pode ser compreendida como sendo:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] estratificação em termos de posição nos processos sociais de produção,
					dominação e ideologização, isto é, será tomada em conta não só a posição na
					instância econômica (compra ou venda da força de trabalho), mas também a relação
					dos agentes com o poder (lugar no aparelho jurídico-político do Estado) e com os
					emblemas de classes (valores éticos, estéticos, etc.) (<xref ref-type="bibr"
						rid="B33">Souza, 2021</xref>, p. 47).</p>
			</disp-quote>
			<p>Lélia Gonzalez (1984) retoma que o processo de acumulação primitiva emerge dois
				elementos na estrutura do capitalismo, o/a trabalhador/a livre e o capital. Para a
				autora, no Brasil esse processo foi impactado devido não ter ocorrido mudanças
				estruturais no setor agrário, o que permitiu o crescimento industrial, bem como em
				relação ao capital há uma característica do país ser dependente no mercado mundial,
				na produção de alimentos e matéria-prima, o que levou a pilhagem e depois ao
				comércio exterior como fontes produtoras de lucro, manipuladas a partir das
				metrópoles. Ao que a autora denomina de capitalismo patriarcal-racista dependente,
				visto que converte as diferenças em desigualdades, e posiciona mulheres na estrutura
				de classe, sendo as mulheres ameríndias e amefricanas em sua grande maioria
				pertencentes ao proletariado afro-latino-americano.</p>
			<p>Desse modo, <xref ref-type="bibr" rid="B24">Lorde (2021</xref>, p. 69) questiona “com
				que frequência realmente amamos o nosso trabalho, inclusive nos momentos mais
				difíceis?” Ela destaca que um sistema que estabelece o que é bom em relação ao
				lucroe não das necessidades humanas, que determina as necessidades humanas excluindo
				os componentes psíquicos e emocionais dessas necessidades, acaba por roubar o valor
				erótico do trabalho, ou seja, sua dimensão de encantamento e realização. Essa
				dimensão cruel nos aliena, esquecemos quem somos e amamos.</p>
			<p>Maria Aparecida <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bento (2002)</xref> destaca que a
				branquitude apropriou-se do trabalho de quatro séculos de outro grupo, bem como não
				quer discutir o legado da escravidão para o branco, o papel que ocuparam e ocupam na
				situação de desigualdades raciais no Brasil, o que reflete as vantagens concretas,
				materiais e simbólicas, um silêncio que protege os interesses econômicos
				envolvidos.</p>
			<p>Deste modo, a desumanização das mulheres negras é um processo imbricado na exploração
				do trabalho destas. <xref ref-type="bibr" rid="B11">Collins (2016)</xref> afirma
				sobre a importância da autodefinição e autoavaliação:</p>
			<disp-quote>
				<p>Uma afirmação da importância da autodefinição e da autoavaliação das mulheres
					negras é o primeiro tema chave que permeia declarações históricas e
					contemporâneas do pensamento feminista negro. Autodefinição envolve desafiar o
					processo de validação do conhecimento político que resultou em imagens
					estereotipadas externamente definidas da condição feminina afro-americana. Em
					contrapartida, a autoavaliação enfatiza o conteúdo específico das autodefinições
					das mulheres negras, substituindo imagens externamente definidas com imagens
					autênticas de mulheres negras (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Collins,
						2016</xref>, p. 102).</p>
			</disp-quote>
			<p>Assim sendo, o Projeto de Extensão “Oyá Ciclo Formativo em Feminismos Negros” assumiu
				um papel estratégico nos processos de autodefinição e autoavaliação de mulheres
				negras a partir da aproximação da produção intelectual de mulheres negras, o que
				abordaremos na próxima seção.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Projeto de Extensão “Oyá Ciclo Formativo em Feminismos Negros”</title>
			<disp-quote>
				<p>“Eu não vou sucumbir/ Eu não vou sucumbir/ Avisa na hora que tremer o chão/ Amiga
					é agora/ Segura a minha mão [...] Ago, ago, ago é libertação” (Interpretação
					Elza Soares)<sup><xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref></sup></p>
			</disp-quote>
			<p>O Projeto de Extensão “Oyá Ciclo Formativo em Feminismos Negros” surgiu a partir da
				necessidade de um grupo de estudos específico sobre Feminismos Negros com as
				orientandas de mestrado. No entanto, entendendo que o Feminismo Negro surge do
				ativismo de mulheres negras, para com elas adentrar a universidade, compreendeu-se
				que seria contraditório fazermos esse estudo isoladas da dinâmica de luta que
				mulheres negras estão realizando dentro e fora da universidade.</p>
			<p>Nesse sentido, estabelecemos parceria com o Centro Cultural Casa das Pretas, de Mato
				Grosso, o qual é fundado e coordenado pelo Instituto de Mulheres Negras de Mato
				Grosso (Imune), com a presidência da professora Antonieta Luisa Costa. Localizado na
				Praça da Mandioca, centro histórico de Cuiabá, local tombado pelo Instituto do
				Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Casa das Pretas foi no passado
				um espaço usado para explorar pessoas negras no trabalho escravocrata, e hoje é um
				espaço ressignificado para afirmação da população negra em Mato Grosso<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn12">12</xref></sup>.</p>
			<p>Também fizemos parceria com a cantora Gê Lacerda, musicista e ativista cultural,
				reconhecida por suas produções de resistência e afirmação das mulheres e população
				negra. Sua composição autoral “Negra Flor”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn13"
						>13</xref></sup> perpassou nossos encontros, canção de afirmação da beleza
				da estética negra.</p>
			<p>A coordenadora da extensão, autora deste artigo, mediou os debates dos textos e Gê
				Lacerda, juntamente com a Profa. Dra. Lélica Elis Pereira de Lacerda, da área de
				Serviço Social, conduziram, ao longo dos encontros, as mediações artísticas das
				discussões dos textos com músicas de afirmação da mulher negra, sendo que
				instrumentos de percussão eram deixados no centro da roda para que todas as
				cursistas que desejassem também interagissem com a percussão do atabaque, mais o
				violão. Essas parceiras foram fundamentais para a realização do projeto, segurando
				as mãos em nossas aspirações mais genuínas de libertação, parafraseando a canção
				“Libertação”, citada na epígrafe desta seção.</p>
			<p>Em 2019, ofertamos o projeto de extensão intitulado “Afirmação na Pós-Graduação:
				curso preparatório de negras e negros”, com objetivo de oferecer formação
				pré-acadêmica para pessoas negras, com vistas à participação em processos seletivos
				de pós-graduação <italic>stricto sensu</italic> (mestrado e doutorado). O curso
				ocorreu nas modalidades presencial e não presencial, ofereceu as disciplinas
				Português Acadêmico, Metodologia de Pesquisa e Elaboração de Projetos, Políticas de
				Ações Afirmativas e a Pósgraduação. Contou com 95 inscrições, destas, houve 73
				matrículas no curso, sendo 77,7% do sexo feminino e 22,3% masculino (<xref
					ref-type="bibr" rid="B12">Cordeiro; Costa; Santos, 2021</xref>).</p>
			<p>A maioria se autodeclarou da cor preta (74,1%), e os demais da cor parda (25,9%),
				sendo que oito pessoas informaram serem quilombolas. Tivemos 22 projetos de pesquisa
				entregues na primeira versão; após orientações individuais, 14 projetos avançaram em
				suas finalizações, sendo que 11 cursistas apresentaram seus projetos de pesquisa no
				Seminário Final, durante o encerramento do curso. Tivemos 06 cursistas aprovados/as
				como estudantes regulares de mestrado e doutorado, e 01 cursista como aluna especial
				no mestrado, o que expressa o impacto desta extensão enquanto uma ação afirmativa
					(<xref ref-type="bibr" rid="B12">Cordeiro; Costa; Santos, 2021</xref>).</p>
			<p>Cabe ressaltar que, embora a maioria das pessoas cursistas fossem mulheres negras, as
				aprovações em programas de pós-graduação <italic>stricto sensu</italic> deu-se em
				sua maioria com os homens negros. Isso evidencia como questões estruturais
				complexificam a realidade das mulheres negras e tornam seu ingresso e permanência na
				educação superior muito mais desafiante, o que nos motivou a construir o Projeto de
				Extensão “Oyá Ciclo Formativo em Feminismos Negros”, a partir de 2023, enquanto uma
				ação direcionada prioritariamente para as mulheres negras. Na próxima página segue o
				quadro com os textos estudados na extensão.</p>
			<p>Com duração de sete meses, teve carga horária total de 640 horas, com distribuição de
				carga horária diferenciada entre equipe e cursistas. Ofertou um quantitativo de 40
				vagas na modalidade presencial, com encontros que ocorriam alternadamente e de forma
				quinzenal no Instituto de Educação da UFMT e Centro Cultural Casa das Pretas, de
				Mato Grosso, às quartas-feiras de noite. Essa alternância visava que mulheres negras
				que não acessavam a universidade pudessem viver o espaço universitário, bem como
				aquelas que estavam na universidade pudessem vivenciar o espaço de militância.</p>
			<p>Na fase de seleção, tivemos 63 inscrições, as quais foram homologadas e convocadas
				para participação no ciclo formativo. No ato da inscrição era necessário preencher
				um questionário no <italic>Google Forms,</italic> bem como enviar uma Carta de
				Apresentação contendo os seguintes itens: nome completo, as razões pelas quais
				desejava fazer a extensão, um breve histórico de vida e trajetória escolar e
				participação em movimentos socioculturais; intenção de pesquisa, caso desejasse
				cursar pós-graduação no futuro, entre outras informações que considerasse
				relevante.</p>
			<table-wrap id="t1">
				<label>Quadro 01</label>
				<caption>
					<title>Cronograma de Textos Estudados</title>
				</caption>
				<table>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">HOOKS, bell. Intelectuais negras.
									<italic>Estudos Feministas,</italic> Florianópolis, ano 3, n. 2,
								p. 464--478, ago Jdez . 2005.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">COLLINS, Patrícia Hill. Aprendendo com a
								Out.slder Wllhin: a significação sociológica do pensamento fe
								minista negro. <italic>Revista Sociedade e Estado ,</italic>
								[online), v. 31, n. 1, p.99-127, jan /abr. 2016.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">CONZALEZ, Lélia. <italic>Por um feminismo
									afro-la tJno -&lt;1merla:mo : ensaias, Intervenções e diálo go
									s!</italic> organização Flavia Rios, Márcia Lima. Rio de
								Janeiro: Zahar, <xref ref-type="bibr" rid="B18">2020</xref>. [p.
								25-44 e &quot;139-l 50].<break/>Leitura complem entar: CARDOSO, Clá
								udia Pons. &quot; Amef rlca nizando o fe mi nismo: o pensamento de
								Lélia Gonzalez&quot;. <italic>Revista Esrudos Feministas</italic>
								(UFSC. lmpres.c;o), v. 22, p. 965-986, 2014.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">LO RDE, Audre. <italic>Irmã Outsldcr
									:</italic> ensaios e conferências. Traduç ão Stephanie Borges.
								Belo Horizonte: Autêntica, 202 1, p. 137·171. (Capítulos: &quot;As
								ferramentas do senhor nunca derruba rão a casa-grande&quot;;
								&quot;Idade, raça, classe e sexo: As mulheres negras rede fine m a
								di ferença&quot;; &quot;Os usos da raiva: as mulheres reagem ao
								racismo&quot;].</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">LO RDE, Audre. <italic>Irmã
									Outslder:</italic> ensaios e co nferências. T radução Stephanic
								Borges. Belo Horizo nte: Autêntica, 2021, p. 186-224.[Capítulo: Olho
								no olho: Mulheres negras. ódio e raiva].</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">SOUZA, Neusa Santos. <italic>Tornar-se
									rK!gro ou as vldssltudcs da ldentldacfo do rK!gro
									brasileiro</italic> cm <italic>ascensão social</italic>. Rio de
								Janeiro: Craal, 2021.[Introdução e Capítulos 1, 2 e 3, p. 45-78
								).</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">OYEWÜMÍ, Oye ró nké.
									<italic>Conceituando</italic> o <italic>gênero:</italic> os
								fundamento s euiocêntrlcos dos conceitos fe ministas e o desafio das
								epistemolog ias africanas . T radução para uso didático de: OYEWUMÍ,
								Oyêrónké. Conceptualizlng Gi!nder. The Eurocentrtc f oundations of
								feminist Concepts a nd the cha llenge of African Epistemologies
								.<break/>Atrlcan Gender Scholarshlp: Concepts, Methodologl es and
								Paradlg ms. CODESRIA Cender Series. Vol ume l,<break/>Dakar,
								CODESRIA, 2004, p. 1-8 por Juliana Araújo Lopes.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">OYEWÜMÍ, OyêrónkiA <italic>lnwmçào das
									mulheres:</italic> co nstruindo um sentido africano para os
								discursos ocidentais de gênero. Tradução Wanderson Flordo Nascimento
								. Rio de Janeiro: Bazar do Te mpo, 2021.. [Ca pítulo &quot;Colon
								i7.ando Corpos e Mentes: gênero e colonialismo, p. 312-393 do
								pclf]<break/>Avaliação Coletiva do Ciclo Formativo.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">OYEW ÜMÍ, Oyerónki A <italic>Invenção das
									mulheres:</italic> construindo um sentido africano para os
								discursos ocidentais de gênero. Tradução Wanderson Flor do
								Nascimento . Rio de Janei ro: Bazar do Te mpo, 2021. [Ca
								pítulo<break/>&quot;Colonizando Corpos e Mentes: gênero e
								colonialismo, p. 312-393 do pdf].</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">DAVIS, Angela. <italic>Estarã o as pri
									sões</italic> obsolctas ? Trad uçào de Marina Vargas. Rio de
								Janeiro: Oife l, 2018. [Capítulo 4 <italic>e</italic> 6J.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">BENTO, Maria Aparecida S. Branqueamento e
								Branquítude No Brasil. <italic>l n:</italic> CARONE, 1.: BENTO, M.
								A. S. (Org.). Psicologia sod a! do racismo - estudos sobre branqult
								ude <italic>e</italic> branqueamento no Brasil. Petrópolis, RJ:
								Vozes, 2002, p. 25-58.<break/>Leitura Co mplementar: C ARDOSO,
								Lourenço. <italic>O branco ante o rebeldia do desejo:</italic> um
								estudo sobre a branqultude no Brasil. 2014. 290 f. Tese (dou
								torado)- Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho,
								Faculdade de Ciências e l etras (Ca mpusde Araraquara), 2014.
								[Capitulo 4, p. 142-l87 ).</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Pa rtici pação na Mesa redonda: &quot;Arte
								e Educaç ão das relações étnico-raciais&quot;. na XVII Jornada
								Desigualdades Raciais Na Educação Brasileira, do NEPRE/UFMT.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">EVAR ISTO, Conceição. A escrevivêncla e
								seus subtextos. DUARTE, C. l .; NUNES, <bold>1</bold>. R.
									<italic>Escrevlvênd a:</italic> a escrita de nós - reflexões
								sobre a obra de Conceição Evaristo. Rio de Janeiro: Mina Com
								unicação e Arte, 2020, p. 26-47.<break/>Leitura co mpleme ntar: NASC
								IMENTO, Letícia e. P. Eu não vou morre r: solidão, autocuidado e
								resistência <bold>de</bold><break/>uma travesti negra
									<italic>e</italic> gorda pa ra além da pandemia. <italic>Revista
									lnter -Legere, [S. l.] ,</italic> v. 3, n. 28, p. c21581,
								2020.</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib>Fonte: elaboração própria (2023).</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
			<p>Ao final do ciclo formativo, éramos 27 mulheres assíduas. Podemos destacar como
				alguns resultados a elaboração de 05 projetos de pesquisa para participação em
				editais de seleção de mestrado. Os projetos abordavam temáticas como: “Negra Flor -
				A percussão como práxis educativa a partir do feminismo negro com meninas
				periféricas de Cuiabá/MT”, “Representações das crianças negras sobre regras e
				limites no espaço da educação infantil”, “Feminismos negros na perspectiva de uma
				prática educativa antirracista/ insurgente”, “Tornar-se Negra: o feminismo negro e a
				trajetória de desalienação de mulheres pretas não retintas à identidade negra”, e
				“Descolonizando o Currículo: por uma educação antirracista no ensino fundamental”.
				Tivemos 03 cursistas aprovadas no processo seletivo do Programa de Pós-graduação em
				Educação (PPGE), da UFMT.</p>
			<p>A avaliação da extensão foi de caráter formativo e contínuo. A cada encontro
				presencial as cursistas avaliaram o processo de formação, o que permitiu inclusive
				revisões e ajustes com base na coletividade. Todas receberam no primeiro dia de
				encontro um Caderno de Campo para registros escritos das vivências, permitindo um
				acompanhamento contínuo concomitante às elaborações de sentidos do que ocorria ao
				longo do percurso. Além disso, observamos a participação nos encontros de formação,
				nas atividades interventivas, nas produções escritas, em especial os relatos de
				experiências.</p>
			<p>Ao observarmos o perfil das 63 candidatas ao Projeto de Extensão, destacamos alguns
				aspectos relevantes. Em relação à nacionalidade, todas eram brasileiras e se
				autodeclararam do sexo feminino, apenas uma, na identidade de gênero, pontuou
				“agênero” (não se sente pertencente a nenhum gênero), as demais, “cisgênero” (se
				identifica com o gênero que lhe foi atribuído). Sobre a orientação sexual, a maioria
				se autodeclarou heterossexual (74,6%), seguida de bissexual (15,9%), lésbica (9,5%).
				Na faixa etária tivemos entre 43 a 34 anos (40%), 53 a 44 anos (26%), 33 a 23 anos
				(24%), 64 a 54 anos (10%). Outra questão foi sobre a religião, autodeclararam não
				possuir (41,3%), católica (19%), evangélica (15,9%), umbanda (14,3%), e outras como
				candomblé, espiritismo, universalista/sufismo (9,5%). Quanto ao estado civil, se
				autodeclaram solteiras (47,6%), casadas (39,7%), divorciadas, separadas, viúvas ou
				união estável (12,7%). E, 57,1% afirmaram ter filhas/os, 42,9% não.</p>
			<p>Sobre a escolaridade, 93,7% afirmaram já ter cursado ou cursar graduação, sendo que
				87,9% já havia concluído o curso e 12,1% estavam com o curso em andamento. Destas,
				67,8% eram em instituição de ensino pública e 32,2% privada. As áreas de formação
				que apareceram foram inúmeras: Ciências Biológicas, Ciências Contábeis, Ciências
				Sociais, Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo, Direito, Educação Artística
				com Habilitação em Música, Educação Física, Enfermagem, Filosofia, Gastronomia,
				História, Letras Português e Espanhol, Letras Português e Inglês, Pedagogia,
				Psicologia, Saúde Coletiva e Serviço Social. Quando indagadas se usaram algum tipo
				de ação afirmativa para acesso à graduação, das 59 respostas obtidas, 69,5%
				afirmaram que não, 20,3% cotas para negras/os, 5,1% cotas sociais, 3,4%
				Financiamento Estudantil (FIES) e 1,7% Programa Universidade Para Todos
				(Prouni).</p>
			<p>Ao serem questionadas se tinham ou faziam pós-graduação, 33,3% afirmaram ter
				especialização, 31,7% mestrado, 28,6% não possuir, 6,3% doutorado. Sendo que, 36,4 %
				ainda iam concluir seus cursos de pós-graduação. Do tipo de instituição de ensino,
				72,9% na rede pública e 27,1% no ensino privado. Quando indagadas se usaram algum
				tipo de ação afirmativa para o acesso à pós-graduação, das 47 respostas obtidas,
				78,8% afirmaram que não, 19,1% cotas para negras/os, 2,1% cotas para
				quilombolas.</p>
			<p>Profissionalmente, tínhamos cursistas que estão empregadas (79,4%), autônomas (2,7%),
				ou desempregadas (7,9%), realizando serviços no setor público (83,3%), privado
				(8,3%) ou autônomo (8,3%). Ao observar a renda das cursistas, metade pertence à
				Classe D (2 a 4 SM) e Classe E (Até 2 SM), visto que, 1,6% não possuem renda; 9,5%
				apresentam renda de até ½ salário-mínimo; 6,3% de ½ a 1 salário-mínimo; 20,6% de 1 a
				2 salários-mínimos; 12,7% de 2 a 3 salários-mínimos; 33,3% de 3 a 5 saláriosmínimos;
				14,3% de 5 a 10 salários-mínimos; e 1,6% de 10 a 20 salários-mínimos.</p>
			<p>A maioria das cursistas se autodeclararam da cor preta (63,5%), seguida de parda
				(27%), branca (9,5%), sendo que uma participante informou ser quilombola. Tínhamos
				pessoas que integravam movimentos sociais, grupos comunitários, escolas públicas e
				particulares, público interno da UFMT (docentes, discentes e técnicas), instituições
				governamentais federal, estadual e municipal, e organização privada. Grande parte
				pretendia se candidatar, no futuro, para mestrado (47,6%), doutorado (22,2%),
				graduação (9,5%) e não pretendiam (20,6%). Das que pretendiam tentar a
				pós-graduação, 61,3% já tinham tentado antes e 38,7% seria o primeiro processo
				seletivo que fariam. Destas, 73,8% não tinham ninguém na família com mestrado e/ou
				doutorado. Dentre as maiores dificuldades apontadas estão: elaboração do projeto de
				pesquisa, memorial descritivo, organização do tempo para estudo, entrevista de
				seleção e currículo lattes.</p>
			<p>Nesse sentido, o tornar-se negra pode ser observado no relato de <xref
					ref-type="bibr" rid="B31">Santos (2024)</xref>, sobre sua experiência na
				extensão “Oyá Ciclo Formativo em Feminismos Negros”:</p>
			<disp-quote>
				<p>A participação ativa em grupos, coletivos e núcleos de estudo representa um apoio
					emocional e intelectual importante para as mulheres negras. Como o “Oyá Ciclo
					Formativo em Feminismos Negros” ofereceu a mim oportunidade única de ir além das
					limitações acadêmicas, facilitando um espaço para diálogo, reflexão e
					solidariedade. A partir desse ciclo de estudos, mudei, desde a forma de me
					vestir e de me ver como mulher negra. A cada dia mais liberta do padrão
					eurocentrado de me vestir, pensar e escrever. A incorporação da música nas
					atividades desse grupo não apenas estabeleceu um ambiente acolhedor e
					estimulante, mas também promove um senso de emancipação coletiva. Essa
					integração fortaleceu os vínculos entre nós participantes, revitalizando a força
					de cada uma para enfrentar os desafios que sistematicamente transpassam nossos
					corpos (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Santos, 2024</xref>, p. 133).</p>
			</disp-quote>
			<p>Algumas cursistas produziram relatos de experiência que foram aprovados e
				apresentados durante o Seminário de Educação 2023 (Semiedu), do Programa de
				Pós-graduação em Educação (PPGE), da UFMT, cujos anais do evento ainda não foram
				publicados, a saber: “Conduzidas por Oyá: Ciclo Formativo em Feminismos Negros”, de
				Cynthia Cristina do Nascimento; “Escrevivências na Pós-Graduação <italic>Stricto
					Sensu</italic> da UFMT: um relato sobre a experiência no Oyá ciclo formativo em
				feminismos negros”, de Larissa Madalena da Silva Pinheiro e Josiane Rodrigues dos
				Santos; “Vivência e Interseccionalidade no Oyá: Ciclo Formativo em Feminismos
				Negros”, de Priscilla Stuart da Silva, Eleonora Maria de Queiroz Bondespacho, Eni
				Gonçalves da Silva Cambuí e Karla Fernandes<sup><xref ref-type="fn" rid="fn14"
						>14</xref></sup>.</p>
			<p>Com isso, falamos de escrevivências, como nos desloca Conceição Evaristo (2009), na
				escrita em seu amplo significado, em que tudo é palavra, em que estamos imbricadas
				em processos estéticos literários nos quais não nos desvencilhamos de nossas
				subjetividades, individual e coletivamente, da nossa autoria enquanto mulher negra.
				Deste modo, poetiza Grada Kilomba,</p>
			<disp-quote>
				<p>“Então, por que eu escrevo?/ Escrevo, quase como na obrigação/ Para encontrar a
					mim mesma/ Enquanto eu escrevo/ Eu não sou o Outro/ Mas a própria voz/ Não o
					objeto/ Mas o sujeito./ Torno-me aquela que descreve/ E não a que é descrita/ Eu
					me torno autora,/ Ea autoridade/ Em minha própria história/ Eu me torno a
					oposição absoluta/ Ao que o projeto colonial predeterminou/ Eu retorno a mim
					mesma/ Eu me torno.” (Tradução livre do texto “While I Write” de Grada Kilomba,
					feito por Anne Caroline Quiangala/UNB).</p>
			</disp-quote>
		</sec>
		<sec>
			<title>Considerações Provisórias</title>
			<p>O Projeto de Extensão “Oyá Ciclo Formativo em Feminismos Negros” promoveu processos
				formativos a partir dos Feminismos Negros Insurgentes na interface com a educação e
				a arte, da compreensão de como raça, gênero e classe, e outras intersecções operam
				no concreto da vida das mulheres negras, bem como de outras mulheres da Amazônia
				Legal.</p>
			<p>As mulheres negras são as mais afetadas por violências e violações de direitos
				engendradas pela sociedade patriarcal, racista e capitalista, articulando-se a isso
				opressões ligadas a orientação sexual, geração, origem geográfica, entre outras, que
				tornam suas realidades muito mais complexas. Deste modo, as políticas de ação
				afirmativa têm sido um giro importante no enfrentamento ao racismo, ao afirmar
				positivamente a população negra e possibilitar a ocupação de outros lugares sociais,
				na contramão daqueles impostos pelo racismo e suas interseccionalidades, portanto,
				um legado dos nossos tempos, em especial na educação, ventos que nos movem para
				transformações estruturais importantes.</p>
			<p>A superação do capitalismo de supremacia branca masculina cisheteropatriarcal diz
				respeito ao futuro da humanidade e da terra. <xref ref-type="bibr" rid="B24">Lorde
					(2021</xref>, p.152-153) alerta que essas definições antigas de poder nunca nos
				atenderam, nem à terra que nos sustenta, velhas estruturas de opressão urgem serem
				alteradas concomitantemente às alterações que precisamos fazer das condições de vida
				que resultam delas, visto que “as ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa
				grande”. Ela recorda os pensamentos de Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido, e o
				fato de que a transformação revolucionária diz respeito a libertação de situações
				opressivas, mas também libertação daquela parte do opressor internalizada em cada
				um/a de nós e que sabe apenas das táticas do opressor, das relações deste. O caminho
				está em aprimorar nossa autodefinição, e para nós mulheres, negras e não negras,
				isso consiste em novos caminhos para nossa sobrevivência.</p>
			<p>Portanto, nosso trabalho intelectual insurgente, que coloca em diálogo a
				indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão, na perspectiva de uma educação
				popular voltada para emancipação humana, devolve ao povo o que é do povo, auxilia na
				compreensão do concreto da vida, na descolonização de corpos e mentes, e mais do que
				ter respostas, levantar criativamente novas perguntas. Nada de nós, sem nós!</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p> Texto revisado e normalizado por Eliane da Silva, profissional de Letras,
					habilitação Português e Inglês.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p> Programa Espelho, entrevista de Neusa Santos Souza feita a Lázaro Ramos, exibido
					em 2009, no Canal Brasil. Disponível em: &lt;<ext-link ext-link-type="uri"
						xlink:href="https://www.youtube.com/watch?v=eugWGvhG48o"
						>https://www.youtube.com/watch?v=eugWGvhG48o</ext-link>&gt;. Acesso em: 27
					jun. 2024.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p> Com intuito de visibilizar intelectuais negras a primeira menção ao nome de
					autoras ou autores será feita com a escrita do nome completo.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p> O nome bell hooks é escrito todo em minúsculo por pedido da autora, sendo um
					pseudônimo de Gloria Jean Watkins, homenagem que a autora faz a avó dela,
					admirada por não ter medo de falar.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p> Projeto “Oyá Ciclo Formativo em Feminismos Negros” foi aprovado no Edital
					PROCEV/UFMT n. 001/EXT/2023 - Fluxo Contínuo de Ações de Extensão e homologado
					com o Protocolo: 110520231859171304, no âmbito do Programa de Extensão “Ação
					Afirmativa no Ensino Superior: articulações de vivências e saberes na UFMT -
					Edição 2023”, homologado com o Protocolo: 120520231411511228. Vincula-se ainda
					ao Projeto de Pesquisa “As Interseccionalidades de Gênero, Raça e Classe na
					Educação Brasileira”, financiado pela Chamada CNPq/MCTI nº 10/2023 - Faixa A -
					Grupos Emergentes, Processo: 421555/2023-8, ambos coordenados pela autora deste
					trabalho.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p> Censo Demográfico 2022. Disponível em: &lt; <ext-link ext-link-type="uri"
						xlink:href="https://sidra.ibge.gov.br/pesquisa/censo-demografico/demografico-2022/inicial"
						>https://sidra.ibge.gov.br/pesquisa/censo-demografico/demografico-2022/inicial</ext-link>&gt;.
					Acesso em: 27 jun. 2024.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p> Nota Informativa nº 2/2023 MDS/SNCF. Disponível em: &lt;<ext-link
						ext-link-type="uri"
						xlink:href="https://www.gov.br/mds/pt-br/noticias-e-conteudos/desenvolvimento-social/noticias-desenvolvimento-social/ministerios-do-desenvolvimento-social-e-dos-direitos-humanos-abrem-seminario-pela-luta-contra-o-trabalho-escravo-domestico/nota-informativa-n2-publicada.pdf"
						>https://www.gov.br/mds/pt-br/noticias-e-conteudos/desenvolvimento-social/noticias-desenvolvimento-social/ministerios-do-desenvolvimento-social-e-dos-direitos-humanos-abrem-seminario-pela-luta-contra-o-trabalho-escravo-domestico/nota-informativa-n2-publicada.pdf</ext-link>&gt;.
					Acesso em: 27 jun. 2024.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p> ColetaCapes2022,atuaçõesdiscentes.Disponí-vel em: &lt;<ext-link
						ext-link-type="uri"
						xlink:href="https://sucupira-v2.capes.gov.br/sucupira4/painel/ReportSectionbb557f66f3defb8753b4"
						>https://sucupira-v2.capes.gov.br/sucupira4/painel/ReportSectionbb557f66f3defb8753b4</ext-link>&gt;.
					Acesso em: 27 jun. 2024.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p> Programa Roda Viva da TV Cultura, com Grada Kilomba. Disponível:&lt;<ext-link
						ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.youtube.com/watch?v=up-F2Pzf0LY"
						>https://www.youtube.com/watch?v=up-F2Pzf0LY</ext-link>&gt;. Acesso em: 28
					jun. 2024.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p> O termo “mulata” é um termo pejorativo, uma nomenclatura animal usada para se
					referir a pessoas que possuem mistura interracial, ou seja, “o cruzamento entre
					um cavalo e uma mula [...] que dá origem a um terceiro animal, considerado
					impuro e inferior” (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Kilomba, 2019</xref>, p.
					19).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>11</label>
				<p> Elza Soares, BaianaSystem - Libertação (Feat. Virgínia Rodrigues) (Áudio).
					Composição de Russo Passa- Pusso. Disponível em: &lt;<ext-link
						ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.youtube.com/watch?v=6XrCS1GI2ec"
						>https://www.youtube.com/watch?v=6XrCS1GI2ec</ext-link>&gt;. Acesso em: 28
					jun. 2024.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>12</label>
				<p> Centro Cultural Casa das Pretas de Mato Grosso. Instagram @casadaspretasmt e
					@imunemt.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn13">
				<label>13</label>
				<p> Ge Lacerda - CD Negra Flor. Música: Negra Flor. Disponível em:&lt;<ext-link
						ext-link-type="uri"
						xlink:href="https://www.youtube.com/watch?v=wGFG-WBoiN54"
						>https://www.youtube.com/watch?v=wGFG-WBoiN54</ext-link>&gt;. Acesso em: 28
					jun. 2024.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn14">
				<label>14</label>
				<p> Semiedu 2023. Disponível em: &lt;<ext-link ext-link-type="uri"
						xlink:href="https://setec.ufmt.br/eventos/semiedu/wp-content/uploads/2023/11/EN-SALAMENTO-COMUNICACOES.pdf"
						>https://setec.ufmt.br/eventos/semiedu/wp-content/uploads/2023/11/EN-SALAMENTO-COMUNICACOES.pdf</ext-link>&gt;.
					Acesso em: 28 jun. 2024.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>REFERêNCIAs</title>
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				<mixed-citation>AKOTIRENE, Carla<bold>. Interseccionalidade</bold>. São Paulo: Sueli
					Carneiro; Pólem, 2019.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>AKOTIRENE</surname>
							<given-names>Carla.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Interseccionalidade</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Sueli Carneiro; Pólem</publisher-name>
					<year>2019</year>
				</element-citation>
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				<mixed-citation>AUAD, Daniela. <bold>Feminismo:</bold> que história e essa? Rio de
					Janeiro: DP&amp;A, 2003.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>AUAD</surname>
							<given-names>Daniela.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Feminismo: que história e essa?</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
					<publisher-name>DP&amp;A</publisher-name>
					<year>2003</year>
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						<name>
							<surname>BENTO</surname>
							<given-names>Maria Aparecida S.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>Branqueamento e Branquitude No Brasil</chapter-title>
					<person-group person-group-type="editor">
						<name>
							<surname>CARONE</surname>
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						</name>
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							<surname>BENTO</surname>
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					<source>Psicologia social do racismo - estudos sobre branquitude e branqueamento
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					Acesso em: 27 jun. 2024.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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						<collab>BRASIL</collab>
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					<source>Constituição da República Federativa do Brasil (1988)</source>
					<publisher-loc>Brasília</publisher-loc>
					<publisher-name>Senado</publisher-name>
					<year>1988</year>
					<comment>Disponível em: &lt;<ext-link ext-link-type="uri"
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				<mixed-citation>BRASIL. <bold>Lei n. 12.711, de 29 de agosto de 2012</bold>. Lei das
					Cotas. Brasília: Presidência da República, 2012. Disponível em: &lt;<ext-link
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					<source>Lei n. 12.711, de 29 de agosto de 2012</source>
					<comment>Lei das Cotas</comment>
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					<source>Ações Afirmativas na Pós-graduação</source>
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					<chapter-title>Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio
						Teixeira</chapter-title>
					<source>Resumo técnico do Censo da Educação Superior 2022 [recurso
						eletrônico]</source>
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					<year>2024</year>
					<comment>Disponível em: &lt;<ext-link ext-link-type="uri"
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					<article-title>Aprendendo com a Outsider Within: a significação sociológica do
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					<article-title>“Não ando só”: afirmação na pós-graduação, negritudes e os
						potenciais intelectuais que o racismo desperdiça</article-title>
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