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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">faeeba</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. FAEEBA - Ed. e
					Contemp.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2358-0194</issn>
			<publisher>
				<publisher-name>Universidade do Estado da Bahia</publisher-name>
			</publisher>
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		<article-meta>
			<article-id pub-id-type="doi"
				>10.21879/faeeba2358-0194.2024.v33.n76.p239-254</article-id>
			<article-categories>
				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigo</subject>
				</subj-group>
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			<title-group>
				<article-title>FORMAÇÃO EM ECONOMIA SOLIDÁRIA E EDUCAÇÃO POPULAR: APROXIMAÇÕES E
					DESAFIOS</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>FORMATION IN SOLIDARITY ECONOMY AND POPULAR EDUCATION:
						APPROXIMATIONS AND CHALLENGES</trans-title>
				</trans-title-group>
				<trans-title-group xml:lang="es">
					<trans-title>FORMACIÓN EN ECONOMÍA SOLIDARIA Y EDUCACIÓN POPULAR: APROXIMACIONES
						Y DESAFÍOS</trans-title>
				</trans-title-group>
			</title-group>
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-5313-377X</contrib-id>
					<name>
						<surname>Puton</surname>
						<given-names>Ana Maria Pereira</given-names>
					</name>
					<bio>
						<p><sup>*</sup> Mestre em Educação pela Universidade Comunitária da Região
							de Chapecó- Unochapecó; pesquisadora do grupo de pesquisa Formação de
							Professores, Currículo e Prática Pedagógica da Universidade Comunitária
							da Região de Chapecó (Unochapecó), Chapecó, Santa Catarina, Brasil.
								E-mail:&lt;<email>anampp@unochapeco.edu.br</email>&gt;.</p>
					</bio>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"/>
				</contrib>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-9036-1296</contrib-id>
					<name>
						<surname>Poli</surname>
						<given-names>Odilon Luiz</given-names>
					</name>
					<bio>
						<p><sup>**</sup> Doutor em Educação pela UNICAMP; professor do Programa de
							Pós-Graduação stricto sensu em Educação, Universidade Comunitária da
							Região de Chapecó (UNOCHAPECÓ), Chapecó, Santa Catarina, Brasil. E-mail:
								<email>odilon@unochapeco.edu.br</email>&gt;.</p>
					</bio>
					<xref ref-type="aff" rid="aff2"/>
				</contrib>
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			<aff id="aff1">
				<institution content-type="orgname">Universidade Comunitária da Região de
					Chapecó</institution>
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					Chapecó</institution>
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					Chapecó</institution>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>20</day>
				<month>11</month>
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2024</year>
			</pub-date>
			<volume>33</volume>
			<issue>76</issue>
			<fpage>239</fpage>
			<lpage>254</lpage>
			<history>
				<date date-type="received">
					<day>10</day>
					<month>06</month>
					<year>2024</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
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					<year>2024</year>
				</date>
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			<permissions>
				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>A Economia Solidária (Ecosol) e a Educação Popular, articuladas, se fortalecem. O
					estudo aborda a importância da Educação Popular na consolidação de
					Empreendimentos Econômicos Solidários (EES). Teve como <italic>locus</italic>
					dois EES de Chapecó (SC). As informações geradas a partir de histórias de vida
					de integrantes dos EES e entrevistas com educadores populares indicam que as
					práticas de Educação Popular foram fundamentais para a viabilização dos
					empreendimentos. E estes promoveram avanços nas condições e vida dos sujeitos.
					Contudo, esses processos educativos não ocorreram sem contradições e
					dificuldades, incluindo a resistência em participar, o que pode ser fator de
					fragilização das experiências no que tange a sua continuidade, na perspectiva da
					Ecosol.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>Solidary Economy (Ecosol) and Popular Education, in junction, strengthen each
					other. The study approaches the importance of Popular Education in the
					consolidation of Economic and Solidary Enterprises (EES). It has had as its
						<italic>locus</italic> two EES from Chapecó (SC). Data generated from the
					life stories of EES members and interviews with popular educators suggest that
					popular education practices were fundamental for the viability of the
					enterprises. Besides, these have promoted advances in the conditions of the
					subjects’ lives. However, these educational processes did not occur without
					contradictions and difficulties, including the resistance to participate, which
					might be a factor of fragility of the experiences concerning their continuity,
					in the perspective of Ecosol.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>La Economía Solidaria (Ecosol) y la Educación Popular, articuladas, se
					fortalecen. El estudio aborda la importancia de la Educación Popular en la
					consolidación de Emprendimientos Económicos Solidarios (EES). Tuvo como locus
					dos EES de Chapecó (SC). Los datos generados a partir de historias de vida de
					integrantes de los EES y entrevistas con educadores populares indican que las
					prácticas de Educación Popular fueron fundamentales para la viabilización de los
					emprendimientos. Y estos promovieron avances en las condiciones y vida de los
					sujetos. Sin embargo, esos procesos educativos no ocurrieron sin contradicciones
					y dificultades, incluyendo la resistencia en participar, lo que puede ser factor
					de fragilización de las experiencias en lo que respecta a su continuidad, en la
					perspectiva de Ecosol.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>educação popular</kwd>
				<kwd>economia solidária</kwd>
				<kwd>empreendimentos econômicos solidários (EES).</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>popular education</kwd>
				<kwd>solidary economy</kwd>
				<kwd>economic</kwd>
				<kwd>solidary enterprises (EES).</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>educación popular</kwd>
				<kwd>economía solidaria</kwd>
				<kwd>emprendimientos económicos solidarios (EES).</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução<sup><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup></title>
			<p>A Economia Solidária (Ecosol) é um fenômeno antigo, que trata de um modelo de
				organização econômica e social que se baseia em princípios como a cooperação, a
				solidariedade e a autogestão. Designa uma forma organizativa e um movimento social
				que, ao longo das duas últimas décadas, vem apresentando possibilidades de melhoria
				de renda e qualidade de vida aos seus participantes. Embora, recentemente, tenha se
				fragilizado pela perda de apoio institucional e corte de recursos públicos voltados
				à concretização dos seus objetivos, a Ecosol ainda pode ser vista como alternativa
				para a crise econômica e social atual, pautada na construção de uma organização
				social e econômica focada na equidade e no bem-estar coletivo.</p>
			<p>Refere-se a um movimento que se fortalece com processos formativos, planejados e
				organizados em torno dos princípios e práticas da Educação Popular, a qual se
				preocupa com a transformação crítica e libertadora dos sujeitos. Um dos aspectos
				essenciais ao desenvolvimento da Ecosol são os processos formativos pautados em
				metodologias que contribuem para uma educação crítica, focada na conscientização,
				compreendida, aqui, no sentido que lhe é atribuído por <xref ref-type="bibr"
					rid="B5">Freire (1982</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B7">1987</xref>), a
				qual envolve a superação da consciência ingênua e a ressignificação da realidade, a
				partir da compreensão das correlações causais e circunstanciais dos fatos.</p>
			<p>No contexto da Ecosol, o objetivo das práticas formativas é viabilizar o processo de
				conscientização, bem como contribuir para que os princípios e os valores da Ecosol
				sejam compreendidos, vivenciados e desenvolvidos nas ações coletivas dos grupos que,
				assim, desejam se relacionar, não somente no movimento da Ecosol, mas na sociedade
				como um todo.</p>
			<p>Por outro lado, as próprias práticas do movimento são compreendidas como formativas,
				pois envolvem uma estrutura organizativa que alia saberes, conhecimentos, ações
				coletivas e trocas direcionadas para o fortalecimento das propostas e dos sujeitos
				que compõem os Empreendimentos Econômicos Solidários (EES). A literatura consultada
				indica que a Educação Popular tem sido essencial nesse processo, por ser uma
				proposta que se relaciona com os valores e princípios da Ecosol, como o
				compartilhamento dos conhecimentos, o desenvolvimento da autonomia, a autogestão e a
				promoção de uma “leitura de mundo mais crítica” (<xref ref-type="bibr" rid="B6"
					>Freire, 1996</xref>, p. 165).</p>
			<p>A Educação Popular surgiu de experiências de alfabetização realizadas por Paulo
				Freire com grupos de adultos, oriundos de camadas populares marginalizadas, num
				período em que a educação por cartilhas atendia à demanda da alfabetização
				funcional. A proposta freiriana foi ousada ao pôr em prática um método de
				alfabetização rápida, de participação coletiva, utilizando poucos recursos
				materiais, mas que possibilitava aos sujeitos envolvidos uma visão mais crítica
				frente a sua realidade e uma postura de maior autonomia no contexto das relações
				sociais. Paulo Freire defendeu e difundiu a ideia de que a educação deve ser um ato
				político libertador e deve servir para atender os sujeitos, contribuindo para a sua
				emancipação (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Gadotti, 2014</xref>).</p>
			<p>Nesse sentido, Educação Popular e Ecosol se alinham e se articulam com objetivos e
				propósitos que ressaltam o desenvolvimento integral dos sujeitos, buscando a
				superação de sua condição de marginalidade. Portanto, a Educação Popular faz parte
				das estratégias utilizadas pelo movimento da Ecosol e pelas entidades que
				desenvolvem as ações formativas junto aos grupos que participam de iniciativas de
				Economia Solidária.</p>
			<p>Dentre os elementos aglutinadores do movimento da Ecosol, estão as Incubadoras
				Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCP), que têm por objetivo serem espaços de
				formação e capacitação para o público da Economia Solidária. Junto com outras
				entidades de apoio, compõem o rol de atores que promovem fortalecimento dos grupos
				dentro do movimento. Organizadas em rede, são espaços constituídos dentro das
				Universidades com o objetivo de integrar as forças (sujeitos e conhecimentos) de
				diferentes áreas. Buscam produzir e/ou adaptar, numa linguagem acessível aos grupos
				populares, saberes e conhecimentos disponíveis nos espaços acadêmicos, bem como
				práticas educativas que atendam às necessidades dos grupos de Economia
				Solidária.</p>
			<p>A Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Unochapecó (ITCP-Unochapecó),
				criada em 2002, integrada à Rede de ITCP, atuou durante 16 anos com diversos grupos
				de Economia Solidaria, na perspectiva da Educação Popular, buscando o
				desenvolvimento econômico e formativos dos sujeitos envolvidos.</p>
			<p>Considerando esse contexto, o presente estudo teve como objetivo compreender a
				importância da Educação Popular na consolidação dos EES assessorados pela
				ITCP-Unochapecó, na cidade de Chapecó (SC), no início dos anos 2000. A importância
				deste estudo reside, especialmente, na possibilidade de compreensão dos meandros dos
				processos formativos desenvolvidos na trajetória de consolidação desses EES.</p>
			<p>A pesquisa desenvolvida integrou um estudo mais amplo sobre Educação Popular e
				Economia Solidária, realizada para fins de produção de dissertação<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn2">2</xref></sup>, a qual se voltou a caracterizar a
				visão sobre a Economia Solidária entre os participantes de EES, apoiados pela
				ITCP-Unochapecó e que tenham participado dos processos de formação sobre a Ecosol
				promovidos pela incubadora.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Procedimentos metodológicos</title>
			<p>O presente estudo se caracteriza como uma pesquisa qualitativa, a qual busca captar
				significados, motivos, aspirações e valores envolvidos em relações sociais,
				processos e/ou fenômeno que não podem ser reduzidos a variáveis operacionais (<xref
					ref-type="bibr" rid="B12">Minayo, 2012</xref>).</p>
			<p>A pesquisa de campo coletou histórias de vida de integrantes de EES apoiados pela
				ITCP-Unochapecó e entrevistas com educadores populares que atuaram junto a esses
				empreendimentos.</p>
			<p>As histórias de vida são estratégias de compreensão da realidade que visam descrever
				experiências vivenciadas por pessoas, grupos ou organizações, possibilitando ao
				pesquisador olhar para o ponto de vista do sujeito e, assim, ter maior chance de
				compreender e entender suas sensações e percepções. Podem compreender: as histórias
				de vida completas, com as quais pode ser estudado todo o conjunto da experiência
				vivida pelos sujeitos; e as histórias de vida tópicas ou sumárias, que enfocam um
				determinado período, tema, momento ou etapa da experiência a que se propõe
				compreender (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Cruz Neto, 2012</xref>).</p>
			<p>A entrevista, por sua vez, é uma estratégia pela qual o pesquisador procura as
				informações contidas nas falas dos atores sociais que, enquanto sujeitos-objeto de
				pesquisa, vivenciaram uma dada situação em estudo. Segundo <xref ref-type="bibr"
					rid="B21">Zago (2003)</xref>, a entrevista possibilita um processo de relação
				social que precisa ser cuidadosamente organizado e pensado para viabilizar um
				processo singular, com qualidade de elementos.</p>
			<p>O <italic>locus</italic> da pesquisa foram dois EES, localizados na cidade de
				Chapecó, que foram apoiados pela ITCP-Unochapecó por, pelo menos, três anos (período
				básico de incubação), nos quais foram ouvidos dois sujeitos de cada empreendimento,
				totalizando quatro pessoas. O Empreendimento Econômico e Solidário A é uma
				cooperativa, aqui denominada, ficticiamente, de CooperA, que atua no ramo da
				construção civil. Composta majoritariamente por homens, constituiu-se como
				cooperativa no ano de 2005 e, no momento da pesquisa, continuava em atividade. O
				empreendimento contou com o apoio da ITCP no período compreendido entre os anos de
				2005 e 2007. Já o Empreendimento Econômico e Solidário B, ficticiamente denominado
				de CooperB, é uma cooperativa de confecção têxtil que atua no segmento de fabricação
				de uniformes. É composta, majoritariamente, por mulheres e, no momento da pesquisa,
				continuava em atividade. Contou com o apoio da ITCP no período compreendido entre os
				anos de 2006 e 2008.</p>
			<p>A escolha dos participantes de cada empreendimento, nesta fase, levou em conta o
				tempo de participação no empreendimento, o grau de envolvimento (dedicação efetiva
				às atividades e/ou necessidades do empreendimento, exercício de liderança etc.) e a
				disponibilidade de participação na pesquisa. Foram, assim, analisadas as histórias
				de vida de quatro pessoas, sendo dois homens e duas mulheres, com idades entre 52 e
				70 anos. Os dois homens são integrantes da CooperA. Já as duas mulheres são
				integrantes da CooperB. Os encontros para entrevista e gravação das histórias de
				vida aconteceram entre janeiro e fevereiro do ano de 2021, nos seus locais de
				trabalho, conforme escolha dos próprios entrevistados.</p>
			<p>A escolha dos educadores populares, por sua vez, levou em conta o efetivo
				envolvimento com os empreendimentos em estudo. Esses educadores exerciam o cargo de
				Técnicos de Extensão na Incubadora. A denominação da função <italic>técnico de
					extensão</italic> é assim estabelecida pelas questões legais de contratação da
				Universidade.</p>
			<p>A análise das materialidades empíricas foi realizada por meio da análise de conteúdo,
				na perspectiva proposta por <xref ref-type="bibr" rid="B1">Bardin (2002)</xref>.
				Conforme <xref ref-type="bibr" rid="B14">Rocha e Deusdará (2005)</xref>, o objetivo
				central da análise de conteúdo é captar os significados, percebendo o sentido do que
				foi proferido pelo locutor, quando verbaliza ou descreve o texto.</p>
			<p>O artigo está organizado em cinco seções, sendo a primeira seção esta introdução. A
				segunda seção é dedicada à fundamentação teórica, incluindo um breve histórico dos
				conceitos de Economia Solidária e da Educação Popular. Na terceira seção são
				apresentadas e discutidas as materialidades empíricas coletadas, à luz dos
				fundamentos teóricos. A quarta seção apresenta algumas considerações finais e, por
				fim, a quinta seção apresenta as principais referências bibliográficas mencionadas
				no estudo.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Economia solidária e educação popular: aproximações</title>
			<p>Reconhecidamente, a Ecosol coloca-se como uma possibilidade esperançosa de superação
				do modo capitalista de produção (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Singer,
				2002</xref>). Ou, ao menos, como uma estratégia importante para o empoderamento das
				pessoas e grupos segregados no contexto da economia capitalista, possibilitando a
				retomada de sua dignidade e seu fortalecimento na luta pela construção de uma
				sociedade com maior equidade e justiça social.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B15">Singer (2002)</xref> apresenta a Economia Solidária
				como um modo de organização econômica que se propôs a ser alternativa ao modo
				capitalista de produção, considerando que este tem sua lógica baseada na exploração
				do trabalhador, no individualismo e na competitividade. Na mesma perspectiva, <xref
					ref-type="bibr" rid="B18">Santos e Rodríguez (2002)</xref> incluem a Economia
				Solidária entre as teorias de desenvolvimento alternativo, ou seja, um conceito e
				uma prática de reação ao sistema capitalista.</p>
			<p>Historicamente, a Ecosol surgiu como experiência para enfrentamento do processo de
				exploração provocado pelo avanço do modo capitalista de produção, após o processo de
				industrialização, principalmente a partir do século XIX. Nesse sentido, as primeiras
				experiências históricas registradas tiveram origem nas ideias do britânico Robert
						Owen<sup><xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref></sup>, o qual buscou criar
				um modelo de intervenção para a crise, na forma de aldeias cooperativas, em suas
				próprias indústrias. Mais tarde, organizou uma colônia cooperativa em New Harmony,
				nos EUA, e, também, esteve à frente de um grande movimento sindical da época, no
				qual defendia o cooperativismo e seus princípios, como forma de enfrentar o
				capitalismo (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Singer, 2003</xref>).</p>
			<p>Owen propunha uma forma diferenciada de organização, baseada no cooperativismo e em
				relações mais justas de trabalho e, mesmo não obtendo a adesão significativa dos
				empresários da época, que consideravam a sua proposta nociva para as ideias de
				manutenção/expansão de lucros, a experiência rendeu resultados positivos ao longo
				dos anos, especialmente em países em que a crise econômica era mais aguda (<xref
					ref-type="bibr" rid="B15">Singer, 2002</xref>).</p>
			<p>Os ideais da Economia Solidária ampliaramse ao longo da história, especialmente em
				momentos de agravamento das condições sociais, provocado pelas crises cíclicas do
				capitalismo. Constituiu-se, assim, como uma estratégia de luta pela constituição de
				novas formas de relações sociais, a partir do estabelecimento de novas formas de se
				relacionar com a produção e com a comercialização, na perspectiva de
					<italic>produzir para viver</italic>, num outro modo que não seja o capitalista
					(<xref ref-type="bibr" rid="B17">Santos, 2002</xref>). A Ecosol, assim, se
				propõe a gerar vida, tanto para os indivíduos quanto para o meio ambiente, agindo de
				forma respeitosa em suas relações (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Santos,
					2002</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B15">Singer, 2002</xref>).</p>
			<p>As economias dos setores populares e de desenvolvimento alternativo são o resultado
				de propostas que se ancoram nas “[...] críticas de fundo à estrita racionalidade
				econômica e às políticas de desenvolvimento dominantes” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B17">Santos, 2002</xref>, p. 46). Estes arranjos da economia popular se
				apresentam como caminhos para uma produção e uma organização não capitalista. Esses
				arranjos surgem e se desenvolvem junto a setores marginalizados da sociedade. É
				pensada em uma perspectiva de <italic>baixo para cima</italic>, ou seja, refletida
				pelos sujeitos nos coletivos, ou comunidades organizadas. Acontecem em escala local
				e, na maioria das vezes, são de gestão solidária, de intercâmbio não capitalista, de
				ações com princípios solidários e coletivos (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Santos,
					2002</xref>).</p>
			<p>A Ecosol tem como alicerces a solidariedade, a cooperação, o respeito, a ajuda mútua,
				a valorização do saber, a busca do desenvolvimento coletivo e, consequentemente, a
				união em torno de objetivos comuns (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Gadotti,
					2009</xref>). Em sintonia com esses valores, os princípios do cooperativismo,
				que inspiram os EES, são aqueles criados nas organizações de cooperativas de
				tecelões, na Inglaterra, por volta de 1844, pelo modelo owenista.</p>
			<disp-quote>
				<p>Princípios universais do cooperativismo: 1º) que nas decisões a serem tomadas
					cada membro teria direito a um voto, independentemente de quanto investiu na
					cooperativa; 2º) o número de membros da cooperativa era aberto, sendo em
					princípio aceito quem desejasse aderir. Por isso este princípio é conhecido como
					o da ‘porta aberta’; 3º) sobre o capital emprestado a cooperativa pagaria uma
					taxa de juros fixa; 4º) as sobras seriam divididas entre os membros em proporção
					às compras de cada um na cooperativa; 5º) as compras feitas pela cooperativa
					seriam sempre feitas à vista. 6º) os produtos vendidos pela cooperativa seriam
					puros (isto é, não adulterados); <italic>7º) a cooperativa se empenharia na
						educação cooperativa</italic>. 8º) a cooperativa manter-se-ia sempre neutra
					em questões religiosas e políticas (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Singer,
						2002</xref>, p. 39-40, grifo nosso).</p>
			</disp-quote>
			<p>A partir desses princípios, a Ecosol se estrutura com base em dois pilares
				principais: a organização do trabalho e a educação dos seus integrantes. Tais
				pilares são bases para acessar as outras dimensões a serem construídas e
				desenvolvidas na Ecosol. Entre elas, podemos citar a autogestão, a organização
				coletiva e a cooperação, a autonomia, o protagonismo e a consciência crítica.</p>
			<p>Nessa perspectiva, a Educação Popular se destaca como uma base importante para a
				formação em Economia Solidária, visto que, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B7"
					>Freire (1987)</xref>, a educação do oprimido é um ato de resistência. A partir
				da práxis, que é a relação do saber e do fazer, os sujeitos se constroem como
				sujeitos. Os valores propostos pela Ecosol precisam ser compartilhados para
				possibilitar uma leitura crítica das relações de produção vigentes, de modo a
				provocar o estranhamento em relação aos valores do sistema dominante. Assim, o
				objetivo das práticas formativas, nesse contexto, é viabilizar o processo de
				conscientização, bem como contribuir para que os princípios e os valores da Ecosol
				sejam compreendidos, vivenciados e desenvolvidos nas ações coletivas dos grupos.</p>
			<p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B5">Freire (1982)</xref>, a conscientização
				é um processo histórico que se desenvolve pela tomada de consciência, possibilitando
				ao homem sua emancipação e integração ao mundo real. Tem como fundamento o processo
				de ação-reflexão-ação dos indivíduos que lhes permite ressignificar e reconstruir o
				mundo dentro de uma relação dialética e dialógica.</p>
			<p>Para Paulo Freire, a opressão só pode ser superada por intermédio da tomada de
				consciência. Porém, segundo ele, não basta apenas uma tomada de consciência ingênua
				da realidade. É necessária uma conscientização crítica, possível apenas por meio da
				práxis, isto é, de um processo de reflexão e ação das pessoas sobre sua realidade
				concreta de opressão. A conscientização representa, exatamente, a passagem dos
				sujeitos, de uma consciência ingênua para uma consciência crítica da realidade. Ou
				seja, a consciência crítica é “[...] a representação das coisas e dos fatos como se
				dão na existência empírica. Nas suas correlações causais e circunstanciais” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B5">Freire, 1982</xref>, p. 138). Já na consciência
				ingênua, ao contrário, o sujeito se julga independente dos fatos e das
				circunstâncias e livre para entendê-los e dominá-los conforme melhor lhe agradar.
				Ainda afirma <xref ref-type="bibr" rid="B5">Freire (1982)</xref> que a educação é o
				principal instrumento para a conscientização e ela possibilita que os homens assumam
				sua condição de seres políticos, em condições de intervir na realidade e
				transformá-la, reconhecendo-se como protagonistas de suas próprias vidas, como
				sujeitos históricos que são.</p>
			<p>Conforme <xref ref-type="bibr" rid="B7">Freire (1987)</xref>, o processo educativo
				possibilita às pessoas uma reflexão sobre si mesmas, sobre seu tempo, sobre sua
				situação no mundo e também sobre suas responsabilidades. O processo educativo não
				deve ser feito para as pessoas, mas sim construído com as próprias pessoas, de forma
				que possam participar ativamente. Ou seja, a conscientização, como processo
				educativo, é um meio de organização política dos oprimidos, sendo um importante
				instrumento de luta para a superação da realidade opressora.</p>
			<p>Para viabilizar a autogestão dos empreendimentos e viabilizar a proposta de uma outra
				economia, é necessário mudar de uma lógica essencialmente capitalista para uma
				lógica de emancipação, com vistas na busca de autonomia. Partindo dessa perspectiva
				teórica, que almeja o desenvolvimento e o empoderamento dos sujeitos, percebe-se que
				a Educação Popular e a Economia Solidária se colocam como trilhas de um mesmo
				caminho, compartilhando princípios de leitura da realidade, bem como horizontes
				semelhantes no que se refere às possibilidades de desenvolvimento econômico, social
				e humano.</p>
			<p>A consciência crítica, que possibilita conhecer a realidade, conhecer-se e, assim,
				emancipar-se, pode ser alcançada por meio de uma educação organizada a partir dos
				princípios metodológicos que caracterizam a Educação Popular (<xref ref-type="bibr"
					rid="B5">Freire, 1982</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B7">1987</xref>, <xref
					ref-type="bibr" rid="B6">1996</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Gadotti,
					2009</xref>).</p>
			<p>Na Economia Solidária, porém, somente as atividades formativas, como oficinas, cursos
				e palestras, não são suficientes para a formação dos sujeitos nessa perspectiva
				emancipatória. Ao contrário, o processo de formação envolve, além dessas atividades,
				também os aspectos da prática da Ecosol, como a organização, o trabalho coletivo, a
				autogestão e a participação efetiva e periódica do empreendimento em diversos atos
				de solidariedade e cooperação, realizados dentro e fora do empreendimento. É o
				somatório de todas essas experiências que culmina com a construção da autonomia e de
				toda a base educativa necessária à construção de uma nova realidade econômica,
				social, política e cultural.</p>
			<p>A construção de um projeto de educação para a Economia Solidária no Brasil se
				estabeleceu entre as pautas de organização do movimento, desde que a Economia
				Solidária começou a dar seus primeiros passos na organização do Fórum Brasileiro de
				Economia Solidária (FBES), em 2003, durante o Fórum Social Mundial. Em 2006 e 2007,
				realizaram-se as oficinas nacionais de formação/educação em Economia Solidária, que
				buscavam construir referenciais para a organização de uma educação para as
				trabalhadoras e os trabalhadores da Economia Solidária (<xref ref-type="bibr"
					rid="B20">Vilaça; Dubeux, 2018</xref>, p. 61). Esse processo foi, aos poucos,
				sendo acolhido e fortalecido pelo próprio Ministério do Trabalho, como se pode
				observar na citação a seguir:</p>
			<disp-quote>
				<p>A educação em Economia Solidária é definida como uma ‘construção social’, que
					envolve uma diversidade de sujeitos e ações orientados para a promoção do
					desenvolvimento territorial sustentável que considera as dimensões econômica,
					ambiental, cultural, social e política. [...] Assim, as ações
					político-pedagógicas inovadoras, autogestionárias e solidárias, são
					fundamentadas na perspectiva emancipatória de transformação dos sujeitos e da
					sociedade. [...] Esses processos são concebidos como práxis de aprendizagens
					coletivas, construção e partilha de saberes, reflexões e pesquisas sobre a (e a
					partir da) realidade dos trabalhadores e trabalhadoras da Economia Solidária.
						<italic>Entendendo práxis como a interrelação entre teoria(s) e prática(s) a
						partir da observação sobre a realidade, num constante movimento de reflexão
						e avaliação, resultando em novas ideias e ações</italic> (<xref
						ref-type="bibr" rid="B2">Brasil, 2012</xref>, p. 2-3, grifo nosso).</p>
			</disp-quote>
			<p>Alinhada a essa perspectiva, a Educação Popular “[...] tornou-se, assim, desde seu
				início, uma educação orientada para um projeto de ruptura. Trata-se de reconhecer e
				consolidar os processos de educação vividos a partir do trabalho na economia
				solidária” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Vilaça; Dubeux, 2018</xref>, p. 67).</p>
			<p>Contribuem para isso vários atores que compõem o movimento da Economia Solidária e
				que conseguem, através da articulação e do envolvimento, fortalecer os processos de
				efetivação dos Empreendimentos. Todos os autores que escrevem sobre a Ecosol
				relacionam as entidades como as organizações que dão vida ao sistema da Ecosol.
				Dentre eles constam apoiadores, investidores, parceiros e os próprios
				empreendimentos, que também são considerados entidades (<xref ref-type="bibr"
					rid="B4">França Filho; Cunha, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9"
					>Gadotti, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B10">Gaiger, 2009</xref>;
					<xref ref-type="bibr" rid="B15">Singer, 2002</xref>).</p>
			<p>As incubadoras nascem, também, nesse contexto de globalização econômica e
				reestruturação produtiva da década de 1990. Dentro das universidades, partiam de um
				princípio de que uma universidade pode e deve se propor à execução de projetos com a
				comunidade, como forma de desenvolver seus preceitos de extensão universitária. O
				desenvolvimento de ações práticas, no caso as ações de incubação, são realizadas em
				interação com a população que necessita e se interessa pelo tipo de organização para
				o trabalho (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Guimarães, 2000</xref>).</p>
			<p>Seguindo as diretrizes para as atividades de educação em Economia Solidária, as
				incubadoras estão incluídas nas estruturas das universidades e compõem os
				instrumentos e competências das políticas de educação em Economia Solidária, junto
				às Instituições de ensino médio e superior.</p>
			<p>A ITCP-Unochapecó foi um programa permanente de extensão universitária que prestou
				assessoria e atuou durante 16 anos com grupos populares. Durante seus anos de
				atuação, foram diversos os empreendimentos atendidos e realizadas prestações de
				serviços às entidades, prefeituras e poder público (<xref ref-type="bibr" rid="B13"
					>Puton <italic>et al.</italic>, 2018</xref>).</p>
			<p>Na ITCP, assim como na maioria das incubadoras do Brasil, o procedimento metodológico
				da incubação foi organizado a partir de quatro fases: pré-incubação, incubação,
				encerramento e pós-incubação (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Puton <italic>et
						al.</italic>, 2018</xref>).</p>
			<disp-quote>
				<p>A incubação é sempre - basicamente - um processo pedagógico de trocas intensas
					entre os grupos e as equipes de incubação, marcadas por um compartilhamento de
					projetos, de problemas e de trabalho na busca de soluções. Ações de
					ensino-aprendizagem e de pesquisa participante estão presentes sempre, bem como
					a busca de soluções tecnológicas (nem sempre encontradas) que priorizam a
					preservação ambiental e a relação solidária dos trabalhadores. Neste sentido,
					oficinas e cursos oferecidos aos grupos e pautados em pedagogias participativas
					também são algo comum a todas as incubadoras (<xref ref-type="bibr" rid="B19"
						>Vechia <italic>et al.</italic>, 2011</xref>, p. 11).</p>
			</disp-quote>
			<p>É importante destacar que o processo de incubação acima descrito, desenvolvido pela
				ITCP, parte do que é proposto nas orientações para as incubadoras sociais e
				populares que são organizadas em rede<sup><xref ref-type="fn" rid="fn4"
					>4</xref></sup>, proposta esta que contempla a formação com base nos princípios
				da Educação Popular.</p>
			<p>A formação dos grupos de Ecosol na região fez parte das estratégias de fortalecimento
				e apropriação dos elementos necessários para compreensão e vivências do processo de
				Ecosol. Nessas iniciativas, a Universidade, por meio da Incubadora, buscou atuar
				como elo, desenvolvendo formação com os grupos em situação de vulnerabilidade ou que
				manifestaram interesse na proposta. Isso para que tais grupos se aproximassem de
				informações, conhecimentos relevantes, para fortalecimento econômico/social,
				emancipação e autonomia.</p>
			<p>Esse foi o papel da ITCP-Unochapecó que, desde o ano de 2003, teve entre seus
				objetivos o fortalecimento do movimento da Ecosol, por meio da capacitação, da
				formação e da organização dos grupos (associações, cooperativas, grupos de
				agricultura familiar etc.), chamados de EES (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Puton
						<italic>et al.</italic>, 2018</xref>).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Sujeitos na formação: uma análise do caso dos EES assessorados pela
				ItcPUnochapecó</title>
			<p>A análise das materialidades empíricas, levantadas a partir das histórias de vida e
				das entrevistas com os educadores populares, possibilitou identificar e discutir
				elementos importantes para responder ao objetivo do presente estudo, qual seja,
				compreender a importância da Educação Popular na consolidação dos EES assessorados
				pela ITCP-Unochapecó, na cidade de Chapecó, no início dos anos 2000.</p>
			<p>Em primeiro lugar, ficou evidenciado que o próprio surgimento dos dois
				empreendimentos em estudo ocorreu a partir de atividades de formação e articulação
				das pessoas, promovidas pelas entidades de apoio, principalmente a Igreja Católica,
				sindicatos e o próprio Fórum de Economia Solidária. Essas articulações e formações,
				segundo os entrevistados, foram essenciais para os primeiros passos da organização
				dos empreendimentos. Os Fóruns de Economia Solidária eram espaços de reunião e
				organização da Ecosol e foram constantemente citados, tanto pelos entrevistados dos
				empreendimentos quanto pelos educadores populares. Em Chapecó, a entidade
				responsável pela ação de fundação legal/jurídica do fórum foi a ITCP-Unochapecó,
				que, com os grupos de Ecosol já existentes, legalizaram o Fórum Regional de Economia
				Solidária no ano de 2005.</p>
			<p>A Igreja Católica, via Caritas e outros processos de organização, e a ITCP foram as
				pioneiras na organização de grupos e de empreendimentos. Receberam os primeiros
				recursos para as formações em Chapecó e na região e, por isso, elas são
				frequentemente lembradas pelos entrevistados. Assim, também, são frequentes as
				lembranças de outros espaços de luta e articulação, os quais compõem o universo de
				relações desses sujeitos. É o caso, por exemplo, do Movimento Sem Terra (MST), que é
				citado por E1 e E3, os quais têm histórico de participação e militância com a causa
				das lutas da reforma agrária e o tema do cooperativismo.</p>
			<p>A própria aproximação das pessoas com a Ecosol ocorreu a partir dessas inciativas e,
				a partir de então, colocou-se como um horizonte alternativo ao desenvolvimento
				capitalista e como possibilidade de uma forma diferenciada de organização, com
				objetivo de superar as dificuldades econômicas, sociais e políticas dos grupos
				populares. Assim, mesmo sem dispor de um conhecimento prévio sobre a Ecosol, esta
				apresenta-se como uma alternativa interessante para esses sujeitos.</p>
			<disp-quote>
				<p>E nós nunca, <italic>nesse período, a gente nunca ouviu falar em Economia
						Solidária</italic>. Sabia que existia debates por aí, mas era assim, muito
					vagamente. E daí lá na Comunidade do Futuro começou assim, porque era a ideia de
					cooperativismo. Começou a vir principalmente, a partir de... eu não me lembro
					bem certo o ano, acho que foi no ano de 2000 no Fórum Social Mundial em Porto
					Alegre, que começou. Que começamos a entender essa ideia de Economia Solidária,
					do que que seria e como que a gente poderia se organizar (E1, 2021, grifo
					nosso).</p>
			</disp-quote>
			<p>Vários integrantes tomaram conhecimento sobre a ideia da Ecosol por meio dos próprios
				colegas, das lideranças dos empreendimentos, que já frequentavam os espaços de
				formação e articulação. Esse é o caso do E2, que foi convidado a participar das
				reuniões em que seus colegas já estavam envolvidos no bairro e que tratavam das
				possibilidades do trabalho coletivo, como as cooperativas sociais, no sistema de
				Ecosol. Este também é o caso da E4, que foi convidada para fazer parte do
				empreendimento e conhecer a proposta.</p>
			<sec>
				<title>A formação e a metodologia</title>
				<p>Considerando o trabalho das entidades de apoio e, especialmente, o trabalho da
					ITCP na trajetória dos empreendimentos e dos sujeitos em estudo, é importante
					destacar que, num empreendimento de Ecosol, os sujeitos são distintos e possuem
					formações diferenciadas. Uns como E1 e E3, que já possuíam vasta experiência de
					vida, o que incluía estudo em nível superior, grande experiência de trabalho,
					atuando, inclusive, em processos de formação de outros espaços profissionais em
					suas áreas. E outros como E2 e E4, que representam talvez a realidade da maioria
					dos sujeitos integrantes de EES, apresentando baixa escolaridade e vindos de
					experiências de trabalho e de vida com diversas limitações e privações. Este
					cenário heterogêneo dos empreendimentos é citado pelos educadores populares como
					algo desafiador: “Grupos com lideranças formadas e outros com pessoas e sujeitos
					que nunca tinham ouvido falar da Ecosol” (EP1, 2021).</p>
				<p>Nesse sentido, a formação em Ecosol, realizada pela incubadora com esses
					empreendimentos, segundo os depoimentos dos educadores populares, é parte de um
					processo pensado e planejado dentro de uma lógica da Educação Popular: “Uma
					construção conjunta. Tinha objetivos delineados e interação” (EP1, 2021). A
					partir da metodologia, a atuação era planejada e baseada nas necessidades do
					empreendimento, como a afirma EP2: a “[...] formação era pratica e teórica, a
					partir das necessidades dos empreendimentos e a atuação era interdisciplinar e
					multiprofissional” (EP2, 2021).</p>
				<p>Ou seja, as atividades realizadas com os empreendimentos eram pautadas na
					Educação Popular. O depoimento a seguir esclarece como o processo era conduzido
					no âmbito da ITCP:</p>
				<disp-quote>
					<p>A atuação com os grupos, por exemplo, não era rígida. Respeitava
						flexibilidade de acordo com a realidade de cada empreendimento [...]. Nossa
						atividade foi sempre muito dialógica para equipe, porque passava sempre por
						avaliação [...]. Considerava o retorno do grupo [...]. Era uma construção
						conjunta, com trocas e valorização do senso comum (EP1, 2021).</p>
				</disp-quote>
				<p>Na mesma perspectiva, o EP2 afirma que as atividades buscavam articular a teoria
					e a prática, pautadas na experimentação. Respeitavam o tempo do empreendimento e
					dos sujeitos, bem como sempre houve o debate sobre as temáticas a serem
					estudadas, definidas em diálogos e conversas com os associados.</p>
				<p>Mesmo que, nos empreendimentos, houvesse pessoas com saberes e bagagens
					formativas diversas, a formação específica em Ecosol e nos temas fundantes para
					a condução de um empreendimento de Ecosol precisava ser desenvolvida com cada um
					dos grupos. Além da parte teórica, fundamentalmente, a parte prática precisou
					ser exercitada e, como propõe a Educação Popular, ela aparece nos relatos dos
					educadores como uma tarefa exatamente de <italic>práxis</italic>. “Eu lembro de
					vários processos formativos, ao longo da trajetória. Mas esse processo de
					aproximação, se deu muito mais interno, já vivenciando a realidade dos
					Empreendimentos” (EP1, 2021).</p>
				<p>Esses elementos parecem evidenciar que, efetivamente, os processos de formação
					desenvolvidos junto com os empreendimentos em estudo eram guiados pelos
					princípios e práticas típicos da Educação Popular.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Avanços, limitações e desafios</title>
				<p>Os sujeitos, na visão do materialismo histórico, se constroem na interação com
					seu trabalho, seu modo de vida e suas experiências. Na perspectiva da Educação
					Popular, segundo uma entrevistada, sócia do empreendimento, também é possível
					verificar que, embora a temática da Ecosol tenha surgido como nova proposta, ela
					se articula e se fundamenta em temas e princípios já presentes em outros espaços
					e em outras práticas, com as quais compartilha princípios de vida e de
					organização social:</p>
				<disp-quote>
					<p>Então, a gente teve o acompanhamento dos miniprojetos, a gente tinha os
						encontros anuais dos projetos de toda a região, que eram financiados pelos
						Miniprojetos. [...] eu acho que um pouco da minha trajetória tem inspiração
						também no MST, o movimento sem-terra. Por conhecer, por conviver, por
						trabalhar com formação de professores em assentamentos. Então, eu fui
						construindo essa ideia, digamos assim, da partilha, porque a igreja
						trabalhava muito a questão da partilha, né? Então, a gente foi construindo
						essa ideia de partilhar os bens, os processos de coletivo e não individual,
						né? Eu acho que ali começou, e quando nós - antes de nos transformar em
						cooperativa - nós já tivemos a ITCP nos ajudando a construir o nosso
						primeiro estatuto. Então, quem nos ajudou a construir o primeiro estatuto
						foi a ITCP. Então, aqui nós já tivemos a ITCP, nós organizamos um grupo de
						pessoas entre a prefeitura e ITCP e MST, em curso de formação para mulheres
						do Bairro. Para transformar em cooperativa, para que elas entendessem o que
						seria a cooperativa (E3, 2021).</p>
				</disp-quote>
				<p>Outro entrevistado, contudo, não possuía conhecimento anterior sobre Ecosol e não
					relata a participação em espaços em que princípios da Ecosol fossem
					compartilhados, não revelando o domínio prévio de temas fundantes. Porém, da
					mesma forma que os demais sócios entrevistados, lembra que tiveram cursos de
					introdução sobre Ecosol com a ITCP-Unochapecó, os quais auxiliaram na
					compreensão da proposta. Como pode se verificar a seguir:</p>
				<disp-quote>
					<p>Foi a ITCP, inclusive, que deu o curso para nós. Agora não lembro quantas
						horas, mas foi em vários dias, que a gente fez o curso, né? Todos
						participaram dessa formação. E foi muito bom para entender o que é uma
						cooperativa, o que é uma Economia Solidária, cooperação, com a participação
						de todas, né? (E4, 2021).</p>
				</disp-quote>
				<p>A Incubadora desempenhou, então, esse papel de formação junto aos grupos por ela
					incubados, nas diversas temáticas e práticas de organização de um empreendimento
					econômico solidário. Analisando os registros existentes na própria ITCP, bem
					como as menções feitas pelos sujeitos da pesquisa, dentre as temáticas dos
					cursos realizados, constam cursos e outras atividades formativas sobre Economia
					Solidária, autogestão, cooperativismo, liderança, relações interpessoais, fluxo
					de caixa, processos organizativos etc. Os conteúdos, segundo as educadoras
					populares, eram definidos no coletivo da equipe de incubação e, posteriormente,
					em diálogo com os empreendimentos, e as formações eram realizadas de acordo com
					a necessidades dos empreendimentos, já que os cenários eram de realidades
					distintas.</p>
				<p>Mas, para além das formações com um conteúdo específico, o que caracteriza os
					processos de formação para a Ecosol, na perspectiva da Educação Popular, são as
					outras dinâmicas presentes. As formações não eram planejadas somente
					considerando uma temática e sua parte histórica, teórica ou metodológica. As
					formações eram adaptadas e pensadas para o público em questão, em diálogo com os
					próprios sujeitos da formação. “E aí, era muito vivencial, porque, assim, não
					era só o tempo da formação e daí acabava” (EP1, 2021). Ao contrário,
					especialmente na parte prática, que consistia na aplicação com os grupos,
					buscavase envolver atividades práticas de realização de determinadas ações.</p>
				<p>Um exemplo, nesse sentido, foi a própria construção do estatuto do
					empreendimento, do regimento ou das reuniões e assembleias que foram mencionadas
					por todos os entrevistados. Estas ações continham os momentos de diálogo, de
					trocas de experiências, de decisões, de estudo e de encaminhamentos, ou seja,
					atividades práticas relacionadas com a teoria. “Foi um instrumento, né?...
					essencial para nós! Mas depois, depois de nós já estar trabalhando e tal, nós
					tivemos várias formações na Unochapecó” (E2, 2021).</p>
				<p>Essas formações, inicialmente, eram acompanhadas diretamente pelos educadores e
					equipe da incubadora. Posteriormente, o próprio grupo assumia a condução,
					vislumbrando o processo de autonomia do grupo. Esse processo variava de acordo
					com a evolução (autonomia, proatividade, interesse, formação) dos sujeitos do
					empreendimento. A própria noção do tempo de incubação era variável, não sendo
					estabelecido rigidamente. Observamos, inclusive, uma certa dificuldade em
					cronometrar, com precisão, as fases de incubação dos empreendimentos, já que as
					memórias não são precisas em termos de datas e, por isso, quase não são
					mencionadas pelos entrevistados. Por outro lado, a própria metodologia empregada
					pela ITCP, pelo que se pôde resgatar, não era rigorosa em termos de tempo de
					permanência no processo de incubação. As fases de pré-incubação, incubação e
					pós-incubação aconteciam de acordo com as necessidades e possibilidades de
					atendimento das equipes. Conforme uma entrevistada, a incubação com a ITCP durou
					“[...] uns cinco, seis, sete anos, mais ou menos [...], depois chegou um momento
					em que ela disse: ‘oh, já podem caminhar com as próprias pernas e nós podemos
					ajudar outros grupos’. Mas foi muito bom!” (E4, 2021).</p>
				<p>As vivências e as práticas propostas na metodologia de Educação Popular são
					citadas, com frequência, nas falas dos entrevistados, quando relatam suas
					lembranças do processo de formação que receberam, sua organização, a disposição
					em que aconteciam as reuniões, as capacitações, as rodas de conversa e as
					assembleias. Prevalecia o respeito ao coletivo e o diálogo, com a ocorrência de
					muitas trocas. Os entrevistados (tanto os sócios quanto os educadores)
					manifestaram a percepção de que a formação/educação foi essencial tanto para a
					gestão do empreendimento em si quanto para uma mudança cultural, pessoal e
					coletiva, para o processo de conscientização sobre a realidade, que lhes
					possibilitou experimentar novas formas de intervenção sobre essa realidade.</p>
				<p>Destacamos, nesse sentido, pelo menos dois aspectos. Em primeiro lugar, o
					empoderamento das mulheres, pela possibilidade de reconstrução do lugar e do
					valor dessas na sociedade. “Eu vi mulheres que saíram de dentro de suas casas e
					passaram a ter uma relação de autonomia com o mercado, finanças, etc. [...]
					deixar de ser segregada, desabrochar para novas possibilidades, permitiu a elas
					se sentirem capazes e potentes” (E3, 2021).</p>
				<p>Em segundo lugar, merecem destaque as novas possibilidades de participação e de
					intervenção no espaço público, conquistadas por essas pessoas, a partir do
					processo de conscientização, possibilitado tanto pelas atividades de formação
					quanto a partir das vivências no contexto do empreendimento. O depoimento a
					seguir parece resumir bem esse sentimento de conquista de novas possibilidades:
					“A Economia Solidária me deu uma aprendizagem, assim, tão boa, tão grande de
					algumas coisas, que se eu tivesse continuado na pedagogia... tem um monte de
					coisa que eu não teria aprendido, que eu não teria compreensão” (E3, 2021).</p>
				<p>Ou seja, sob o enfoque da formação cidadã, a participação nos empreendimentos
					foi, segundo depoimentos coletados, mais importante e esclarecedora do que a
					frequência em cursos universitários.</p>
				<p>São perceptíveis, ainda, a disposição e o hábito de estar presente no seu entorno
					e na comunidade, contribuindo para o crescimento, para a evolução de si, de seus
					pares ou de sua categoria. Ou seja, formar-se e formar outros ao seu redor,
					replicar o que aprendeu, levar seus conhecimentos já elaborados aos seus pares
					e, também, dessa forma, enriquecer seus próprios conceitos, é uma das formas de
					promover protagonismo, de pensar a partir de suas próprias análises e, portanto,
					de fortalecimento dos sujeitos, de possibilidade de autoconhecimento.</p>
				<p>A formação em Ecosol aparece como resultado das capacitações recebidas por meio
					da Incubadora e por intermédio dos demais atores sociais e entidades que
					interagiram e interagem com o empreendimento. É resultado, também, das relações
					de vivências práticas e com o desenvolvimento do empreendimento, deixando
					evidente que todos os processos vividos constituem a formação destes sujeitos e
					afirmando que a Ecosol se desenvolve, sim, por meio das técnicas e métodos
					propostos na Educação Popular, especialmente a prática. “Não adianta só a teoria
					sobre os empreendimentos solidários, é preciso vivenciar” (E1, 2021). Os
					sujeitos que participaram do presente estudo conseguem compreender e visualizar
					a importância da formação para a Ecosol, mas não somente ela, o que indica que
					as demais vivências formativas são instrumentos para ascensão ou, como diria
						<xref ref-type="bibr" rid="B6">Freire (1996)</xref>, são para ler o
					mundo!</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Fragilidades: resistências à formação e dificuldade de envolvimento</title>
				<p>Contudo, esse processo não ocorreu sem dificuldades e contradições. Como foi
					observado, a prática da formação continuada dos associados faz parte da
					realidade do empreendimento A, atualmente, onde E2 e E1 são sócios. Já as
					entrevistadas do Empreendimento B, onde E3 e E4 são sócias, mesmo ambas
					relatando que percebem como importante o processo de formação constante, afirmam
					que, praticamente, não têm mais conseguido realizar as formações, por diversos
					motivos, como o tempo que precisa ser dedicado e a impossibilidade de parar a
					produção, a qual é chave para a sustentação do empreendimento. Essa realidade do
					empreendimento B poderá, inclusive, vir a prejudicar seu desenvolvimento futuro,
					enquanto empreendimento de Economia Solidária.</p>
				<p>Assim, o processo formativo, embora relatado, de forma geral, como ponto
					importante para evolução dos empreendimentos, também apresenta diversas nuances
					de contraponto, quando se questionam as dificuldades presentes na formação.
					Sendo assim, da mesma forma como os entrevistados apontam os pontos positivos,
					também surgem os pontos de <italic>fragilidade</italic>. Nesse momento, em
					especial, em que os empreendimentos já estão constituídos e em funcionamento, a
					percepção da importância da articulação das pessoas e a consolidação dos
					princípios inerentes à Economia Solidária podem restar mais fragilizadas, seja
					pelos novos integrantes que se unem aos emprendimentos e, até mesmo, pelos
					integrantes que já participam desde longa data.</p>
				<p>E2 (2021) menciona, por diversas vezes durante sua fala, a
						<italic>resistência</italic> e a não <italic>aceitação</italic> ou não
						<italic>interesse</italic> nas atividades de <italic>formação</italic> por
					parte de muitos associados. Uma evidência, nesse sentido, é que: “Na
					cooperativa, é preciso remunerar as formações para que todos participem” (E1,
					2021). Nesse caso, a estratégia dos dirigentes do grupo, os quais entendem a
					importância da formação, foi remunerar, isto é, tornar o tempo dedicado à
					formação como hora trabalhada, para viabilizar que alguns sócios participassem,
					mas, principalmente, para que fossem percebendo a importância da formação, ou
					seja, articulando educação e trabalho. Da mesma forma, todos os demais
					entrevistados dos empreendimentos e os próprios educadores trazem essa situação
					como um desafio, porque “muitos não aceitavam as propostas” (EP1, 2021).</p>
				<p>Assim, diferentes motivos para <italic>resistência à formação</italic> são
					relatados pelos associados, como justifica uma entrevistada quando fala sobre um
					tipo de motivo usado pelo público que compõe as sócias do empreendimento, no
					caso das mulheres:</p>
				<disp-quote>
					<p>Então assim, porque que eu tenho que parar do meu trabalho para fazer um
						processo de <italic>formação</italic>? E por que então não vem uma hora no
						sábado? Ainda, como é coisa de mulher, as mulheres ainda são donas de casa.
						Então, ela tem que ficar em casa para lavar roupa, para limpar a casa, para
						não sei o quê... no sábado. Então, você não consegue. Aí você tira um
						momento que é da produção, para fazer formação, é bem complicado (E3,
						2021).</p>
				</disp-quote>
				<p>Ou seja, torna-se muito difícil fazer frente a um sistema de organização, que é
					da própria sociedade e, mais ainda, que é da realidade das mulheres de baixa
					renda: a sobrecarga de trabalho e as múltiplas funções que exercem. Quanto a
					essa proposta de formação sugerida pelos processos da Ecosol, ela interfere
					nessas rotinas e práticas tão enraizadas, no lugar da mulher, nas funções
					femininas, definidas pela condição cultural, social ou política. É uma
					educação/formação que desafia todos os sentidos.</p>
				<p>Até porque, como diz E1 (2021): “Nossa educação básica e social não foi e não
					está pensada para conscientização, para cooperar”. A EP2 também relembra que,
					assim como “[...] nós educadoras, os sujeitos dos empreendimentos também vêm de
					uma educação fragmentada” (EP2, 2021).</p>
				<p>Outras <italic>dificuldades</italic> enfrentadas quanto ao desenvolvimento de
					atividades de <italic>formação</italic> no empreendimento ainda são relatadas
					pelos associados E1 e E2, como a própria dificuldade de alfabetização das
					pessoas, pois “[...] tem aqueles que não sabem ler, é muito difícil ler uma
					circular por exemplo, precisa ir lá e explicar” (E2, 2021). Lembremos que o
					público da Ecosol, justamente, tem dificuldades diversas, sejam elas
					financeiras, sejam elas de acesso à educação, o que repercute na compreensão dos
					meandros que compõem a organização legal/ jurídica do trabalho. Muitos dos
					participantes são oriundos de espaços e situações de vida fragilizadas,
					marginalizadas, com pouco ou nenhum acesso à educação, como o acesso básico à
					alfabetização.</p>
				<p>No caso do empreendimento B, a questão da importância dos processos de formação
					parece menos presente entre os participantes. E3, por exemplo, menciona que nem
					todas as associadas, no caso do grupo de mulheres, têm interesse na formação,
					porque “não agrega valor financeiro”. E essa é uma premissa comum no sistema de
					uma <italic>educação para o trabalho e para o capital</italic>. Já a Ecosol se
					desenvolve numa perspectiva de que nem todo o valor das coisas é monetário.
					Porém, numa mentalidade voltada para o capital, o valor de praticamente tudo se
					mede pelo que gera ou rende dinheiro. Assim, na perspectiva de uma educação
						<italic>bancária</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Freire,
						1987</xref>) ou, até mesmo, sob a ótica de uma formação voltada somente para
					trabalhos mecânicos ou técnicos, as formações com as abordagens críticas tendem
					a ser desafiadoras, como fala nossa educadora: “[...] a gente problematizar,
					questionar, é assim... desconfortável, às vezes, o nosso discurso da Economia
					Solidária” (EP 1, 2021).</p>
				<p>Mesmo no empreendimento A, em que essa questão mereceu mais ênfase por parte das
					lideranças, essa dificuldade de valorização da formação pode estar presente em
					muitos participantes, como se pode perceber no depoimento de E2:</p>
				<disp-quote>
					<p>Tem essa dificuldade também, hoje... ainda é. Tem que ser, nós temos que
						obrigar, uma parte a fazer formação. Eles preferem não fazer, não querem
						saber muito! Às vezes, eu sinto que ficar ignorante, não saber, faz com
						que... o trabalhador também ele tem uma desculpa para não fazer as coisas
						certas. ‘Então é melhor eu não saber!’ ‘É melhor, porque se eu não fizer’...
						se fizer uma coisa errada e foi debatido sobre aquilo, foi falado, aí ele
						fica sem argumento! (E2, 2021).</p>
				</disp-quote>
				<p>A <italic>resistência à formação</italic>, numa proposta crítica, pode,
					inclusive, mostrar-nos o quanto a <italic>alienação</italic> nos aprisiona, em
					estados de submissão, de acomodação, já que mudar de opinião incide em conhecer,
					entender, experimentar, testar, esforçar-se, romper com determinadas concepções
					já formadas, o que exige movimentar nossas energias cognoscitivas. E isso pode
					representar, de fato, uma exigência grande considerando o perfil do público da
					Ecosol.</p>
				<p>Ocorre que abandonar o processo de formação interno no empreendimento representa
					um risco bem elevado para a continuidade das experiências na perspectiva da
					Economia Solidária, pois tende a gerar um afastamento ainda maior dos sócios em
					relação aos princípios que a orientam. Sem estudar, discutir e dialogar,
					frequentemente, sobre essa proposta, abre-se caminho para o pensar e o fazer
					mais tecnicistas e mecânicos do processo produtivo.</p>
				<p>Nossa base educacional é positivista, tecnicista e, muitas vezes, opressora.
					Nossa economia capitalista depende, basicamente, de sujeitos capacitados para
					execução de/para atividades técnicas. O intelecto, para além da
						<italic>expertise</italic> básica, não interessa ao capital. Ao contrário,
					pode ser até considerado um complicador. Como diz <xref ref-type="bibr" rid="B7"
						>Freire (1987)</xref>, a liberdade de um ser pensante é o que amedronta o
					opressor. Por que, então, se apostaria em uma educação crítica e libertadora?
					Construir outra proposta, que depende de outra visão de economia, de política,
					de sociedade e de pensamento, não é tarefa simples, muito menos fácil.
					Libertar-se é um processo doloroso (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Freire,
						1987</xref>).</p>
				<p>Corroborando essas colocações, a EP1 afirma que</p>
				<disp-quote>
					<p>[...] nós educadores viemos da mesma realidade dos empreendimentos, uma
						realidade baseada e organizada em torno dos princípios do capitalismo. Mudar
						nosso pensamento e o de outras pessoas nem sempre é um caminho tranquilo
						[...] ao falar de Economia Solidária a gente não está falando de uma relação
						harmônica com a equipe, a gente não tá falando de relações recíprocas com os
						empreendimentos. Estamos falando de mudanças diversas em diversos sentidos o
						que, por vezes, pode provocar desconfortos e conflitos (EP1, 2021).</p>
				</disp-quote>
				<p>Ou seja, educar para a emancipação, desenvolver o processo de formação de uma
					consciência crítica, tende a ser um caminho árduo e difícil, repleto de
					percalços. Mesmo que parte das pessoas adiram com entusiasmo aos novos
					princípios, há também os que resistem, por convicção ou por acomodação.
					Novamente retomamos <xref ref-type="bibr" rid="B7">Freire (1987)</xref>, que
					cita a educação para a libertação como um trabalho árduo e trabalhoso, com
					necessidade de coragem.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Analisando as materialidades empíricas levantadas para buscar compreender a
				importância da Educação Popular na consolidação de EES assessorados pela
				ITCP-Unochapecó, na cidade de Chapecó, no início dos anos 2000, pudemos observar
				que, efetivamente, a Ecosol e a Educação popular apresentam um alinhamento
				significativo em seus horizontes políticos e sociais, estando comprometidas com o
				processo de conscientização, empoderamento e emancipação dos oprimidos.</p>
			<p>As práticas educativas mobilizadas pelas entidades de assessoria, na perspectiva da
				Educação Popular, foram fundamentais para o surgimento e a viabilização dos EES em
				estudo. Foi por meio de práticas educativas, organizadas na ótica da Educação
				Popular, que uma parte significativa dos seus participantes mantiveram os primeiros
				contatos com a Economia Solidária e seus princípios. A existência desses
				empreendimentos, por sua vez, promoveu significativos avanços nas condições e vida
				desses sujeitos, tanto em termos econômicos e sociais quanto em termos de sua
				condição humana e cidadã, no sentido da capacidade de compreender as relações
				sociais de que tomam parte e também de sua participação política na sociedade.</p>
			<p>Contudo, esses processos educativos, assim como os processos organizativos, não
				ocorrem sem contradições, desafios e dificuldades. Estas vão desde as dificuldades
				de participação, dadas as condições de vida e de trabalho, até a própria resistência
				de muitos membros em participar de atividades formativas, por considerá-las
				desnecessárias ou inconvenientes, visto que comprometem algum tempo que poderia ser
				dedicado à produção ou mesmo à realização das atividades domésticas. Essas
				dificuldades vêm se revelando significativas nesse momento em que os empreendimentos
				se encontram estruturados e em pleno funcionamento, superadas as dificuldades
				iniciais.</p>
			<p>As dificuldades no avanço dos processos formativos, para o desenvolvimento de
				convicções mais robustas em torno dos princípios da Economia Solidária, podem ser um
				dos fatores de fragilização das experiências que, diante das dificuldades
				econômicas, podem não encontrar razões suficientes para a continuidade das
				atividades em grupo, em EES. No caso dos dois empreendimentos em pesquisa, estes
				ainda continuam ativos e conseguem se desenvolver economicamente de forma viável.
				Porém, a realidade de outros empreendimentos de Ecosol pode não ser essa e mesmo não
				há garantias de que continuará a sê-lo para os próprios empreendimentos em estudo.
				Sem a existência de sólidas convicções em torno dos princípios da Ecosol, poderão
				faltar argumentos para a manutenção de práticas econômicas, políticas e sociais que
				apontem para uma perspectiva emancipatória.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p> Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa envolvendo seres
					humanos da Unochapeco, através da Plataforma Brasil sob o CAAE
					36286420.0.0000.0116.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p> PUTON, Ana Maria Pereira. Economia solidária e educação popular no Oeste de
					Santa Catarina. Chapecó, SC: 2021.179 f.: il. Dissertação defendida junto ao
					Programa de Pós-Graduação em Educação da Unochapecó.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p> Robert Owen foi um empresário da indústria têxtil que percebeu o agravamento
					econômico que o sistema industrial de produção estava causando à população e,
					com ideias voltadas para o socialismo, buscou formas de tornar o processo mais
					igualitário através do sistema de cooperação e associativismo (<xref
						ref-type="bibr" rid="B15">Singer, 2002</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p> A Rede de ITCPs é uma entidade formada desde 2003 e que congrega a maioria das
					incubadoras populares e universitárias no Brasil.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNcIAS</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>BARDIN, L. <bold>Análise de Conteúdo</bold>. 70. ed. Lisboa:
					Impressão, 2002.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>BARDIN</surname>
							<given-names>L.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Análise de Conteúdo</source>
					<edition>70</edition>
					<publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
					<publisher-name>Impressão</publisher-name>
					<year>2002</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. <bold>Recomendação Termo
						de Referência, n.º 08, de 04 de julho de 2012</bold>. Brasília: Ministério
					do Trabalho e Emprego; SENAES; CONAES, 2012. Disponível em: &lt;<ext-link
						ext-link-type="uri"
						xlink:href="http://acesso.mte.gov.br/data/files/8A7C812D3CB58904013CB5B92EB23D11/RECOMENDACOES%208%20WEB.pdf"
						>http://acesso.mte.gov.br/data/files/8A7C812D3CB58904013CB5B92EB23D11/RECOMENDACOES%208%20WEB.pdf</ext-link>&gt;.
					Acesso em: 01 jul. 2024.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<collab>BRASIL</collab>
					</person-group>
					<chapter-title>Ministério do Trabalho e Emprego</chapter-title>
					<source>Recomendação Termo de Referência, n.º 08, de 04 de julho de
						2012</source>
					<publisher-loc>Brasília</publisher-loc>
					<publisher-name>Ministério do Trabalho e Emprego; SENAES;
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					<year>2012</year>
					<comment>Disponível em: &lt;<ext-link ext-link-type="uri"
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				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
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							<surname>CRUZ</surname>
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							<suffix>NETO</suffix>
						</name>
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					<chapter-title>O trabalho de campo como descoberta e criação</chapter-title>
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							<surname>MINAYO</surname>
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					<source>Pesquisa social: teoria, método e criatividade</source>
					<edition>14</edition>
					<publisher-loc>Petrópolis</publisher-loc>
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				<element-citation publication-type="book">
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							<given-names>G. C.</given-names>
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					<chapter-title>Incubação de Redes de Economia Solidária: reflexões sobre a
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					<source>In: Encontro da Anpad, 23, 2009. Anais</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
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				<mixed-citation>FREIRE, P. <bold>Educação como prática de liberdade</bold>. Rio de
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					<comment>Disponível em: &lt;<ext-link ext-link-type="uri"
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