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	<front>
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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">faeeba</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. FAEEBA - Ed. e
					Contemp.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2358-0194</issn>
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				<publisher-name>Universidade do Estado da Bahia</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi"
				>10.21879/faeeba2358-0194.2025.v34.n77.p259-274</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigo</subject>
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			<title-group>
				<article-title>SABER ENSINAR NA EJA: DAS RELAÇÕES SOCIOFAMILIARES AO COMPROMISSO COM
					A PRÁTICA PEDAGÓGICA<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></article-title>
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					<trans-title>KNOWING HOW TO TEACH IN EDUCATION OF YOUTH AND ADULTS: FROM
						SOCIO-FAMILY RELATIONSHIPS TO THE COMMITMENT TO PEDAGOGICAL
						PRACTICE</trans-title>
				</trans-title-group>
				<trans-title-group xml:lang="es">
					<trans-title>SABER ENSEÑAR EN EJA: DE LAS RELACIONES SOCIOFAMILIARES AL
						COMPROMISO CON LA PRÁCTICA PEDAGÓGICA</trans-title>
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				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0003-2695-6206</contrib-id>
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						<surname>Ferreira</surname>
						<given-names>Luís Carlos</given-names>
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						<surname>Dieb</surname>
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				<label>*</label>
				<institution content-type="orgname">Universidade do Estado do Rio de
					Janeiro</institution>
				<email>luisferreira@unilab.edu.br</email>
				<institution content-type="original">Possui graduação em Pedagogia pela Universidade
					do Estado do Rio de Janeiro (1998), Mestrado em Educação pela Universidade do
					Estado do Rio de Janeiro (2004) e Doutorado em Políticas Públicas e Formação
					Humana pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2017). Bolsista de
					Produtividade em Pesquisa, Estímulo à Interiorização, pela Funcap - BPI 04/2022.
					É Professor Adjunto A da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia
					Afro-brasileira - UNILAB, no curso de Pedagogia. E-mail:
					luisferreira@unilab.edu.br</institution>
			</aff>
			<aff id="aff2">
				<label>**</label>
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal de Sergipe
					(UFS)</institution>
				<email>dieb@ufc.br</email>
				<institution content-type="original">Pedagogo pela UVA. Mestre e Doutor em Educação
					pela UFC, onde também é professor e pesquisador do γpαφή (grafí) - Laboratório
					de Estudos da Escrita. Realizou dois Estágios Pós-Doutorais em Educação: o
					primeiro, em 2015, pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), sob a supervisão
					do Prof. Dr. Bernard Charlot (Paris 8 / UFS), e o segundo, em 2016, com
					financiamento da CAPES pela Universidade da Califórnia - Santa Barbara
					(UCSB/USA), sob a supervisão do Prof. Dr. Charles Bazerman. E-mail:
					dieb@ufc.br</institution>
			</aff>
			<pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
				<day>23</day>
				<month>09</month>
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<pub-date publication-format="electronic" date-type="collection">
				<season>Jan-Mar</season>
				<year>2025</year>
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			<volume>34</volume>
			<issue>77</issue>
			<fpage>259</fpage>
			<lpage>274</lpage>
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					<month>05</month>
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				<date date-type="accepted">
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					<year>2025</year>
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				<license license-type="open-access"
					xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>O trabalho tem o propósito de analisar a mobilização de professores para ensinar
					em turmas de EJA de pequenos municípios do Maciço de Baturité, no interior do
					Ceará. A base teórica para essa reflexão se concentra nas ideias de Bernard
					Charlot (2000) sobre a relação com o saber, de Jessé de Souza (2023) acerca dos
					impeditivos de acesso à cidadania e de Robert Castel (2013) a respeito dos
					homens e mulheres que ficam à margem da sociedade. A construção dos dados
					ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas com três professoras de EJA, as
					quais, na forma de conversa, narraram situações carregadas de significados
					atribuídos a sua prática docente. Os resultados mostram que a mobilização das
					professoras está centrada basicamente no prazer de alfabetizar adultos e idosos
					quase como uma retribuição e uma gratidão pela oportunidade que receberam de
					seus próprios pais e familiares. Em função disso, as professoras desenvolvem
					práticas que levam sempre em consideração a realidade difícil de seus
					estudantes, considerando os afetos como a base para o saber ensinar e aprender
					na EJA.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This paper analyzes the mobilization presented by teachers in teaching in
					Education of Youth and Adults in small cities from a region called Maciço de
					Baturité, located in Ceará – Brazil. The ideas of Bernard Chariot (2000), about
					the relationship to knowledge, Jessé de Souza (2023), about the impediments to
					access to citizenship, and Robert Castel (2013), about men and women who remain
					on the margins of the society, were used to guide the reflection on that process
					of mobilization. Data of the research were constructed through a semi-structured
					interview with three teachers, who, in the way of a conversation, described
					situations rich of meanings involving their teaching practices. As a result, the
					mobilization of teachers seems to be basically centered on the pleasure of
					teaching young, adult, and elderly people to read and write, almost as a
					retribution and a gratitude for the opportunity they received from their own
					parents and relatives. Thus, teachers develop practices that always contemplate
					the arduous reality of their students, considering the affections as the basis
					for knowing how to teach and learn in Education of Youth and Adults.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>El objetivo del trabajo es analizar la movilización de docentes para impartir
					clases en la EJA en pequenos municípios del Maciço de Baturité, en el interior
					de Ceará. La base teórica de esta reflexion se centra en las ideas de Bernard
					Chariot (2000) sobre la relación con el conocimiento, Jessé de Souza (2023)
					sobre los impedimentos al acceso a la ciudadanía y Robert Castel (2013) sobre
					hombres y mujeres que permanecen al margen de la sociedad. sociedad. La
					construcción de datos ocurrió a través de entrevistas semiestructuradas a tres
					docentes de la EJA, quienes, a modo de conversación, narraron situaciones
					cargadas de significados atribuídos a su práctica docente. Los resultados
					muestran que la movilización de los docentes se centra basicamente en el placer
					de enseñar a leer y escribir a adultos y ancianos, casi como retribución y
					agradecimiento por la oportunidad que recibieron de sus propios padres y
					familiares. Como resultado, los docentes desarrollan prácticas que siempre
					tienen en cuenta la difícil realidad de sus estudiantes, considerando los
					afectos como base para saber enseñar y aprender en EJA.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Educação de Jovens e Adultos</kwd>
				<kwd>relação com o saber</kwd>
				<kwd>relações sociofamiliares</kwd>
				<kwd><italic>locus</italic> pedagógico</kwd>
				<kwd>afetos</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Education of Youth and Adults</kwd>
				<kwd>Relationship to Knowledge</kwd>
				<kwd>Socio-Family Relationships</kwd>
				<kwd>Pedagogical Locus</kwd>
				<kwd>Affections</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>Palabras-clave:</title>
				<kwd>Educación de Jóvenes y Adultos</kwd>
				<kwd>relación con el conocimiento</kwd>
				<kwd>relaciones sociofamiliares</kwd>
				<kwd>locus pedagógico</kwd>
				<kwd>afectos</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref></title>
			<p>Os crescentes avanços do estado do Ceará em relação à alfabetização influenciaram a
				implementação do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), o qual
				tem como objetivo garantir que todas as crianças estejam alfabetizadas até oito anos
				de idade. No entanto, apesar de tais avanços, o referido estado da federação
				brasileira ainda apresenta uma realidade histórica, bastante vergonhosa, que se
				materializa nos altos índices de analfabetismo, em específico entre pessoas acima
				dos 15 anos de idade. Essas pessoas são aquelas que geralmente, não tendo conseguido
				alcançar os objetivos do PNAIC, acabam compondo as salas de aula da Educação de
				Jovens e Adultos (EJA).</p>
			<p>Segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto
				Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizada em 2022, o Ceará ocupa a
				quinta posição nacional em número de jovens e adultos analfabetos. Isso corresponde
				a 12% da população do estado, sendo mais do que o dobro da média brasileira que foi
				calculada em 5,6% (<xref ref-type="bibr" rid="B9">IBGE, 2022</xref>). Como se não
				bastasse essa dura realidade, tanto o Censo Escolar daquele mesmo ano como alguns
				veículos de imprensa de maior circulação em Fortaleza, capital do Ceará, mostraram
				não apenas uma queda crescente de matrículas na EJA como também o fechamento de
				inúmeras turmas de estudantes nessa modalidade (<xref ref-type="bibr" rid="B12"
					>Viana; Araújo, 2022</xref>). Considerando que tais adversidades são encontradas
				na maior e mais rica cidade do estado do Ceará, vislumbramos, portanto, a
				necessidade de refletirmos sobre os desafios enfrentados em municípios de pequeno
				porte, e distantes da capital, para oferecer um mínimo de oportunidades aos
				estudantes na EJA.</p>
			<p>Muitos dos estudantes da EJA já passaram da fase juvenil e se encontram,
				frequentemente, na faixa etária de pessoas idosas, as quais retornam às salas de
				aula depois de longos anos de abandono escolar. O fato de pensar sobre as
				adversidades e desafios enfrentados na EJA nos faz lembrar, sem demora, as palavras
				de <xref ref-type="bibr" rid="B5">Charlot (2001, p. 12)</xref> quando afirma que “só
				continua estudando quem encontra uma forma de prazer no estudo; quem não encontra
				nenhuma forma de prazer não vai continuar estudando”. Nesse sentido, não é difícil
				inferirmos que, para continuarem engajados e mobilizados a frequentarem as aulas,
				esses estudantes de EJA precisam encontrar condições minimamente favoráveis,
				incluindo, sem dúvidas, a presença de um professor igualmente satisfeito e
				mobilizado em relação ao trabalho docente.</p>
			<p>Assim sendo, com base nas afirmações de Charlot e considerando a viabilidade de
				ressignificarmos suas reflexões sobre o prazer (mobilização) dos estudantes em
				continuarem engajados nos estudos, abrimos espaço para um mote de discussão, neste
				texto, perguntan-do-nos: de que maneira os professores também estão encontrando
				prazer e atribuindo sentido ao ensinar nas turmas de EJA em pequenos municípios do
				Ceará? Em que aspectos a posição social ocupada pelos referidos docentes e suas
				relações familiares se manifestam no saber ensinar na EJA? Como os professores
				expressam seus saberes construídos nas práticas pedagógicas desempenhadas na
				EJA?</p>
			<p>A fim de respondermos a essas questões, realizamos uma pesquisa de campo em pequenos
				municípios do Maciço de Baturité<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>, no interior
				do Ceará, no qual são ofertadas turmas multisseriadas de EJA, no formato de turmas
				descentralizadas, ou seja, em que o sistema de aulas ocorre em outros espaços, como
				na casa do professor ou de algum dos estudantes. Nesse município, assim como em
				outros da região, temos desenvolvido um trabalho de assessoria pedagógica para a
				Secretaria Municipal de Educação na forma de encontros de formação para os docentes
				de EJA. Nessa condição, portanto, traçamos como objetivo, para a pesquisa e para o
				presente texto, analisar a mobilização dos professores ao ensinar nas turmas de EJA
				em pequenos municípios do estado do Ceará.</p>
			<p>Ao traçarmos essa finalidade para o estudo, aqui relatado, consideramos que o
				conhecimento acerca dessa realidade em que se situa e atua o professor de EJA é
				útil, não apenas para a continuidade do trabalho de orientação pedagógica, no
				município em que realizamos a pesquisa, como também para o debate educacional, uma
				vez que qualquer professor, incluindo o de EJA, “tem que conseguir mobilizar os
				alunos em uma situação em que ele tem também que transmitir um patrimônio humano,
				social e cultural. Essa mobilização, portanto, é difícil e [...] quando o aluno não
				se mobiliza, o professor se desmobiliza” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Charlot,
					2001, p. 15</xref>).</p>
			<p>Passemos, então, a conhecer um pouco mais sobre a realidade da EJA na região
				mencionada neste texto, bem como os principais aspectos metodológicos relacionados
				ao trabalho de pesquisa em campo. Na sequência, apresentamos a análise e as
				reflexões motivadas a partir dos dados construídos junto aos professores de EJA com
				os quais trabalhamos e interagimos. Por fim, traçamos algumas considerações finais
				sobre o que essas reflexões podem sugerir acerca da realidade em que os professores
				de EJA têm desempenhado suas práticas.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A relação do professor com o saber ensinar e um cenário cearense sobre a
				EJA</title>
			<p>O debate educacional em torno da Educação de Jovens e Adultos tem sido motivado por
				inúmeras discussões preocupadas com a diminuição gradativa das matrículas ano a ano
				no Brasil. A problemática reside na constatação de uma</p>
			<p>“redução por gotejamento” (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Ferreira: Araújo,
					2024</xref>) apontada, como já afirmamos, nos dados do Censo da Educação Básica
					(<xref ref-type="bibr" rid="B10">Brasil, 2023</xref>), de 2017 a 2023, como um
				encolhimento de um pouco mais de um milhão de matrículas na modalidade. Por isso,
				antes de prosseguirmos na descrição de um breve panorama da EJA no contexto aqui
				estudado, vale ressaltar que a análise da relação do professor dessa modalidade com
				o saber ensinar, no âmbito da teoria da relação com o saber, também implica entender
				o modo como esse professor se relaciona com o ensino em seu cotidiano, considerando
				seus desejos, seu medos, anseios e incertezas, entre outros aspectos, conforme
				sinalizam <xref ref-type="bibr" rid="B7">Charlot, Zanette e Stecanela (2022)</xref>
				para os professores de um modo geral.</p>
			<p>Vale ressaltar que a relação de alguém com o saber implica sempre uma relação com o
				mundo, com o outro e consigo mesmo, e é composta de três importantes dimensões:
				epistêmica, identitária e social (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Charlot,
					2000</xref>). A primeira dimensão aponta para o fato de que o saber passa a
				existir na forma de um enunciado, que é, igualmente, a forma substancializada de uma
				atividade e de uma relação com o mundo. Na segunda dimensão, os sujeitos demonstram
				como “se viram” nas mais diversas situações do cotidiano, “driblando” as
				adversidades de sua condição social ou situacional. Por fim, na terceira dimensão,
				os sujeitos apresentam a importância que dispensam às relações com os outros, à
				imagem que constroem sobre si mesmos e à imagem de si que querem passar aos outros.
				Dessa maneira, todas as relações do sujeito fazem conexão com os processos, os
				lugares e as situações de aprendizagem, nas quais podem estar envolvidas também as
				mais variadas origens de pessoas, de percepções, culturas e visões de mundo.</p>
			<p>Na perspectiva teórica da relação com o saber, o entendimento acerca das concepções
				de educação e de aprendizagem não pode estar dissociado dos conceitos de mobilização
				e de motivação, que são tratados por <xref ref-type="bibr" rid="B4">Charlot
					(2000)</xref> de maneiras distintas. Enquanto o processo de mobilização se
				caracteriza como um processo interno, a motivação representa uma ação externa ao
				sujeito, que é sempre provocada por algo ou por alguém. Nesse sentido, para <xref
					ref-type="bibr" rid="B4">Charlot (2000, p. 55)</xref>, mobilizar-se implica “pôr
				recursos em movimento [...] é engajar-se em uma atividade originada por móbiles,
				porque existem boas razões para fazê-lo”. Dito de outro modo, aprender é atribuir
				sentido, é colocar-se em situação de movimento por elementos de mobilização que
				exprimem um desejo, um sentido, um valor.</p>
			<p>O êxito na análise que aqui apresentamos torna-se possível por não desconsiderarmos o
				fato de o professor de EJA também ser “um sujeito aprendiz, que se relaciona com o
				saber, ancorado em dimensões históricas, sociais e culturais, as quais perpassam
				singularidades e experiências do cotidiano escolar” (<xref ref-type="bibr" rid="B7"
					>Charlot; Zanette; Stecanela, 2022, p. 3</xref>). Isso se justifica porque a
				Teoria da Relação com o Saber busca compreender, entre outros aspectos, “como o
				sujeito apreende o mundo e, com isso, como se constrói e transforma a si próprio: um
				sujeito indissociavelmente humano, social e singular” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B6">Charlot, 2006, p. 41</xref>). Portanto, não há como dissociarmos a
				experiência narrada pelos professores, acerca do que vivenciam na docência em EJA,
				de sua realidade social e, tampouco, de sua trajetória pessoal, com seus desejos e
				valores inerentes.</p>
			<p>O contexto sobre o qual este texto se refere é o do estado do Ceará e,
				especificamente, entre os municípios do Maciço de Baturité, onde o cenário da EJA
				têm indicado um decréscimo vertiginoso de 3.306 matrículas no ano de 2017, chegando
				a 2.540 matrículas no ano de 2021, possivelmente, justificada pelo agravante da
				pandemia da Covid-19 e pelos descasos com a educação no País. No entanto, a mudança
				de governo - pós-Bolsonaro - indica que a região do Maciço de Baturité vem na
				contramão dos dados do Censo da Educação Básica, especialmente nos anos de 2022 e
				2023, quando passaram a registrar uma recuperação na procura por matrículas na
				Educação de Jovens e Adultos que, na discussão, demonstra alcance significativo nos
				números de matrículas<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>.</p>
			<p>Em função disso, destacamos algumas estratégias para a permanência dos estudantes na
				EJA, adotadas por algumas secretarias municipais de educação, como: 1. A criação de
				classes/turmas multisseriadas; 2. A implementação de proposta pedagógica voltada
				para uma educação em domicílio; e 3. O investimento em matrículas de idosos na
				modalidade. Adiantamos que essas estratégias, reunidas, servem de base para nossa
				discussão acerca da mobilização dos professores ao ensinar nas turmas de EJA nas
				condições apresentadas e dos estudantes, ao continuarem engajados na permanência nos
				estudos.</p>
			<p>A perspectiva de criação de classes/turmas multisseriadas como uma das estratégias
				políticas e administrativas e, não por acaso, também econômicas, para o alcance dos
				números e dos resultados na implementação da política de EJA, consiste no
				agrupamento de turmas com níveis diferentes de aprendizagem em uma única sala. Nesse
				sentido, a relação com o saber ensinar desses professores se constitui a partir de
				uma mobilização que os impulsiona à construção de saberes como um princípio
				pedagógico que os ajuda no alcance da permanência dos estudantes em sala de aula.
				Isso ocorre, sobretudo, na zona rural ou nas escolas do campo que deram origem à
				ocorrência dessa prática pelas políticas de educação.</p>
			<p>No intuito de conter o número insuficiente de matrículas em turmas seriadas e reduzir
				os gastos públicos com manutenção, infraestrutura e de pessoal para implementação
				das turmas, ou seja, contratação de professores e profissionais, a multisseriação
				tem gerado demandas no crescimento da modalidade. Não obstante, a organização do
				espaço e do tempo e a diversidade de níveis de aprendizagem concentrados em poucas
				turmas, quase sempre, dificulta e/ou impede a efetividade da proposta curricular,
				considerada como resultado do processo de ensino e aprendizagem.</p>
			<p>A segunda estratégia, relacionada à implementação de uma educação em domicílio como
				proposta curricular, acontece em um formato de organização cujas salas de aula estão
				instaladas fora do espaço escolar, ou seja, nas residências de estudantes e
				professores. Essa forma de efetivar a política educacional, pautada no ingresso e na
				permanência do estudante em turmas multisseriadas num cenário distinto das salas de
				aula, pressupõe maior acolhimento e familiaridade dos jovens e adultos que buscam,
				na alfabetização, a realização do saber ler e escrever. Vale destacar que o processo
				de ensino deslocado para as residências, como <italic>locus</italic> de
				aprendizagem, teve como inspiração o Movimento de Alfabetização de Jovens e
					Adultos<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref> (MOVA) adaptado à realidade dos
				municípios rurais em que a maior parte dos estudantes idosos da região pouco são
				lembrados e/ou incluídos no processo de retorno aos estudos, embora carreguem muita
				vontade de restabelecer vínculos com a atividade escolar, desde a socialização até o
				reconhecimento da sua cidadania.</p>
			<p>No entanto, entre as dificuldades encontradas, podemos considerar o deslocamento e a
				distância até as escolas, a falta de incentivo e a baixa autoestima em sair de casa
				para a finalidade de estudar, entre outras razões que justificam a estratégia
				política e pedagógica de mudança no cenário para as residências como alternativa
				para que essas pessoas se sintam acolhidas em pertencer ao ambiente de aprendizagem.
				As salas de aula migradas para os alpendres<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>
				das casas permitiu-nos constatar a preocupação pedagógica com a adaptação das
				práticas e das metodologias de ensino às experiências de maior familiaridade entre
				as pessoas, principalmente, no resgate de valores humanos espelhados nos sentidos e
				significados à aprendizagem escolar. Ao transformarem as varandas das casas em
				cenários de sala de aula, vimos o papel que a afetivida-de exerce como um elemento
				mobilizador do princípio educativo que conjuga amorosidade, permanência e,
				possivelmente, sucesso na alfabetização escolar e na Educação Básica entre os
				adultos e idosos da EJA.</p>
			<p>Porém, esse mecanismo de inclusão e escolarização de pessoas de municípios rurais com
				menos acesso à escola tem implicância em outras situações desafiadoras para o
				contexto educacional. No ensino regular, enquanto a relação do professor com o saber
				ensinar ocorre de forma aproximada do responsável imediato da criança e distanciada
				do convívio familiar; na Educação de Jovens e Adultos, sobretudo, pela estratégia
				política e pedagógica de inclusão dos adultos e idosos dos municípios do interior,
				as relações familiares tornaram mais visíveis algumas situações que, a princípio,
				estariam silenciadas nas salas de aula convencionais. Nesse caso, destacam-se
				problemas presentes no interior das relações familiares, como a violência doméstica
				envolvendo riscos de contato com drogas, bebidas, contato com facções, assim como
				precariedade e vulnerabilidade social ligadas à alimentação, infraestrutura,
				tecnologias entre outros.</p>
			<p>É significativo refletir sobre uma concepção de educação escolar em ambiente
				intimista e de natureza reservada como no caso dos alpendres das casas do professor
				ou de algum estudante, pois revela uma ressemantização da relação docente com o
				saber ensinar, a qual passa a ser caracterizada mais fortemente pela afeição, pela
				amizade e, por conseguinte, pela possível transferência do olhar do professor em
				relação ao estudante que, agora, mais parece um ente familiar – pai, mãe ou um
				membro de casa – desse processo de ensinar e aprender. Em outras palavras,
				pressupomos que, em algum momento, a prática pedagógica de ensinar a ler e a
				escrever acaba sendo transmutada da relação de professor/a para o/a filho/a,
				mãe/pai. Nesse processo, a relação com o saber do estudante, em especial ao aprender
				sobre o sistema alfabético de escrita e seus usos sociais, engaja-se na concepção
				política de alfabetização que celebra a [trans]formação de homens e mulheres em
				cidadãos e sujeitos do mundo.</p>
			<p>No interior dessas estratégias apresentadas, outro aspecto utilizado pelas políticas
				municipais de educação para ampliar a oferta da modalidade e, ao mesmo tempo,
				garantir a continuidade do processo, adaptando-se às questões locais, tem sido a
				busca por pessoas maduras e idosas entre os matriculados nas turmas multisseriadas
				da modalidade. Entre os matriculados nas turmas dos municípios do Maciço de
				Baturité, destacam-se as mulheres com idades entre 30 anos ou mais, como maioria nas
				turmas de ensino fundamental, especificamente, as turmas de EJA I que trabalham com
				a alfabetização escolar. Com base nos dados do Censo Escolar (<xref ref-type="bibr"
					rid="B10">Brasil, 2023</xref>), constata-se um aumento expressivo nas matrículas
				do ensino fundamental entre os municípios do Maciço de Baturité que, no contexto
				cearense, tem caminhado na contramão da redução no quantitativo de matriculados em
				outras partes do estado do Ceará, resultado do investimento das secretarias
				municipais da região, nos dois últimos anos (2022-2023), nas matrículas de pessoas
				maduras, sobretudo, acima de trinta anos de idade até idosos.</p>
			<p>É possível dizer que a faixa etária selecionada de pessoas acima de trinta anos ou,
				aqui denominadas de “30+”, seja constituída por aquelas/aqueles que tendem a
				permanecer com maior interesse nas turmas e concluir os estudos com sucesso, razão
				pela qual as políticas de educação têm dedicado mais esforços na modalidade de
				ensino. Consideramos que a escola das muitas chances<xref ref-type="fn" rid="fn7"
					>7</xref>, de modo recorrente, é conhecida por muitos que estão nas salas de
				aula da modalidade e que, por diversas vezes, retornam em busca da reconstrução da
				caminhada e conclusão da formação. Nesse contexto, os sujeitos da EJA recorrem a um
				tempo de produção de suas próprias existências, esperançosos pela educação escolar e
				pelo trabalho, o que sugere aqui discutirmos a concepção de uma cidadania marcada
				pela ausência no acesso aos direitos sociais ligados, sobretudo, à escolarização e
				ocupação profissional.</p>
			<p>Sob um determinado ponto de vista, verifica-se que a falta de acesso destitui essas
				pessoas de sua cidadania plena, sendo relegadas, portanto, a uma subcidadania,
				conforme referenciado nas palavras de Jessé de <xref ref-type="bibr" rid="B11">Souza
					(2023)</xref>. Percebe-se, então, que os sujeitos da educação de jovens e
				adultos não apenas buscam refazer suas histórias como vão se constituindo nas
				“franjas marginais do sistema” ou, nas palavras de <xref ref-type="bibr" rid="B2"
					>Castel (2010, p. 303)</xref>, como homens e mulheres, “sobrantes sociais” que
				se enfileiram no cotidiano das múltiplas ausências do Estado e herdeiros dos
				prejuízos destinados a essas pessoas. A lógica do insucesso nas condições de
				trabalho e de vida é alinhada ao racismo estrutural (<xref ref-type="bibr" rid="B1"
					>Almeida, 2019</xref>), à discriminação de gênero, bem como a tantas outras
				situações de “inadaptabilidade” que compõem uma sociedade que determina “lugares de
				fala em classes estruturalmente dominadas” – por brancos, heteros, machistas etc. –,
				reserva, aos excluídos de sucesso, a escola das muitas chances.</p>
			<p>Na realidade, a inadaptabilidade e/ou a exclusão mencionadas revelam-se na
				discriminação e culpabilização das vítimas da EJA em inúmeras situações de etarismo,
				reproduzidas em estereótipos de que os idosos: 1. retornam aos estudos tão somente
				para socialização; 2. analfabetos não terão condições de se apropriar dos códigos
				linguísticos; 3. restringem o ler e escrever para as situações de assinatura de seus
				nomes; entre muitas outras situações que impedem a superação das adversidades,
				sobretudo, porque, ao darem continuidade aos estudos, refazem percursos e ampliam a
				formação escolar e humana. Nesse sentido, a escola desterritorializada de seus muros
				institucionais e ressignificada em um espaço mais familiar “carrega” a força e a
				expectativa de um passaporte de futuro que a torna um <italic>locus</italic> de
				múltiplas possibilidades percebidas entre os aspectos objetivos e subjetivos
				guardados no processo de formação de valores humanos, bem como nas perspectivas
				ligadas à geração de trabalho e renda.</p>
			<p>Ao ser acionada, a escola dá lugar a um conjunto articulado de ações que integram,
				individual e coletivamente, os desejosos por superação das condições de vida em meio
				à interação entre as pessoas que interagem com o processo mitificado nos conteúdos
				curriculares e práticas pedagógicas desenvolvidas que extrapolam os limites do
				saber/conhecer. A lógica da superação dos modelos homogeneizadores de oferta em
				propostas educacionais diversificadas, como a que ocorre nos municípios da região do
				Maciço de Baturité, cumpre com a garantia do direito à educação escolar ao celebrar
				o respeito às especificidades desse público plural, no caso da população rural.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="methods">
			<title>Aspectos metodológicos para este estudo</title>
			<p>No tocante à metodologia, a pesquisa seguiu orientada pela epistemologia qualitativa
				cujo processo de geração dos dados ocorre nas diversas situações ou fenômenos em
				interação com o ambiente de pesquisa ou contato com a cultura produzida entre os
				sujeitos sociais interessados em responder ao objetivo da investigação que, no caso,
				consistiu em analisar a mobilização dos professores ao ensinar nas turmas de EJA em
				pequenos municípios do Maciço de Baturité, no interior do estado do Ceará. Em função
				disso, recorremos ao exercício do método descritivo-interpretativo na produção dos
				dados, <italic>in loco,</italic> com as professoras envolvidas na prática docente da
				EJA dos municípios da zona rural visitados no estudo. Diferentemente das salas de
				aula convencionais, os diferentes espaços da prática docente foram migrados para os
				alpendres das casas das professoras ou dos estudantes, cozinhas com amplas mesas,
				transformadas em <italic>locus</italic> pedagógico que nos permitiram conhecer de
				perto as ‘salas de aula’ preparadas para os encontros letivos.</p>
			<p>Os alpendres adaptados para darem lugar às carteiras e as mesas compridas das
				cozinhas, organizadas com o bom café com bolo ou com os almoços coletivos e
				compartilhados por cheiros, temperos e sabores, dão vida aos olhares da pesquisa.
				Desse modo, os registros a partir dos comentários, desabafos, olhares e gestos,
				visíveis e não visíveis às falas das professoras, interessam aos aspectos
				metodológicos em que vivem os “praticantes ordinários da cidade”, nas palavras de
					<xref ref-type="bibr" rid="B3">Certeau (2014, p. 159)</xref>.</p>
			<p>Seguimos a observação cuidadosa como primeiro passo no registro das percepções
				voltadas ao processo de conquista, aceitação e confiança das professoras que
				serviram não como suporte à descrição isolada, mas às relações possíveis geradas no
				encontro do individual com o social. Em seguida, avançamos da observação para a
				coparticipação das docentes na cena enunciativa de construção dos dados, por meio de
				entrevistas semiestruturadas, utilizadas como instrumento metodológico de
				acolhimento dos relatos das professoras na forma de conversas carregadas de
				significativos comentários espontâneos. Com isso, três professoras foram indicadas
				pelas coordenações da EJA dos municípios do Maciço de Baturité devido aos motivos,
				assim, informados: maior envolvimento com as práticas didáticas de alfabetização,
				facilidade na acessibilidade pedagógica, bom entrosamento com a Secretaria Municipal
				de Educação e, sobretudo, por atuarem com as turmas multisseriadas que são
				constituídas de estudantes em etapas e idades distintas na modalidade.</p>
			<p>Essas professoras participaram e nos permitiram conhecer um pouco mais de suas
				realidades e vivências cotidianas em suas casas-salas de aula configuradas, assim,
				como espaços de ensino e aprendizagem. A primeira entrevistada foi a professora
				Maria José, a qual atua em turmas multisseriadas e desenvolve suas aulas recebendo
				seus alunos na varanda de sua própria residência. Nesse espaço, ela nos conta que,
				quando criança, foi incentivada por duas tias, professoras, a aprender a ler muito
				cedo porque elas “ensinavam debaixo de uma árvore, cedinho, antes de ir para a
				escola” e começou a ter contato precoce com a leitura e a escrita.</p>
			<p>A professora também destaca o prestígio social da profissão e o orgulho em seguir os
				passos de suas tias. Já em sua fase adulta, entre o sustento da casa e o sonho de
				ingressar em um curso superior, iniciou a graduação em Pedagogia com o sonho de
				cursar Psicologia. Essa professora conta que o seu pai era analfabeto, mas que sua
				mãe estudou até o oitavo ano do ensino fundamental na EJA. Portanto, a pouca
				escolaridade dos pais aliada às experiências com adultos na alfabetização parece
				alimentar o seu desejo de cursar Psicologia.</p>
			<p>Para essa professora, o que ela aprendeu no curso superior e na vida, “hoje, serve de
				suporte acho que até psicológico para as pessoas e para eles [alunos]” e também
				serve de base para que a sua prática de ensino na EJA tenha sentido quando realiza a
				escuta, o acolhimento e reconhece as histórias de seus alunos. Isso revela o desejo
				que a mobiliza a estar na EJA por querer não apenas ensiná-los, mas, de forma
				inconsciente, também “devolver” os conhecimentos alcançados ao longo da profissão de
				professora, como gratidão aos seus pais.</p>
			<p>A segunda entrevistada foi a professora Joana, a qual trabalha com turmas
				multisseriadas, pois reúne etapas e níveis de aprendizagem diferentes, dessa vez, na
				escola de um dos municípios da zona rural da região do Maciço de Baturité, interior
				do Ceará. A professora relata que, em sua trajetória como docente da EJA, teve a
				oportunidade de lecionar para seus pais analfabetos: o pai iniciou como aluno e veio
				a falecer, mas o seu nome ainda constava em seu diário de classe e, nas palavras
				dela, muito emocionada, “não tive esse prazer de alfabetizar o [meu] pai”. Sua mãe,
				por sua vez, que também foi aluna da turma, conseguiu aprender a escrever o nome.
				Essa mudança do lugar de filha para ser a professora de seus pais mostra parte de
				uma relação com o saber ensinar na EJA, baseada numa “retribuição” inconsciente da
				gratidão aos seus pais que, nas turmas, se revela no empenho com as metodologias de
				ensino, no acompanhamento da aprendizagem dos adultos e, quase sempre, dos idosos
				que estão em sua sala de aula.</p>
			<p>A última entrevistada foi a professora Maria de Fátima, que trabalha com alunos de
				turmas também de diversas etapas e fases do aprendizado nas classes multisseriadas
				da EJA, especialmente, com adultos e idosos de sua comunidade. Da mesma forma que as
				professoras anteriores, visita as casas dos alunos e os recebe em sua residência,
				especificamente, numa grande mesa posta na cozinha. Ela nos conta que sua
				experiência na docência começou como voluntária aos dezoito anos numa escola que
				hoje recebe, com orgulho, o nome de sua mãe que trabalhou na mesma instituição de
				ensino como merendeira, também voluntária.</p>
			<p>Sua experiência revela o sentido da militância, atuando como representante sindical,
				e a sua posição quanto liderança religiosa, ao atribuir sua atuação na alfabetização
				de adultos idosos como um milagre e acreditar “ser um instrumento nas mãos de Deus
				para ajudá-los [os alunos] a ler”, inclusive, nas missas e cultos da igreja. Em
				acréscimo, ela desenvolve as práticas de letramento com o que gosta de fazer além de
				lecionar: que é o ato de cozinhar. Lá, além de inventar receitas, conduz suas aulas
				utilizando a escrita como instrumento de organização da tarefa de cozinhar, além
				disso, utiliza a leitura como algo lúdico para estimular a frequência nas aulas e o
				desejo por serem alfabetizados. Assim sendo, o móbil para ser professora da EJA
				consiste em promover as aulas diferenciadas, conhecer um pouco mais dos alunos que
				recebe e/ou ir às suas casas e proporcionar o que a escola regular, convencional,
				não conseguiu no período em que estiveram como crianças e jovens nas salas de
				aula.</p>
			<p>Contar um pouco dessa história singular das entrevistadas é o que pode nos ajudar a
				compreender um pouco mais sobre suas atitudes como professoras de EJA no contexto em
				que atuam. Isso se justifica ainda porque compreendemos que o encontro da pesquisa,
				em questão, ocorre na coparticipação dos sujeitos envolvidos, ou seja, as
				professoras que, nas suas singularidades, refletem a autenticidade de um fazer
				original e singular em cada situação pedagógica. O contexto social, histórico,
				cultural e, sobretudo, geográfico envolvendo o cotidiano das professoras que se
				deslocam de casas distantes umas das outras e o traslado feito de bicicleta em ruas
				de barro e de difícil acesso dão subsídios para a discussão sobre a mobilização dos
				professores ao ensinar nas turmas de EJA. Desse modo, os registros capturados pelas
				gravações em áudio subsidiaram os trabalhos de descrição e interpretação a partir de
				perguntas norteadoras sobre o <italic>ser professora</italic> de EJA e as relações
				dessa prática com os vínculos sociofamiliares que marcaram sua identificação com a
				docência.</p>
			<p>Na delimitação do <italic>locus</italic> da pesquisa, as residências de duas
				professoras e uma sala de aula forneceram pistas interpretativas do fenômeno da
				mobilização para ensinar nas turmas de EJA e os móbeis para a realização das ações
				didáticas. O processo interpretativo exigiu a organização da análise em categorias:
				1. <italic>situações prazerosas na prática docente; 2. mobilização dos professores
					ao ensinar nas turmas de EJA;</italic> 3. <italic>saberes envolvidos no processo
					de ensinar na EJA.</italic> Assim, a análise interpretativa em diálogo com a
				base teórica em Bernard <xref ref-type="bibr" rid="B4">Charlot (2000</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B5">2001</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B7"
				>2022</xref>) fundamenta e explica o fenômeno social e pedagógico do saber ensinar
				das professoras envolvidas na EJA.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A docência na EJA e a relação das professoras com o saber ensinar</title>
			<p>Com base na análise das narrativas que nos foram concedidas pelas professoras,
				pudemos delinear três blocos temáticos para serem discutidos, os quais foram
				direcionados, igualmente, pelas questões que levantamos na introdução deste texto.
				No entanto, esses blocos não serão aqui fracionados durante a análise, uma vez que
				eles se integram no todo da relação das professoras com o saber ensinar na EJA.
				Assim sendo, falamos acerca das <italic>situações prazerosas relativas ao saber
					ensinar na EJA,</italic> as quais estão carregadas de afetividade, entrelaçando
				esse tema com <italic>a influência da posição social das professoras manifestada nas
					ações pedagógicas</italic> que elas consideram relevantes e necessárias ao
				exercício da docência da EJA naquele contexto. Em acréscimo, discutimos, quando
				aparecerem, <italic>os saberes envolvidos nesse processo e que atravessam o
					exercício da docência na EJA</italic> como produções de sentido atribuídas a
				essa atividade.</p>
			<p>Para darmos início a essa discussão dos dados, é bom lembrar que, em qualquer
				situação de aprendizagem, inclusive da docência, essa situação precisa fazer sentido
				para o sujeito que aprende. Em outros termos, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B4"
					>Charlot (2000</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B5">2001</xref>), é necessário
				que ela possa produzir prazer e satisfazer um desejo do sujeito. Pelo que vimos nos
				relatos das entrevistadas, em processo de desenvolvimento profissional como
				professoras de EJA, essa satisfação é produzida, com maior clareza, no exato momento
				em que as professoras se sentem acolhendo os estudantes por meio de uma escuta
				atenta e da compreensão acerca dos problemas que os afligem.</p>
			<disp-quote>
				<p>Há muitos alunos que têm dificuldades por conta do trabalho o dia todo. Porque
					você sabe que aqui é agricultura mesmo. E ainda tem que vir para a aula. Muitas
					vezes, vem só para ver a tia. Eu quero só conversar com você hoje. Chorar comigo
					hoje. E eu tenho que estar aqui atenta a eles. E aquele chorar deles, muitas
					vezes, é desabafando o que acontece em casa. E a gente está aqui como um
					suporte. Para dar força, para que não desistam. Porque é uma batalha muito
					árdua. Muito árdua! [...] E o que eu estou aprendendo? A ser humana! Porque o
					aluno da EJA é totalmente diferente da realidade do aluno que vai pra escola
					todos os dias. A gente aprende a escutar, primeiramente a escutar. A gente não
					está aqui como professor, a gente está aqui como <italic>aprendedor.</italic>
					Todos os dias a gente aprende um pouco com eles. Então, com as histórias de vida
					de cada um, no momento de dificuldade, o porquê que não estudaram no momento
					certo, as dificuldades que eles enfrentavam de vida. Muitos não tinham nem o que
					comer e ajudar os pais a trabalhar. Então, é um momento muito difícil.
						<bold>(Professora Maria José).</bold></p>
			</disp-quote>
			<p>Esse trecho do relato da professora Maria José demonstra duas fontes de mobilização,
				ao menos para ela: a primeira tem a ver com o próprio sentido de ensinar na EJA, o
				qual se realiza por meio de sua compreensão e da escuta aos estudantes. Ou seja,
				para a professora, o docente que não faz isso, provavelmente, não entendeu ou não
				sabe o que é ensinar na EJA. Tal perspectiva tem a ver, portanto, com a ideia de uma
				certa humanização do ensino na modalidade EJA, uma vez que esta é particularizada
				pelo fato de que os estudantes, além de terem ficado longos anos fora da escola, não
				conseguem frequentar regularmente a instituição de ensino como os discentes
				convencionais no ensino fundamental.</p>
			<p>A segunda fonte de mobilização para a professora é que essa compreensão,
				particularizada em sua história de vida, tem um forte vínculo com seu desejo (sonho)
				de cursar Psicologia. É esse talvez o desejo “inconsciente” que a mobiliza a estar
				na EJA e a aprender cada vez mais sobre como escutar os estudantes, já que essa
				escuta é a base de sua relação com o ensinar na EJA e é provavelmente o que ela
				imagina que um psicólogo faz como essência de sua atividade laboral. As dificuldades
				marcantes da posição social dos sujeitos, e que os levaram para a EJA, parecem
				continuar na escola, pois eles também enfrentam dificuldades como, por exemplo, não
				serem reconhecidos como estudantes iguais aos outros. Portanto, saber ensinar na EJA
				parece ensejar uma luta contra a invisibilidade social que é reproduzida,
				infelizmente, pelas práticas escolares em relação aos “sobrantes sociais”
				assinalados por <xref ref-type="bibr" rid="B2">Castel (2010)</xref>.</p>
			<p>Um dos aspectos mais interessantes que as entrevistadas revelaram é que a luta contra
				essa invisibilidade dos estudantes é igualmente uma luta delas contra a própria
				invisibilidade e descrédito que elas sofrem como professoras.</p>
			<disp-quote>
				<p>As nossas dificuldades ainda são muitas, até mesmo o olhar para nós dentro da
					mesma escola. O professor da EJA ainda é um pouco desprezado. Ele é desprezado.
					A gente não é visto como um professor. Nós estamos sentindo muita dificuldade
					nesses momentos. O acolhimento na diretoria, no momento que a gente precisa de
					ir até a escola atrás de uma atividade é como se a gente não fosse basicamente
					nada. E aí? Senhor, e aí? [...] Porque, assim como lá na escola funciona uma
					turma de alunos, a EJA também é uma turma de alunos que estão na batalha, que
					estão com as dificuldades deles, mas que, aos poucos, vão conseguindo. E é um
					momento que a gente precisa ser abordado e precisa ser trabalhado. Precisa muito
					ser trabalhado e eles mesmos se sentem. [...] Até eles dizem, por exemplo, no
					término agora do novo ano, eles foram a última turma. [...]. Eles receberam o
					diploma e as pessoas indo embora e no outro dia eles disseram: “<italic>Tia, o
						que foi isso que aconteceu? A gente recebendo nosso diploma e todo mundo
						indo embora. Ninguém viu a gente recebendo nosso diploma”.</italic> E aí a
					gente ficou sem saber o que dizer. <bold>(Professora Maria José)</bold>.</p>
			</disp-quote>
			<p>Como podemos observar, é bem simbólico e notório para eles todos que estão sempre em
				segundo plano, seja no campo pedagógico, ao buscarem orientação e apoio da gestão,
				como nos espaços de convivência social. Conforme o relato, além de ficarem por
				último, na chamada das turmas, os estudantes ainda foram “deslegitimados” pelos
				presentes que começaram a sair na cerimônia de entrega de certificados. No entanto,
				a professora está atenta a essa questão e sinaliza como algo a ser revisto e
				analisado pela escola. Nesse sentido, saber ensinar na EJA implica igualmente
				encampar uma luta política pela própria legitimidade de sua existência como
				modalidade de educação.</p>
			<p>Um fato também curioso que podemos notar nas falas da professora Maria José, assim
				como nas demais professoras, é o relato de que os estudantes as tratam como “Tia”.
				Isso implica um retorno à escola e a uma infância adormecida no passado, mas que, ao
				ser retomada no presente, também traz à tona o tempo da “tia da escola”, daquela
				professora que se quer bem e, ao mesmo tempo, que transmite confiança, acolhimento,
				amorosidade e, principalmente, conhecimentos e valores necessários à formação
				humana. As professoras apresentam consciência de que sua ação é docente, mas que
				precisa caminhar, imprescindivelmente, lado a lado com a luta social, a qual implica
				uma postura política que tem como pano de fundo a própria luta social, que é
				fomentada a partir da luta de classes.</p>
			<disp-quote>
				<p>Porque a gente sempre diz: a gente ensina por amor, mas também ensina por
					dinheiro! Graças a Deus, hoje o professor está sendo reconhecido. Há 10, 15 anos
					atrás, a professora de zona rural era conhecida como a “professorinha”. Por que
					professorinha? Esse diminutivo? Porque eles davam a entender que uma professora
					da zona rural não sabia quase nada. Como ainda tem um preconceito na questão do
					professor da EJA. Hoje o preconceito não é mais só com a questão da
					professorinha, mas é que dizem que o professor da EJA faz de conta que ensina.
					Será que faz mesmo? Eu canso de dizer ao nosso coordenador da EJA: Será que todo
					professor, de dentro do colégio, tem coragem de andar numa quebrada? De parar
					para escutar um aluno e ver toda a situação desse aluno e depois ter que
					incentivar ele para ele pegar o gosto pela leitura, pela escrita e dar impulso à
					sua ação de estudo? Não é fácil. <bold>(Professora Joana).</bold></p>
			</disp-quote>
			<p>Como podemos perceber, a professora Joana traz consigo as marcas de sua história de
				vida, na qual muitos de seus alunos adultos e, sobretudo, os idosos, fazem parte de
				sua infância como vizinhos, pessoas conhecidas da família. Essas marcas traduzem o
				posicionamento da professora na direção de “retribuir” às pessoas, conhecidas da
				comunidade, o conhecimento da leitura e da escrita ao alfabetizar e desenvolver
				práticas de letramento. Todas as questões aventadas nos excertos de fala anteriores
				acabam revelando o próprio sentido atribuído ao ensinar na EJA por essas
				professoras, o qual está associado com o objetivo de fazer com que os estudantes se
				sintam valorizados, do mesmo modo que elas como professoras.</p>
			<disp-quote>
				<p>A gente precisa fazer com que eles se sintam melhores, porque eles já se sentem
					um pouco inferiores. Então, precisa de um olhar mais carinhoso, tanto com o
					aluno da EJA como para com os professores da EJA. [...]. A gente não é apoiada.
					Quando a gente tem um instrutor, um coordenador que batalha com nós, que
					batalha, é muito bom, mas, mesmo assim, parece que é só ele. Entendeu?
						<bold>(Professora Maria José).</bold></p>
				<p>Queria dizer pra você que as facilidades são boas quando eu posso contar com o
					apoio de pessoas grandes. Eu tenho bons formadores, como tem um formador da EJA,
					que vem desempenhando um papel lindo, ajudando a gente a se colocar melhor, a
					desempenhar melhor o nosso papel como professora de EJA. Ele levanta a minha
					autoestima como profissional. [...] Eu também disse para eles lá, para os meus
					alunos lá do outro município, que ele não existe, é assim um ser humano valioso!
					Ao abrir a boca, ele deixa a gente, assim, de queixo caído, porque é capaz de
					levantar o estímulo de qualquer profissional. Porque, como eu já disse antes,
					ser professora, nossa profissão de educadora, ela é árdua. E nós precisamos
					muito desse apoio, entendeu? <bold>(Professora Joana).</bold></p>
			</disp-quote>
			<p>Nessas falas das professoras Maria José e Joana, podemos perceber as três dimensões
				da relação com o saber, definidas por <xref ref-type="bibr" rid="B4">Charlot
					(2000)</xref>. A dimensão epistêmica se manifesta quando elas dizem o que os
				docentes precisam para exercer um bom trabalho com os estudantes, ou seja, quando
				elas afirmam que saber ensinar na EJA implica, primordialmente, escutar, valorizar e
				apoiar o estudante, assim como elas também precisam ser valorizadas. A dimensão
				identitária está exatamente na afirmação de que os professores também precisam dessa
				atenção, ou seja, no desejo de elas serem valorizadas como docentes em luta pela
				melhoria da EJA e por seu próprio reconhecimento como docente/professor. Por fim, a
				dimensão social se apresenta quando elas demonstram a luta quase solitária e
				desigual no ambiente escolar, no qual elas têm de vencer as adversidades impostas,
				inclusive, pela hierarquia escolar. Portanto, toda ajuda é bem-vinda e celebrada,
				mesmo que seja a ajuda de uma ou de duas pessoas apenas, como é o caso, por exemplo,
				de um coordenador pedagógico e/ou um formador que decida se engajar na luta.</p>
			<p>Com base em suas falas, podemos sugerir que as professoras consideram que a boa
				formação é aquela que começa alimentando e aumentando a autoestima, o que deve ser
				interpretado tanto em relação aos estudantes como em relação a elas como docentes.
				Assim, ensinar na EJA implica valorizar e alimentar a autoestima dos jovens e
				adultos, valorizando e reconhecendo, no outro, as capacidades positivas que os
				constituem como sujeitos capazes de aprender. É com esse apoio, e com uma formação
				que levanta a autoestima delas, que as professoras estão conseguindo construir seus
				saberes na relação com o ensinar na EJA.</p>
			<disp-quote>
				<p>Infelizmente, como a maioria é de idosos, eles não vêm só. Vêm um dia no mês.
					Eles vêm um dia no mês e a gente faz um movimento, um aulão diferente. Aqui,
					como eu sempre gostei de cozinhar, eu sempre invento novidades, inventei uma
					lasanha. Então, eles vêm e a gente prepara toda uma receita ali na mão, escreve,
					depois vamos procurar. A gente faz lasanha, faz bolo, faz doce e esse é o dia da
					aula que a gente estuda. Não são todos que vêm, mas grande parte vem e coloca a
					mão na massa mesmo e no caderno. [...]. É uma pena porque não é como o ensino
					convencional que eles têm que estudar toda a matéria, ou Inglês, a Matemática
					mais aprofundada, isso não tem. Mas, a minha preocupação é essa: se eles
					aprenderem as quatro operações, eles chegam em qualquer campo. E nessa questão,
					na prática, eu aprendo muito mais do que eles. Porque eles trazem banana, eles
					trazem uma coisa, eles trazem outra e a gente usa aqueles instrumentos na
					prática. Lá no Santo Exílio, a gente usava muito, eu costumava usar muito no dia
					que eles estavam tirando banana. Eu aprendi! Por isso que eu digo que aprendi:
					numa banana, um milheiro, eles botavam um furinho. Dois furinhos eram dois
					milheiros e assim por diante. Então, para mim, aquilo ali foi maravilhoso, eu
					aprendi daquela forma. E, assim, eu vou levando para outro lugar, como já trouxe
					para cá! O seu Edmar, que é esse que não sabia ler, conta quantas sementes tem
					dentro do jerimum e, dali, ele faz a multiplicação, a divisão, rapidinho que
					você fica assim. E uma criança, um adolescente hoje na Matemática, ele só sabe
					quando usa essa maquininha. Então, é isso! É na convivência. Conviver na
					prática. [...]. Aprender, eu aprendo muito. Talvez eu aprenda muito mais do que
					é ensinado. Eu ensino de uma forma que... O que eu posso dizer em palavras? Bom,
					eu chego, coloco os livros e a primeira coisa que eu pergunto é qual é o assunto
					do dia. Eu não dou o assunto do dia. Primeiro, eu pergunto qual é o assunto do
					dia. Então, eu ouço primeiro. Às vezes, vem com a situação da família,
					violência, doença, e eu escuto. Passou aquele momento, a gente fala: <italic>Ah,
						então, vamos para o momento da oração.</italic> Quando a aula está mais
					leve, eu vou para a questão da gramática, que é o ler e o escrever. Mas, não é
					fácil. Não é todo dia que a gente pega eles prontos para querer ler e escrever.
						<bold>(Professora Maria de Fátima).</bold></p>
			</disp-quote>
			<p>Eis um grande exemplo de como as professoras vêm desenvolvendo um saber sobre ensinar
				na EJA. Para elas, o saber ensinar só funciona a partir da vida, da experiência e
				dos conhecimentos que eles já acumularam ao longo dos anos. Nada de começar
				alfabetizando os estudantes, mas promovendo com eles práticas de letramento. A
				escrita é usada por elas como um instrumento de organização de tarefas, como, por
				exemplo, a de cozinhar. Ou seja, a escrita está sendo aprendida em pleno uso, sem
				falar do aspecto lúdico que a professora Jacinta busca proporcionar aos estudantes
				que frequentam as aulas. Portanto, ensinar na EJA implica promover atividades
				lúdicas nas quais os conteúdos da escrita e da Matemática são inseridos
				naturalmente.</p>
			<p>Saber ensinar na EJA parece implicar, para as professoras, entrar na realidade dos
				estudantes e valorizar os seus saberes, ou seja, os conhecimentos prévios. Afinal,
				por serem estudantes de mais idade, trazem consigo muitos conhecimentos que não
				podem ser ignorados, sob pena de esvaziar o sentido de eles estarem na escola. Para
				elas, o professor de EJA também precisa estar aberto e disposto a aprender com os
				estudantes. É na troca que o ensino se realiza e não na transmissão pura e simples
				do conteúdo.</p>
			<disp-quote>
				<p>Tem muitos deles que ainda não sabem nem escrever o nome. Eles ficam um pouco
					entristecidos porque tem aqueles que já sabem. Muitas vezes, ficam de cabeça
					baixa e dizem: <italic>Ai, tá difícil, professora, porque eu não vou
						conseguir.</italic> Aí, você tem que estar dando força: <italic>Não, não,
						vamos conseguir! Vamos tentar esse outro jeito? Vamos montar a palavra e
						vamos recortar a letrinha do nome. Vamos colar, porque nós vamos
						aprender.</italic> Nem mesmo a caligrafia. Ele não consegue nem segurar o
					lápis. Ele volta, ele se desliga. Você tem que dar força e também exige mais de
					um professor, né? Só tem que estar pensando em metodologias, né? Lendo,
					pesquisando. Até de madrugada, às vezes, para saber o que vai levar para
					atender, né? (<bold>Professora Maria José</bold>).</p>
			</disp-quote>
			<p>Esses são saberes que as professoras demonstram como sendo frutos de suas
				experiências. Elas compreendem que os estudantes precisam estar em uma situação
				favorável de receptividade aos conteúdos, senão as aulas passarão a ser apenas meros
				encontros formais, sem nenhum sentido para ambos: alunos e professoras. Por isso, o
				saber escutar é primordial para que o ensino seja viável.</p>
			<p>Ademais, ainda que talvez nem tenham essa consciência, as docentes demonstraram que
				atuam bastante aproximadas ao princípio freireano de uma educação centrada no
				sujeito e em suas realidades sociais e culturais, sendo o ensino planejado a partir
				dessas realidades. O sucesso como professoras está em motivar os estudantes e não os
				deixar desistir. Esse parece ser um dos principais elementos de mobilização que
				impulsiona as docentes em suas práticas pedagógicas. Mobilização, inclusive, que as
				mantém engajadas em aprender mais sobre o saber ensinar na EJA, isto é, em criar
				estratégias de ensino para manter igualmente o engajamento dos estudantes.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações Finais</title>
			<p>O propósito de analisar a mobilização dos professores ao ensinar nas turmas de EJA em
				pequenos municípios do estado do Ceará nos mostrou o quanto a relação com o saber
				ensinar do professor da Educação de Jovens e Adultos não está dissociada de suas
				experiências pessoais e, mais ainda, de sua trajetória profissional envolvida por
				desejos e valores inerentes à formação humana. Diante disso, alguns questionamentos
				embasaram nosso estudo, ao nos perguntarmos: de que maneira os professores também
				estão encontrando prazer e atribuindo sentido ao ensinar nas turmas de EJA em
				pequenos municípios do Ceará? Em que aspectos a posição social ocupada pelos
				referidos docentes e as suas relações familiares se manifestam no saber ensinar na
				EJA? Como os professores expressam seus saberes construídos nas práticas pedagógicas
				desempenhadas na EJA?</p>
			<p>A pesquisa realizada <italic>in loco,</italic> nos municípios rurais da região do
				Maciço de Baturité, no interior do estado, constatou que a estratégia utilizada por
				muitas secretarias municipais de educação remonta o programa de alfabetização de
				jovens e adultos – MOVA –, adotado nos anos de 1989 a 1992, cuja metodologia de ação
				do programa consistiu na busca por analfabetos das localidades pelos professores
				interessados em lecionar para a modalidade. Desse modo, tivemos a experiência de
				conhecer os docentes que atuaram em classes/turmas multisseriadas que foram
				implementadas pelas secretarias de educação e desenvolvidas nos alpendres das casas
				de professores ou de estudantes. Nesse sentido, a relação com o saber ensinar dos
				docentes está associada à criação e ao desenvolvimento de metodologias adaptadas aos
				diferentes níveis de aprendizagem dessas pessoas que, em sua maioria, estão na faixa
				etária de 30+ ou idosos.</p>
			<p>De forma recorrente, constata-se que a experiência dos matriculados que estão nas
				salas de aula da EJA vem acompanhada de outras chances e tentativas de continuidade,
				ou seja, repetidas vezes estiveram matriculados e, por razões diversas, retornaram à
				modalidade como segunda [terceira, quarta] chance de retorno aos estudos. Ao mesmo
				tempo, a mobilização do professor para ensinar nas turmas de EJA vai ao encontro dos
				estudantes motivados por aprender. Assim, o sentido da prática pedagógica reúne a
				satisfação e o prazer do professor em movimentar-se para o redimensionamento do
				espaço-tempo da escola, agora, nas varandas das casas, nas mesas das cozinhas de
				suas casas, que dão lugar ao desejo de alcançar significado na aprendizagem,
				resultante dos processos de acolhimento e de amorosidade desencadeados no
				cotidiano.</p>
			<p>Não obstante, a transformação dos cenários das salas de aula adaptadas às pessoas de
				pouca escolaridade, como agricultores, trabalhadores das zonas rurais, também nos dá
				subsídios para a discussão das relações sociofamiliares entre os docentes e suas
				práticas pedagógicas com adultos e idosos. Em função disso, a relação com o ensinar
				a leitura e a escrita associada ao alfabetizar e desenvolver práticas de letramento
				nos adultos e idosos, em algumas situações, revela-se como uma retribuição da
				gratidão aos seus próprios pais ou familiares do professor.</p>
			<p>Outros achados nos despertaram para o desafio dos professores em serem reconhecidos,
				social e profissionalmente, pelas práticas docentes voltadas à modalidade que,
				historicamente, carrega a invisibilidade dos governos e das políticas de educação.
				Na escola, não por acaso, o descrédito e a desvalorização cotidiana de lidar com um
				público que, quase sempre, é culpabilizado por seu fracasso e pela negação de sua
				cidadania corroboram para a discriminação e exclusão social dos discentes e também
				dos docentes que atuam nas classes/turmas da modalidade. Com base nas narrativas das
				professoras, a relação com o saber ensinar na EJA vem carregada de afetividade,
				razão atribuída ao sentido dado na prática do ensinar como no aprender.</p>
			<p>Em outras palavras, a produção do prazer e da satisfação no ato de acolher o
				estudante revela-se numa “via de mão dupla” quando a professora é também
				recepcionada por muitos sentimentos de amorosidade. De um lado, temos a superação de
				estereótipos que estão marcados pelo fracasso, <italic>déficit</italic> da
				aprendizagem, desistências constantes no retorno dos estudantes 30+ e idosos na EJA.
				De outro, podemos dizer que a retomada do tempo da escola recupera alguns
				comportamentos e convenções sociais do passado, na figura da “tia da escola”, da
				professora que “corrige os cadernos”, aquela que “pega no lápis” entre outros
				motivos que reverberam num misto de sentimentos de confiança, acolhimento,
				amorosidade na relação pedagógica.</p>
			<p>Compreendemos que a migração do cenário das salas de aula para os alpendres das casas
				ou das cozinhas transformadas em espaços de ensino tende a mobilizar, de forma mais
				intimista, a escuta e a humanização dos que passaram pela escola e retornaram em
				busca de acolhimento e aprendizagem. Longe de encerrarmos a discussão, adiantamos a
				existência de uma nova [ou não tão nova] pedagogia presente nos
					<italic>locus</italic> diferenciados de ensino e aprendizagem, como nos
				alpendres das casas que servem de cenário para repensarmos alternativas teóricas e
				metodológicas ligadas aos adultos e idosos da EJA. Com isso, abrem-se caminhos para
				epistemologias e processos pedagógicos pouco debatidos no âmbito das culturas
				produzidas nesses cotidianos e que, nos pequenos municípios rurais, reacendem
				metodologias interdisciplinares e interculturais que sejam capazes de envolver
				afetos na relação com o saber ensinar e o saber aprender nessa modalidade de
				ensino.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Respeitando os procedimentos éticos da pesquisa com seres humanos, todos os
					sujeitos participantes deste estudo assinaram um Termo de Consentimento Livre e
					Esclarecido (TCLE), por ocasião da construção de dados que resultou no presente
					texto. No referido TCLE, enfatizamos os objetivos do estudo e as garantias de
					não divulgação de suas identidades. Portanto, como acordado, todos os nomes aqui
					apresentados são fictícios, para resguardar o anonimato em relação aos
					estudantes. Ademais, vale ressaltar, que não há nenhum tipo de conflito de
					interesses quanto ao conteúdo deste texto.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Este artigo apresenta resultados de uma pesquisa decorrente de um projeto maior
					desenvolvido durante estágio pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em
					Educação, sob supervisão do segundo autor. Além disso, está vinculado a uma
					pesquisa financiada por uma Bolsa de Produtividade e Estímulo à Interiorização –
					FUNCAP, BPI 04/2022.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>O Maciço de Baturité é uma formação geológica localizada no sertão central
					cearense, composta pelos municípios de Baturité, Pacoti, Palmácia, Guaramiranga,
					Mulungu, Aratuba, Capistrano, Itapiúna, Aracoiaba, Acarape, Redenção, Barreira e
					Ocara. (https://pt.wikipedia.org/wiki/)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>De acordo com os dados do INEP, os 13 (treze) municípios do Maciço de Baturité,
					no Ceará, apontam aumento de 3.278 matrículas na EJA no ano de 2022 para 3.809
					matrículas no ano seguinte (2023).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>O MOVA foi criado por Paulo Freire, no período de sua gestão na Secretaria
					Municipal de Educação de São Paulo, nos anos de 1989 a 1992, com a finalidade de
					reduzir o analfabetismo no Brasil, garantindo inclusão social e direito humano à
					educação. Na proposta original, as salas de aula do MOVA aconteciam em parceria
					com os governos locais, entidades, associações comunitárias, sindicatos,
					igrejas, creches ou empresas que indicavam espaço físico, infraestrutura para a
					formação de professores e realização das aulas com alfabetizadores indicados
					pelas comunidades (Gadotti, 2008).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>Significado de varanda coberta, segundo o dicionário virtual. <ext-link
						ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.dicio.com.br/"
						>https://www.dicio.com.br/</ext-link></p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>Essa é a melhor expressão para explicar uma das marcas dos que recorrem à
					modalidade.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>ALMEIDA, Sílvio Luiz de. <bold>Racismo estrutural.</bold> São Paulo:
					Pólen, 2019.</mixed-citation>
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					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ALMEIDA</surname>
							<given-names>Sílvio Luiz de</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Racismo estrutural</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Pólen</publisher-name>
					<year>2019</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>CASTEL, Robert. <bold>As metamorfoses da questão social:</bold> uma
					crônica do salário. Petrópolis: Vozes, 2010.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
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							<surname>CASTEL</surname>
							<given-names>Robert</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source><bold>As metamorfoses da questão social:</bold> uma crônica do
						salário</source>
					<publisher-loc>Petrópolis</publisher-loc>
					<publisher-name>Vozes</publisher-name>
					<year>2010</year>
				</element-citation>
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					de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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							<surname>CERTEAU</surname>
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					<source><bold>A invenção do cotidiano:</bold> 1. Artes de fazer</source>
					<publisher-loc>Petrópolis, RJ</publisher-loc>
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					<year>2014</year>
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					<source><bold>Da relação com o saber:</bold> elementos para uma teoria</source>
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							<surname>CHARLOT</surname>
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						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>A noção de relação com saber: bases de apoio teórico e
						fundamentos antropológicos</chapter-title>
					<person-group person-group-type="compiler">
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							<surname>CHARLOT</surname>
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					<source><bold>Os jovens e o saber:</bold> perspectivas mundiais</source>
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					<article-title>A pesquisa educacional entre conhecimentos, políticas e práticas:
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					<source>Revista Brasileira de Educação</source>
					<publisher-loc>Campinas</publisher-loc>
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					<lpage>18</lpage>
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						>https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/ceara/educacao-de-jovens-e-adultos-enfraquece-e-pelo-menos-19-turmas-sao-encerradas-em-fortaleza-1.3278717</ext-link>.
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					<month>09</month>
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		</ref-list>
	</back>
</article>
