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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">faeeba</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. FAEEBA - Ed. e
					Contemp.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2358-0194</issn>
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				<publisher-name>Universidade do Estado da Bahia</publisher-name>
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				>10.21879/faeeba2358-0194.2024.v33.n76.p373-390</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigo</subject>
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			<title-group>
				<article-title>ESCOLARIZAÇÃO E PRECARIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS TRABALHADORES DA
					PERIFERIA FLUMINENSE</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>SCHOOLING AND PRECARIZATION OF YOUNG AND ADULT WORKERS IN THE
						PERIPHERY OF FLUMINENSE</trans-title>
				</trans-title-group>
				<trans-title-group xml:lang="es">
					<trans-title>ESCOLARIZACIÓN Y PRECARIZACIÓN DE TRABAJADORES JÓVENES Y ADULTOS EN
						LA PERIFERIA FLUMINENSE</trans-title>
				</trans-title-group>
			</title-group>
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				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-6044-981X</contrib-id>
					<name>
						<surname>Fernandes</surname>
						<given-names>Marcos Vinicius Reis</given-names>
					</name>
					<bio>
						<p><sup>**</sup> Doutora e Mestre em Educação pela Universidade Federal
							Fluminense. Pós-Doutorado na Universidade de Valência, Espanha (Bolsa
							Capes 2009-2010). Professora Associada da Universidade do Estado do Rio
							de Janeiro (UERJ. Integra o corpo docente da Faculdade de Formação de
							Professores de São Gonçalo e do Programa de Pós-Graduação em Políticas
							Públicas e Formação Humana (PPFH/UERJ). E-mail:
								<email>ealgebaile@gmail.com</email>
						</p>
					</bio>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"/>
				</contrib>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-0720-0772</contrib-id>
					<name>
						<surname>Algebaile</surname>
						<given-names>Eveline Bertino</given-names>
					</name>
					<bio>
						<p><sup>*</sup> Doutorando pelo Programa em Políticas Públicas e Formação
							Humana (PPFH. Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em
							Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduado
							no Curso de Especialização em Educação de Jovens e Adultos (EJA) pelo
							Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro
							(IFRJ) e no Curso de Especialização em Ciências Sociais e Educação
							Básica pelo Colégio Pedro II. E-mail:
								<email>viniciusiserj@gmail.com</email>
						</p>
					</bio>
					<xref ref-type="aff" rid="aff2"/>
				</contrib>
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				<institution content-type="orgname">Universidade do Estado do Rio de
					Janeiro</institution>
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					Janeiro</institution>
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					Janeiro</institution>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>20</day>
				<month>11</month>
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2024</year>
			</pub-date>
			<volume>33</volume>
			<issue>76</issue>
			<fpage>373</fpage>
			<lpage>390</lpage>
			<history>
				<date date-type="received">
					<day>02</day>
					<month>05</month>
					<year>2024</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
					<day>26</day>
					<month>09</month>
					<year>2024</year>
				</date>
			</history>
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				<license license-type="open-access"
					xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Este artigo buscou promover a reflexão sobre a precarização do trabalho e sua
					relação com o processo de escolarização da juventude da classe trabalhadora
					residente da região da Grande Iguaçu - RJ. Realizou uma breve contextualização e
					reflexão sobre o modo de operação do poder local. Tratou da particularidade do
					trabalho e da nova morfologia da classe trabalhadora. Analisou as implicações do
					processo de produção da vida e de escolarização formal da juventude periférica.
					Como suporte teórico-metodológico, o materialismo históricodialético é o
					referencial. Utilizou-se de dados abertos e das contribuições de Harvey,
					Antunes, Cantor e Poulantzas, entre outros autores. Concluiu que, com a posse do
					governo Lula (2023), ainda que não tenham sido superadas relevantes
					contradições, desenham-se novas condições de disputa a respeito da constituição
					de políticas públicas educacionais intersetoriais que promovam uma educação
					comprometida com os jovens e adultos trabalhadores.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This article search to promote reflection on the precariousness of work and the
					relationship with the schooling process of working-class youth living in the
					Grande Iguaçu region - RJ. Provided a brief contextualization and reflection on
					the way local government works. The text analyze the particularity of work and
					the new morphology of the working class. It discuss the implications of the life
					production process and formal schooling of peripheral youth. As
					theoreticalmethodological support, historical-dialectical materialism is the
					reference. Open data and contributions from Harvey, Antunes, Cantor, and
					Poulantzas, and other authors were used. The article concluded, that with the
					inauguration of the Lula government (2023), even though relevant contradictions
					have not been overcome, new conditions of dispute are emerging regarding the
					formation of intersectoral public educational policies that promote education
					committed with young and adult workers.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>Este artículo buscó promover la reflexión sobre la precariedad del trabajo y su
					relación con el proceso de escolarización de los jóvenes trabajadores que viven
					en la región del Grande Iguaçu - RJ. Proporcionó una breve contextualización y
					reflexión sobre la forma en que opera el gobierno local. Se trataba de la
					particularidad del trabajo y de la nueva morfología de la clase trabajadora.
					Analizó las implicaciones del proceso de producción de vida y la escolarización
					formal de la juventud periférica. Como sustento teórico-metodológico, el
					materialismo histórico-dialéctico es la referencia. Se utilizaron datos abiertos
					y contribuciones de Harvey, Antunes, Cantor, Poulantzas y otros autores.
					Concluyó que con la investidura del gobierno Lula (2023), si bien no se han
					superado contradicciones relevantes, emergen nuevas condiciones de disputa en
					torno a la constitución de políticas públicas educativas intersectoriales que
					impulsen una educación comprometida con trabajadores jóvenes y adultos.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Precarização</kwd>
				<kwd>Trabalho-Educação</kwd>
				<kwd>EJA</kwd>
				<kwd>Grande Iguaçu-RJ</kwd>
				<kwd>Trajetórias escolares.</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Precariousness</kwd>
				<kwd>Work-Education</kwd>
				<kwd>EJA</kwd>
				<kwd>Grande Iguaçu-RJ</kwd>
				<kwd>School trajectories.</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>Palabras Clave:</title>
				<kwd>Precariedad</kwd>
				<kwd>Trabajo-Educación</kwd>
				<kwd>EJA</kwd>
				<kwd>Grande Iguaçu-RJ</kwd>
				<kwd>Trayectorias escolares.</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>A dinâmica contemporânea do mundo do trabalho tem se dado a partir da lógica da
				transformação de trabalho vivo em trabalho morto e das estratégias de precarização
				do trabalho, expressas em uma exclusão intencional dos trabalhadores vinculados aos
				setores de produção e de serviços, para que posteriormente os capitalistas possam
				reaproveitar esses sujeitos, nas mesmas ou em outras funções, de modo acentuadamente
				mais precarizado, com vinculações que beiram a desregulamentação previdenciária. Os
				que não conseguem realocação em empresas, com remunerações mais baixas, passam a
				ocupar espaço como prestadores de serviço autônomo (liberais), de acordo com as
				demandas que vão surgindo, na lógica do trabalho intermitente. O trabalhador e a
				trabalhadora tornam-se uma empresa prestadora de serviços. Vendem suas forças de
				trabalho por empreitada/projeto, na condição de subempregados; isso quando há esta
				“oportunidade”, segundo a lógica do capital, ou ficam ao desalento, quando não
				aparecem as empresas em busca de seus serviços.</p>
			<p>Desse modo, são colocados à margem de todos os direitos trabalhistas e sociais
				vinculados à prática laboral. Nessa lógica, os indivíduos que atuam como
				funcionários diretos das empresas têm que ser flexíveis junto às demandas que
				aparecem, e passam a dar conta de diversas atribuições associadas ou não as suas
				funções, afinal o “exército de reserva” é sempre muito presente, ameaçador e
				perturbador.</p>
			<p>Essa realidade vem a impactar diretamente a dinâmica de produção da vida dos filhos e
				filhas da classe trabalhadora, ou seja, os jovens das periferias que sempre tiveram
				ao longo da história que conviver com a disputa presente entre educação e trabalho.
				E, este último sempre esteve à frente nesse embate.</p>
			<p>Esse contexto tende a se agravar para a população jovem da região geográfica da
				Baixada Fluminense, território periférico composto por treze municípios e
				pertencente à Região Metropolitana do estado do Rio de Janeiro, pois as correlações
				de força expressas pelos poderes locais e/ou políticos instituídos têm a marca
				histórica do coronelismo pautado em ações de violência através de grupos
				paramilitares.</p>
			<p>Para efeitos de análise, neste texto, abarcaremos uma região interna da Baixada
				Fluminense, a região da Grande Iguaçu, composta por oito municípios, a saber: Nova
				Iguaçu, Duque de Caxias, São João de Meriti, Nilópolis, Belford Roxo, Mesquita,
				Queimados e Japeri. Essa região é conhecida popularmente por esse nome devido ao
				fato de que todos esses municípios se tornaram entes federados a partir do processo
				de emancipação do município de Nova Iguaçu.</p>
			<p>Com objetivo de delimitar a juventude periférica, que a produção teórica tem tentado
				caracterizar de várias formas: geração nem-nem, precariado, sobrante, ralé,
				superpopulação relativa, trabalharemos com os sujeitos estudantes e potenciais
				estudantes da modalidade educacional intitulada Educação de Jovens e Adultos (EJA),
				na etapa do ensino médio, por entender que esta modalidade tem em seu cerne a marca
				da classe trabalhadora e que esta etapa marca formalmente a passagem da
				escolarização básica para o mundo do trabalho.</p>
			<p>Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (<xref
					ref-type="bibr" rid="B15">IBGE, 2020</xref>), é a partir dos 18 anos que se
				agudiza a problemática do desalento, refletindo uma maior taxa do que se denomina
				jovens nem-nem, ou seja, que estão sem estudar e sem trabalhar. No Brasil, na faixa
				de 18 a 24 anos, esse percentual é de 27% (14% sem trabalho e sem estudo e 13%
				apenas procuram trabalho), já na faixa 25 a 29 anos, esse percentual é de
				aproximadamente 25%.</p>
			<p>Indo ao encontro dos dados trazidos pelo IBGE, segundo o Censo escolar referente ao
				ano de 2023, elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio
				Teixeira (INEP, 2024), 8,2% da população de 15 a 17 anos do país não frequenta a
				escola e 8,8 milhões de brasileiros na faixa etária de 18 a 29 anos não completaram
				o ensino médio e não frequentam nenhuma unidade de educação básica. Ainda segundo o
				Censo escolar (<xref ref-type="bibr" rid="B19">INEP, 2023</xref>), o ensino médio
				seria a etapa mais crítica no que se refere à “evasão escolar”, considerando-se que,
				logo no 1º ano de ensino, verifica-se uma “taxa de abandono” de 7% somada a uma taxa
				de 4,1% de reprovação. Destacamos os termos evasão escolar e taxa de abandono para
				assinalar o quanto a própria definição de indicadores distorce a apresentação da
				realidade, mantendo a impressão de que a exclusão da escola é resultante da ação dos
				alunos e de suas famílias, quando inúmeras análises já demonstraram os variados
				processos econômicos, sociais, políticos e institucionais que produzem a expulsão
				sistemática de crianças e jovens da escola.</p>
			<p>No estado do Rio de Janeiro essa realidade não é diferente, de cada 100 crianças
				matriculadas na educação básica no estado do Rio de Janeiro, apenas 67 conseguem
				concluir o ensino médio até os 19 anos (<xref ref-type="bibr" rid="B18">INEP,
					2021</xref>). Essa informação nos mostra o gargalo que esta etapa educacional
				representa para a população subalternizada poder concluir seu percurso de
				escolarização, assim como a distância que o poder público ainda está de conseguir
				universalizar o acesso e sobretudo a permanência durante os 12 anos de educação
				obrigatória. Ainda segundo o INEP (<xref ref-type="bibr" rid="B18">2021</xref>), a
				rede pública estadual de educação concentra majoritariamente as matrículas do ensino
				médio no estado, um total de 76,5%.</p>
			<p>As informações reveladas pelo INEP e pelo IBGE nos mostram que ainda nos dias de hoje
				persiste uma tendência a tratar a EJA como uma política pública educacional de
				direito à educação reparadora para as pessoas consideradas fora da idade-série
				“adequada”. Entretanto, mesmo nesse caso, há relevantes contradições, como podemos
				observar quando se verifica que o percentual de matrículas na modalidade caiu 7%, em
				âmbito nacional, quando comparados os anos de 2022 e 2023 (INEP, 2024). No estado do
				Rio de Janeiro, no ano de 2020 tinha-se 116.439 estudantes matriculados na
				modalidade (<xref ref-type="bibr" rid="B18">INEP, 2021</xref>), já no ano de 2023
				apenas 84.884 (INEP, 2024), expressando um decréscimo de 31.555 matrículas
				ativas.</p>
			<p>O materialismo histórico-dialético é o referencial teórico do artigo, estando ele
				presente na análise das categorias e na busca de compreensão do que se desvela para
				além do aparente na concreticidade estudada. Para tal, fizemos uso dos autores David
				Harvey, Ricardo Antunes, Renan Cantor, Nicos Poulantzas, Henri Lefebvre entre
				outros.</p>
			<p>Na primeira seção do texto, faremos uma breve contextualização histórica do Brasil,
				de 2013 até o presente, assim como uma análise da composição do poder político
				presente no território da Grande Iguaçu, por entendermos que são questões que
				implicam diretamente nas esferas do trabalho e da educação.</p>
			<p>A segunda seção trata a particularidade do trabalho, suas divisões, e a nova
				morfologia da classe trabalhadora. Pela indissociabilidade com o espaço socialmente
				produzido, analisaremos tais categorias associadas as implicações sobre a realidade
				concreta da região da Grande Iguaçu.</p>
			<p>A terceira seção analisa as implicações do processo de produção da vida junto aos
				processos formativos de escolarização formal da juventude periférica da Grande
				Iguaçu, através de exame dos dados de matrículas, turmas e escolas de EJA vinculados
				à Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC-RJ) no estado e na
				referia região.</p>
			<p>Nas considerações finais, ressaltamos que na especificidade histórica, da transição
				governamental nacional de um grupo político de extrema direita com viés fascista à
				um grupo recém eleito e empossado que engendra em seu núcleo uma frente ampla e
				diversa de diferentes partidos políticos, mas, sobretudo, comprometidos com o Estado
				democrático de direito, há, em curso, tentativas de mudanças no cenário político que
				visam a produção de políticas públicas voltadas para a produção de empregos,
				inclusão social e fortalecimento da escola de massa.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Contextualização política nacional e local</title>
			<p>No Brasil, após alguns avanços pontuais das políticas sociais, conquistadas
				especialmente nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e nos primeiros
				anos do primeiro governo Dilma Rousseff (2011-2013) - como o aumento real do salário
				mínimo, a democratização do acesso ao ensino superior com as políticas de ações
				afirmativas, o reconhecimento dos direitos trabalhistas das domésticas, o
				alargamento de instituições educacionais de educação básica de qualidade em diversas
				regiões do país (os Institutos Federais), o fortalecimento da criação de postos de
				trabalho e emprego (ainda que contraditoriamente boa parte tenha se dado em um
				quadro de desregulamentação e de valorização do empreendedorismo), bem como o acesso
				ao crédito e à casa própria através de políticas públicas de fomento -, o avanço das
				contrarreformas neoliberais vem se dando de modo mais agudo, em especial, a partir
				do final do primeiro mandato da presidenta Dilma.</p>
			<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B3">Antunes (2018)</xref>, a partir de 2013, com o
				acirramento da crise econômica internacional, começou gradativamente a cindir-se a
				base social burguesa que até então dava apoio aos governos do Partido dos
				Trabalhadores e de suas bases aliadas, e que, praticamente sustentava o pacto de
				conciliação de classes firmado desde a campanha eleitoral de 2002. Tal processo se
				acentuou com as mobilizações populares iniciadas em junho de 2013, com protagonismo
				da juventude, tendo como pauta inicial o aumento da tarifa de ônibus em 20 centavos
				na cidade de São Paulo, e se expandindo por diversas cidades do país com outras
				reinvindicações, como saúde e educação públicas de qualidade, diminuição de impostos
				e combate à corrupção, dando início a diversas greves e chegando a quase todas as
				regiões do país. Contudo, em especial, através da pauta de combate à corrupção, tais
				mobilizações foram cooptadas por segmentos protofascistas da sociedade, com
				importantes ramificações com instituições políticas e midiáticas que viriam a atuar
				incisivamente no acirramento de uma crise política de graves dimensões. Tais
				movimentos se caracterizavam</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] pela percepção de que o projeto que vinha se desenvolvendo no Brasil desde
					a década de 1990 (inicialmente com FHC, depois com Lula e Dilma, que, como já
					sugerimos, tinham os mesmos pilares básicos em sua política econômica) havia
					enfim se esgotado[...] (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Antunes, 2018</xref>, p.
					231-232).</p>
			</disp-quote>
			<p>Nessa conjuntura econômico-política-social, com um processo eleitoral bastante
				conturbado, a presidenta Dilma consegue se reeleger em 2014, diga-se de passagem,
				com um resultado bastante apertado (51,6%). Para o candidato perdedor, Aécio Neves
				(PSDB), o processo eleitoral continuou, e seu modo de operação se deu sob o
				financiamento de publicidades em programas de rádio, televisão e redes sociais, que
				descredibilizavam o processo eleitoral, colocando sua veracidade em questão e
				ganhando espaço em um país cada dia mais fragmentado politicamente.</p>
			<p>Nesse contexto, a burguesia se unifica em torno do impedimento de Dilma, rompendo com
				o pacto interclassista. O capital se articula e implementa um golpe junto com o
				parlamento, o judiciário e a mídia televisiva, aprovando um processo de impedimento
				em dezembro de 2015, no qual a presidenta Dilma é destituída do cargo, sendo assim
				empossado seu vice, Michel Temer (PMDB), como presidente do Brasil. Neste sentido,
				“os aparelhos de Estado consagram e reproduzem a hegemonia ao estabelecer um jogo
				(variável) de compromisso provisório entre o bloco no poder e fração de determinadas
				classes dominadas” (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Poulantzas, 1985</xref>, p.
				161), pois</p>
			<disp-quote>
				<p>As relações de força no seio do bloco no poder exprimem-se, enquanto precisamente
					relações de poder, pelas relações contraditórias no próprio seio do Estado e de
					seus aparelhos, sedes privilegiadas desta ou daquela fração do bloco no poder, e
					se manifestam igualmente como contradições internas entre as diversas
					intervenções do Estado atual (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Poulantzas,
						1975</xref>, p. 177).</p>
			</disp-quote>
			<p>Temer, com um governo marcado pelo estatismo autoritário (<xref ref-type="bibr"
					rid="B23">Poulantzas, 1977</xref>), dá início a um conjunto de reformas, de
				caráter regressivo, buscando reestruturar o capital, onde destacam-se as Leis da
				Terceirização Total nº 13.429/17 e da Reforma do Ensino Médio, Lei nº 13.415/17,
				além da Emenda Constitucional nº 55, que determinou o congelamento por vinte anos na
				ampliação do investimento nas pastas sociais, como educação e saúde pública. Essas
				ações vêm a conformar a nova dinâmica do mundo do trabalho, o que Ricardo <xref
					ref-type="bibr" rid="B3">Antunes (2018)</xref> denomina como o novo proletariado
				de serviços, onde</p>
			<disp-quote>
				<p>Em pleno século XXI, mais do que nunca, bilhões de homens e mulheres dependem de
					forma exclusiva do trabalho para sobreviver e encontram, cada vez mais,
					situações instáveis, precárias, ou vivenciam diretamente o flagelo do
					desemprego. Isto é, ao mesmo tempo que se amplia o contingente de trabalhadores
					e trabalhadoras em escala global, há uma redução imensa dos empregos; aqueles
					que se mantem empregados presenciam a corrosão dos seus direitos sociais e a
					erosão de suas conquistas históricas, consequência da lógica destrutiva do
					capital que, conforme expulsa centena de milhões de homens e mulheres do mundo
					produtivo (em sentido amplo), recria, nos mais distantes e longínquos espaços,
					novas modalidades de trabalho informal, intermitente, precarizado, “flexível”,
					depauperando ainda mais os níveis de remuneração daqueles que se mantêm
					trabalhando. (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Antunes, 2018</xref>, p. 25).</p>
			</disp-quote>
			<p>Nesse contexto, a reformulação curricular do ensino médio, aprovada em caráter
				emergencial e sem diálogo com estudantes, professores e comunidade acadêmica, sob o
				pseudoargumento de um maior protagonismo para os estudantes, retrata</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] a insanável contradição ético-política do pensamento e da moral capitalista
					do tipo dependente: perversamente autoritário. Imbuída do caráter ideológico
					instrumental, esta é conduzida como processo natural de modernização -
					fetichizada pelo determinismo tecnológico-inovador -, despida de relações de
					poder e sem historicidade. Ou seja, a história de luta voltada para a supressão
					do dualismo estrutural do Ensino Médio foi rasgada; não há sujeitos históricos,
					e sim alunos abstratos, jovens trabalhadores deslocados de suas condições
					objetivas e materiais reais (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Motta; Frigotto,
						2017</xref>, p.357).</p>
			</disp-quote>
			<p>Esse projeto educacional desvela a materialização, para os filhos e filhas da classe
				trabalhadora, de uma educação mais aligeirada e fragmentada, voltada aos trabalhos
				de cunho manual, e, até mesmo, para a conformação do não trabalho, propiciando,
				assim, um apagão nos conhecimentos/conteúdos crítico-reflexivos, que fomentam a
				desnaturalização da realidade social desigual vivenciada. Adensando nesta análise,
				temos que</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] vivemos atualmente no Brasil um momento histórico em que a educação vem
					sendo minimizada em prol de interesses de ordem ideológico-mercadológicos, e
					tenta-se manter as contradições entre as classes sociais, escondidas sob a falsa
					imagem de uma escola democrática e aberta à comunidade, como quer fazer crer a
					Lei nº 13.415/2017 com os itinerários formativos que na prática pretendem
					direcionar os estudantes para uma formação técnica profissional descolada de uma
					formação integral (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Gonçalves, 2019</xref>, p.
					52).</p>
			</disp-quote>
			<p>Posteriormente, com o fim do governo Michel Temer, e com o processo eleitoral de
				2018, grupos políticos de extrema direita ganham espaço, em especial nas redes
				sociais e na mídia hegemônica, com discursos reacionários e de descredito para com a
				política institucional. Como consequência disso, Jair Bolsonaro é eleito presidente
				do país. A partir de então,a agenda neoliberal ascende ainda mais no Estado
				brasileiro.</p>
			<p>Compreendemos o governo Bolsonaro como possuidor de características fascistas, visto
				que possui elementos comuns que o engendra nesta classificação, a saber:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] violenta cultura anticomunista, nacionalista e adversa ao pluralismo
					democrático de partidos, bem como na função insubstituível do chefe carismático
					e na exigência da eliminação de todas as liberdades individuais e coletivas.
					Todavia, estas características são encontráveis também em outras formas de
					regimes autoritários. A novidade está na mobilização plebiscitária não só das
					camadas médias, mas também das massas populares nos rituais do regime, no
					recurso sistemático a campanhas políticas, sociais e culturais para formar a
					opinião pública, com a ocupação permanente dos modernos meios de comunicação, de
					modo a angariar o consenso popular. (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Fresu,
						2017</xref>, p. 83).</p>
			</disp-quote>
			<p>Avançando nas reformas neoliberais, este governo consegue aprovar e sancionar a
				“Reforma da Previdência”. Mesmo não conseguindo aprovar um sistema previdenciário
				embasado na capitalização, como idealizava, em que o Estado se desobrigaria de sua
				participação solidária, e que toda responsabilidade recairia sobre os sujeitos no
				ato de guardar seus excedentes, esta Reforma estipula um coeficiente mínimo para
				aposentadoria, que vincula anos de contribuição e idade, que vem a dificultar
				consideravelmente a concretude da aposentadoria pelos trabalhadores e
				trabalhadoras.</p>
			<p>No quadriênio 2019-2022, a classe trabalhadora foi vilipendiada com o avanço de
				políticas econômicas que impactaram na destituição do poder de compra e de
				manutenção existencial da vida, tendo se intensificado com o advento da proliferação
				do vírus Sars Cov-2, culminando na pandemia do Covid-19. Constantemente se noticiou
				pessoas revirando caminhões de lixo, que recolhiam carcaças de carnes em açougues,
				tal como o desdenho por parte do chefe do poder executivo com as milhares de mortes
				que seguiam de modo crescente. Vinculado a esses fatos, teve-se a ação criminosa de
				negligenciar e recusar a compra de vacinas.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B4">Boito (2020</xref>, p. 16), corrobora para
				entendimento desta realidade, ao formular que</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] por o movimento fascista ser muito claro e seguro para definir os seus
					inimigos - o comunismo entendido em sentido muito amplo, a democracia burguesa,
					o feminismo -, mas, ao mesmo tempo, ser vago e confuso para definir o que ele
					pretende colocar no lugar. E por que? Porque o que ele pretende colocar no lugar
					é uma utopia reacionária, inviável, e os fascistas intuem essa inviabilidade.
					Aspiram uma sociedade capitalista sem movimento operário e popular organizado,
					aspiram o retorno das mulheres ao confinamento do trabalho doméstico, a volta da
					população LGBT à invisibilidade e assim por diante. Vem daí o seu irracionalismo
					e negacionismo. Quem pleiteia o impossível necessita negar a realidade e o
					conhecimento objetivo. Esse negacionismo é pronunciado no fascismo atual na sua
					atitude diante da pandemia de Covid-19.</p>
			</disp-quote>
			<p>No cenário local, estado do Rio de Janeiro, após a prisão recente de cinco
				ex-governadores, o governador eleito em 2018, Wilson Witzel, foi afastado do cargo
				em agosto de 2020 por ordem da justiça - antes mesmo de completar seu segundo ano de
				mandato. Foi condenado em um processo de impeachment na Assembleia Legislativa, em
				virtude de investigação de corrupção em contratos públicos para estruturação de
				leitos para Covid-19, tendo seu secretário de saúde preso. Na pasta da Educação não
				foi diferente, o Secretário Pedro Fernandes, que firmou contratos milionários com a
				plataforma educacional google, bem como tinha como horizonte a política de
				distribuição de vouchers, em parecerias público privada, para ofertar vagas na
				educação básica, ao invés de abrir novas turmas e escolas públicas, também acabou
				preso e destituído do cargo. É nesse contexto turbulento, em escalas nacional e
				local, que a juventude fluminense se vê literalmente com a vida ameaçada.</p>
			<p>No que se refere ao bloco político à frente dos poderes executivos municipais da
				região da Grande Iguaçu, tem-se que é constituído em sua totalidade, com exceção de
				Japeri, por partidos políticos conservadores e à direita, que não possuem uma agenda
				comprometida com a emancipação da classe trabalhadora. A última eleição para o
				pleito municipal (2020) teve o seguinte panorama, a saber: PL (Nova Iguaçu,
				Nilópolis e Mesquita), MDB (Duque de Caxias e Belford Roxo), DEM (São João de
				Meriti), Solidariedade (Queimados) e PDT (Japeri).</p>
			<p>Segundo Poulantzas, o Estado se constitui na “condensação material de uma relação
				contraditória”, sendo essa “uma relação de forças entre classes e frações de classe”
					(<xref ref-type="bibr" rid="B24">Poulantzas, 1985</xref>, p. 148). Ainda, para o
				autor, esses embates estão mediatizados “devido ao impacto das lutas populares nas
				contradições entre classes e frações dominantes em si mesmas. As contradições entre
				bloco no poder e classes dominadas intervêm diretamente nas contradições no seio do
				bloco no poder” (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Poulantzas, 1985</xref>,
				p.165).</p>
			<p>De modo a interpelar essa realidade, onde grupos dominantes que não possuem um
				compromisso ético, político e social com a classe trabalhadora ganham aderência
				popular e se firmam como poder político oficial, temos que a constituição histórica
				da região da Grande Iguaçu se dá através de ações assistencialistas que visam sanar
				problemáticas cotidianas em curtos períodos, ou seja, refletindo, assim, uma
				passagem do coronelismo ao clientelismo.</p>
			<p>A constituição do adensamento populacional do território da Grande Iguaçu se deu
				através da prática de loteamentos, advinda da crise agrícola, reflexo da segunda
				guerra mundial, bem como pela implementação das redes ferroviárias, por parte do
				Estado, que facilitaram a locomoção dessa região para a cidade do Rio de Janeiro.
				Destarte, também foram construídas fábricas de grande porte na Grande Iguaçu (<xref
					ref-type="bibr" rid="B1">Albuquerque, 2020</xref>).</p>
			<p>Foi através desse processo de divisão de terras que se iniciou a dinâmica dos grupos
				paramilitares sob a égide do coronelismo. Esses sujeitos se declaravam proprietários
				dos lotes e os tomavam à revelia, sob a implementação da cultura do medo e, até
				mesmo, da coerção física (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Albuquerque,
				2020</xref>).</p>
			<p>Esse cenário foi potencializado, e</p>
			<disp-quote>
				<p>Os aparatos para oficiais e oficiais de extermínio passam a “desovar” os “ovos”
					gerados no processo de retração do capital e de crise econômica somado à
					formação de centros-periferias e, consequentemente, da guerra de classe dentro
					das sub-regiões da Baixada. A violência do extermínio foi assim convocada para
					garantir a manutenção dos interesses econômicos e políticos dos que tinham na
					Baixada seus grandes negócios (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Alves,
					1994</xref>, p. 10).</p>
			</disp-quote>
			<p>Essa situação expressa pelo poder local instituído na região da Grande Iguaçu reflete
				marcas da historicização do Brasil enquanto uma sociedade interrompida, onde a
				burguesia nacional não rompeu com o passado, mas sim se associou com a oligarquia
					(<xref ref-type="bibr" rid="B9">Fernandes, 2020</xref>).</p>
			<p>Desse modo, buscando entender o fluxo do capital para compreender as condições de
				vida e sobrevida dos jovens no cenário das políticas públicas educacionais do Rio de
				Janeiro, tendo o cuidado para tratar das determinações econômicas que impactam os
				processos educacionais e, principalmente, a escolarização desses sujeitos; e
				trazendo ao debate os processos de potencialização da precarização da venda da força
				de trabalho agudizados pela uberização combinada com o desalento, é fundamental ter
				o nível político analisado sob o guarda-chuva da instância regional do modo de
				produção capitalista (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Poulantzas, 1977</xref>).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A categoria trabalho e suas configurações na Grande Iguaçu</title>
			<p>A categoria trabalho sempre esteve em destaque na literatura marxista, bem como nas
				análises implicadas pelo método delineado por Marx e Engels, intitulado de
				materialismo histórico-dialético, pois, para o próprio Marx, ela é regida por um
				caráter ontológico no qual distingue os homens e as mulheres dos demais seres vivos.
				É através do trabalho que homens e mulheres se realizam e que a vida toma
				materialidade e vinculação social.</p>
			<p>Para o geógrafo David Harvey,</p>
			<disp-quote>
				<p>a divisão do trabalho deveria, por direito próprio, situar-se como a
					característica fundamental do capital. Refere-se à capacidade humana de decompor
					atividades produtivas e reprodutivas complexas em tarefas específicas, porém
					mais simples, que possam ser cumpridas por diferentes indivíduos, de maneira
					temporária ou permanente. [...] O problema central apresentado pela divisão do
					trabalho é a relação entre as partes e o todo e quem (se é que alguém) assume a
					responsabilidade pela evolução do todo. (2016, p. 82).</p>
			</disp-quote>
			<p>Na dialética entre as partes e o todo, assim como em seu desdobramento, tem-se na
				contemporaneidade o capitalismo enquanto sistema e como grande agente condutor do
				processo. A organicidade do capital se dá na medida em que esse processo busca a
				máxima produção de mercadorias, tal como uma maior lucratividade. Desse modo, toda
				uma lógica de colaboração entre os sujeitos, pautada pela solidariedade, é
				substituída pela competitividade, pautada pela individualização de trabalhadores e
				trabalhadoras.</p>
			<p>Sendo assim, qualquer ação demandada pelo capital, tal como já vistas ao longo da
				história, com o uso de tecnologias industriais e informacionais, não foram pensadas
				e produzidas para facilitar a cotidianidade da vida humana, dando melhores condições
				para sua existência, mas sim para ampliação da geração de lucros dos capitalistas.
				Nesse contexto, <xref ref-type="bibr" rid="B14">Harvey (2016</xref>, p. 82) afirma
				que “se há melhorias na qualidade de vida e no trabalho, como claramente há,
				trata-se de um efeito colateral ou uma consequência das demandas e pressões
				políticas das populações descontentes e revoltadas”.</p>
			<p>Por detrás de implementações do capital, como de sua base de sustentação ideológica,
				concebe-se uma pseudoideia de liberdade com fulcro de angariar mobilização da massa
				de trabalhadores e trabalhadoras. Segundo a historiadora Virginia <xref
					ref-type="bibr" rid="B10">Fontes (2010)</xref>, a produção dessa liberdade
				(expropriação)</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] é sempre condição para e resultado da ampliação das condições sociais de
					cunho capitalista. Essa liberdade é real, pois os seres sociais estão
					defrontados de maneira direta à sua própria necessidade, e ilusória, pois vela
					as condições determinadas que subordinam os seres sociais e, portanto, as
					condições sob as quais o trabalho precisa se escrever. (<xref ref-type="bibr"
						rid="B10">Fontes, 2010</xref>, p. 43).</p>
			</disp-quote>
			<p>Indo ao encontro desse entendimento, <xref ref-type="bibr" rid="B6">Cantor
					(2019)</xref> aponta que</p>
			<disp-quote>
				<p>no mundo contemporâneo, a expropriação do tempo estendeu-se a todos os âmbitos da
					vida e não se limita, como antes, ao âmbito do trabalho. No capitalismo atual, a
					expropriação do tempo da vida expressa-se, de maneira paradoxal, na falta de
					tempo. Isso é ocasionado pelo culto da velocidade, pela aceleração dos ritmos,
					pela dilatação dos trajetos nas cidades, pela incorporação das periferias
					urbanas mediante a generalização do automóvel, pelos engarrafamentos causados
					pelo excesso de veículos privados, pela transformação do ócio em mercadoria,
					pela onipresença escravizadora do celular, pela submissão à televisão, em frente
					da qual as pessoas passam boa parte de sua existência, pela ampliação da jornada
					de trabalho [...] (2019, p. 47).</p>
			</disp-quote>
			<p>No contexto de uma falsa promessa da liberdade, de autogestão do tempo pelo
				indivíduo, potencializada pela crescente inserção de maquinários
				informacionais-digitais, urge o que Antunes define como</p>
			<disp-quote>
				<p>novo proletariado da era digital, cujos trabalhos, mais ou menos intermitentes,
					mais ou menos constantes, ganharam novo impulso com as TICs, que conectam, pelos
					celulares, as mais distintas modalidades de trabalho. Portanto, em vez do fim do
					trabalho na era digital, estamos vivenciando o crescimento exponencial do novo
					proletariado de serviços, uma variante global do que se pode denominar
					escravidão digital. Em pleno século XXI. (2018, p. 30).</p>
			</disp-quote>
			<p>A partir da compreensão dessa nova configuração do mundo do trabalho, ou seja, sua
				“nova morfologia”, organizamos a tabela abaixo, que mostra o percentual da população
				ocupada de cada município da Grande Iguaçu.</p>
			<table-wrap id="t1">
				<label>Tabela 1</label>
				<caption>
					<title>População ocupada da Grande Iguaçu por Municípios, ano base 2020.</title>
				</caption>
				<table>
					<thead>
						<tr>
							<th align="left" style="background-color:#c2d7ed;" valign="top"
								>MunICípIo</th>
							<th align="center" style="background-color:#c2d7ed;" valign="top"
								>populAção oCupAdA (%)</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Nova Iguaçu</td>
							<td align="center" valign="top">12,1</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top">Duque de
								Caxias</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top"
								>17,5</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">São João de Meriti</td>
							<td align="center" valign="top">12,1</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top"
								>Nilópolis</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top"
								>11,9</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Belford Roxo</td>
							<td align="center" valign="top">6,2</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top"
								>Mesquita</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top"
								>9,6</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Japeri</td>
							<td align="center" valign="top">8,2</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top"
								>Queimados</td>
							<td align="center" style="background-color:#e6e7e8;" valign="top"
								>11</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib><bold>Fonte:</bold><xref ref-type="bibr" rid="B17">IBGE,
						2023</xref>.</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
			<p>Esses dados descortinam o fracasso por detrás da falsa promessa das contrarreformas
				neoliberais aprovadas no Brasil, em especial, da “Reforma Trabalhista” e da Lei da
				Terceirização Total, que se utilizaram da retórica do alavancar a oferta de postos
				de trabalho e emprego para ganhar aderência no debate público e se firmarem enquanto
				legislações nacionais. Mesmo sabendo que o referido período estava sob a égide da
				pandemia do Covid-19, que potencializou a maior crise econômica e social vivenciada
				pela atual geração, pode-se perceber que regiões periféricas tendem a sofrer o
				impacto negativo de forma mais acentuado.</p>
			<p>O ano de 2020 representou a menor taxa de ocupação já vista desde o início das
				pesquisas pelo IBGE onde o percentual de pessoas ocupadas na população em idade de
				trabalhar chegou a 49,5% (cf. <xref ref-type="bibr" rid="B8">EBC, 2021</xref>). A
				realidade da região da Grande Iguaçu foi bem mais crítica, ao apresentar como
				percentual médio a taxa de 11,1%. Cabe ressaltar que mesmo dentro dessa região
				periférica há uma grande desigualdade, que o próprio índice nos mostra, onde o
				município de Belford Roxo apresentou apenas 6,2% de sua população em idade de
				trabalhar ocupada, enquanto o município de Duque de Caxias apresentou a taxa de
				17,5%, ou seja, um percentual quase três vezes maior (<xref ref-type="bibr"
					rid="B17">IBGE, 2023</xref>).</p>
			<p>Seguindo a tendencia demandada pelo sistema capitalista, ao analisarmos os dados da
				quantidade de empresas instaladas na região da Grande Iguaçu através do setor
				econômico de atuação e do porte de cada uma, junto à plataforma <xref
					ref-type="bibr" rid="B7">Datasebrae (2023)</xref>, verificamos que a realidade
				desta região é de um setor econômico voltado para o setor de serviços, em primeiro
				lugar, e com a grande maioria dos Cadastros Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ)
				figurando como Microempreendedor Individual (MEI), ou seja, é a pessoa que trabalha
				por conta própria.</p>
			<p>De modo a proporcionar uma melhor visualização, elaboramos o gráfico abaixo que
				mostra a realidade da disposição das empresas por tipo de atuação junto ao setor
				econômico correspondente.</p>
			<p>Com base na proporcionalidade mostrada no <xref ref-type="fig" rid="f1">gráfico
					1</xref> vemos que setores que outrora foram protagonistas nessa região, como o
				comércio e a indústria, perderam espaço para o setor de serviços. O setor de
				comércio sempre teve grande aderência na região da Grande Iguaçu, com destaque para
				os municípios de Duque de Caxias, Nova Iguaçu e o bairro de Vilar dos Teles em São
				João de Meriti. Já no que tange à indústria, devido ter a Rodovia Presidente Dutra,
				que interliga os estados do Rio de Janeiro e São Paulo, perpassando seu território,
				promoveu-se a instalação de inúmeras indústrias à sua margem, em especial nos anos
				de 1950. Essa situação levou a um movimento de migração de populações do interior do
				país e, em especial, da região Nordeste. Devido a sua localização, a região da
				Grande Iguaçu foi o destino de parcela considerável desses sujeitos.</p>
			<p>
				<fig id="f1">
					<label>Gráfico 1</label>
					<caption>
						<title>Disposição das empresas por Setor Econômico.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2358-0194-faeeba-33-76-0373-gf01.tif"
						xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink"/>
					<attrib><bold>Fonte:</bold> Elaborados pelos autores a partir dos dados da
						plataforma <xref ref-type="bibr" rid="B7">DataSebrae (2023)</xref>.</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Como face da política neoliberal contemporânea que visa responsabilizar o indivíduo e
				desprotegê-lo de todo e qualquer aparato social por parte do Estado, podemos
				constatar, através do <xref ref-type="fig" rid="f2">gráfico 2</xref>, que parte do
				contingente de trabalhadores e trabalhadoras que antes vivenciavam e/ou buscavam a
				dinâmica de empregar-se em uma empresa e ter uma realidade de vida com maiores
				chances de estabilidade, hoje, tendem a trabalhar inúmeras horas concorrendo entre
				si e não tendo o direito nem mesmo de adoecer, pois, se isso acontece, não conseguem
				o ordenado mínimo para manutenção de suas vidas.</p>
			<p>
				<fig id="f2">
					<label>Gráfico 2</label>
					<caption>
						<title>Disposição das empresas por porte.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2358-0194-faeeba-33-76-0373-gf02.tif"
						xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink"/>
					<attrib><bold>Fonte:</bold> Elaborado pelos autores a partir dos dados da
						plataforma <xref ref-type="bibr" rid="B7">DataSebrae (2023)</xref>.</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>A partir do <xref ref-type="fig" rid="f2">gráfico 2</xref>, podemos ver que, na
				verdade, há poucos postos de trabalho na região da Grande Iguaçu, pois, segundo a
				legislação, o MEI, que representa 72% das empresas locais, pode contratar, somente,
				um funcionário ou um estagiário. Essa situação faz com que parte da população
				trabalhadora desta região precise se deslocar diariamente para a cidade do Rio de
				Janeiro, capital do estado, para vender sua força de trabalho ou buscar quem queira
				comprá-la.</p>
			<p>De modo a agravar essa realidade, se tem que o Rio de Janeiro é um dos estados com o
				valor do transporte público mais caro, o tempo de deslocamento residência-trabalho
				da Grande Iguaçu é expressivo e os transportes são superlotados e
				desconfortáveis.</p>
			<disp-quote>
				<p>No caso da metrópole do Rio, essas desigualdades parecem ser, portanto, ainda
					mais relevantes e estudos mais panorâmicos de fato não conseguiriam captar o
					efeito da desigualdade social e da segregação residencial sobre o acesso ao
					sistema de transporte e, consequentemente, sobre as condições de deslocamento
					cotidiano. Do ponto de vista dos territórios, a desigualdade também é evidente.
					A metrópole já é conhecida por ter o município com o maior tempo de deslocamento
					do Brasil - Japeri, na região da Baixada Fluminense. Lá o tempo médio de
					deslocamento apenas de ida para o trabalho é de quase 69 minutos, contra 47 da
					cidade do Rio ou, ainda, 34 minutos de sua vizinha Paracambi. (<xref
						ref-type="bibr" rid="B25">Rodrigues, 2018</xref>, p.2).</p>
			</disp-quote>
			<p>Nesse sentido, podemos situar essa segregação do direito ao trabalho em sua cidade de
				residência à crítica que <xref ref-type="bibr" rid="B20">Lefebvre (1999)</xref> faz
				à drástica desvinculação das atividades no espaço, como uma forma de segregação do
				direito à cidade.</p>
			<p>Destarte, para garantir aderência do proletariado, o capital usa-se do discurso de
				que todos devem buscar ser seus próprios patrões, assim como, que, a partir do
				esforço individual os sujeitos podem galgar espaço e concorrer junto à
				burguesia.</p>
			<p>Indo de encontro a esse ideário propalado pelo capital, Antunes formula que</p>
			<disp-quote>
				<p>Partimos da hipótese que os trabalhadores e as trabalhadoras em serviços (como
					call-centers, telemarketing, indústria de softwares e TICs, hotelaria, shoppings
					centers, hipermercados, redes de fast-food, grande comércio, entre tantos
					outros) encontram-se cada vez mais distanciados daquelas modalidades de trabalho
					intelectual que particularizam as classes médias e, dada a tendência de
					assalariamento, proletarização e mercadorização, aproximam-se daquilo que
					denominamos novo proletariado de serviços. (<xref ref-type="bibr" rid="B3"
						>Antunes, 2018</xref>, p. 53).</p>
			</disp-quote>
			<p>A composição desse novo proletariado de serviços no Brasil é de sujeitos jovens, com
				idade entre 18 e 30 anos, e negros, compondo, assim, a força de trabalho mais barata
				e mais precarizada do mercado (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Tavares,
				2022</xref>). O capital, através de agências internacionais e de conglomerados de
				grandes empresas multinacionais, não tem medido esforços para consolidação de um
				projeto pedagógico voltado para a formação desse novo proletariado de serviços.</p>
			<p>É nesse sentido, para formar indivíduos para atuação nessa nova configuração do mundo
				do trabalho, que se deu a Reforma do ensino médio e que vem avançando as agendas
				nacional e locais de políticas públicas educacionais, em espacial, as voltadas para
				os jovens e adultos. Dialogaremos sobre esse cenário na próxima seção.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Educação de Jovens e Adultos trabalhadores</title>
			<p>A partir dos dados elencados na introdução deste texto, podemos verificar que há um
				público potencial de estudantes da EJA que não se encontra com seu direito à
				educação assegurado, pois cerca de 47,9% das pessoas residentes no estado do RJ com
				15 anos ou mais não concluíram o ensino médio e não frequentam a escola (<xref
					ref-type="bibr" rid="B16">IBGE, 2022</xref>).</p>
			<p>Essa situação crítica vivenciada pela população fluminense vai ao encontro dos dados
				que evidenciam que o RJ possuía a terceira maior taxa de desemprego do país no ano
				de 2022, com um contingente aproximado de 1,3 milhão de desempregados (<xref
					ref-type="bibr" rid="B16">IBGE, 2022</xref>).</p>
			<p>É a partir dessas variáveis que buscamos compreender os tensionamentos relacionados
				ao entorno das políticas públicas gerenciadas pela SEEDUC-RJ para a EJA, visto que
				nos últimos anos tem se buscado o fechamento de turmas e escolas que ofertam a
				modalidade com a justificativa de não haver procura por parte dos estudantes. Ou
				seja, são culpabilizados os milhares de sujeitos, que, como vimos, encontram-se em
				situações de extrema dificuldade para a manutenção da vida e sem perspectivas de
				futuro, para se justificar a negação de um direito que está expresso em legislações
				internacionais e nacionais: a educação escolar.</p>
			<p>No sistema capitalista e, em especial, nos países em desenvolvimento, as instituições
				do Estado são vítimas de ações constantes que visam a sua marginalização, de modo a
				que se estabeleça um mercado para que o capital possa se fincar. É a busca do lucro
				em todo e qualquer espaço, no intuito de se transformar tudo em mercadorias, e a
				educação é permeada por esse tensionamento.</p>
			<p>Nesse contexto, as trajetórias dos sujeitos das classes populares são marcadas pela
				dificuldade de acesso e de permanência em relação ao nível de educação instituído
				como o básico. E isto vem a se complexificar assim que esses sujeitos alcançam uma
				idade mínima que os possibilite vender suas forças de trabalho frente a necessidade
				de cooperarem no sustento de suas famílias. Sendo assim, eles vivenciam desde muito
				novos a disputa entre trabalho e educação.</p>
			<p>Em um cenário marcado pelo expressivo quantitativo do chamado exército de reserva,
				uma parcela considerável da juventude brasileira se configura como os “nem-nem”, ou
				seja, aqueles que nem trabalham e nem estudam. Esses</p>
			<disp-quote>
				<p>constituem a população de supérfluos interessante ao setor produtivo como força
					de trabalho em reserva, os sobrantes. Perversamente, por já vivenciarem as
					experiências mais vivas da precarização, pois já nascidos sob o desmonte do
					Estado Social brasileiro, legitimam tal condição e orientam suas vidas por este
					horizonte. Na verdade, a legitimação da precarização se apresenta como o maior
					desafio do capital, ou seja, convencer aos jovens de futuro interditado ou em
					suspenso, sem produzir o desalento (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Gouveia,
						2019</xref>, p. 130).</p>
			</disp-quote>
			<p>Essa condição é sustentada por uma agenda de reestruturação curricular da educação
				básica, que envolve desde a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC)
				até a instituição de uma reforma do ensino médio de caráter regressivo, que têm em
				seus núcleos de trabalho as famigeradas competências socioemocionais, que expressam
				a busca em preparar os sujeitos para uma auto conformação à realidade degradada
				instituída, bem como para serem “protagonistas” das suas histórias, ou seja,
				responsabilizados pelo fracasso estrutural do sistema capitalista.</p>
			<p>Entendemos que essas são questões e ações centrais de contrarreforma do Estado
				burguês para a adaptabilidade da educação à crise do capitalismo e de
				institucionalização do empresariado no comando da educação pública, através de
				políticas educacionais de cunho gerencialista.</p>
			<p>No processo de instauração de reformas educacionais regressivas, ainda em 2018, o
				governo federal promulgou a Resolução nº 3, que atualizou as Diretrizes Curriculares
				Nacionais para o ensino médio. Esta prevê que “na modalidade de Educação de Jovens e
				Adultos é possível oferecer até 80% (oitenta por cento) de sua carga horária a
				distância” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Brasil, 2018</xref>). Desse modo,
				abriu-se a possibilidade de aprofundar o processo de desescolarização da EJA já
				intensificado por uma política de peso de governo em prol dos exames de
				certificação, neste caso, o Exame Nacional para Certificação de Competências de
				Jovens e Adultos (ENCCEJA), e pela oferta de cursos na modalidade semipresencial,
				como nos Centros de Educação de Jovens e Adultos (CEJA). No Rio de Janeiro, o CEJA,
				que oferta a modalidade em três módulos com estrutura em 80% a distância, passou a
				contar, no ano de 2022, com uma nova política da SEEDUC-RJ, que é o processo de
				chamadas, por edital, duas a três vezes ao ano, para provas de certificação de seus
				estudantes matriculados. Desse modo, se o estudante realiza a prova e obtém êxito, é
				automaticamente certificado, perdendo o vínculo com a unidade escolar.</p>
			<p>Segundo dados abertos disponíveis no site da <xref ref-type="bibr" rid="B26"
					>SEEDUC-RJ (2023)</xref>, a região da Grande Iguaçu, que contempla três
				Coordenadorias Regionais, Metropolitanas 1, 5 e 7, possui um total de 88 escolas que
				ofertam a Educação de Jovens e Adultos. De modo a melhor compreendermos a
				problemática da oferta de EJA, nesse contexto, comparamos este quantitativo de
				escolas com o do ano de 2016, e observamos um decréscimo de 22 escolas, o que
				corresponde a - 20% da capacidade de oferta. Para uma melhor exposição da situação,
				elaboramos o <xref ref-type="fig" rid="f3">gráfico 3</xref>.</p>
			<p>
				<fig id="f3">
					<label>Gráfico 3</label>
					<caption>
						<title>Comparativo do número de escolas de EJA SEEDUC-RJ na Grande
							Iguaçu.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2358-0194-faeeba-33-76-0373-gf03.tif"
						xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink"/>
					<attrib><bold>Fonte:</bold> Elaborado pelos autores a partir de dados abertos da
						SEEDUC-RJ.</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>
				<fig id="f4">
					<label>Gráfico 4</label>
					<caption>
						<title>Número de turmas de EJA na rede estadual do RJ.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2358-0194-faeeba-33-76-0373-gf04.tif"
						xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink"/>
					<attrib><bold>Fonte:</bold> Elaborado pelos autores a partir de dados abertos da
						SEEDUC-RJ.</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>
				<fig id="f5">
					<label>Gráfico 5</label>
					<caption>
						<title>Comparativo entre o número de matrículas.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2358-0194-faeeba-33-76-0373-gf05.tif"
						xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink"/>
					<attrib><bold>Fonte:</bold> Elaborado pelos autores a partir de dados abertos da
						SEEDUC-RJ.</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Prosseguindo a análise, o número total de turmas de EJA na SEEDUC-RJ caiu, de 600, em
				2016, para 544, em 2021, o que tende a comprovar, quando associamos esse dado ao
				processo de fechamento de escolas que ofertam a modalidade, a diminuição de sua
				oferta. O gráfico abaixo retrata tal situação.</p>
			<p>Contudo, ao olharmos os dados referentes à matrícula, percebemos o caminho inverso,
				ou seja, um crescimento do quantitativo. O número de matrículas saltou de 20.822, em
				2016, para 23.761, em 2021. Esse aumento nos leva a ter como hipótese que o governo
				do estado do Rio de Janeiro tem passado a adotar nos últimos anos o CEJA como
				política central para a oferta de EJA, pois há uma concreta diminuição de escolas e
				turmas em contrapartida ao aumento de matrículas, ou seja, uma incompatibilidade
				física estrutural. Outro fator que corrobora essa análise é que, ao disponibilizar
				os dados, a SEEDUC-RJ não faz distinção entre as modalidades presenciais e
				semipresenciais, alterando evidentemente a informação pública relativa às condições
				efetivas de oferta e de escolarização.</p>
			<p>A região da Grande Iguaçu é demandante de 36% das matrículas de EJA junto à rede
				estadual de educação. Desse modo, não há possibilidade de se pensar políticas para
				essa modalidade sem pensar as especificidades que circundam o referido território,
				bem como seus habitantes. Elaboramos o <xref ref-type="fig" rid="f6">gráfico
					6</xref> para mostrar a realidade das matrículas.</p>
			<p>
				<fig id="f6">
					<label>Gráfico 6</label>
					<caption>
						<title>Comparativo entre matrículas Grande Iguaçu e estado do RJ.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2358-0194-faeeba-33-76-0373-gf06.tif"
						xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink"/>
					<attrib><bold>Fonte:</bold> Elaborado pelos autores a partir de dados abertos da
						SEEDUC-RJ.</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Esses dados ajudam a reforçar a percepção de que a política pública direcionada à
				educação dos jovens e adultos trabalhadores e trabalhadoras aqui analisada vem
				firmando compromissos com as agendas do capital, expressas, entre outros meios, em
				orientações e induções de organismos supranacionais dirigidos à racionalização da
				oferta, à aceleração da escolarização e da mudança superficial dos dados de
				escolaridade, à redução dos conteúdos formativos e ao direcionamento da formação
				escolar, como um todo, para a conformação com uma realidade econômico-social
				estruturalmente desigual.</p>
			<p>Entre outras medidas da política educacional alinhadas com esse programa de
				racionalização e instrumentalização da educação escolar, o caráter regressivo dessa
				perspectiva e suas estratégias de ocultação ou distorção da realidade podem ser
				reconhecidos nas políticas de aferição da qualidade educacional através de índices
				compostos por avaliações em larga escala, que não consideram a criticidade como
				elemento central da formação dos sujeitos e concorrem para ajustar os processos
				formativos à produção de resultados sintéticos que dão a impressão de melhoria da
				formação escolar. Um exemplo bem ilustrativo desse caso é o índice de fluxo escolar,
				que permitem apresentar a redução da retenção e a aceleração da conclusão como fatos
				suficientes para comprovar avanços educacionais.</p>
			<p>A questão do fluxo escolar é particularmente relevante para as questões aqui
				analisadas, já que a EJA é utilizada para encobrir a realidade da educação regular,
				visto que, além de receber parte dos estudantes aos quais não foi garantida a
				aprendizagem, colaborando com a impressão de melhoria do fluxo de escolarização da
				educação regular, essa modalidade não participa das avaliações.</p>
			<p>O uso instrumental da EJA nessa dinâmica de racionalização e maquiagem da efetiva
				realidade do acesso à formação escolar vem implicando importantes alterações no
				público que passou a frequentá-la. Trata-se de estudantes que já estavam dentro da
				escola, mas que tiveram suas matrículas migradas ao atingirem a idade mínima para
				ingressar na EJA, e por comporem o público identificado, restritivamente, como em
				situação de distorção idade-série. Essa juventude que migra para a EJA vem sendo
				direcionada para a modalidade EaD/semipresencial e/ou para os exames de
				certificação, tendo negado o seu direito a frequentar o espaço escolar regular.</p>
			<p>Tendo esse quadro complexo em consideração, o que se anuncia com a implementação do
				novo currículo do ensino médio, que visa aumentar o período diário do estudante na
				escola, na forma de uma suposta escolarização em tempo integral, é que seja
				aumentado o número de potenciais jovens da classe trabalhadora demandantes da EJA,
				visto toda a complexidade já abordada, atinente à dualidade espaço-tempo
				trabalho-educação. Em uma sociedade que não superou desafios socioeconômicos
				elementares, a extensão da jornada escolar não tende a se configurar como mais tempo
				de formação para as muitas crianças e jovens que ainda precisam compor,
				precariamente e de variadas formas, educação e trabalho.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>A partir da análise das problemáticas abordadas no texto, buscamos contribuir para
				uma compreensão para além do aparente no que tange à precarização do trabalho e suas
				correlações com o processo de escolarização da juventude trabalhadora da região da
				Grande Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro.</p>
			<p>Verificamos, através da materialidade expressa pelos dados, assim como pela leitura
				crítica do percurso histórico e político, que a nova conformação do mundo do
				trabalho tem potencializado o processo de precarização, atomização e desalento dos
				jovens da classe trabalhadora. Esse cenário refrata a região da Grande Iguaçu, que
				tem a composição majoritária dos cadastros de empresas classificados na modalidade
				MEI, ou seja, o trabalhador e a trabalhadora que trabalham por conta própria e são
				submetidos à posição de uma empresa (Cnpjotização).</p>
			<p>Essa situação espelha o <italic>modus operandi</italic> do capital em buscar sair da
				crise vivenciada na contemporaneidade. Pudemos verificar que, no Brasil, essa nova
				conformação se deu a partir de contrarreformas do Estado burguês, engendradas,
				especialmente, através do golpe político parlamentar e midiático de 2016.</p>
			<p>Junto à reestruturação neoliberal das legislações que concebem e regulamentam o
				trabalho e o direito dos trabalhadores e trabalhadoras, tivemos a reestruturação
				combinada do currículo da última etapa da educação básica, na forma de uma proposta
				de reforma denominada “novo ensino médio”. Essa reforma de caráter regressivo - uma
				espécie de contrarreforma - buscou aligeirar a formação dos jovens pertencentes à
				classe trabalhadora, conformando-os a uma realidade de desalento e precarização no
				que tange à venda de suas forças de trabalho e, por conseguinte, a uma condição
				existencial de manutenção da vida.</p>
			<p>Contudo, como a história é dinâmica e produzida pela ação de homens e mulheres, com a
				eleição de Lula para um terceiro mandato, em 2022, abre-se uma nova dinâmica de
				tensionamentos e disputas junto ao bloco do poder. Com isso, no campo da educação,
				defensores de um projeto educacional emancipatório para a classe trabalhadora
				adquirem novas condições de buscar inserção no diálogo institucional e de disputar
				espaço com grupos empresariais educacionais. Isto não se dá sem contradições e
				limitações, considerando-se que a nova eleição de Lula não eliminou a forte presença
				e influência de expressivas forças conservadoras atuantes no contexto anterior. Mas
				é possível pensar que o novo contexto apresenta novas condições de disputa de
				projetos a favor de políticas públicas educacionais intersetoriais que promovam um
				currículo do ensino médio comprometido com a emancipação da juventude da classe
				trabalhadora, bem como uma Educação de Jovens e Adultos que não se configure mais
				como um espaço para escamotear índices avaliativos com a migração de matrículas de
				jovens considerados em “distorção idade-série” do ensino regular.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
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