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	<front>
		<journal-meta>
			<journal-id journal-id-type="publisher-id">faeeba</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Rev. FAEEBA - Ed. e Contemp.</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. FAEEBA - Ed. e
					Contemp.</abbrev-journal-title>
			</journal-title-group>
			<issn pub-type="epub">2358-0194</issn>
			<publisher>
				<publisher-name>Universidade do Estado da Bahia</publisher-name>
			</publisher>
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		<article-meta>
			<article-id pub-id-type="doi"
				>10.21879/faeeba2358-0194.2023.v33.n73.p224-243</article-id>
			<article-categories>
				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigo</subject>
				</subj-group>
			</article-categories>
			<title-group>
				<article-title>INTERNACIONALIZAÇÃO DO CURRÍCULO: CONTEÚDOS PARA FORMAÇÃO EM
					FISIOTERAPIA NO BRASIL E EM PORTUGAL</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>INTERNATIONALIZATION OF THE CURRICULUM: CONTENTS FOR PHYSIOTHERAPY
						TRAINING IN BRAZIL AND PORTUGAL</trans-title>
				</trans-title-group>
				<trans-title-group xml:lang="es">
					<trans-title>INTERNACIONALIZACIÓN DEL CURRÍCULO: CONTENIDOS PARA LA FORMACIÓN EN
						FISIOTERAPIA EN BRASIL Y PORTUGAL</trans-title>
				</trans-title-group>
			</title-group>
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-9930-3102</contrib-id>
					<name>
						<surname>Silva</surname>
						<given-names>Marcia Regina da</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"/>
					<bio>
						<p>Doutora em Ciências da Saúde. Professora do Curso de Graduação em
							Fisioterapia da Universidade Comunitária da Região de Chapecó
							(Unochapecó). Membro do Grupo de Pesquisa Noctua - Formação e Trabalho
							em Saúde. E-mail: <email>marciaf@unochapeco.edu.br</email>.</p>
					</bio>
				</contrib>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-0326-2984</contrib-id>
					<name>
						<surname>Ferretti</surname>
						<given-names>Fátima Kremer</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff2"/>
					<bio>
						<p>Doutora em Ciências da Saúde. Professora do Curso de Graduação em
							Fisioterapia e do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde da
							Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó). Membro do
							Grupo de Pesquisa Noctua - Formação e Trabalho em Saúde. E-mail:
								<email>ferrettifisio@yahoo.com.br</email></p>
					</bio>
				</contrib>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-4318-3308</contrib-id>
					<name>
						<surname>Fernandes</surname>
						<given-names>Preciosa</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff3"/>
					<bio>
						<p>Doutora em Ciências da Educação. Professora associada da Faculdade de
							Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (UPorto),
							Diretora do Curso de Mestrado em Educação para a Saúde em parceria com a
							Faculdade de Medicina da UPorto. Co-lider do grupo de Currículo,
							Avaliação, Formação de Professores e Tecnologias Educativas (CAFTe).
							E-mail: <email>preciosa@fpce.up.pt</email></p>
					</bio>
				</contrib>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-1534-6261</contrib-id>
					<name>
						<surname>Teo</surname>
						<given-names>Carla Rosane Paz Arruda</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff4"/>
					<bio>
						<p>Doutora em Ciência de Alimentos. Professora do Curso de Graduação em
							Medicina e dos Programas de Pós-Graduação em Ciências da Saúde e em
							Educação da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó),
							Lider do Grupo de Pesquisa Noctua - Formação e Trabalho em Saúde e
							membro do Grupo de Pesquisa Formação de Professores, Currículo e
							Práticas Pedagógicas. E-mail:
							<email>carlateo@unochapeco.edu.br</email></p>
					</bio>
				</contrib>
			</contrib-group>
			<aff id="aff1">
				<institution content-type="orgname">Universidade Comunitária da Região de
					Chapecó</institution>
				<institution content-type="original">Universidade Comunitária da Região de
					Chapecó</institution>
			</aff>
			<aff id="aff2">
				<institution content-type="orgname">Universidade Comunitária da Região de
					Chapecó</institution>
				<institution content-type="original">Universidade Comunitária da Região de
					Chapecó</institution>
			</aff>
			<aff id="aff3">
				<institution content-type="orgname">Universidade do Porto</institution>
				<institution content-type="original">Universidade do Porto</institution>
			</aff>
			<aff id="aff4">
				<institution content-type="orgname">Universidade Comunitária da Região de
					Chapecó</institution>
				<institution content-type="original">Universidade Comunitária da Região de
					Chapecó</institution>
			</aff>
			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>01</day>
				<month>05</month>
				<year>2024</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Jan-Mar</season>
				<year>2024</year>
			</pub-date>
			<volume>33</volume>
			<issue>73</issue>
			<fpage>224</fpage>
			<lpage>243</lpage>
			<history>
				<date date-type="received">
					<day>12</day>
					<month>09</month>
					<year>2023</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
					<day>22</day>
					<month>12</month>
					<year>2023</year>
				</date>
			</history>
			<permissions>
				<license license-type="open-access"
					xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>O estudo analisou os conteúdos dos cursos de graduação em fisioterapia no Brasil
					e em Portugal em uma perspectiva de internacionalização do currículo. Estudo de
					casos múltiplos e integrados com análise documental das ementas/ planos de
					estudos de cinco cursos no Brasil e quatro em Portugal, mediante entrevistas
					semiestruturadas com gestores e grupos focais com professores por país. Com o
					auxílio do <italic>NVivo</italic>, utilizou-se a técnica de contagem de palavras
					e se fez a análise de conteúdo temática. Os conteúdos atendem às diretrizes
					nacionais e internacionais para a formação em fisioterapia em ambos os casos.
					Houve aproximações entre os cinco conteúdos mais citados por área. A
					convergência de conteúdos permitiu apontar caminhos para internacionalização do
					currículo, com sugestão de conteúdos nas áreas de conhecimentos que integrem
					diferentes áreas de saber. Ainda, estratégias de internacionalização em casa
					devem ser incentivadas, pois possibilitam que todos os estudantes sejam
					beneficiados.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>The study analyzed the contents of undergraduate courses in physiotherapy in
					Brazil and Portugal in a perspective of curriculum internationalization. Study
					of multiple and integrated cases with documentary analysis of the syllabuses/
					study plans of five courses in Brazil and four in Portugal, through
					semi-structured interviews with managers and focus groups with professors in
					each country. With the help of NVivo, the word count technique was used and
					thematic content analysis was performed. The contents comply with the national
					and international guidelines for training in physiotherapy in both cases. There
					were approximations between the five most cited contents by area. The
					convergence of contents allowed pointing out ways for the internationalization
					of the curriculum, with suggestions for contents in the areas of knowledge
					integrating different areas of knowledge. Furthermore, internationalization
					strategies at home should be encouraged, as they enable all students to be
					benefit.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>El estudio analizó los contenidos de los cursos de graduación en fisioterapia en
					Brasil y Portugal en una perspectiva de internacionalización del currículo.
					Estudio de casos múltiples e integrados con análisis documental de los
					programas/planes de estudio de cinco cursos en Brasil y cuatro en Portugal,
					mediante entrevistas semiestructuradas con gestores y grupos focales con
					profesores por país. Con la ayuda de NVivo, se utilizó la técnica de conteo de
					palabras y se llevó a cabo un análisis de contenido temático. Los contenidos
					cumplen con las directrices nacionales e internacionales para la formación en
					fisioterapia en ambos casos. Hubo aproximaciones entre los cinco contenidos más
					citados por área. La convergencia de contenidos permitió señalar caminos para la
					internacionalización del currículo, con sugerencia de contenidos en las áreas
					del conocimiento que integren diferentes áreas del conocimiento. Además, se
					deben fomentar estrategias de internacionalización en casa, ya que permiten que
					todos los estudiantes se beneficien.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Currículo</kwd>
				<kwd>Educação Superior</kwd>
				<kwd>Formação Profissional</kwd>
				<kwd>Fisioterapia</kwd>
				<kwd>Cooperação Internacional</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Curriculum</kwd>
				<kwd>Higher Education</kwd>
				<kwd>Professional Training</kwd>
				<kwd>Physiotherapy</kwd>
				<kwd>International Cooperation</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>Currículo</kwd>
				<kwd>Educación Universitaria</kwd>
				<kwd>Formación Profesional</kwd>
				<kwd>Fisioterapia</kwd>
				<kwd>Cooperación Internacional</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução<sup><xref ref-type="fn" rid="fn5">1</xref></sup>,<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn6">2</xref></sup></title>
			<p>A formação em fisioterapia no Brasil e em Portugal iniciou em meados dos anos 1950 a
				partir da constituição de cursos técnicos (<xref ref-type="bibr" rid="B40"
					>Rebelatto; Botomé, 1999</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B15">Coutinho
						<italic>et al</italic>., 2010</xref>). A mudança para o nível superior no
				Brasil ocorreu em 1969, pelo Decreto-Lei nº 938/69 (<xref ref-type="bibr" rid="B31"
					>Marques; Sanches, 1994</xref>), com duração inicial de três anos e, desde 2009,
				vigora a legislação do grau de bacharelado, com integralização em cinco anos (<xref
					ref-type="bibr" rid="B10">Brasil, 2009</xref>). Em Portugal, a profissão foi
				reconhecida como de nível superior em 1993, primeiro com duração de três anos
				(Bacharelato) e, desde 1999, prevalece o grau de licenciatura de quatro anos (<xref
					ref-type="bibr" rid="B15">Coutinho <italic>et al</italic>., 2010</xref>).</p>
			<p>Nas primeiras décadas, a organização curricular desses cursos acompanhou os desafios
				sociais e políticos que se apresentavam às Instituições de Ensino Superior (IES) e
				aos países, fato que direcionou a formação para um modelo biomédico, orientação que
				se reflete até hoje, com priorização para a recuperação de doenças e menor ênfase na
				educação e na promoção da saúde (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Bispo Júnior,
					2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B44">Santos, 2015</xref>). No entanto,
				com o avançar dos anos, reconheceu-se que a fisioterapia constituiu um
					<italic>corpus</italic> de conteúdos e conhecimentos que fortaleceu sua
				identidade profissional, com formação para desenvolver um perfil que atenda aos
				princípios das políticas públicas de saúde (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Melo
						<italic>et al</italic>., 2021</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B16"
					>Coutinho; Pedro, 2018</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B4">Bispo Júnior,
					2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B15">Coutinho <italic>et al</italic>.,
					2010</xref>).</p>
			<p>A propósito, para que se possa qualificar a formação em fisioterapia e acompanhar os
				avanços científicos, sociais e tecnológicos que se impõem na contemporaneidade, há
				que se refletir sobre os conhecimentos, habilidades e atitudes necessários para que
				se estabeleça um perfil profissional adequado para a atualidade. Nesse sentido,
					<xref ref-type="bibr" rid="B13">Carvalho Júnior <italic>et al.</italic>
					(2019)</xref> propõem que a concepção de saberes dos estudantes se direcione
				para alcançar uma educação democrática, participativa, inclusiva e intercultural.
				Logo, entre os desafios das IES, está a necessidade de romper com o perfil de
				formação centrado na transmissão de conhecimentos e promover a construção desses
				conhecimentos em uma perspectiva transformadora, que estimule o exercício do
				espírito crítico, investigativo, ético, humanista e criativo dos futuros
				profissionais (<xref ref-type="bibr" rid="B47">Soares; Cunha, 2017</xref>).</p>
			<p>Para tanto, o currículo compreende a integração de saberes, experiências e
				conhecimentos que constituirão a base para a formação profissional (<xref
					ref-type="bibr" rid="B54">Vasconcellos, 2011</xref>), onde os conteúdos
				inseridos no currículo norteiam a construção do conhecimento (<xref ref-type="bibr"
					rid="B28">Libâneo, 2009</xref>). Por conseguinte, ao fazer considerações sobre o
				lugar dos conteúdos no currículo para o desenvolvimento de conhecimentos que balizem
				uma educação contemporânea, <xref ref-type="bibr" rid="B47">Soares e Cunha
					(2017)</xref> enfatizam a importância de estabelecer uma relação dialógica entre
				a teoria e a prática do campo profissional, ou seja, que se problematize o
				conhecimento produzido.</p>
			<p>Nessa dinâmica, <xref ref-type="bibr" rid="B61">Zabala (2014)</xref> destaca que a
				educação não pode estar restrita ao ensino de conteúdos, entendidos como um conjunto
				de informações sistematizadas e organizadas em torno de uma disciplina, mas sim, é
				necessário que estejam conectados de modo a desenvolver capacidades motoras,
				cognitivas, sociais, afetivas e éticas, em um ato educativo que promova a
				transformação dos estudantes para o desenvolvimento do conhecimento emancipatório.
				Logo, os conteúdos representam instrumentos/ferramentas para desenvolver essas
				capacidades e, portanto, não podem ser negligenciados.</p>
			<p>No sentido de problematizar qual o lugar dos conteúdos durante o processo de formação
				profissional do fisioterapeuta, para poder sistematizar aproximações entre Brasil e
				Portugal e qualificar a formação desse profissional, este estudo se propôs a
				analisar os conteúdos dos cursos de graduação em fisioterapia no Brasil e em
				Portugal, na perspectiva de identificar caminhos para internacionalização do
				currículo. Sendo assim, o texto está estruturado com uma seção de introdução, com
				breve contextualização da temática, seguida pela apresentação dos materiais e
				métodos, dos resultados e da discussão, assim como das considerações finais.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="materials|methods">
			<title>Materiais e métodos</title>
			<sec>
				<title>Tipo de estudo, critérios de seleção dos participantes e instrumentos
					utilizados</title>
				<p>Pesquisa qualitativa, oriunda de tese de doutorado, por meio do método estudo de
					casos múltiplos e integrados, abrangendo dois países: Brasil e Portugal. Cada
					caso foi composto por cursos de graduação em fisioterapia, constituindo
					múltiplas unidades de análise integradas por caso (<xref ref-type="bibr"
						rid="B60">Yin, 2015</xref>).</p>
				<p>Para seleção das IES e dos cursos, considerou-se os seguintes critérios: ter
					curso de graduação em fisioterapia na universidade, com formação em nível de
					bacharelado (Brasil) ou licenciatura (Portugal)<sup><xref ref-type="fn"
							rid="fn7">3</xref></sup>, igual ou superior a quatro anos; ter pelo
					menos um curso por região<sup><xref ref-type="fn" rid="fn8">4</xref></sup>, para
					garantir a diversidade dos contextos; No caso do Brasil, o curso deveria estar
					cadastrado no sistema e-MEC, modalidade presencial e, apresentar avaliação do
					exame nacional de desempenho do estudante (ENADE) com nota cinco e conceito de
					curso (CC) também com nota cinco. Quando a região não tivesse curso que
					atendesse ao critério, incluiu-se, dentre as IES, o curso com melhor conceito
					nesses dois critérios, não podendo ser inferior à nota três. Quanto a Portugal,
					o curso deveria estar cadastrado e acreditado, por um período de seis anos, pela
					Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES); caso a região não
					tivesse curso que atendesse a esse critério, se incluiu, dentre as IES, o curso
					com maior tempo de acreditação, não podendo ser inferior a três anos.</p>
				<p>A primeira etapa da pesquisa ocorreu por meio da análise documental. A partir dos
					critérios de seleção dos cursos de ambos os países, nas regiões que apresentaram
					mais de um curso, a seleção foi realizada por sorteio. Em Portugal, uma região
					(Alentejo) não possuía curso de fisioterapia e outra região (Algarve) possuía
					apenas um curso, mas que não atendeu ao critério do tempo de acreditação. Nesse
					sentido, incluiu-se aleatoriamente um curso de cada região e sorteou-se mais
					dois cursos dentre as regiões aptas, para garantir a igualdade entre os países.
					Entretanto, apenas um retornou com a aceitação para participação. Desta forma,
					analisou-se os documentos das ementas/planos de estudos de cinco cursos no
					Brasil e quatro em Portugal.</p>
				<p>Na sequência, realizou-se entrevistas com os coordenadores/diretores de curso de
					cada IES selecionada, por se entender que o gestor é o sujeito de referência,
					que conhece o curso como um todo. Um curso no Brasil foi excluído da entrevista
					pelo fato que não houve retorno do contato no prazo para o agendamento. Assim, a
					segunda etapa foi composta por oito gestores (quatro de cada país).</p>
				<p>Por fim, para ampliar as fontes de informações, realizou-se dois grupos focais
					(GF), um no Brasil e outro em Portugal, com professores que atuavam em um dos
					cursos de fisioterapia. Os critérios de seleção dos professores foram: estar
					atuando no curso há pelo menos seis meses; ter professores de diferentes áreas
					do conhecimento; e ter pelo menos 50% deles envolvidos em atividades práticas no
					curso. Desta forma, 12 professores (seis de cada país) integraram esta etapa da
					pesquisa.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Coleta dos dados</title>
				<p>A coleta dos dados iniciou com a verificação das em sítio de domínio público. O
						<xref ref-type="table" rid="t1">Quadro 1</xref> apreinformações dos cursos e
					ementas/planos de senta a caracterização dos cursos estudados estudos das
					disciplinas/módulos disponíveis em ambos os países.</p>
				<table-wrap id="t1">
					<label>Quadro 1</label>
					<caption>
						<title>Caracterização dos cursos de fisioterapia pesquisados, com
							distribuição da carga horária na matriz.</title>
					</caption>
					<table>
						<thead>
							<tr>
								<th style="background-color:#C1D7EC;;" valign="top"> </th>
								<th style="background-color:#C1D7EC;" valign="top">BRASIL </th>
								<th style="background-color:#C1D7EC;;" valign="top"/>
								<th colspan="4" style="background-color:#C1D7EC;" valign="top">
									PORTUGAL</th>
								<th style="background-color:#C1D7EC;;" valign="top"> </th>
							</tr>
						</thead>
						<tbody>
							<tr>
								<td style="background-color:#C1D7EC;">Curso</td>
								<td style="background-color: #C1D7EC;">Ano de início do curso</td>
								<td style="background-color: #C1D7EC;">Horas </td>
								<td style="background-color: #C1D7EC;">Curso</td>
								<td style="background-color:#C1D7EC;" valign="top">Ano de início do
									<break/>curso</td>
								<td style="background-color: #C1D7EC;">Carga horária de contato</td>
								<td style="background-color: #C1D7EC;">Carga horária de não
											contato<sup><xref ref-type="table-fn" rid="TFN1"
											>5</xref></sup></td>
								<td style="background-color: #C1D7EC;">Horas</td>
							</tr>
							<tr>
								<td valign="top"><bold>A.BR</bold></td>
								<td valign="top">2010</td>
								<td valign="top">4.650</td>
								<td valign="top"><bold>A.PT</bold></td>
								<td valign="top">2002</td>
								<td valign="top">3.512,5</td>
								<td valign="top">2.487,5</td>
								<td valign="top">6.000</td>
							</tr>
							<tr>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top"
									><bold>B.BR</bold></td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top">1979</td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top">4.260</td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top"
									><bold>B.PT</bold></td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top">1997</td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top">3.297</td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top">3.183</td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top">6.480</td>
							</tr>
							<tr>
								<td valign="top"><bold>C.BR</bold></td>
								<td valign="top">2008</td>
								<td valign="top">4.500</td>
								<td valign="top"><bold>C.PT</bold></td>
								<td valign="top">2009</td>
								<td valign="top">3.765</td>
								<td valign="top">2.715</td>
								<td valign="top">6.480</td>
							</tr>
							<tr>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top"
									><bold>D.BR</bold></td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top">2006</td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top">4.740</td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top"
									><bold>D.PT</bold></td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top">1997</td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top">3.037,5</td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top">3.442,5</td>
								<td style="background-color:#E6E7E8;" valign="top">6.480</td>
							</tr>
							<tr>
								<td valign="top"><bold>E.BR</bold></td>
								<td valign="top">1977</td>
								<td valign="top">4.360</td>
								<td valign="top">-</td>
								<td valign="top">-</td>
								<td valign="top">-</td>
								<td valign="top">-</td>
								<td valign="top">-</td>
							</tr>
						</tbody>
					</table>
					<table-wrap-foot>
						<attrib><bold>Fonte:</bold> elaborado pelas autoras (2023).</attrib>
						<attrib><bold>Legenda:</bold> BR: Brasil. PT: Portugal.</attrib>
						<fn id="TFN1">
							<label>5</label>
							<p> Horas para estudos autônomos, sem contato direto com o professor.
								Inclui o tempo do estudante para cumprir atividades de aprendizagem
								planejadas: aulas teórico-práticas, estudos, preparação de projetos,
								seminários, exames, trabalho na biblioteca ou em casa (<xref
									ref-type="bibr" rid="B29">Luxembourg, 2015</xref>).</p>
						</fn>
					</table-wrap-foot>
				</table-wrap>
				<p>Posteriormente, organizou-se as ementas/ planos de estudos de cada disciplina em
					arquivo individual por caso (país) e por curso, para posterior análise. A
					análise ocorreu por meio da busca das palavras-chave ou termos para
					identificação dos conteúdos por área de conhecimento, adaptadas a partir do
					documento de referência nacional (Diretrizes Curriculares Nacionais - DCN) e
					internacional (<italic>World Confederation for Physical Therapy</italic> - WCPT)
					para a formação em fisioterapia, além dos temas que emergiram do estado da arte
					para constituição do referencial teórico da tese. Esse roteiro permitiu analisar
					e classificar os conteúdos para formação com base em cinco categorias: Ciências
					biológicas e físicas; Movimento humano; Ciências sociais e
					humanas/comportamentais; Clínicos e biotecnológicos; e Fisioterapêuticos (<xref
						ref-type="bibr" rid="B14">CNE, 2002</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B55"
						>WCPT, 2015</xref>), conforme disposto no <xref ref-type="table" rid="t2"
						>Quadro 2</xref>.</p>
				<table-wrap id="t2">
					<label>Quadro 2</label>
					<caption>
						<title>Conteúdos por área de conhecimento para a formação profissional em
							fisioterapia, adaptados da <xref ref-type="bibr" rid="B55">WCPT
								(2015)</xref> e das DCN (2002)</title>
					</caption>
					<table>
						<thead>
							<tr>
								<th style="background-color: #C1D7EC;">ÁREA DE CONHECIMENTO</th>
								<th style="background-color:#C1D7EC;">CONTEÚDOS</th>
							</tr>
						</thead>
						<tbody>
							<tr>
								<td style="background-color:#E6E7E8;;" valign="top"><bold>Ciências
										biológicas e físicas</bold></td>
								<td valign="top">Anatomia, biologia, histologia, embriologia,
									biofísica, bioquímica, fisiologia, neurociência, patologia e
									farmacologia.</td>
							</tr>
							<tr>
								<td style="background-color:#E6E7E8;"><bold>Movimento
									humano</bold></td>
								<td valign="top">História da fisioterapia, movimento humano,
									desenvolvimento motor, desenvolvimento psicomotor, fisiologia do
									exercício, exercício físico, atividade física, cinesiologia,
									biomecânica, cinesioterapia e cinesiopatologia.</td>
							</tr>
							<tr>
								<td style="background-color:#E6E7E8;"><bold>Ciências sociais e
										humanas /comportamentais</bold></td>
								<td valign="top">Saúde e doença, aspectos psicossociais/psicologia,
									filosofia, sociologia, epidemiologia, antropologia, políticas de
									saúde, educação, trabalho, administração, comunicação, relação
									interpessoal, cuidado humanizado, humanização,
									interdisciplinaridade, integralidade, atenção integral, empatia,
									ética e valores, bioética, gestão e direito.</td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left" style="background-color:#E6E7E8; "><bold>Clínicos e
										biotecnológicos</bold></td>
								<td align="left" valign="top">Clínica, biotecnologia, recursos
									físicos, eletrotermofototerapia, hidroterapia, função sensorial,
									sistema cardiovascular, sistema pulmonar/respiratório,
									endócrino, metabólico, gastrointestinal, geniturinário,
									tegumentar (pele), musculoesquelético, neuromuscular, prée
									pós-operatório, e imaginologia, tecnologias da informação e
									comunicação (TIC), raciocínio clínico, prática baseada em
									evidências, estatísticas aplicadas, experiências laboratoriais,
									simulação e ambiente simulado.</td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left" style="background-color:#E6E7E8;"
										><bold>Fisioterapêuticos</bold></td>
								<td align="left" valign="top">Semiologia/recursos semiológicos,
									propedêutica, diagnóstico/recursos diagnósticos,
									prevenção/recursos preventivos, níveis de atenção à saúde,
									fisioterapia na atenção primária, educação em saúde, promoção da
									saúde, fisioterapia na atenção secundária, fisioterapia
									ambulatorial/prática ambulatorial, fisioterapia preventiva,
									prevenção de enfermidades, fisioterapia na atenção terciária,
									fisioterapia hospitalar, práticas interdisciplinares,
									integrativas e complementares, trabalho em equipe, fisioterapia
									musculoesquelética (ortopedia; traumatologia e reumatologia)
									fisioterapia desportiva, fisioterapia neuromuscular,
									fisioterapia cardiovascular, fisioterapia pulmonar/respiratória,
									fisioterapia cardiorrespiratória, fisioterapia vascular,
									fisioterapia dermatofuncional, fisioterapia pediátrica,
									fisioterapia do trabalho e fisioterapia em geriatria e
									gerontologia.</td>
							</tr>
						</tbody>
					</table>
					<table-wrap-foot>
						<attrib><bold>Fonte:</bold> elaborado pelas autoras (2023).</attrib>
					</table-wrap-foot>
				</table-wrap>
				<p>Após análise documental, seguiu-se com as entrevistas e os GF. A coleta foi
					realizada por meio de entrevista semiestruturada, com questões norteadoras,
					consideradas essenciais para os objetivos da pesquisa (<xref ref-type="bibr"
						rid="B35">Minayo, 2014</xref>).</p>
				<p>A formalização da participação na pesquisa ocorreu por meio da assinatura do
					Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) de cada participante. Também
					foi informado que o registro seria feito por gravação (para auxiliar a
					pesquisadora na análise), com o consentimento do participante, através do termo
					de consentimento, para uso de voz ao coordenador/diretor de curso e
					professores.</p>
				<p>As entrevistas em Portugal foram realizadas no período de fevereiro a março de
					2019, de forma presencial, assim como o grupo focal. No Brasil, a coleta de
					dados ocorreu entre novembro de 2019 e maio de 2020, com uma entrevista e o GF
					realizados presencialmente, nas dependências da IES, e três entrevistas
					realizadas de forma remota, via <italic>Skype</italic>, em razão do início da
					pandemia de Covid-19.</p>
				<p>As questões norteadoras da entrevista possuíam uma questão introdutória a
					respeito da formação profissional em geral, sobre o que evoluiu e o que se
					precisou avançar para qualificar a formação, seguida por questões direcionadas
					aos conteúdos e à organização dos saberes relacionados à formação do
					fisioterapeuta.</p>
				<p>Em cada país, o grupo focal com os professores foi realizado sem a presença do
					coordenador e conduzido conforme orientação e adaptação de <xref ref-type="bibr"
						rid="B21">Gatti (2012)</xref>. Uma das pesquisadoras foi a moderadora e
					relatora da entrevista, que fez a apresentação pessoal e explicou sobre a
					finalidade do encontro, informou também que o registro seria efetuado por meio
					de gravação, garantindo o sigilo e o anonimato. Nesse momento, houve a anuência
					dos participantes com a assinatura do TCLE e do termo para uso de voz.</p>
				<p>Em todo o período do GF, a conversa fluiu com proposições e questionamentos aos
					participantes, para garantir o foco na temática a ser investigada, com estímulo
					para que todos tivessem a oportunidade de expressar suas opiniões, cada um na
					sua vez, para garantir clareza na gravação do áudio.</p>
				<p>Após a finalização das entrevistas e dos GF, as gravações foram transcritas pela
					própria pesquisadora e submetidas por e-mail, para apreciação e aprovação final
					(validação) dos entrevistados.</p>
				<p>Para atender aos princípios éticos, o projeto de pesquisa foi aprovado no Comitê
					de Ética no Brasil, sob o Parecer nº 3.649.419, e pela Comissão Ética em
					Portugal, sob o Parecer Refª 2019/02-07.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Análise dos dados</title>
				<p>A análise de conteúdo dos dados qualitativos foi realizada no programa
						<italic>NVivo Plus</italic>, versão 12. Na verificação documental,
					realizou-se a análise lexical, por meio da busca, seleção e contagem das
					palavras-chave, conforme as categorias estabelecidas nas cinco áreas de
					conhecimento. Para o material empírico, oriundo das entrevistas e do grupo
					focal, foi organizado em arquivos individuais, por modalidade (entrevista ou
					grupo focal) e por país, para realização da análise temática, conforme
					orientação de <xref ref-type="bibr" rid="B35">Minayo (2014)</xref>.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="results|discussion">
			<title>Resultados e discussão</title>
			<p>A <xref ref-type="fig" rid="f1">Figura 1</xref> apresenta a evidência dos conteúdos
				por área de conhecimento no Brasil e em Portugal, após análise documental.</p>
			<p>
				<fig id="f1">
					<label>Figura 1</label>
					<caption>
						<title>Conteúdos por área de conhecimento, casos do Brasil e de
							Portugal.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2358-0194-faeeba-33-73-0224-gf01.tif"/>
					<attrib><bold>Fonte:</bold> elaborado pelas autoras (2023).</attrib>
					<attrib>Legenda: Contagem dos 5 conteúdos mais citados por área de conhecimento:
						Biológicos e físicos - Brasil: n=295 (anatomia = 86, fisiologia = 51,
						fisiopatologia =37, patologia = 28 e histologia = 25); Portugal: n=182
						(patologia = 47, fisiologia = 45, anatomia = 36, fisiopatologia = 18 e
						farmacologia = 10). <bold>Movimento humano</bold> - Brasil: n=104
						(cinesiologia = 24, cinesioterapia = 24, biomecânica =20, movimento humano =
						11 e controle motor = 9); Portugal: n=76 (movimento humano = 16, biomecânica
						= 15, controle motor = 14, cinesiologia = 13 e fisiologia do exercício = 5,
						ainda: exercício físico e atividade física = 5). <bold>Ciências sociais
							humanas e comportamentais -</bold> Brasil: n=396 (ética/bioética =58,
						epidemiologia =51, políticas de saúde =51, gestão= 25 e educação = 24).
						Portugal: n=178 (comunicação = 33, ética/bioética = 27, epidemiologia = 23,
						gestão e aspectos psicossociais/psicologia = 12 vezes cada termo).
							<bold>Clínicos e biotecnológicos</bold> - Brasil: n<bold>=</bold>250
						(clínica = 48, sistema nervoso = 35, prée pós-operatório = 21, tecnologias =
						20 e estatística/bioestatística =20; Portugal: n= 177 (clínica = 49, sistema
						nervoso = 44, estatística/bioestatística = 23, sistema musculoesquelético =
						10 e hidroterapia e sistema endócrino = 8 citações cada).
							<bold>Fisioterapêuticos</bold> - Brasil: n=296 (reabilitação = 81,
						prevenção = 45, diagnóstico = 43, educação e promoção da saúde = 28 e
						semiologia = 27). Portugal: n= 141 (reabilitação = 23, fisioterapia
						cardiorrespiratória = 17, diagnóstico = 14, fisioterapia musculoesquelética
						= 11 e educação em saúde = 11).</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Quanto aos conteúdos relativos à área de conhecimento <bold><italic>Biológicos e
						físicos</italic></bold> (BF) o conteúdo anatomia foi o mais presente nos
				documentos brasileiros, citado 86 vezes. Em Portugal, foi patologia com 47 citações,
				seguido por fisiologia em ambos os países, com 51 citações no Brasil e 45 em
				Portugal. O terceiro mais citado para o Brasil foi fisiopatologia, com 28 citações.
				Para Portugal, foi anatomia, citada 36 vezes.</p>
			<p>Ainda, nos relatos dos entrevistados brasileiros e portugueses, foi possível observar
				que esses conteúdos são valorados e cuidadosamente inseridos nos currículos:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>No início, ocorrem os módulos ofertados pelos departamentos de ciências
						biológicas, da patologia, ou da medicina, com disciplinas como histologia,
						embriologia, anatomia, bioquímica, essa parte básica.</italic> (Coordenadora
					curso B.BR)</p>
				<p><italic>No primeiro, temos as unidades curriculares de natureza transversal e
						genérica aos cursos da saúde, ou seja, anatomia, histologia, embriologia e
						citologia, bioquímica, biofísica, [...] patologia [...] farmacologia [...] e
						microbiologia geral.</italic> (Coordenadora curso B.PT)</p>
			</disp-quote>
			<p>Os conteúdos BF constituem a base ou o alicerce para a construção do conhecimento na
				formação na área da saúde. Observamos a centralidade dos conteúdos de anatomia,
				fisiologia, fisiopatologia e patologia tanto no Brasil como em Portugal. Há aqui a
				ideia da necessidade de habilitar o futuro fisioterapeuta para conhecer
				adequadamente a estrutura e o funcionamento do corpo humano, com o qual vai
				interagir e intervir no exercício profissional (<xref ref-type="bibr" rid="B36"
					>Myers, 2022</xref>).</p>
			<p>A anatomia humana aborda o estudo das estruturas corporais, conhecimento essencial
				para o desempenho de várias ações em qualquer profissão da área da saúde. Para o
				fisioterapeuta, a correta palpação dessas estruturas é necessária para a avaliação,
				o diagnóstico e o tratamento das condições cinético-funcionais dos pacientes (<xref
					ref-type="bibr" rid="B2">Arruda; Sousa, 2014</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B20">Freitas <italic>et al</italic>.; 2019</xref>). Estudo de <xref
					ref-type="bibr" rid="B12">Cardinot <italic>et al</italic>. (2014)</xref>
				evidenciou que estudantes de fisioterapia reconhecem a anatomia humana como
				fundamental para a sua prática profissional.</p>
			<p>Para além da anatomia, há que se compreender os aspectos fisiológicos ou funções
				vitais do corpo humano (<xref ref-type="bibr" rid="B46">Silverthorn, 2017</xref>),
				bem como as alterações morfológicas ou fisiopatológicas dos sistemas que levam a
				disfunção (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Kumar <italic>et al.</italic>,
					2018</xref>), para ampliar os saberes sobre nosso objeto de estudo, que é o
				movimento humano (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Sahrmann, 2017</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B57">WPT, 2019</xref>). Apropriar-se desses conhecimentos
				na formação em fisioterapia é condição <italic>sine qua non</italic> para a
				construção de competências de atenção à saúde necessárias para uma atuação eficiente
				e resolutiva (<xref ref-type="bibr" rid="B14">CNE, 2002</xref>).</p>
			<p>Entretanto, considerou-se relevante que esses conteúdos e conhecimentos básicos não
				sejam fragmentados e se interrelacionem com outras áreas de saber, para que se tenha
				um olhar ampliado e integral na atenção à saúde dos indivíduos e da coletividade
					(<xref ref-type="bibr" rid="B4">Bispo Júnior, 2013</xref>). Nessa direção, há
				que se evitar que os saberes dessa área sejam tratados de forma abstrata, centrados
				na transmissão de conhecimentos, voltados apenas para o mercado e destituídos de
				qualquer reflexão crítica sobre a vida dos estudantes e da prática profissional para
				a qual estão sendo formados (<xref ref-type="bibr" rid="B47">Soares; Cunha,
					2017</xref>).</p>
			<p>A segunda área de conhecimento considerada de relevância para a formação do
				fisioterapeuta é a do <bold>Movimento humano</bold> (MH), já que constitui o objeto
				de estudo e de intervenção profissional. Nessa área de conhecimento, após análise,
				observou-se que os três conteúdos mais citados foram: cinesiologia (24),
				cinesioterapia (24) e biomecânica (20) no Brasil. Por sua vez, em Portugal, foram:
				movimento humano (16), biomecânica (15) e controle motor (14).</p>
			<p>Os entrevistados de ambos os países também destacaram esses conteúdos como essenciais
				para a formação do fisioterapeuta, conforme evidenciado nos relatos abaixo:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>Depois entramos nas disciplinas que são as disciplinas com conteúdos
						básicos, mas da fisioterapia, como [...], a cinesiologia e a
						cinesioterapia.</italic> (Coordenadora curso B.BR)</p>
				<p><italic>[...] no primeiro ano, introduz-se a profissão, fala-se dos padrões de
						prática da fisioterapia [...], biomecânica [...] depois, num segundo
						semestre, acabamos por dar as técnicas do exercício terapêutico
						(cinesioterapia), prescrição do exercício.</italic> (Coordenadora curso
					A.PT)</p>
			</disp-quote>
			<p>O MH pode ser estudado de diversas formas, quais sejam: anatômica, quando descreve a
				estrutura corporal; fisiológica, quando diz respeito ao funcionamento e controle dos
				sistemas; psicológica, quando envolve as sensações, percepções e motivações para o
				movimento; e sociológica, quando se refere ao significado do movimento para a vida
				da pessoa (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Everett; Trew, 2000</xref>). Os demais
				termos complementam os saberes dessa área, como a cinesiologia, oriunda das palavras
				gregas <italic>kinesis</italic> (mover) e <italic>logia</italic> (estudo), ou seja,
				estudo do movimento. Por sua vez, a biomecânica trata dos fundamentos da física para
				o estudo e a análise quantitativa da ação e da interação das forças em um corpo vivo
					(<xref ref-type="bibr" rid="B37">Neumann, 2006</xref>). Ainda, o controle motor
				é definido como “a habilidade de regular ou direcionar os mecanismos essenciais do
				movimento” (<xref ref-type="bibr" rid="B45">Shumway-Cook; Woollacott, 2010</xref>,
				p. 4), os quais requerem “interação entre o indivíduo, a tarefa e o meio ambiente no
				qual a tarefa está sendo executada” (<xref ref-type="bibr" rid="B45">ShumwayCook;
					Woollacott, 2010</xref>, p. 17).</p>
			<p>Nessa direção, é importante que os conhecimentos sobre o MH ultrapassem o contexto
				físico e incluam as relações humanas e o contexto em que as pessoas vivem, uma vez
				que o movimento está relacionado ao sistema motor e aos sistemas de percepção,
				cognição e ação (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Everett; Trew, 2000</xref>).</p>
			<p>Assim, ao considerar o MH em um contexto biopsicossocial, é relevante que a
				fisioterapia o interprete de forma complexa e multidimensional, incluindo as
				dimensões física, emocional, sociocultural e existencial, relacionadas entre si
					(<xref ref-type="bibr" rid="B56">Wikström-Grotell; Eriksson, 2012</xref>), o que
				mobiliza saberes de diversas áreas de conhecimento para subsidiar uma formação
				voltada para esse contexto.</p>
			<p>Em vista disso, concordou-se com a reflexão de <xref ref-type="bibr" rid="B42"
					>Sacristán (2013, p. 150)</xref> ao referir que, em processos ricos de
				aprendizagem, é necessário “estimular comportamentos, adquirir valores, atitudes e
				habilidades de pensamento, além de conhecimentos”. Ao considerar que a base de
				saberes para a intervenção fisioterapêutica está centrada no conhecimento sobre o
				movimento e a funcionalidade humana, já se antecipa a necessidade de superar a
				perspectiva da formação biomédica, centrada na condição patológica, e incorporar no
				estudo a abordagem das ciências humanas, bem como dos fatores psicossociais e
				culturais que balizam a visão holística do comportamento do ser humano nesse
				contexto dinâmico do movimento (<xref ref-type="bibr" rid="B56">Wikström-Grotell;
					Eriksson, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B43">Sahrman,
				2017</xref>).</p>
			<p>Logo, dentre as áreas de conhecimento propostas pela legislação nacional e
				internacional para a formação do fisioterapeuta, encontra-se a de <bold>Ciências
					sociais e humanas/comportamentais</bold> (CSHC). Após análise documental, entre
				os três conteúdos mais citados estão: ética/ bioética, epidemiologia e políticas de
				saúde nos documentos brasileiros. Por sua vez, comunicação e ética/bioética e
				epidemiologia são os mais citados nos documentos portugueses.</p>
			<p>Os relatos dos participantes enfatizaram esses conteúdos, além da abordagem sobre
				organização do sistema de saúde e a psicologia, como os mais trabalhados nessa área,
				como segue:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>[...] nosso currículo propõe disciplinas de políticas públicas, saúde
						coletiva, promoção da saúde, história e fundamentos, que dão conta da
						compreensão do que seja o sistema único de saúde - SUS [...] temos ainda
						disciplinas de psicologia da reabilitação e psicologia do desenvolvimento.
						Já as dimensões sociopolíticas, étnico-raciais, ambientais e a inclusão das
						tecnologias no ensino são contempladas transversalmente.</italic>
					(Coordenadora curso E.BR)</p>
				<p><italic>Profilaxia, epidemiologia e disciplinas de desenvolvimento pessoal, como
						a economia e gestão de serviços de saúde, organização política portuguesa e
						da união europeia [...] no 3º ano temos ética e deontologia profissional, em
						que os alunos já possuem maturidade para compreensão de situações clínicas
						reais [...] nos ensinos clínicos, temos os padrões de ética em fisioterapia,
						de como se comunicar.</italic> (Coordenadora curso A.PT)</p>
			</disp-quote>
			<p>Os conhecimentos relativos aos conteúdos de CSHC subsidiam a bioética e tomada de
				decisão, uma vez que, para intervir com o ser humano, muitas vezes, nos deparamos
				com situações que exigem habilidades profissionais que envolvem reflexões acerca de
				valores e respeito aos princípios da dignidade e do cuidado humanizado. Estudo de
				revisão integrativa sobre a interface entre fisioterapia, bioética e educação
				identificou que esses conteúdos são pouco abordados nos currículos e que a formação
				acadêmica carece de reflexões mais aprofundadas acerca dessa temática (<xref
					ref-type="bibr" rid="B26">Ladeira; Koifman, 2017</xref>).</p>
			<p>Estudar epidemiologia, políticas públicas e os aspectos histórico-sociais e
				humanísticos é fundamental para explicar o fenômeno saúde, em uma compreensão
				ampliada, com interfaces entre distintos campos de saberes. Por sua vez, a
				psicologia fornece subsídios para o desenvolvimento de competências socioemocionais,
				as quais compreendem habilidades relacionadas aos conceitos de inteligência
				emocional, nos aspectos intra e interpessoal, que envolvem bem-estar, habilidades
				sociais, autoconsciência, autorregulação emocional, consciência social, tomada de
				decisão e relacionamento interpessoal (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Marin
						<italic>et al</italic>., 2017</xref>).</p>
			<p>Parece importante ressaltar que apenas no caso de Portugal está evidenciado o
				conteúdo sobre comunicação, importante ferramenta relacionada à prestação de
				cuidados em saúde, como a comunicação terapêutica, interpessoal, com a equipe de
				saúde e usuários (<xref ref-type="bibr" rid="B52">Torres <italic>et al.</italic>,
					2017</xref>). Ademais, dentre as competências e habilidades gerais preconizadas
				pelas diretrizes (<xref ref-type="bibr" rid="B14">CNE, 2002</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B55">WCPT, 2015</xref>) para a formação do fisioterapeuta,
				estão: tomada de decisão, liderança, administração e comunicação.</p>
			<p>O desenvolvimento de habilidades comunicativas é desafiador para o processo de
				ensino-aprendizagem no percurso formativo, pois cada estudante vivencia esse
				aprendizado de forma diferente, considerando os conhecimentos adquiridos e as
				experiências vividas ao longo da vida (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Broca;
					Ferreira, 2015</xref>).</p>
			<p>Ainda, vale destacar que, os conteúdos pouco citados na área de conhecimento das
				CSHC, como humanização ou cuidado humanizado, os quais implicam para o
				fisioterapeuta “a aquisição de valores que refinam a consciência moral pela
				sensibilidade, empatia e tolerância com as fragilidades e sofrimentos humanos”
					(<xref ref-type="bibr" rid="B51">Sumiya; Jeolás, 2010</xref>, p. 51) e se
				relacionam com o desenvolvimento das competências socioemocionais, essenciais na
				tomada de decisão e na intervenção fisioterapêutica.</p>
			<p>Estudo analisou 325 planos de ensino de disciplinas e estágios obrigatórios da
				fisioterapia em uma universidade no sul do Brasil e concluiu que apenas 6% dos
				documentos destacaram a palavra humanização e 28% destacaram o termo
				interprofissionalidade e seus sinônimos (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Bittencourt
						<italic>et al.,</italic> 2020</xref>). Os autores apontam fragilidades no
				processo formativo, uma vez que os conteúdos dessa área de conhecimento são pouco
				abordados quando comparados aos conteúdos básicos ou profissionalizantes dos cursos,
				o que ainda evidencia uma tendência a valorização das especialidades.</p>
			<p>Aprofundar esses aspectos no âmbito da formação parece ser, de fato, o caminho para
				produzir uma transformação na educação. Uma das possibilidades está na
				problematização do conhecimento teórico-prático com ênfase no debate
				interdisciplinar e ou interprofissional, com vistas a estabelecer pontos de conexão
				e atribuir novos significados aos problemas aos quais se propõe enfrentar na
				prática, o que reflete na ressignificação de conhecimentos, habilidades e atitudes
					(<xref ref-type="bibr" rid="B47">Soares; Cunha, 2017</xref>). Nesta pesquisa,
				apenas um gestor de um curso brasileiro enfatizou que os conhecimentos dessa área
				subsidiaram a organização de aprendizagens com experiências interprofissionais, como
				segue:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>A matriz curricular é dividida em quatro eixos, sendo que, até o segundo
						ano, a formação interprofissional é muito presente, pois eles têm aulas do
						eixo de inserção social e do trabalho em saúde em conjunto com os demais
						cursos da área da saúde [...] o eixo inserção social está relacionado com a
						antropologia, sociologia, filosofia [...] no eixo trabalho em saúde, eles
						vão para campo, conhecem o sistema de saúde, vão nas UBS, na casa das
						pessoas.</italic> (Coordenador curso D.BR)</p>
			</disp-quote>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B34">Miller <italic>et al.</italic> (2019)</xref> relatam
				que a educação interprofissional se configura em uma importante estratégia
				pedagógica a ser inserida na formação, pois prepara o futuro profissional para o
				trabalho colaborativo, cujo papel é essencial na atenção primária à saúde (APS) e
				demais níveis de atenção. Os autores complementam que essa abordagem estimula a
				compreensão e a confiança dos estudantes para o trabalho em equipe. Ainda, as
				políticas internacionais também enfatizam que a formação deve incluir a educação
				interprofissional e os modelos de prática colaborativa (<xref ref-type="bibr"
					rid="B57">WPT, 2019</xref>).</p>
			<p>Experiências de aprendizagem dessa natureza vão ao encontro do que <xref
					ref-type="bibr" rid="B61">Zabala (2014)</xref> teoriza a respeito dos métodos
				globalizados de organização dos conteúdos, que permitem a compreensão da realidade,
				com inclusão do estudante como elemento central na aquisição de conhecimentos. Logo,
				a inclusão de conteúdos que valorizem os contextos social, humano, filosófico e
				antropológico do ser humano na formação estimula o pensamento crítico e a capacidade
				de se comunicar e trabalhar em equipe (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Reis;
					Monteiro, 2015</xref>).</p>
			<p>A quarta área que compõe os saberes para formar um fisioterapeuta no Brasil e em
				Portugal é a dos conhecimentos <bold>Clínicos e biotecnológicos</bold> (CBT), dentre
				os quais os mais citados em comum nos dois países foram: clínica (48 no Brasil e 49
				em Portugal) e sistema nervoso (35 no Brasil e 44 em Portugal), seguidos por
				estatística/bioestatística nos documentos portugueses (23) e prée pós-operatório nos
				brasileiros (21).</p>
			<p>Os relatos dos entrevistados evidenciam que os conteúdos mais presentes nessa área se
				referem aos conhecimentos clínicos nas especialidades da fisioterapia, assim como os
				biotecnológicos (agentes físicos), os quais enfatizam que:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>Nessa área, temos as disciplinas pré-profissionalizantes [...], divididas
						em três grandes áreas: a GOP - gineco-obstetrícia e pediatria, CPV -
						cardio-pneumo e vascular e locomotor que entraria neuro, orto e
						reumato.</italic> (Coordenadora curso B.BR)</p>
				<p><italic>[...]no segundo ano, dotam os alunos de conhecimento específico para os
						agentes físicos e naturais. Introduzimos todos os agentes físicos como:
						fototerapia, termoterapia, eletroterapia,</italic></p>
				<p><italic>hidroterapia [...] e bioestatística [...]</italic> (Coordenadora curso
					A.PT)</p>
			</disp-quote>
			<p>Os conteúdos citados nas falas são clássicos para a formação em fisioterapia e
				estarão sempre presentes na organização curricular. Entretanto, há que se equilibrar
				e interrelacionar esses conteúdos com as demais áreas de conhecimentos, além de
				valorizar as tecnologias em uma perspectiva de explorar as possibilidades para sua
				utilização nos três níveis de atenção à saúde, ou seja, primário (baixa
				complexidade), secundário (média complexidade) ou terciário (alta complexidade).</p>
			<p>A integração dos conhecimentos das ciências exatas amplia a possibilidade de uso das
				tecnologias no cotidiano do fazer do fisioterapeuta, desde as leves, aplicadas no
				nível da atenção primária ou secundária à saúde, como o armazenamento de dados para
				vigilância em saúde e monitoramento de riscos à saúde, até a reabilitação com o uso
				de tecnologias mais sofisticadas (duras), ou desenvolvimento de equipamentos e
				programas de computador que permitam análises quantitativas do movimento (<xref
					ref-type="bibr" rid="B23">Holanda <italic>et al.,</italic> 2019</xref>), para
				subsidiar intervenções que promovam uma vida com maior autonomia, independência e
				qualidade.</p>
			<p>Portanto, a aproximação entre os saberes da área da saúde e das ciências exatas
				favorecerá o desenvolvimento do raciocínio clínico e a construção de conhecimentos
				de forma interdisciplinar. Vale ressaltar que, os conteúdos das especialidades
				apresentam histórico relevante na formação, pois foi a partir das áreas tradicionais
				que a fisioterapia se consolidou como profissão. Entretanto, há que se ter cuidado
				em equilibrar esses saberes, no sentido de valorizar as boas práticas, as ações de
				promoção da saúde e a prevenção de enfermidades, não apenas a reabilitação.</p>
			<p>Considerando a evolução da profissão e a formação, os professores de ambos os países
				destacaram a importância de se desenvolver o espírito científico nos estudantes e a
				necessidade de se garantir o estudo da pesquisa, desde a graduação, para além dos
				conteúdos de estatística e bioestatística, conforme observado na análise documental.
				Desta forma, a iniciação científica pode aprimorar o raciocínio clínico, a prática
				baseada em evidência e a reflexão quanto aos conhecimentos necessários ao saber,
				aliado ao fazer, ou seja, dar sentido à execução da técnica. Os relatos enfatizam
				esses aspectos, como segue:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>Valorizar os aspectos do conhecimento por meio das disciplinas, dos
						conteúdos sobre pesquisa, ciência e trazer isso para o raciocínio clínico na
						hora da escolha dos recursos, na hora da aplicação deles é uma das coisas
						que ainda carece de evolução [...]</italic> (Coordenadora curso A. BR)</p>
				<p><italic>Não é somente a execução de técnicas, mas sim dotar os alunos de
						conhecimento e de raciocínio clínico para optarem pela técnica mais adequada
						para aquele indivíduo e para determinada patologia (decisão clínica e
						resolução de problemas específicos) [...] o raciocínio clínico é fundamental
						para a autonomia profissional. [...] portanto, desde o primeiro ano, eles
						têm unidades curriculares na área de investigação, incluindo bases de
						estatística, para que aprendam a fazer pesquisa em bases de dados
						científicos, como pesquisar [...] e como interpretar um estudo para uso na
						prática clínica.</italic> (Coordenadora curso A.PT)</p>
			</disp-quote>
			<p>Desenvolver conhecimentos e habilidades para a tomada de decisão pautado na melhor
				evidência científica, além de ouvir o paciente e respeitar a sua autonomia e
				participação no processo, deve se constituir em um dos compromissos no percurso
				formativo para que o estudante desenvolva o espírito investigativo e o raciocínio
				clínico, elementos essenciais para a qualificação da prática clínica.</p>
			<p>O ensino com pesquisa é uma forma inovadora de estreitar a relação teoria e prática,
				enquanto um movimento de transformação, que se baseia na problematização, na
				criatividade e no engajamento ativo dos estudantes em atividades de investigação, o
				que contribui para o processo de aprender a aprender, aprender a compreender e
				intervir na realidade (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Cunha, 2011</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B47">Soares; Cunha, 2017</xref>). Não se trata de
				transformar o professor e os estudantes em pesquisadores, mas sim de ampliar as
				possibilidades que as investigações produzem, em uma relação ativa dos estudantes
				com os saberes, o problema investigado e a realidade a ser inserida.</p>
			<p>Esses aspectos possuem ampla aproximação com a última categoria de análise, a área de
				conhecimentos <bold>Fisioterapêuticos</bold> (F), que contempla grande parte dos
				conteúdos para a formação, a futura atuação fisioterapêutica e a aprendizagem ao
				longo da vida. Após análise documental, em ambos os países, o mais citado foi a
				reabilitação (81 no Brasil e 23 em Portugal). Na sequência, o Brasil evidenciou os
				conteúdos de prevenção de enfermidades (45) e Portugal enfatizou fisioterapia
				cardiorrespiratória (15). Em ambos os países, o terceiro conteúdo mais citado foi
				diagnóstico (43 no Brasil e 14 em Portugal).</p>
			<p>Ainda, os participantes de ambos os casos destacaram diversos conteúdos nas áreas
				especializadas da fisioterapia, como saúde da mulher, saúde coletiva, saúde do
				trabalhador e fisioterapia pediátrica, além do exame e do diagnóstico
				fisioterapêutico, como observado nos relatos:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>[...] Tem uma unidade curricular que se chama Metodologias de avaliação
						em fisioterapia. Portanto, nós começamos a trabalhar a parte do exame
						subjetivo, as questões da dor, a postura, os testes especiais, os testes
						neurodinâmicos e os testes específicos voltados para a fisioterapia
						musculoesquelética, neurológica, respiratória.</italic> (Coordenadora curso
					C.PT)</p>
				<p><italic>[...] tem o eixo específico que envolve a parte específica da
						fisioterapia: saúde da mulher, cardiorrespiratória, musculoesquelética,
						saúde coletiva, saúde do trabalhador e neurofuncional do adulto e da
						criança.</italic> (Coordenador curso D.BR)</p>
				<p><italic>Por exemplo, a fisioterapia em pediatria, a fisioterapia na saúde da
						mulher, são mais específicas [...] por outro lado, outras também são
						transversais: a neurologia, a musculoesquelética, a
						cardiorrespiratória.</italic> (Coordenador curso D.PT)</p>
			</disp-quote>
			<p>Os conteúdos fisioterapêuticos constituem o núcleo de saberes específicos da formação
				profissional, mas dependem das demais áreas de conhecimento para constituir um
					<italic>corpus</italic> que subsidie o seu fazer. Conhecimentos sobre avaliação,
				escuta qualificada e diagnóstico fisioterapêutico são fundamentais para a prática
				que envolve o movimento humano e a funcionalidade.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B32">McClure <italic>et al.</italic> (2021)</xref>
				defendem o sistema de movimento como a identidade profissional e propõem um modelo
				composto por quatro elementos essenciais, que podem se sobrepor, os quais destacam:
				movimento, força, energia e controle, com avaliações qualitativas e quantitativas
				que incluem o contexto ambiental e fatores pessoais na avaliação ao longo do ciclo
				da vida.</p>
			<p>Assim, quando a avaliação é voltada para o sistema de movimento, ou MH, é possível
				formular o diagnóstico com base na causa da condição ou disfunção, e assim planejar
				a intervenção centrada na funcionalidade da pessoa (paciente) e não na doença ou
				patologia (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Sahrmann, 2017</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B32">McClure <italic>et al.</italic>, 2021</xref>). Logo,
				há necessidade de se reconfigurar os conhecimentos, as habilidades e as atitudes
				necessárias para o ser e o fazer do futuro fisioterapeuta.</p>
			<p>Nesse sentido, concordamos com <xref ref-type="bibr" rid="B50">Sumiya (2014)</xref>
				quando relata que a formação em fisioterapia precisa romper com o paradigma
				biomédico, valorizar a comunicação e os aspectos sociais e culturais do processo
				saúde e doença, incluir ações de promoção da saúde e prevenção de enfermidades, bem
				como constituir novos saberes com características interdisciplinares.</p>
			<p>Dentre os conteúdos menos citados, observou-se a fisioterapia na comunidade (três
				citações em Portugal), trabalho em equipe (seis citações no Brasil) e práticas
				interdisciplinares (sem citações em ambos os casos). Esses termos subsidiam os
				conhecimentos necessários ao desenvolvimento de atitudes e habilidades para uma
				atuação na Atenção Primária à Saúde (APS).</p>
			<p>Portanto, na formação, há necessidade de se valorizar os saberes articulados ao
				contexto social e à realidade de saúde, ou seja, pautado nos conhecimentos das CSHC,
				com vistas a romper com o fazer técnico, produzir reflexão crítica sobre esse
				contexto e ampliar o escopo da formação (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Oliveira,
					2011</xref>).</p>
			<p>Em nível internacional, as diretrizes descrevem que o currículo deve dar conta de
				elementos que subsidiem os estudantes com conhecimentos para uma diversidade de
				cuidados em saúde, incluindo os cuidados institucionais, ocupacionais e primários em
				comunidades urbanas e rurais (<xref ref-type="bibr" rid="B55">WCPT, 2015</xref>).
				Destaca ainda que a formação deve incluir a educação interprofissional e os modelos
				de prática colaborativa, assim como preparar o futuro profissional para trabalhar de
				forma ética e inclusiva, compreendendo a diversidade do contexto, o que reforça a
				necessidade dos conteúdos das áreas de CSHC na formação (<xref ref-type="bibr"
					rid="B57">WPT, 2019</xref>).</p>
			<p>Um dos movimentos que pode ter contribuído para maior presença do conteúdo
				“prevenção” (49 citações), no caso brasileiro, decorre das ações e incentivos
				governamentais, como o Programa de Reorientação da Formação Profissional em Saúde
				(Pro-Saúde), desde 2005, e o Programa de Educação para o Trabalho em Saúde -
				PET-Saúde (<xref ref-type="bibr" rid="B7">BRASIL, 2007</xref>, <xref ref-type="bibr"
					rid="B8">2008a</xref>), os quais estimulam a interação e a aprendizagem em
				serviço, de acordo com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), ou ainda por
				meio da inserção do fisioterapeuta no Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), a
				partir de 2008, passando a integrar a equipe de apoio à Estratégia Saúde da Família
				(ESF) na APS (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Brasil, 2008b</xref>).</p>
			<p>Logo, essas ações colocaram em tela a necessidade de maior interlocução de saberes na
				organização do currículo, com vistas ao desenvolvimento e à valorização das
				habilidades relacionais e atitudinais e não apenas as técnicas, o que tem
				qualificado a formação profissional para atuação além da reabilitação.</p>
			<p>Embora na área dos CF haja uma preponderância de estabelecer conteúdos mais voltados
				às especialidades e à valorização do saber técnico, alguns entrevistados brasileiros
				relataram a necessidade da interação de conteúdos oriundos das CSHC, principalmente
				vinculados à APS e ao SUS, dentre os quais se pode destacar:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>Não podemos abrir mão, em termos de conteúdo, dos aspectos humanísticos
						(psicológicos, éticos, de povos e outras minorias), filosóficos de saúde (o
						que é saúde, para que serve) [...] aspectos sociais, a sociologia, pois
						precisamos saber qual o contexto dele, em que sociedade está inserido, os
						hábitos, os costumes [...] a epidemiologia [...] o funcionamento dos
						serviços de saúde, do sistema nacional de saúde, as políticas públicas de
						saúde [...] Então, ele vai passar desde a saúde voltada à atenção básica até
						o alto nível de complexidade ou nível terciário (como no intensivismo) [...]
						e todos estão dentro do SUS. Aqui, conseguimos aplicar estes conteúdos desde
						o início do curso.</italic> (Coordenadora curso A.BR)</p>
				<p><italic>Considero essencial saber como funciona o sistema de saúde no Brasil
						[...] e a parte de saúde coletiva [...] de conhecimento do ser humano,
						antropologia, sociologia, que hoje em dia está sendo muito debatido. [...]
						isso é um conteúdo que pode fazer diferença quando for para o estágio e para
						sua prática profissional.</italic> (Coordenador curso D.BR)</p>
			</disp-quote>
			<p>Cabe destacar que, embora na análise documental de Portugal os conteúdos voltados
				para a APS foram menos citados, quando os professores e gestores foram
				entrevistados, eles enfatizaram a importância e a necessidade de ampliar a sua
				inserção nos planos curriculares, como segue:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>Nos cuidados primários, ainda há um grande percurso a fazer [...] ao
						falar agora nos novos guidelines da WCPT, que indica que a promoção da
						atividade física faz parte da intervenção da fisioterapia em todo ciclo de
						vida, ou seja [...] na saúde escolar, ocupacional, do adulto e do idoso.
						Temos que ir nessa direção e atuar mais na prevenção primária nas diferentes
						unidades curriculares, modificar nossos conteúdos e falar mais da atenção
						primária, da saúde ocupacional, da saúde escolar [...]</italic>
					(Coordenadora curso A.PT)</p>
				<p><italic>Os alunos estão começando a perceber agora a importância dos cuidados de
						saúde primários, prevenir antes de ter que tratar. Julgo não ser uma área
						muito desenvolvida, pelo menos aqui na escola, mas que estamos agora a
						pensar numa reformulação de planos de estudos, e esta é uma das áreas que
						queremos dar ênfase.</italic> (Coordenadora curso B.PT)</p>
				<p><italic>Nas áreas que estão pouco trabalhadas em Portugal, principalmente a área
						da prevenção, poderíamos intervir e evitar algumas condições patológicas a
						médio e longo prazo e, portanto, acho que o papel do fisioterapeuta no
						âmbito da saúde pública é crucial.</italic> (Professora 5 - GF.PT)</p>
			</disp-quote>
			<p>Nesse sentido, há que se reconhecer que a APS se constitui em uma fortaleza para
				diversificação de aprendizagens no contexto da saúde e uma das áreas que devem ser
				incluídas no currículo dos cursos de fisioterapia (<xref ref-type="bibr" rid="B14"
					>CNE, 2002</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B55">WCPT, 2015</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B18">ER-WCPT, 2018</xref>). Logo, é essencial que se faça
				previsão de conteúdos e estratégias para promover aprendizagens sobre e nesse
				contexto.</p>
			<p>Com base na análise documental e entrevistas realizadas, vê-se convergência de
				conteúdos, por área de conhecimentos, que integralizam a formação profissional do
				fisioterapeuta graduado no Brasil e em Portugal. Ainda, ambos os casos seguem as
				normativas internacionais e nacionais (<xref ref-type="bibr" rid="B55">WCPT,
					2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B14">CNE, 2002</xref>). A análise que
				apresentamos a seguir está constituída por uma síntese com o somatório dos conteúdos
				encontrados nos documentos dos dois países, unificados por área de conhecimento, em
				que se evidenciam os mais citados (<xref ref-type="fig" rid="f2">Figura
				2</xref>).</p>
			<p>
				<fig id="f2">
					<label>Figura 2</label>
					<caption>
						<title>Convergência de conteúdos por área de conhecimento para formação em
							fisioterapia, Brasil e Portugal.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2358-0194-faeeba-33-73-0224-gf02.tif"/>
					<attrib><bold>Fonte:</bold> elaborado pelas autoras (2023).</attrib>
					<attrib>Legenda: Número de citações dos 5 conteúdos mais mencionados das áreas
						de conhecimentos. BF: 476 (anatomia = 122, fisiologia = 96, patologia = 75,
						fisiopatologia=55 e histologia = 29)<bold>. MH:</bold> 180 (cinesiologia=37,
						biomecânica=35, movimento humano=27, cinesioterapia=25, controle motor=23).
							<bold>CSHC:</bold> 486 (ética/bioética=85, epidemiologia=74, políticas
						de saúde=52, comunicação=40, gestão = 37). <bold>CB:</bold> 446 (clínica=97,
						sistema nervoso=79, bioestatística=43, tecnologias=27, sistema
						respiratório=26). <bold>CF:</bold> 433 (reabilitação=104, diagnóstico=57,
						prevenção=54, semiologia = 28, promoção da saúde=38 e fisioterapia
						cardiorrespiratória=26).</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>A representação da imagem reforça a ideia de integração dos conteúdos entre as cinco
				áreas de conhecimento para uma formação profissional global. Movimento humano foi
				estrategicamente inserido sobre o prisma da imagem enquanto aspecto central, visto
				que esse é o objeto de estudo do fisioterapeuta. Portanto, essa síntese evidencia
				que há uma base comum de conteúdos e conhecimentos estabelecidos nos currículos dos
				países analisados.</p>
			<p>Essa base comum de conteúdos se constitui em possibilidades para pensar módulos
				compartilhados de ensino remoto, principalmente nos componentes teóricos de cada
				área. Quando o objetivo é internacionalizar o currículo, não se pode idealizar
				apenas a inserção de componentes optativos, uma vez que isso não garante o esforço
				em resultados de aprendizagem para todos os estudantes (<xref ref-type="bibr"
					rid="B3">Beelen; Jones, 2015</xref>).</p>
			<p>Em vista disso, para um currículo internacionalizado, propõe-se minimamente que uma
				disciplina, por período e por área de conhecimento, seja realizada de modo
				compartilhado, no modelo remoto. Conforme análise, como proposição inicial,
				sugere-se incluir movimento humano/cinesiologia ou biomecânica (MH), patologia ou
				fisiologia (BF), ética/bioética ou epidemiologia/políticas de saúde (CSHC), métodos
				de avaliação e diagnóstico ou reabilitação ou promoção da saúde (CF) e prática
				clínica ou bioestatística (CB), dando ênfase em habilitar para a prática baseada em
				evidências.</p>
			<p>Uma sala de aula internacional é um ambiente de aprendizado, presencial ou remoto,
				onde estudantes locais e internacionais convivem. Nesse espaço, se desenvolvem
				atividades, orientadas por um profissional com competência para conduzir tal
				ambiente de forma agradável, estimulante e desafiadora, para que todos tenham
				interesse de participar e compartilhar suas opiniões (<xref ref-type="bibr"
					rid="B48">Stallivieri, 2016</xref>).</p>
			<p>Sob esse olhar, apresenta-se como exemplo a possibilidade de debater o tema relativo
				ao movimento humano em um componente compartilhado, com a participação de estudantes
				e professores de ambos os países, o que se configura como uma excelente oportunidade
				para problematizar o papel desse profissional no contexto da saúde, nacional e
				internacional, assim como o sistema de movimento como identidade profissional (<xref
					ref-type="bibr" rid="B43">Sahrmann, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B24"
					>Hoogenboom; Sulavik, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B32">McClure
						<italic>et al.,</italic> 2021</xref>).</p>
			<p>Portanto, ampliar os estudos em uma perspectiva internacionalizada vai ao encontro do
				que se propõe nas diretrizes internacionais, ou seja, fortalecer a fisioterapia em
				uma perspectiva mundial. Logo, discutir isso desde a formação, incluindo
				experiências internacionais, pode se configurar em uma potência para qualificação do
				ensino e aprimorar a identidade da fisioterapia (<xref ref-type="bibr" rid="B55"
					>WCPT, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B58">WPT, 2021</xref>).</p>
			<p>A diversidade de experiências realizadas nos países envolvidos se constituirá em um
				rico espaço de problematização, aprendizagem e qualificação de conhecimentos sobre
				as realidades epidemiológica, social, ambiental e sanitária da população nesses
				países. Portanto, é relevante que se inclua o estudo da saúde no contexto global,
				com base nas políticas emergentes de saúde para todos, considerando a amplitude dos
				aspectos que podem afetar a população mundial, como vivenciado com a Covid-19 (<xref
					ref-type="bibr" rid="B59">Wu <italic>et al.</italic>, 2021</xref>).</p>
			<p>Por conseguinte, promover estratégias para fortalecer atitudes empáticas, a
				autoestima das pessoas, o comprometimento com a equidade, a justiça social e o
				respeito pela diversidade, juntamente com a crença de que as pessoas fazem toda a
				diferença no <italic>locus</italic> em que se inserem, deve fazer parte do rol de
				objetivos esperados em um currículo internacionalizado (<xref ref-type="bibr"
					rid="B48">Stallivieri, 2016</xref>).</p>
			<p>Nesse sentido, propõe-se a inclusão de um módulo, disciplina ou seminário sobre a
				formação sociocultural ou intercultural, condição essencial preconizada na
				internacionalização e que está fortemente vinculada à comunicação e à interação, ou
				seja, aos componentes cognitivos, atitudinais e comportamentais relativos ao
				desenvolvimento das habilidades socioemocionais (<xref ref-type="bibr" rid="B6"
					>Bracons, 2020</xref>). Uma formação que estimula a interculturalidade permite
				que o futuro profissional também se desenvolva para a vida, uma vez que as
				habilidades de comunicação preparam os estudantes para trabalhar em ambientes
				multiculturais e para enfrentar os desafios futuros (<xref ref-type="bibr" rid="B22"
					>Guimarães; Finardi, 2018</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B48">Stallivieri,
					2016</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B49">2017</xref>).</p>
			<p>Estudo de <xref ref-type="bibr" rid="B53">Useh (2011)</xref> investigou as
				competências socioculturais que, conforme a opinião de 32 estudantes do último ano
				de um curso de fisioterapia no Reino Unido, poderiam ser incluídas no currículo para
				promover boas perspectivas de internacionalização. O estudo revelou que a
				flexibilidade, a empatia e a consciência da diversidade multicultural são
				consideradas habilidades a serem desenvolvidas em um currículo internacionalizado,
				uma vez que a compreensão da cultura é elemento central na atenção à saúde.</p>
			<p>Mesmo que Brasil e Portugal tenham o português como primeira língua, conhecer uma
				segunda língua, nesse universo globalizado, é uma importante ferramenta de
				comunicação que deve ser incentivada nos currículos internacionalizados. Esse tipo
				de estratégia facilita a comunicação e a compreensão do contexto a ser inserido,
				além de romper barreiras tanto na formação quanto na vida profissional, com a
				manutenção das conexões em redes internacionais.</p>
			<p>Outro apontamento a ser destacado no currículo internacionalizado é referente à
				necessidade de integrar os conhecimentos específicos com os de outras áreas do saber
				para a formação do fisioterapeuta, o que pode tornar a aprendizagem mais
				transformadora, especialmente quando estimulada por meio de estratégias ativas de
				ensino-aprendizagem.</p>
			<p>O ativo aqui é entendido por aprendizagem que se distancia da relação de transmissão
				mecânica de conhecimentos, balizada por uma relação pedagógica autoritária, e se
				aproxima da prática pedagógica que fundamenta a mediação de processos cognitivos de
				problematização, comparação, análise, produção de hipóteses, afirmação, negação e
				sínteses com novas formulações do conhecimento (<xref ref-type="bibr" rid="B1"
					>Alves; Teo, 2020</xref>).</p>
			<p>Quanto à sistematização das propostas, sugere-se inicialmente que comecem na
				perspectiva da internacionalização em casa, pois é uma forma de garantir a
				internacionalização do currículo e envolver todos os estudantes, uma vez que
				objetiva desenvolver habilidades e experiências internacionais sem a necessidade do
				intercâmbio ou mobilidade (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Leask, 2016</xref>).</p>
			<p>Outra forma pode ser realizada por meio do trabalho colaborativo em rede, com estudos
				e discussões em grupos, de forma <italic>online,</italic> como a experiência
				relatada por <xref ref-type="bibr" rid="B59">Wu <italic>et al.</italic>
					(2021)</xref>, que, em função da Covid-19, precisaram reorganizar as atividades
				de 68 estudantes de 12 universidades internacionais, com cursos de medicina e
				odontologia, para substituir programas de intercâmbio e mobilidade. Para dar conta
				do programa, organizaram estudos e discussões em rede, durante oito semanas, sobre
				saúde global, saúde pública e ética em saúde, incluindo discussão acerca das
				experiências com a pandemia e o comportamento para lidar com a situação e
				enfrentá-la em seus países. O estudo evidenciou que a estratégia aprimorou as
				habilidades interculturais e contextualizou questões globais sobre a saúde.</p>
			<p>Com base nas reflexões deste estudo, parece que articular um currículo
				internacionalizado é um desafio que vai além de propor conteúdos e refletir sobre
				temas globais. Há necessidade de se estruturar um currículo que integre as
				diferentes áreas de saber, que supere a transmissão de conhecimentos, a atitude
				passiva dos estudantes e a supervalorização de habilidades técnicas, para uma ação
				educativa transformadora, mediante o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades,
				atitudes e valores para formar um profissional comprometido com a realidade social e
				sanitária, que considere o contexto biopsicossocial relativo ao movimento, e à
				funcionalidade, assim como valorize o ser humano em sua totalidade.</p>
			<p>Portanto, faz-se necessária uma matriz curricular que forme um profissional
				contemporâneo, com capacidade técnica e autonomia para a prática profissional,
				pautada em evidências, com raciocínio clínico, que seja sensível e empático na
				prestação do cuidado ao outro e que esteja apto para o trabalho em equipe, de modo
				colaborativo. Em vista disso, há possibilidade de atribuir novos sentidos à
				formação, a qual modifica a perspectiva da valorização da doença e reconfigura sua
				identidade profissional, para priorizar o cuidado centrado na pessoa ou na
				coletividade e no diálogo com as diferentes culturas.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Com esse estudo, identificou-se que os conteúdos básicos para a formação em
				fisioterapia, por área de conhecimentos, atendem às diretrizes nacionais e
				internacionais em ambos os casos pesquisados. Destacamos, no Brasil, maior evidência
				de conteúdos vinculados a promoção da saúde e prevenção de enfermidades e, em
				Portugal, o conteúdo de comunicação. Entretanto, os conteúdos do currículo ainda
				evidenciam o percurso formativo com maior ênfase para um perfil curativo e
				reabilitador em ambos os casos.</p>
			<p>Na análise integrada dos casos, observouse uma convergência de conteúdos, os quais
				permitiram apontar caminhos para a internacionalização do currículo, com sugestão de
				conteúdos nas cinco áreas de conhecimentos que integrem as diferentes áreas do
				saber. Além disso, recomendamos que as estratégias iniciem com a internacionalização
				em casa, para possibilitar que todos os estudantes se beneficiem das ações previstas
				no currículo.</p>
			<p>Ainda, aconselha-se a continuidade de estudos que intencionem conhecer a formação
				profissional em fisioterapia para além das fronteiras, buscando qualidade,
				excelência e promoção de experiências de internacionalização.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>1</label>
				<p>Texto revisado e normalizado por Carmela Carolina Alves de Carvalho</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>2</label>
				<p>A pesquisa que originou este estudo atendeu a todos os princípios éticos. O
					projeto foi aprovado no Comitê de Ética no Brasil (Parecer nº 3.649.419) e na
					Comissão Ética em Portugal (Parecer Refª 2019/02-07).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>3</label>
				<p>Conforme a Direção Geral do Ensino Superior (DGES) e a legislação da Lei de Bases
					do Sistema Educativo de Portugal (Lei nº 46/86), o diploma de estudos superiores
					especializados é equivalente ao grau de licenciado para efeitos profissionais e
					acadêmicos. Assim, a formação em fisioterapia no ensino superior português
					corresponde ao grau de licenciado, independente de dar aulas ou não (<xref
						ref-type="bibr" rid="B39">Portugal, 1986</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>4</label>
				<p>As regiões do Brasil são compreendidas em: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste
					e Sul; e as regiões de Portugal são divididas em: Norte, Centro, Área
					Metropolitana de Lisboa (Lisboa e Vale do Tejo), Alentejo e Algarve,
					excetuando-se as regiões autônomas de Açores e da Madeira.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>ALVES, Solange Maria; TEO, Carla Rosane Paz Arruda. O ativo das
					metodologias ativas: contribuições da teoria histórico-cultural para os
					processos de ensinar e aprender na educação superior. <bold>Educação em
						Revista</bold>, Belo Horizonte, v.36, e229610, 2020.</mixed-citation>
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