PIERRE BOURDIEU: DA “ILUSÃO” À “CONVERSÃO” AUTOBIOGRÁFICA

Maria Conceição Passegg

Resumo


A ilusão biográfica, título do artigo de Pierre Bourdieu, publicado em 1986, quando as histórias de vida ressurgiam nas Ciências Humanas e Sociais, tornou-se uma expressão
emblemática da tensão entre tendências opostas: a que lança um olhar de suspeição sobre o biográfico e a que defende sua legitimidade em pesquisa. A reedição, em 2013,
do livro de Franco Ferrarotti, Histoire et histoires de vie, que certamente contribuiu para o contra-ataque de Bourdieu, é uma ocasião privilegiada para retomar o pensamento
bourdieusiano sobre o biográfico, entre 1986 e 2001. Nosso objetivo é apresentar considerações iniciais resultantes de pesquisas sobre a epistemologia da pesquisa (auto)
biográfica, na qual se inserem três trabalhos de Bourdieu: A ilusão biográfica(1986 e 1998), por sua “crítica” às histórias de vida; A Miséria do Mundo(1993 e 2003), por
sua “adesão” ao método biográfico, e Esboço de auto-análise(2004 e 2005), por sua “conversão” ao autobiográfico. Após considerações sobre as perspectivas de Bourdieu,
Ferrarotti e o movimento das histórias de vida em formação, que surge também nos anos 1980, pontuaremos a inflexão (im)provável do pensamento de Bourdieu com o objetivo de tematizar suas contribuições para pesquisa (auto)biográfica e ultrapassar o marco de A ilusão biográfica.


Palavras-chave


Pesquisa (auto)biográfica;Pierre Bourdieu; Narrativa;Educação.

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DOI: http://dx.doi.org/10.21879/faeeba2358-0194.2014.v23.n41.p%25p

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